Conselho
Consultivo do Comitê da Bacia do Rio Araranguá discute demandas ambientais em
reunião extraordinária
Conselho Consultivo do Comitê da Bacia Rio Araranguá
Em
reunião extraordinária realizada no Comitê da Bacia do Rio Araranguá, no dia 14
de dezembro nas dependências do Cetrar, três temas polêmicos foram debatidos
pelos membros do conselho deliberativo: a mineração de carvão em área de
reserva de água potável, no Treviso; a extração de seixos rolados no município
de Morro Grande e a audiência pública no Sombrio para discutir a criação de
unidade de conservação integrando as lagoa do Sombrio e Caverá.
Comunidade de Rio Morosine - Treviso, SC, luta pela preservação das nascentes
Sobre
o polêmico projeto de mineração, o cidadão representando as comunidades de Rio
Morosine e Volta Redonda, município de Treviso, fez uma narrativa detalhada e
preocupante acerca de um projeto de mineração de carvão prevista para ocorrer
no subsolo da comunidade de Rio Morosine onde foram catalogadas 12 nascentes,
das quais seis delas constam na declaração do uso conforme cadastro nacional.
Essas vertentes cadastradas resultaram na construção de um sistema de captação
e filtragem da água, coordenada pela ADM (Associação de Desenvolvimento da
Microbacia do Rio Morasine e Volta Redonda), fundada em 2004, na qual atende
130 famílias das duas comunidades.
Representante da Comunidade de Rio Morosine
Integrante da Oscip Preserv'Ação visita a comunidade de Rio Morosine
O
problema é que com a viabilização da mineração, que parece irreversível, na
hipótese do MPF e demais entidades não tomarem medidas impeditivas os aqüíferos
ali existentes secarão comprometendo o abastecimento de centenas de milhares de
famílias do município. Na comunidade de Brasília, situada no
próprio município, a atividade mineradora provocou a extinção de todas as
vertentes, cujas casas tiveram rachaduras, muitas delas viraram escombros
tragadas pelo solo. Nas várias ocasiões em que o proprietário da
companhia mineradora fora questionado acerca dos riscos que a mineração poderá
trazer para os aqüíferos, em nenhum momento deu garantias que a atividade seria
totalmente segura, admitindo que afetaria os mananciais subterrâneos. O
agravante é que em todos os pontos já minerados do município tiveram problemas,
portanto, é seguro que comprometerá também a área em questão.
Desabafou
o representante da comunidade, que a população tem culpa sim com que está
ocorrendo no município. Isso se deu no momento que depositou seu voto elegendo vereadores
e deputados estaduais comprometidos com o setor minerador totalmente insensível
às causas ambientais, em especial com os aqüíferos que abastecem os rios e os
mananciais públicos. O que causa mais indignação é ouvir da população opiniões esdrúxulas
desse tipo: “eu elegi o meu candidato”.
É uma visão estúpida, de extrema ignorância, pois na realidade elegeu
candidatos que vão legislar contra os interesses da própria população. Em
contato com os vereadores do município, relatou o representante da comunidade,
que não foi possível ter o apoio de nenhum deles, para a elaboração de um
projeto de lei com vistas à criação de uma APA (Área de Proteção Ambiental) que
atenderia uma área aproximada de 900 hectares. O legislativo do município é
totalmente comprometido com o setor carbonífero, muitos dos quais recebendo até
suborno para aprovação de projetos de interesse escusos.
Em
reunião realizada com o procurador do Ministério Público Federal, Dr. Darlan, prometeu
que será possível assegurar a aplicação de uma Ação Civil Pública ao
proprietário da mineradora a partir do momento que for efetuada a audiência
pública no município, sendo uma exigência legal para empreendimentos desse
porte. O MPF não tem poderes para impedir a realização da audiência pública que
tratará sobre a homologação do projeto mineração. No município de Treviso, o
legislativo em toda sua história jamais assumiu uma posição corajosa que
disciplinasse a prática mineradora restringindo as atividades às áreas constituídas
de reservas hídricos. Paradoxalmente todo município de Treviso está situado
sobre uma geografia constituída de inúmeros aqüíferos, dos quais abastecem os
rios que compõem a Bacia do Rio Araranguá. Em relação às multas postuladas às empresas
mineradoras por crimes cometidos, relatou o representante, que para as
corporações do setor torna-se cômodo pagar as multas e continuar minerando, visto
que os valores cobrados são insignificantes diante dos lucros obtidos.
