sábado, 5 de abril de 2025

 PESQUISADORA DE DOUTORADO DE ELISA F. STRADIOTTO TRAZ REVELAÇÕES QUE INSTIGARÃO INTENSOS DEBATES ACERCA DOS ARQUÉTIPOS DO MONGE JOÃO MARIA DE JESUS

Traumas, estresses, conflitos, instabilidades emocionais, entre outras anomalias, sempre se constituíram como elementos intrínsecos da existência humana. Entretanto, tais anormalidades psíquicas tende a se manifestar em maior ou menor grau conforme as condições materiais objetivas construídas por cada agrupamento humano, no espaço e tempo. Nesse caso, embora façamos parte do mesmo gênero humano civilizatório, nos diferenciamos dos demais agrupamentos sociais, a partir de normas e regras culturais, comportamentais, estabelecidas no ambiente onde estamos inseridos.

Fatores ambientais, culturais, econômicos estão intrinsicamente atuando no modo como os humanos se relacionam, podendo, em alguns momentos, duradouro ou não, resultar tensões a ponto de romper a fronteira divisória do que se entende por civilizado e o não civilizado. As guerras, os desastres ambientais, portanto, se constituem em acontecimentos que reduzem ou até mesmo apagam por um tempo a linha fronteiriça do que se entende por racional e o não racional.

As guerras fraticidas do final do século XIX e que se estenderam durante a primeira metade do século XX sucumbiram milhões de seres humanos, além de causar um passivo econômico, ambiental, emocional e existencial, cujos efeitos são ainda perceptíveis no inconsciente coletivo das atuais gerações. Foi nesse cenário de ciclos intermináveis de tensões, catástrofes e medos, que a psicologia se estabeleceu como ciência encarregada de tratar as disfunções comportamentais. Na esteira da psicologia, surge a  psicanálise e cujo criador foi o médio alemão Sigmund Freud. Com isso os primeiros passos são dados nos diagnósticos e tratamentos também das disfunções comportamentais, tendo como campo investigativo o espaço mais obscuro da mente humana, o inconsciente.

Revolver os escombros de guerras e tensões acumulados por gerações, se notabilizou como um dos maiores desafios de uma área do corpo humano até então obscura, repleta de tabus, pouco conhecida, que é o subconsciente onde estão armazenadas nossas memórias, nossas emoções. Era preciso entender melhor o funcionamento desse complexo e misterioso mecanismo do corpo humano, a mente, onde estão concentradas as emoções, os estímulos, os desejos, as frustrações, os medos, tudo isso guiados pelo inconsciente, como de um arquivo de computador, que conservam os registros transgeracionais da espécie humana.

Freud, portanto, abre a “caixa de pandora” revelando que nossas emoções, frustrações, são produtos da libido sexual, ou seja, os desejos, as vontades impulsionam nossas ações, nossas forças criativas, também, como elementos propulsores das guerras. O fato é que críticas e discordâncias às opiniões de Freud acerca do inconsciente não tardaram. Uma das mais categóricas delas veio de seu discípulo, também médico Alemão, Carl Jung.

Dizia Jung, contrariando Freud, que os impulsos, desejos, frustrações não são exclusividade da libido, mas de um conjunto de elementos externos ao próprio ser elaborados e armazenados por gerações na psique, parte obscura da mente humana. Sobre as revelações do psiquiatra Jung sobre o inconsciente, afirmou que nossos comportamentos são resultados das experiências coletivas, construídas ao longo do tempo a partir da nossa existência há cerca de dois milhões de anos. Sendo assim, toda experiência coletiva civilizatória, que também é individual, está disposta no inconsciente de cada ser e que será transferida às gerações seguintes, como um ciclo geracional interminável.

Décadas se passaram, tanto Freud como de seu discípulo Jung, ambos influenciaram gerações inteiras de estudiosos, psicólogos e outras tantas áreas afins, dos quais ajudaram a pavimentar os caminhos para a compreensão do comportamento humano e o tratamento de traumas psíquicos. Jung, se distinguia de Freud, pois acreditava que era necessário denominar os fenômenos psíquicos como arquétipos, ou seja, formas representativas coletivas inconscientes, capaz de curar moléstias emocionais, quando aplicadas para o bem. Expressões simbólicas no campo religioso, por exemplo, os ritos de vida ou de morte, independente de quais entidades as executem, sempre foram interpretadas como forças arquetípicas de representação.

De tempo em tempo sociedades são surpreendidas com presença momentânea de certas personalidades dotadas de forte carisma e poder de transformação coletiva. Algumas se tornam tão significativos, marcantes, a ponto de se amalgamar no imaginário coletivo de milhões, bilhões de indivíduos, que passam os ter como guias para as suas vidas. Jesus Cristo, Maomé, Buda, Krishna, Confúcio, são alguns exemplos de formas arquetípicas mitificadas para cerca de três quartos da população mundial.

No interior do cristianismo, a exemplo do catolicismo, sacerdotes, santos, monges, entre outros, são representações arquetípicas de personalidades, que compõem o conjunto da pirâmide religiosa em graus distintos de relevância hierárquica. Por ser o Brasil um país majoritariamente católico, a culto a figuras santificadas, a exemplo de Nossa Senhora Aparecida, se cristalizou como um importante arquétipo de forte influência no comportamento coletivo. Existem outras forças arquetípicas também relevantes no cenário brasileiro, como do Monge João Maria de Jesus, personalidade conhecida no sul do Brasil por ter atuado junto com os posseiros caboclos, da Guerra do Contestado, conflito sangrento ocorrido no oeste de Santa Catarina no começo do século XX.

Acerca do Monge João Maria de Jesus, muito conhecido pela historiografia por sua influência na vida de milhares de cidadãos despossuídos, explorados no Oeste de Santa Catarina, até o momento pouco se sabe do seu carisma e devoção por uma legião de seguidores nos três estados do sul do Brasil, que os veem como um mártir, um revolucionário. O que se sabe acerca do monge ou dos monges é que assumiram representações arquetípicas em diversas comunidades do sul do Brasil, aceitos como entidades repletas de atributos simbólicas, míticas, com incrível capacidade de  apaniguar sofrimentos.

