PESQUISADORA DE DOUTORADO DE ELISA F. STRADIOTTO TRAZ REVELAÇÕES QUE INSTIGARÃO INTENSOS DEBATES ACERCA DOS ARQUÉTIPOS DO MONGE JOÃO MARIA DE JESUS
Traumas,
estresses, conflitos, instabilidades emocionais, entre outras anomalias, sempre
se constituíram como elementos intrínsecos da existência humana. Entretanto,
tais anormalidades psíquicas tende a se manifestar em maior ou menor grau
conforme as condições materiais objetivas construídas por cada agrupamento
humano, no espaço e tempo. Nesse caso, embora façamos parte do mesmo gênero
humano civilizatório, nos diferenciamos dos demais agrupamentos sociais, a
partir de normas e regras culturais, comportamentais, estabelecidas no ambiente
onde estamos inseridos.
Fatores
ambientais, culturais, econômicos estão intrinsicamente atuando no modo como os
humanos se relacionam, podendo, em alguns momentos, duradouro ou não, resultar
tensões a ponto de romper a fronteira divisória do que se entende por
civilizado e o não civilizado. As guerras, os desastres ambientais, portanto,
se constituem em acontecimentos que reduzem ou até mesmo apagam por um tempo a
linha fronteiriça do que se entende por racional e o não racional.
As
guerras fraticidas do final do século XIX e que se estenderam durante a
primeira metade do século XX sucumbiram milhões de seres humanos, além de
causar um passivo econômico, ambiental, emocional e existencial, cujos efeitos são
ainda perceptíveis no inconsciente coletivo das atuais gerações. Foi nesse
cenário de ciclos intermináveis de tensões, catástrofes e medos, que a
psicologia se estabeleceu como ciência encarregada de tratar as disfunções
comportamentais. Na esteira da psicologia, surge a psicanálise e cujo criador foi o médio alemão
Sigmund Freud. Com isso os primeiros passos são dados nos diagnósticos e
tratamentos também das disfunções comportamentais, tendo como campo
investigativo o espaço mais obscuro da mente humana, o inconsciente.
Revolver
os escombros de guerras e tensões acumulados por gerações, se notabilizou como
um dos maiores desafios de uma área do corpo humano até então obscura, repleta
de tabus, pouco conhecida, que é o subconsciente onde estão armazenadas nossas
memórias, nossas emoções. Era preciso entender melhor o funcionamento desse
complexo e misterioso mecanismo do corpo humano, a mente, onde estão
concentradas as emoções, os estímulos, os desejos, as frustrações, os medos, tudo
isso guiados pelo inconsciente, como de um arquivo de computador, que conservam
os registros transgeracionais da espécie humana.
Freud,
portanto, abre a “caixa de pandora” revelando que nossas emoções, frustrações, são
produtos da libido sexual, ou seja, os desejos, as vontades impulsionam nossas
ações, nossas forças criativas, também, como elementos propulsores das guerras.
O fato é que críticas e discordâncias às opiniões de Freud acerca do inconsciente
não tardaram. Uma das mais categóricas delas veio de seu discípulo, também
médico Alemão, Carl Jung.
Dizia Jung,
contrariando Freud, que os impulsos, desejos, frustrações não são exclusividade
da libido, mas de um conjunto de elementos externos ao próprio ser elaborados e
armazenados por gerações na psique, parte obscura da mente humana. Sobre as
revelações do psiquiatra Jung sobre o inconsciente, afirmou que nossos
comportamentos são resultados das experiências coletivas, construídas ao longo
do tempo a partir da nossa existência há cerca de dois milhões de anos. Sendo
assim, toda experiência coletiva civilizatória, que também é individual, está disposta
no inconsciente de cada ser e que será transferida às gerações seguintes, como
um ciclo geracional interminável.
Décadas
se passaram, tanto Freud como de seu discípulo Jung, ambos influenciaram
gerações inteiras de estudiosos, psicólogos e outras tantas áreas afins, dos
quais ajudaram a pavimentar os caminhos para a compreensão do comportamento
humano e o tratamento de traumas psíquicos. Jung, se distinguia de Freud, pois
acreditava que era necessário denominar os fenômenos psíquicos como arquétipos,
ou seja, formas representativas coletivas inconscientes, capaz de curar
moléstias emocionais, quando aplicadas para o bem. Expressões simbólicas no
campo religioso, por exemplo, os ritos de vida ou de morte, independente de quais
entidades as executem, sempre foram interpretadas como forças arquetípicas de
representação.