Entender a representação arquetípica do monge João Maria no dia a dia de milhares de famílias do sul do Brasil, foi o objeto de investigação da pesquisadora psicanalista Elisa Fatima Stradiotto, com o seu tema investigativo foi Arquétipos que Curam: Representações do Monge João Maria de Jesus na Perspectiva Psicanalista Junguiana. Para a execução dessa desafiadora pesquisa, fui convidado por ela para que juntos transitarmos por alguns caminhos trilhados pelo monge João Maria de Jesus, na região de Passo Fundo – RS; na Lapa - PR e Curitibanos – SC. 

As diversas entrevistas realizadas e outras tantas visitas aos locais onde muitos acreditavam ter o monge João Maria de Jesus transitado e se hospedado, tendo realizado curas e feito profecias, o que chamou a atenção foram as incríveis coincidências acerca das respostas dadas pelos/as entrevistados/as em quase tudo que se relacionava ao monge João Maria de Jesus. A presença de benzedeiras, empregando ervas, rezas, e tendo o monge como representação arquetípica, apontaram como elementos importantes de interseção entre os três estados visitados. Grutas, fontes de água, cruzes de cedro, monumentos ao monge, foram também pontos de convergência nas observações realizadas.

Portanto, estavam postas os desafios para a pesquisadora Elisa Fátima Straditto, sendo a mais desafiadora, responder como todas essas coincidências arquetípicas poderiam ser explicadas a partir da abordagem teórica do psicanalista Carl Jung?  Claro que outras fontes teóricas alinhadas a Jung e de outros pensadores teriam que estar no arcabouço investigativo de Elisa, pois tinha clareza que as fontes teóricas de Jung não seriam suficientes para revelar tamanha complexidade envolvendo o monge João Maria de Jesus no cotidiano de milhares de indivíduos.

O contato com as benzedeiras que intercediam o monge João Maria de Jesus nos seus rituais como representação arquetípica do pai, homem guerreiro, caridoso, governante, mago, velho sábio, possibilitou instigantes revelações  acerca dessas personalidades que são geralmente compreendidas  pelo senso comum de forma estereotipada, entendidas como charlatãs,  bruxas, feiticeiras. No passado longínquo, Idade Média, por exemplo, são vastos os casos de mulheres perseguidas, presas e queimadas vivas pela santa inquisição acusadas de práticas  heréticas.

Em relação ao Monge João Maria de Jesus, ainda hoje, nas visitas e entrevistas realizadas pela pesquisadora Elisa, não foram encontradas edificações, como igrejas, que tivessem sido o monge escolhido como padroeiro. O que havia de fato eram pequenas construções, conhecidas pelo nome de capitel. Esses pequenos monumentos foram erguidos em locais onde acreditam ter tido o monge passado a noite ou realizado algum milagre. A não presença de templos maiores, como igrejas, tendo o monge padroeiro, não é uma realidade pelo fato de a Santa Sé não tê-lo reconhecido como um santo. Embora não tendo sido reconhecido como um santo, o importante para essas comunidades é a certeza da sua presença no imaginário coletivo, visto como um santo,  símbolo de resistência e resiliência aqueles que se sentem oprimido/as.

O emprego de ervas, da água pura das fontes e das grutas, nos rituais curativos, a pesquisa mostrou que essas práticas ritualistas asseguram às benzedeiras status de poder, de respeito, no interior dessas comunidades onde acreditam ter o monge transitado e praticado rituais de cura. O que se evidenciou nessa investigação a partir das entrevistas com as benzedeiras, que foram posteriormente cruzadas com as fontes teóricas junguiana consultadas, foi constatar que fortes nexos causais de cientificidade nos ritos, dos quais interagem no campo psíquico, o inconsciente, onde estão as emoções os,  desejos, os medos, as frustrações.

Ao mesmo tempo que são revelados os arquétipos curativos, que  também libertam, contrários a esses, estão os arquétipos que apregoam as doenças, a dominação, a raiva, o ódio.  Elisa descreve os arquétipos negativos em sua pesquisa, citando o fenômeno nazismo, cujo principal mentor e líder foi  Hitler, no qual incorporou a imagem arquetípica do deus Wotan, uma das divindades da mitologia alemã. O resultado, portanto, foi ter convergido  para o seu entorno legiões de seguidores fanáticos, dominados  por uma espécie de psicose coletiva.

Esse fenômeno arquetípico representado por Hitler na Alemanha, pode ser interpretado a partir dos estudos de Freud, como construções elaboradas na parte escura do nosso cérebro, as nossas sombras, onde estão armazenados os arquétipos negativos inconscientes, como a raiva, o ódio. Jung discordava de Freud, afirmando que nossas sombras não poderiam ser compreendidas como sendo somente forças negativas, devendo também ser realçadas como campos da criatividade. O desenvolvimento da sabedoria, do conhecimento, são energias elaboradas nos campos escuros, as sombras, também  os instintos negativos, que podem ser controlados, dominados ou transferidos. Atirar pratos na parede nos momentos de muita raiva é uma forma arquetípica  de transferência, algo que certamente fará bem a um órgão do corpo humano devido, por suprimir energias negativas acumuladas.

Retornando ao rito da cura praticada pelas benzedeiras das quais eram intercedidas pelo Monge João Maria de Jesus, por ser o arquétipo do bem, jung revelou que o processo de cura se manifestava a partir da expansão da consciência, ou seja, de auxiliar o paciente acometido de traumas, entender os sonhos e torná-los consciente. Um aspecto importante aqui, quanto as benzedeiras, é que o sucesso do tratamento, do rito de cura, somente acontece quando existe de fato um vínculo recíproco de honestidade, entre ambos os autores, o terapeuta e o paciente.

Nas explicações de Elisa acerca dos ritos da cura relatados pelas entrevistadas nos três estados do sul, foi revelado aspectos que deverão trazer muitas discussões entre os pares da psicanalise e de outras correntes no campo da psicologia, que é o emprego das plantas, ervas, nos rituais, sua eficácia ou não nos tratamentos. Afinal, são as palavras, repletas de energia psíquica, que tem o poder de curar? Mais uma vez as buscas da pesquisadora Elisa evidenciaram o importante papel do psicanalista, que assemelha em muitos aspectos a das benzedeiras, dos magos, dos velhos sábios, no tratamento das neuroses.

Sobre as imagens arquetípicas que representam a figura do João Maria de Jesus, a pesquisa de Elisa traz inúmeras representações que comprovam o poder da numinosidade, energia psíquica, presente nesses símbolos. As fontes de água pura, o capitel - pequena capela sem cruz, as cruzes de cedro, tudo isso são vistos como fragmentos do próprio monge, ou seja, pedaços de vida, ligados ao indivíduo vivo, ponte de sentimento

Prof. Jairo Cesa                     

                                          

domingo, 30 de março de 2025

 

AÇÃO ANTRÓPICA NA ORLA DO MUNICÍPIO DE ARARANGUÁ COLOCA EM RISCO DE EXTINÇÃO ESPÉCIES MIGRATÓRIAS, COMO AS BATUÍRAS DE BANDO.

Foto - Jairo


Quem caminhou pela orla do município de Araranguá nos últimos dias deve ter observando a presença de bandos de pequenos pássaros que caminham freneticamente na praia alimentando-se de pequenos crustáceos, minhocas, etc. Esses pássaros são conhecidos como batuíras ou batuíras de bandos. São espécies migratórias que voam milhares de quilômetros duas vezes ao ano, do hemisfério norte ao hemisfério sul e vice versa. Nesse momento, outono no hemisfério sul, elas estão se dirigindo para o norte, até o Canadá. Por ser uma viagem longa, as batuíras necessitam se alimentar bem rápidas durante todo o trajeto.

A orla de Araranguá é uma parada obrigatória para as batuíras, como em outras praias catarinenses e brasileiras. O que se nota em cada ciclo migratório é o número cada vez menor dessa espécie em nossas praias. Acredita-se que entre os fatores responsáveis pela redução progressiva de batuíras, está à poluição das praias e construções, como plataformas, que dificultam os deslocamentos das mesmas. A criação de políticas públicas de proteção para espécies marinhas, principalmente migratórias, se constitui como obrigação aos gestores públicos municipais e seus órgãos ambientais.

Para o município de Araranguá, a decisão do TRF 4, Tribunal Regional Federal, de Porto Alegre, pela proibição do transito de veículos não oficiais na orla se constitui como uma vitória à biótica costeira. Durante a atual temporada de verão era perceptível a presença da polícia militar fazendo frequentes rondas até o atual canal aberto do rio, cerca de 1000 metros ao sul do estuário do rio Araranguá. Os veículos não autorizados pelo órgão ambiental municipal eram solicitados que retornassem para que seus proprietários não fossem acometidos de multa.

Terminada a temporada, o acesso de veículos na orla  ficou sem controle, sendo que muitos transitam sobre as dunas e restingas, que são habitats naturais de espécies endêmicas da flora e da fauna. Além do tuco-tuco, um tipo de mamífero roedor, que se esconde em tocas nas dunas, tem também uma espécie de tipo de caranguejo, ocypode quadrata,  que vive em tocas na areia da praia. Tanto o tuto-tuco quanto o caranguejo, ambos  são considerados os mais ameaçados pelo transito desordenado de veículos na orla do município de Araranguá.   

 

Foto - Jairo

No entanto, são frequentes as ameaças do poder público municipal e do seu órgão ambiental de querer derrubar a decisão que proíbe o fluxo de veículos na orla. O fato é que mesmo com a decisão do TRF 4, quem caminha pela praia pode observar números expressivos de veículos transitando, que além de causar estresse às aves migratórias, muitos dos ocupantes lançam lixo à praia, como plásticos, vidros e latas.

Foto - Jairo


O que é mais assustador foi ter detectado no entorno do guarda vida central da orla do Morro dos Conventos, grande quantidade de bitucas de cigarros espalhadas sobre a areia da praia. Com a elevação das marés essas partículas de cigarros, que são excessivamente tóxicas, terão como destino o fundo do mar, servindo de alimentos aos peixes e outras espécies marinhas. Sacas plásticas, tampinhas de garrafas, canudos e copos plásticos, tudo isso poderão ser confundidos como alimentos pelos animais marinhos, provocando intoxicações e possível mortes dos mesmos.  

   

Foto - Jairo

 Todo esse material lançado na orla, associado aos que são trazidos pelo rio, serão absorvido pelo oceano. A presença de inúmeras tartarugas mortas na orla de Araranguá pode estar associada aos resíduos plásticos deixados na praia, que no oceano os quelônios confundem com alimentos. Precisamos, portanto, continuarmos atentos a qualquer ação do poder público em pretender derrubar a decisão do TRF 4, pois, sendo vitorioso, se constituirá cem uma grande derrota ao complexo e frágil bioma costeiro de Araranguá.

Foto - Jairo


 Deixar bem claro que defender a preservação do Morro dos Conventos, não significa estar contra o desenvolvimento do município, muito pelo contrário, o que queremos de fato é que sejam cumpridas as demandas do Plano de Gestão Integrada do Projeto Orla, que são mais de 200. Essas demandas foram discutidas e acordadas pelos delegados indicados pelas varias entidades civis, empresariais e do poder público, durante as dezenas de reuniões e oficinas do Projeto Orla, ocorridas entre 2014 a 2016 no próprio Balneário Morro dos Conventos.

Prof. Jairo Cesa              

segunda-feira, 24 de março de 2025

 

5ª CONFERÊNCIA ESTADUAL DO MEIO AMBIENTE – DEMANDAS PARA O ENFRENTAMENTO DA EMERGÊNCIA CLIMÁTICA E A CRISE HIDRICA



A crise hídrica que se coloca como uma preocupante realidade para milhões de pessoas no mundo inteiro tende a se tornar mais critica nas próximas décadas se populações e autoridades não tomarem consciência de que modelos produtivos vigentes são causas primárias desse colapso hídrico que já é real. O que se observa e que demonstra ser verdadeiro é o tema água e suas complexidades, vir a público para reflexão e debate somente uma vez por ano, no dia 22 de março, data que é celebrado o dia internacional da água.

São poucos os meios de comunicação, gestores municipais, instituições de ensino, entre outras organizações, que não divulgam alguma ação alusiva ao tema, como plantio de árvores, recolhimento de lixo em mananciais, etc. No dia seguinte ao 22 de março, tem-se a sensação de que tudo volta à normalidade, como de um vírus pandêmico que provoca o esquecimento por um ano, até o próximo 22 de março. Como um disco furado que repete a música o tempo inteiro, o discurso sobre a água segue essa mesma analogia, a repetição dos problemas, das promessas e o esquecimento do que foi prometido. Todos sabem que a fragilidade no saneamento básico, no tratamento de esgoto, por exemplo, é um dos fatores primordiais á redução progressiva da demanda de água com qualidade para milhões de brasileiros.