De
tempo em tempo sociedades são surpreendidas com presença momentânea de certas
personalidades dotadas de forte carisma e poder de transformação coletiva.
Algumas se tornam tão significativos, marcantes, a ponto de se amalgamar no
imaginário coletivo de milhões, bilhões de indivíduos, que passam os ter como
guias para as suas vidas. Jesus Cristo, Maomé, Buda, Krishna, Confúcio, são
alguns exemplos de formas arquetípicas mitificadas para cerca de três quartos
da população mundial.
No interior
do cristianismo, a exemplo do catolicismo, sacerdotes, santos, monges, entre
outros, são representações arquetípicas de personalidades, que compõem o
conjunto da pirâmide religiosa em graus distintos de relevância hierárquica. Por
ser o Brasil um país majoritariamente católico, a culto a figuras santificadas,
a exemplo de Nossa Senhora Aparecida, se cristalizou como um importante
arquétipo de forte influência no comportamento coletivo. Existem outras forças
arquetípicas também relevantes no cenário brasileiro, como do Monge João Maria
de Jesus, personalidade conhecida no sul do Brasil por ter atuado junto com os
posseiros caboclos, da Guerra do Contestado, conflito sangrento ocorrido no oeste
de Santa Catarina no começo do século XX.
Acerca
do Monge João Maria de Jesus, muito conhecido pela historiografia por sua
influência na vida de milhares de cidadãos despossuídos, explorados no Oeste de
Santa Catarina, até o momento pouco se sabe do seu carisma e devoção por uma
legião de seguidores nos três estados do sul do Brasil, que os veem como um
mártir, um revolucionário. O que se sabe acerca do monge ou dos monges é que
assumiram representações arquetípicas em diversas comunidades do sul do Brasil,
aceitos como entidades repletas de atributos simbólicas, míticas, com incrível
capacidade de apaniguar sofrimentos.
Entender
a representação arquetípica do monge João Maria no dia a dia de milhares de
famílias do sul do Brasil, foi o objeto de investigação da pesquisadora
psicanalista Elisa Fatima Stradiotto, com o seu tema investigativo foi Arquétipos
que Curam: Representações do Monge João Maria de Jesus na Perspectiva Psicanalista
Junguiana. Para a execução dessa desafiadora pesquisa, fui convidado por ela
para que juntos transitarmos por alguns caminhos trilhados pelo monge João
Maria de Jesus, na região de Passo Fundo – RS; na Lapa - PR e Curitibanos –
SC.
As diversas
entrevistas realizadas e outras tantas visitas aos locais onde muitos
acreditavam ter o monge João Maria de Jesus transitado e se hospedado, tendo realizado
curas e feito profecias, o que chamou a atenção foram as incríveis coincidências
acerca das respostas dadas pelos/as entrevistados/as em quase tudo que se
relacionava ao monge João Maria de Jesus. A presença de benzedeiras, empregando
ervas, rezas, e tendo o monge como representação arquetípica, apontaram como
elementos importantes de interseção entre os três estados visitados. Grutas,
fontes de água, cruzes de cedro, monumentos ao monge, foram também pontos de
convergência nas observações realizadas.
Portanto,
estavam postas os desafios para a pesquisadora Elisa Fátima Straditto, sendo a
mais desafiadora, responder como todas essas coincidências arquetípicas poderiam
ser explicadas a partir da abordagem teórica do psicanalista Carl Jung? Claro que outras fontes teóricas alinhadas a
Jung e de outros pensadores teriam que estar no arcabouço investigativo de Elisa,
pois tinha clareza que as fontes teóricas de Jung não seriam suficientes para revelar
tamanha complexidade envolvendo o monge João Maria de Jesus no cotidiano de
milhares de indivíduos.
O
contato com as benzedeiras que intercediam o monge João Maria de Jesus nos seus
rituais como representação arquetípica do pai, homem guerreiro, caridoso,
governante, mago, velho sábio, possibilitou instigantes revelações acerca dessas personalidades que são
geralmente compreendidas pelo senso
comum de forma estereotipada, entendidas como charlatãs, bruxas, feiticeiras. No passado longínquo, Idade
Média, por exemplo, são vastos os casos de mulheres perseguidas, presas e
queimadas vivas pela santa inquisição acusadas de práticas heréticas.