O que é mais espantoso nesse debate sobre crise hídrica, é que o Brasil é um dos territórios com maior disponibilidade de água doce do mundo, decorrente da concentração de expressiva quantidade de rios, lagos, lagoas e uma boa fração do aqüífero guarani. Acreditem, diante da aparente abundância hídrica, milhares de pessoas já sofrem a falta desse líquido, principalmente na região amazônica, assolada por estiagens históricas e a degradação dos mananciais por resíduos orgânicos. Na bastassem os poluentes domésticos e industriais, outro problema invisível ao olho humano, porém detectável mecanicamente são os ativos químicos, como os agrotóxicos, que se subdividem em contato com o solo em centenas de princípios ativos altamente tóxicos. Muitos desses princípios são detectados em quase todas as analises laboratoriais realizadas pelas redes distribuidoras em todos os municípios brasileiros.

Nas bacias hidrográficas do Sul de Santa Catarina, as bacias do Tubarão, Urussanga e do Araranguá, um dos vilões contaminantes das águas é o carvão mineral. É sabido que tais bacias hidrográficas são comprovadamente umas das mais degradas do país, contendo em suas águas metais pesados provenientes principalmente de resíduos de carvão. Embora tendo sido aprovada na Assembléia Legislativa de Santa Catarina (ALESC), legislação que estabelece políticas voltadas à transição energética limpa no estado, essa medida, no entanto, não garante a supressão definitiva dessa atividade no estado.

Na 5ª Conferência Estadual sobre o Meio Ambiente, ocorrida nos dias 18 e 19 de março de 2025, em Florianópolis, foram elencadas 20 proposições que serão apresentadas na Conferência Nacional programada para acontecer no final do mês abril próximo em Brasília. Foram cinco eixos discutidos na conferência, ficando assim distribuídos: Eixo I – Mitigação; Eixo II – Adaptação e preparação para desastres; Eixo III – Justiça Climática; Eixo IV – Transformação Ecológica e Eixo V – Governança e Educação Ambiental. No Eixo I, das seis propostas discutidas pela plenária, quatro delas foram escolhidas para a plenária nacional. Uma dessas quatro trata exatamente do problema recorrente no sul do Brasil, a degradação ambiental por carvão mineral. A proposta do primeiro eixo foi assim redigida: “revogar as leis que prorrogam a exploração de carvão, proibindo a abertura de novas minas de carvão a partir de 2030. Incentivar o uso de energias limpas e renováveis e biocombustíveis através de incentivos fiscais e taxação de combustíveis fosseis  (carvão e outros) estabelecer metas e prazos”.

Os incentivos governamentais bilionários ao agronegócio, progressivamente vem escancarando as “porteiras” para a flexibilização das legislações relativas ao comércio de agrotóxicos, muitos dos quais já banidos na União Europeia e outros países por décadas. São substâncias químicas extremamente letais à biótica dos solos e das águas. Infindáveis são as pesquisas que confirmam ser o consumo de alimentos e águas contaminadas por agrotóxicos os vilões do aumento de casos de doenças degenerativas, a exemplo dos cânceres. Parkinson, Alzheimer, espectro autista, estão também no centro dos estudos e debates, existindo já muitas fontes que comprovam terem essas doenças, relações diretas e indiretas com a ingestão de alimentos e água contaminados.

Como proposta à produção agrícola convencional baseada na inserção de insumos químicos agrotóxicos, é amplamente incentivada à expansão da agroecologia, prática essa que segue os princípios da sustentabilidade, da resiliência sistêmica dos ecossistemas. Na atual emergência climática, a agroecologia se mostra muito eficiente ao reequilíbrio das disfunções da complexa teia sistêmica chamada cosmos.  A agroecologia se mostra tão importante e necessária à reversão à crise climática. Durante os debates da 5ª Conferência Estadual, no Eixo III, Justiça Climática, uma das quatro propostas aprovadas foi a seguinte: “exigir do Estado brasileiro uma reforma agrária consistente, favorecendo a agricultura familiar e produções baseadas na agroecologia e produção orgânica, a fim de cumprir com a constituição e democratizar o acesso à terra”.

São inúmeras as experiências em andamento de cultivos agroecológicos que estão produzindo excelentes resultados nas melhorias das condições de vida de milhões de brasileiros diretamente envolvidos nessas atividades. O MST possui praticas produtivas e de organização que deve ser considerada e seguida, por apresentar resultados eficientes no combate da fome e como mitigador dos impactos da crise climática global. A Rede ECOVIDA de Agroecologia e Produção Orgânica, que integra os três estados do sul, vêm comprovando que a organização participativa se mostra extremamente eficiente. Um bom exemplo de eficiência organizacional vem da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI) na cidade de Paranácity/PR, que está vinculada ao Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST).[1]

Quando tratamos o assunto crise hídrica, o mesmo não pode ficar restrito apenas a questão oferta e a demanda de água doce. Também não podemos nos furtar de mencionar os oceanos, pois neles estão inseridos volumes significativos da água doce em estado sólido. A emergência climática tem relação também com o degelo e o aumento do nível dos oceanos. Cidades costeiras já estão literalmente sendo “engolidas” pelo mar. Não bastasse o degelo, tem também o lixo, principalmente de plásticos, que já se mostram como um problema pandêmico para os oceanos. Existem ilhas gigantes de lixo em vários pontos de todos os oceanos e mares.[2] Alguém um dia poderia imaginar que a vida nos oceanos seria ameaçada por microplásticos, considerados tão letais à vida aquática e terrestre quanto ao CO2 e agrotóxicos?

Sim, é isso mesmo. Algo imperceptível ao olho humano, milhões de toneladas de plásticos são dissolvidos em micro fragmentos, comprometendo à vida nos oceanos e nos continentes. Pesquisas comprovam que microplásticos estão sendo depositados nos solos e nos mananciais hídricos por meio da chuva. Microplasticos são elementos químicos considerados piores que chuvas acidas, pelo fato das dificuldades de serem eliminados da natureza. O pior é que são ingeridos no consumo de alimentos, como vegetais, carnes, água, entre outros. Essas substâncias tóxicas se acumulam nos pulmões, sangue e até mesmo na placenta de bebês em desenvolvimento.

Até o momento mesmo existindo um enorme arcabouço de legislações relativas ao saneamento básico, o problema dos resíduos sólidos ainda se caracteriza como um desafio a ser solucionado.  A 5ª Conferencia Estadual do Meio Ambiente também discorreu o assunto resíduos sólidos no IV Eixo Transformação Ecológica. Uma das quatro proposições aprovadas pelos/as delegados/as descreve o seguinte: “promover gestão integrada de resíduos sólidos entre municípios da região e os principais atores como sociedade, cooperativas e associações, poder público e privado, valorizando e implementando a compostagem dos resíduos orgânicos, reciclagem dos resíduos recicláveis e ações de economia circular para o aumento da taxa de desvio de aterro sanitário, valorizando a cadeia produtiva dos resíduos”.

Portanto, o planeta terra vive sua fase mais crítica em se tratando de clima. Isso motivou as agencias intergovernamentais do mundo inteiro a lançarem alertas por já estarmos sobre uma emergência climática. Nesse sentido temos agora pouco tempo para buscar reverter os estragos e assegurar uma sobrevida ao planeta. Como saída a um possível colapso climático, além de ações concretas provenientes de organismos governamentais e dos sistemas produtivos, o trabalho de sensibilização ambiental coletiva em massa deve ser aplicada imediatamente.  

A demanda sensibilização ambiental foi amplamente debatida na 5 conferência de Educação Ambiental, fato que motivou a aprovação pelos delegados de uma proposta, para ser discutida e quem sabe também aprovada na conferência nacional. A proposta do Eixo V é o seguinte: “criar e colocar em prática Políticas Municipais e Regionais de EA como ação de Estado, com diretrizes curriculares, diagnóstico regional, formação formal e não-formal, em rede, com participação social. Criar e institucionalizar as Escolas do Mar, fomentar instituições de EA para implementar programas alinhados ao Plano Nacional do Clima, de forma intersetorial, respeitando a diversidade regional”.                   

Prof. Jairo Cesa

   

   

                    



[1] https://www.blogger.com/blog/post/edit/8334622275182680372/8216021869399138207

[2] https://www.blogger.com/blog/post/edit/8334622275182680372/3758619673006269685

sexta-feira, 14 de março de 2025

 

CAMPANHA DA FRATERNIDADE DE 2025 – FRATERNIDADE E ECOLOGIA INTEGRAL

https://campanhas.cnbb.org.br/campanha/campanha-da-fraternidade-2025/


Desde que o papa Francisco assumiu o papado em 2013, foram inúmeras as ações deliberadas em defesa do planeta terra. Um das mais importantes foi a campanha da fraternidade de 2015, quando propôs que o tema tivesse alguma relação com a defesa da mãe terra. Na época, o planeta já dava sinais nítidos dos efeitos perversos da ação humana sobre sua biosfera, que medidas deveriam ser tomadas urgentemente para não alcançar o estágio do não retorno. A terra como sendo o habitat de todos os seres vivos, o tema inserido nas capas das cartilhas da campanha da fraternidade de 2016 foi Laudato SI, que em língua portuguesa significa “Louvado Seja”- O Cuidado da Casa Comum.  

O tema da campanha da fraternidade faz alusão a própria Encíclica com o mesmo nome lançada pelo papa Francisco em 2015. O termo Encíclica é uma espécie de carta escrita pelo papa, que é enviada as igrejas cristãs de todo o mundo, comunicando alguma atualização à doutrina. Essa encíclica contém cerca de 200 paginas, destacando pontos importantes de como os humanos deveriam se comportar para não coloque em risco de colapsar a mãe terra, a casa comum de todos os seres vivos. Durante a quaresma, com duração de quarenta dias, católicos, cristãos ortodoxos, anglicanos, luteranos, e outras denominações Presbiterianas e Reformadas, espalhadas pelo planeta, devem ter lido e debatido os capítulos da cartilha, e certamente, tiveram melhor compreensão de que cuidar da terra ou da casa comum é um ato divino, que segundo essas e outras religiões monoteístas, as concebem o planeta terra e o próprio universo como uma  criação de Deus.

Dez anos depois da publicação da encíclica e da campanha da fraternidade, o cenário que hora se vislumbra no horizonte do planeta terra é de extrema atenção e preocupação. Parece que os ensinamentos trazidos por essa encíclica, mínimos foram os resultados positivos nos corações e mentes das autoridades e do segmento produtivo global. Desde então o clima do planeta vem sendo acometido por intempéries com graus catastróficos de destruição. Os constantes e contínuos episódios climáticos extremos, enxurradas e estiagens avassaladoras, dão mostras de que a manutenção das atuais políticas produtivas insustentáveis está colocando o planeta terra em um caminho perigoso do não retorno.

Parece que os rotineiros encontros de cúpulas em defesa do clima, a exemplo das Cops, como a de Paris, em 2015, não estão assegurando resultados desejados, como por exemplo, evitar que a temperatura média do planeta não alcance a média crítica de 1.5 graus Celsius, antes do final desse século.  De acordo com estudos obtidos por organizações que fazem o acompanhamento diário das temperaturas no planeta, há evidencias claras que o limite preocupante de 1.5 graus Celsius, foi atingindo em 2024. Sendo assim, o planeta já está em uma condição de emergência climática, ou seja, que todas as medidas pensadas e discutidas nas COPs com prazos mais longos para serem executadas, deverão ser imediatamente revistas, pelo fato de o limite médio de temperatura de 1.5 termos sido antecipado em mais de meio século.

O fato é que existem evidências claras que o planeta está aquecendo além do seu limite desejado. São ondas de calor que vem transformando países ou continentes inteiros em um verdadeiro caldeirão, cujas temperaturas facilmente superam os 40 graus Celsius. O que demorava cinquenta ou cem anos para quebras de temperaturas médias globais, nos últimos cinco anos os cientistas comprovaram por meio de monitoramento ter havido quebras recordes de temperaturas médias. Os impactos do aumento médio da temperatura global influenciam diretamente em toda a complexa biótica planetária, principalmente nos oceanos onde habitam espécies extremamente frágeis e profundamente afetadas pelo aquecimento global.