Em
relação ao Monge João Maria de Jesus, ainda hoje, nas visitas e entrevistas
realizadas pela pesquisadora Elisa, não foram encontradas edificações, como igrejas,
que tivessem sido o monge escolhido como padroeiro. O que havia de fato eram pequenas
construções, conhecidas pelo nome de capitel. Esses pequenos monumentos foram
erguidos em locais onde acreditam ter tido o monge passado a noite ou realizado
algum milagre. A não presença de templos maiores, como igrejas, tendo o monge
padroeiro, não é uma realidade pelo fato de a Santa Sé não tê-lo reconhecido
como um santo. Embora não tendo sido reconhecido como um santo, o importante para
essas comunidades é a certeza da sua presença no imaginário coletivo, visto
como um santo, símbolo de resistência e
resiliência aqueles que se sentem oprimido/as.
O emprego
de ervas, da água pura das fontes e das grutas, nos rituais curativos, a
pesquisa mostrou que essas práticas ritualistas asseguram às benzedeiras status
de poder, de respeito, no interior dessas comunidades onde acreditam ter o
monge transitado e praticado rituais de cura. O que se evidenciou nessa
investigação a partir das entrevistas com as benzedeiras, que foram posteriormente
cruzadas com as fontes teóricas junguiana consultadas, foi constatar que fortes
nexos causais de cientificidade nos ritos, dos quais interagem no campo
psíquico, o inconsciente, onde estão as emoções os, desejos, os medos, as frustrações.
Ao
mesmo tempo que são revelados os arquétipos curativos, que também libertam, contrários a esses, estão os arquétipos
que apregoam as doenças, a dominação, a raiva, o ódio. Elisa descreve os arquétipos negativos em sua
pesquisa, citando o fenômeno nazismo, cujo principal mentor e líder foi Hitler, no qual incorporou a imagem
arquetípica do deus Wotan, uma das divindades da mitologia alemã. O resultado,
portanto, foi ter convergido para o seu
entorno legiões de seguidores fanáticos, dominados por uma espécie de psicose coletiva.
Esse fenômeno
arquetípico representado por Hitler na Alemanha, pode ser interpretado a partir
dos estudos de Freud, como construções elaboradas na parte escura do nosso
cérebro, as nossas sombras, onde estão armazenados os arquétipos negativos
inconscientes, como a raiva, o ódio. Jung discordava de Freud, afirmando que
nossas sombras não poderiam ser compreendidas como sendo somente forças
negativas, devendo também ser realçadas como campos da criatividade. O
desenvolvimento da sabedoria, do conhecimento, são energias elaboradas nos
campos escuros, as sombras, também os
instintos negativos, que podem ser controlados, dominados ou transferidos. Atirar
pratos na parede nos momentos de muita raiva é uma forma arquetípica de transferência, algo que certamente fará bem
a um órgão do corpo humano devido, por suprimir energias negativas acumuladas.
Retornando
ao rito da cura praticada pelas benzedeiras das quais eram intercedidas pelo
Monge João Maria de Jesus, por ser o arquétipo do bem, jung revelou que o
processo de cura se manifestava a partir da expansão da consciência, ou seja,
de auxiliar o paciente acometido de traumas, entender os sonhos e torná-los
consciente. Um aspecto importante aqui, quanto as benzedeiras, é que o sucesso
do tratamento, do rito de cura, somente acontece quando existe de fato um
vínculo recíproco de honestidade, entre ambos os autores, o terapeuta e o
paciente.
Nas
explicações de Elisa acerca dos ritos da cura relatados pelas entrevistadas nos
três estados do sul, foi revelado aspectos que deverão trazer muitas discussões
entre os pares da psicanalise e de outras correntes no campo da psicologia, que
é o emprego das plantas, ervas, nos rituais, sua eficácia ou não nos
tratamentos. Afinal, são as palavras, repletas de energia psíquica, que tem o
poder de curar? Mais uma vez as buscas da pesquisadora Elisa evidenciaram o
importante papel do psicanalista, que assemelha em muitos aspectos a das benzedeiras,
dos magos, dos velhos sábios, no tratamento das neuroses.
Sobre
as imagens arquetípicas que representam a figura do João Maria de Jesus, a
pesquisa de Elisa traz inúmeras representações que comprovam o poder da
numinosidade, energia psíquica, presente nesses símbolos. As fontes de água
pura, o capitel - pequena capela sem cruz, as cruzes de cedro, tudo isso são
vistos como fragmentos do próprio monge, ou seja, pedaços de vida, ligados ao
indivíduo vivo, ponte de sentimento
Prof.
Jairo Cesa