Além das entidades cientificas estarem envolvidas na tentativa de reverter o possível hecatombe climático que o planeta terra está trilhando, organizações sociais, ONGs, movimentos religiosos também estão se engajando conjuntamente na esperança de sensibilizar as autoridades globais e segmentos econômicos, para que repensem suas políticas e práticas produtivas consideradas degradantes e impactantes à mãe terra. Novamente a igreja católica, como havia feito há dez anos, por iniciativa do sumo pontífice, o papa Francisco, quando lançou à encíclica, em 2025, determinou que a campanha da fraternidade nesse ano abordasse tema vinculado à ecologia.

O que causa espanto é o fato de uma religião como a católica com mais de um bilhão de fieis seguidores no mundo inteiro, cujos reflexos da encíclica de 2016, Láudano Si, pouco efeito teve nas mudanças de comportamento das autoridades no modo de compreender o planeta como um elemento vivo e frágil. Talvez agora o Papa Francisco, pela sua forte vinculação às causas sociais, humanitárias, tenta lançar sua última cartada em vida na tentativa de mais uma vez sensibilizar a humanidade de que estamos num caminho sem volta.  Ou repensamos e mudamos nossas praticas comportamentais nada saudáveis com a nossa mãe terra ou teremos uma existência bem curta junto com as demais espécies vivas existentes.

O tema “Fraternidade e ecologia integral e o lema Deus viu que tudo era muito bom”, tende a propor uma forte mobilização das igrejas cristãs cuja expectativa é fazer as pessoas pensarem que a atual realidade planetária é extremamente critica. Ecologia integral tem como fundamento, pensar o planeta como uma grande casa viva, um complexo conjunto de teias, interconectadas e sensíveis a qualquer ação antrópica. Apelar à religião, a fé, se mostra até plausível, entretanto, nos debates acerca do tema é necessário dar bastante ênfase ao atual modelo econômico, o poder das grandes corporações do petróleo, dos agrotóxicos, entre outras, que estão por trás desse insano desejo de domínio planetário.

Como vem se observando no atual cenário global, dominado por guerras e disputas comerciais entre grandes potencias, são raros, nos encontros envolvendo tais lideranças, para tratar acordos de paz ou de negócios, a inclusão de demandas elencadas nas conferências do clima, como a redução das emissões dos gases do efeito estufa, investimentos em energias renováveis, agroecologia, etc. Fora toda a negação articulada pelo grande capital sobre pautas ambientais, mais uma vez é importante louvar o papa Francisco, que vem cumprindo a risca com o seu propósito a frente do pontífice, a busca da conciliação entre as religiões, construção de uma um mundo mais fraterno, mais tolerante, sem injustiças sociais.

Prof. Jairo Cesa            

segunda-feira, 10 de março de 2025

 

A INVISIBILIDADE DAS MULHERES NA POLÍTICA EM ARARANGUÁ

Por meio de um projeto de lei do legislativo municipal de Araranguá, aprovado em 2002, todos os anos os vereadores e vereadoras daquela casa indicam uma mulher com algum trabalho relevante na sociedade araranguaense para ser homenageada com o troféu Alzira Rabello. É inquestionável a importância de um projeto de tamanha magnitude, onde passou dar visibilidade às cidadãs, muitas das quais anônimas, desconhecidas do público, porém, com extenso histórico de trabalhos sociais, assistenciais, em prol dos mais necessitados.

Sabemos que historicamente a mulher sempre foi vista como sujeito coadjuvante, de segunda classe, no processo civilizatório ocidental. Algumas conquistas de direitos elementares, como de salários, de votar e ser votada se deram por meio de muitas lutas e resistências. Mulheres trabalhadoras tiveram que sacrificar suas próprias vidas para que hoje milhões de cidadãs no mundo inteiro pudessem ter o mínimo de dignidade em suas vidas. Uma das grandes barreiras ainda hoje enfrentada pelas mulheres ocidentais ocorre na política, nas esferas dos legislativos e dos executivos municipais, estaduais e federais.

Nos pleitos eleitorais ainda são inexpressivos o número de mulheres eleitas para ocuparem esses respectivos postos, mesmo considerando legislações criadas como a que trata sobre cotas, obrigando os partidos políticos, inserirem em suas siglas, 30% de candidatas femininas, à disputarem as eleições proporcionais. Parece que tal legislação pouco efeito teve e está tendo na inclusão da mulher num campo sempre dominado por homens. O número de mulheres eleitas nos últimos pleitos para o legislativo, principalmente o municipal, ficaram muito abaixo do esperado.

Um exemplo de município onde a mulher é pouco presente no cenário político é Araranguá. Nos seus 145 anos de história política, quatro foram às mulheres eleitas para o legislativo, sendo uma mulher apenas para o executivo, claro que de forma interina, em substituição ao titular, em 1947. Permaneceu no cargo por 45 dias. Nos últimos dois pleitos eleitorais, 2020 e 2024, não chegou a 50 mulheres candidatas em cada pleito, que se dispuseram a se filiarem nos partidos e participarem da campanha a uma das 15 cadeiras do legislativo. Convém destacar que o número de homens que ingressaram a campanha nos dois últimos pleitos foi quase sempre o dobro ao das mulheres.

Se observarmos a lista total dos candidatos e candidatas e o total de votos recebidos/as nesses dois últimos pleitos, o que chama atenção é a posição que elas ficaram nessa tabela. Mais de 80% delas ficaram posicionadas nas últimas posições, com votações pífias. O resultado negativo delas nesses dois pleitos permitiu que eu fizesse uma breve reflexão: a inserção de expressiva parcela de mulheres nos partidos para as disputas eleitorais é possível acreditar que não ocorreu por fatores ideológicos, mas por cumprimento de legislação especifica sobre cotas de candidaturas.         

Diante dessa realidade um tanto estranha, se torna até paradoxal, em um evento tão importante como o  8 de março, alusivo  ao dia internacional das mulheres, que homenageia mulheres do município de Araranguá, de não ter sido eleita uma única mulher sequer  à vaga do legislativo. Afinal de contas, por que as mulheres no município de Araranguá continuam invisíveis, excluídas acerca do processo político, mesmo elas representando 52% da população do município?

O estranhamento da mulher não se dá somente no campo da política, em outros segmentos ela também pouco aparece. Nas mais de duas centenas de ruas existentes no território araranguaense, pouco mais de trinta delas tem o nome de mulheres escritas nas placas fixadas. É sabido por experiência que uma mulher ou mulheres atuando em espaços de gestão publica, legislativo, por exemplo, elas têm maior capacidade de construção laços de afetividade e de compromissos entre seus pares masculinos em prol de projetos de cunho sociais.   

Também, por outro lado, não ter mulheres ocupando cadeiras no legislativo municipal, por exemplo, garante ao homem certo empoderamento, domínio inconsciente de um cenário historicamente masculinizado e já incorporado pela sociedade como algo natural. A presença de uma mulher ali, desperta medo, fragilidade, de achar que a qualquer momento ele será desafiado. A atitude costumeiramente aplicada pelo homem nesses espaços masculinizados, diante da presença feminina, são comportamentos machistas, como forma de subjugá-las, inferiorizá-las.

Prof. Jairo Cesa          

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

 

A CONCRETIZAÇÃO DAS ETAPAS DA RESEX - RESERVA EXTRATIVISTA, ENTRE O MORRO AGUDO E ILHAS, MINIMIZARIA OS PROBLEMAS QUE COMPROMETEM O FUTURO DESSAS COMUNIDADES

Foto - Jairo


Em dezembro de 2016, como demanda do Projeto Orla para a faixa costeira do município de Araranguá, foram criadas por decreto municipal três unidades de conservação, sendo elas a APA (Área de Preservação Ambiental), a APP (Área de Preservação Permanente) e a RESEX – Unidade de Conservação da Natureza Municipal Reserva extrativista do Rio Araranguá. Em 2022, a APA foi suprimida, também por decreto municipal, e a APP foi reduzida de tamanho, passando de 280.202 ha, para 83.45 ha. Acontece que tanto a APP quanto a Resex, ambas não tiveram suas etapas de execução concluídas, razão pela qual vem sofrendo forte influência antrópica na sua constituição geomorfológica. A Resex, não menos importante que a APA e a APP,  se constituiu como uma grande conquista da população das comunidades de Ilhas e Morro Agudo.

É um documento, decreto, que delimitou uma área de 566,526 ha, se estendendo da desembocadura do rio Araranguá até a balsa que faz ligação das comunidades de Morro dos Conventos a Hercílio Luz. O decreto da Resex contém nove artigos, dos quais discorrem sobre objetivos, proibições, entre outras atribuições relativas à área em questão.  O Art. 3 que trata sobre os objetivos da Resex, convém aqui destacar quatro dos oito incisos citados, por apresentar grande relevância na compreensão do atual cenário socioambiental da região em tela.  O de n. V- discorre sobre a promoção do turismo sustentável e o lazer; o VI - incentivar atividades de pesquisa; VII - buscar um ambiente que proporcione o retorno do Boto e o restabelecimento da pesca de tarrafa cooperativa e o VIII - ordenar o trafego local de embarcações.

Quem vive lá ou conhece sabe que a pesca artesanal sempre teve relevância nessas comunidades situadas nas imediações da foz do rio, mais ainda com a presença efetiva dos botos que sempre cooperavam com os pescadores na captura dos peixes por meio da pesca com tarrafa. Nas últimas décadas talvez por fatores antrópicos - poluição sonora, assoreamento da foz e outros fatores, a presença desses animais marinhos foi se tornando cada vez mais raro até o seu completo desaparecimento.

Os gestores públicos que se revezaram nos últimos dez anos, nas suas políticas de incentivo ao turismo local, ambas não seguem associadas às metas de sustentabilidade definidas no PGI – Plano de Gestão Integrada do Projeto Orla. A existência das três unidades de conservação como a APA e a RESEX, sua aplicabilidade criaria uma espécie de amortecedor à pressão antrópica nos frágeis ecossistemas da faixa costeira. Todas as decisões no que se vincula aos planos de infraestrutura desses ambientes teriam que cumprir a risca as regras descritas nos decretos, dentre elas, a mais importante, ouvir a comunidade respeitando suas opiniões e decisões.

Desde a assinatura dos decretos em 2016 já se presumia que a efetivação dos mesmos seria muito difícil, principalmente estando agora no comando do município governos integrados a partidos sempre pautados na exclusão dos cidadãos nas tomadas de decisões participativas. A assinatura dos decretos das unidades de conservação permitiria o empoderamento dessas comunidades, tornando-os guardiões desses extraordinários tesouros naturais e culturais.

Os anos se passaram, novos administradores foram eleitos sem que o decreto da Resex fosse suprimido, como aconteceu com a APA, porém, continua congelado sem qualquer perspectiva de execução de suas etapas.  Nesse mesmo intervalo de tempo pós- projeto orla, novamente veio à discussão a fixação da barra do rio Araranguá, demanda essa arquivada pelo IBAMA por considerá-la pouco viável aos objetivos pretendidos, que era minimizar os efeitos resultantes das cheias do próprio município. Na hipótese de um novo projeto vir a ser elaborado e aprovado pelos órgãos ambientais, é quase consenso que o ponto considerado menos impactante ambientalmente seja o da extremidade norte, onde estava situada a Foz.

Por que utilizo a expressão, “estava situada a foz”. A resposta é porque esse estuário não existe nesse momento, secou literalmente após a abertura do canal provisório na extremidade sul do braço do rio. A abertura do canal ocorreu durante as constantes enxurradas que abateram nos municípios da bacia do rio Araranguá em 2024. Devido a uma incrível combinação de fatores climáticos e geomorfológicos do local, o que se esperava ser uma abertura provisória como de tantas outras aberturas no passado, veio a se tornar permanente, acontecimento que gerou espanto a apreensão dos moradores de Ilhas acerca do seu futuro. O receio é que sem a pressão da água esse braço de rio tende a assorear assoreamento.

Os impactos da abertura do canal, extremidade norte, no turismo e na atividade pesqueira já são sentidos na comunidade. Com o canal aberto houve alteração na dinâmica pesqueira do local. Pescadores com seus barcos que antes capturavam os peixes próximos a foz se deslocaram agora para o entorno do novo canal. O que mais surpreendeu os pescadores além do público que visita o canal foi constatar o retorno dos botos, depois de muito tempo desaparecidos. A resposta dos pescadores ao retorno dos animais se deve a grande profundidade do canal, bem como na discreta poluição sonora.

A presença desses mamíferos marinhos em território araranguaense chamou atenção até mesmo de estudiosos querendo entender melhor seu comportamento. A pesquisadora acompanha desde setembro de 2024 o movimento dos botos no canal e sua relação com toda a dinâmica do local. O objetivo da investigação é compreender o comportamento desses animais durante as quatro estações, que se encerrará no mês 09 de 2025. No último encontro que tive com a pesquisadora, a mesma mostrava-se muito preocupada porque fazia duas semanas que os botos haviam se ausentado do local.

A hipótese mais convincente à não presença dos animais pode ter relação direta com o aumento do ruído sonoro produzido por embarcações como Jet ski, lanchas e veículos, principalmente nos finais de semana. Insisto em repetir que a execução completa das etapas do decreto da RESEX minimizaria os problemas que certamente tendem se agravar ainda mais com o passar do tempo. É importante ressaltar que o decreto não impede nenhuma atividade que venha promover o desenvolvimento sustentável da região, exceto aqueles que geram impactos ambientais.

O decreto também diz que: Art. 2 – A RESEX será administrada pela Fundação do Meio Ambiente de Araranguá, que tomará medidas necessárias para a sua proteção e gestão, podendo também ser cogerido por organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIP) com objetivos afins aos da unidade, mediante instrumento a ser firmado com o órgão responsável.  Independente de não ter sido o decreto ainda concretizado, é de responsabilidade da fundação do meio ambiente do município a fiscalização daquele estuário, que de fato não vem ocorrendo. É notório aos olhos de todos que há nítidas infrações cometidas em toda a área da Resex, bem como no entorno da mesma. A impressão é que tudo é permitido à revelia das legislações e dos seus órgãos fiscalizadores.

Deixemos claro que não é exclusividade da FAMA o papel de agente fiscalizador desse braço de rio onde está inserida a Resex. Além do órgão municipal, tem função de fiscalização a Polícia Ambiental, o IMA – Instituto do Meio Ambiente de SC, o IBAMA, a Marinha, o MPF e a própria Polícia Militar. Entretanto o que se observa lá é como se nenhum desses órgãos existissem, exceto a polícia militar que com todas as suas limitações vem tentando colocar ordem nos deslocamentos de veículos em direção ao canal, permitindo somente os oficiais e de pescadores autorizados.

Prof. Jairo Cesa            

                 

       

domingo, 12 de janeiro de 2025

 

OS INCÊNDIOS APOCALIPTICOS NA CALIFÓRNIA SÃO SINAIS DE QUE O CLIMA GLOBAL ENTROU NA FASE DO NÃO RETORNO

https://www.metropoles.com/mundo/incendios-entenda-combinacao-de-fatores-que-leva-caos-a-california


As cenas divulgadas pela imprensa dos incêndios apocalípticos na região da Califórnia, Estados Unidos, mais parece sair daqueles filmes holywoodianos do gênero terror. É até de certo modo irônico um país como os Estados Unidos que negou assinar o acordo de Paris sobre mudanças climáticas, sendo alvo hoje de frequentes catástrofes climáticas a exemplo do furacão Milton, considerando um dos mais mortais que assolou a região da Flórida em outubro último.    

Os incêndios que devastaram a ilha de Maui, no Havaí, com cerca de cem mortos, também deve ser atribuído ao aquecimento global, cujo limite médio de temperatura de 1.5 graus Celsius, previsto para o final do século, foi já alcançado em 2024.  O que se sabe é que estamos entrando na fase do “não retorno”, ou seja, situação na qual que mesmo aplicando as políticas de redução das emissões dos gases do efeito estufa, não serão possíveis de impedir que a terra aqueça ainda mais, como consequência o aumento assustador das catástrofes cada vez mais devastadoras. 

Dados lançados por organizações que monitoram o clima, comprovaram que a região da Califórnia passou a ter maior incidência de incêndios a partir do ano 2000. Sem dúvida as mudanças climáticas estão influenciando tais fenômenos. Para se ter idéia, o clima da região tem forte influencia o oceano pacífico, que banha o seu litoral oeste. A verdade é que período de menor incidência de chuvas ocorre no verão, sendo, portanto, o inverno a estação das chuvas. Acontece que no inverno de 2024 toda a região foi acometida por enxurradas devastadoras.

Toda essa umidade ajudou no crescimento da vegetação em toda a costa territorial. O que os meteorologistas não esperavam era que 2025 fosse assim tão seco, com o agravamento no inverno. Falta de chuva associada a vasta vegetação seca se tornaram combustíveis essenciais para impulsionar os incêndios. Uma bituca de cigarro, por exemplo, lançada sobre o solo seco pode ser um gatilho causador de toda essa tragédia, que tende a gerar prejuízos estimados de 57 bilhões de dólares – 350 bilhões de reais à região. Agora se somarmos os 350 bilhões dos incêndios, com os 280 bilhões advindos do furacão Milton, o resultado se torna assustador, são 630 bilhões de reais em prejuízos.

Para análise de comparação, na Cop 29, no Azerbaijão, durante as duas semanas do evento, o debate principal no qual retardou em um dia o encerramento do encontro foi o valor da ajuda financeira a ser definido para conter a pobreza dos países pobres. De 1.3 trilhão proposto, no final os delegados presentes na Cop concordaram que a ajuda seria de 300 bilhões de dólares ao ano. Se pegarmos os gastos com os prejuízos resultantes dos fenômenos climáticos extremos que se abateram sobre os países ricos nos últimos dez anos, todo esse dinheiro seria suficiente para amenizar as precariedades de vida e da estrutura produtiva das nações pobres.

Como já citei em textos anteriores publicados nesse blog, o cenário climático futurista se mostra nada animador. Os conflitos em curso, tanto no oriente médio quanto na Europa, envolvendo Rússia e Ucrânia, ambos pressionam os países industrializados à utilização de fontes energéticas mais poluidoras, como o carvão. A própria eleição nos Estados Unidos que assegurou a vitória de Donald Trump para um segundo mandato, eleva ainda mais a expectativa negativa de um planeta mais quente e com mais desastres climáticos num futuro bem próximo.

A certeza disso se deve ao modo como Trump pensa acerca do tema mudanças climáticas. O questionamento que se faz é o seguinte: quantos incêndios devastadores e furacões avassaladores serão necessários para que regimes como de Trump e de outros governos negacionistas se sensibilizem que é preciso agir rápido para não virarmos uma espécie em extinção? 

Prof. Jairo Cesa