O
que se conclui é que o próprio EIA- RIMA apresenta falhas na sua elaboração,
que mesmo assim, no momento que for apresentado em audiência pública, será
homologado sem ressalvas, pois a população do município se manifesta favorável a
abertura da mina. Fazendo-se a leitura da etapa conclusiva do EIA-RIMA se
constatou que o empreendedor tenta de todas as formas justificar que a área
pretendida pela empresa, constituída por nascentes, açudes, cursos d’água e
lagoas artificiais, não foram degradadas pela mineração de carvão, exceto um
trecho que no passado houve a prospecção em céu aberto. No entanto justifica que a região do baixo
curso do Rio Morasine, onde será instalada a empresa, não há drenagens naturais
que comprometam o manancial. Em visita realizada à comunidade, os dois
integrantes da Oscip Preserv’Ação, junto com o representante da associação,
constataram que existem sim, muito próximo do limite onde a empresa pretende
minerar, drenagens naturais de água que são captadas e filtradas pela ADM.
Vertente que abastece as comunidades de Rio Morosine e Volta Redonda
Integrante da Oscip Preserv'Ação observa vertente ameaçada pela extração do carvão mineral
Sistema de filtragem de água - Rio Morosine
O
que há segundo consta o relatório são extensas áreas já impactadas pela
ocupação do solo, edificações em APPs, supressão da mata ciliar,
reflorestamento por eucaliptos, bananais. Que as nascentes cadastradas
situam-se em local que apresenta algum impacto, não o impacto pelo carvão. O
relatório não descarta a possibilidade de alguma contaminação do lençol
freático devido ao contato da água com as camadas de carvão, que reagirão
quimicamente com a presença do oxigênio. O que se pode fazer é adotar medidas
mitigatórias, como o tratamento da água bombeada para a superfície.
No
documento também deixa claro que: “como qualquer atividade antrópica, a
operação da mina acarretará em impactos, tanto positivo, como negativos, na
área de interesse e seu entorno”. Partindo dessa premissa, não há qualquer
dúvida, que a audiência pública prevista para a apresentação do projeto se
constitui em um ritual apenas para formalizar e oficializar a legalização do
projeto. Tudo será minuciosamente preparado, a começar pela escolha do local, das
pessoas que comporão a mesa. O resultado da audiência, portanto, deverá
inquestionavelmente favorecer o empreendedor.
Sobre
os elementos impactantes observados no local pretendido para a mineração, o
documento se limita apenas em enumerá-los, se eximindo de esclarecer que quem
está impactando a área em questão são indivíduos que não integram a comunidade,
ou se integram não comungam com a filosofia adotada, que já foram indiciadas na
justiça por inúmeros crimes ambientais. A Associação vem atuando incansavelmente
contra todas as irregularidades verificadas, com ênfase ao reflorestamento das
encostas e topos dos morros com espécies exóticas, eucaliptos e pinos, que
também comprometem as nascentes.
Capa do EIA/RIMA
Impacto ambiental - Reflorestamento com eucaliptos
Impacto ambiental - eucaliptos em áreas de nascentes
O que
deve ser destacado na comunidade de Rio Morosine além do caráter preocupante da
mineração que ameaça todo ecossistema local é a proposta ou modelo de
organização social no qual estão inseridas cinqüenta famílias, que adotam
práticas de manejo integrado e sustentável do ambiente. São experiências inovadoras
que poderão servir de inspiração para outras comunidades que apresentam
características similares. A preocupação com a conservação da floresta e sua
relação direta com a presença e preservação das nascentes e aqüíferos é uma
delas.
Membro da Oscip Preserv'Ação conhece a Sede da Associação dos Moradores de Rio Morosine - Treviso
Acesso à comunidade de Rio Morosine
A
presença dessas famílias na comunidade, como de outras pessoas que dão apoio, convergem
para si o desafio de lutar bravamente contra as poderosas forças econômicas,
que guiadas pela ganância do capital colocam em risco todo um frágil ecossistema
que levou milhões de anos para se constituir. A preservação desse ambiente vem
sendo garantida mediante a supressão de atitudes individualistas e gananciosas
que sempre prevaleceram na cultura. Estimular hábitos saudáveis, de pouco ou
nenhum impactante ambiental, de cooperação, de trocas mútuas, de diálogo
permanente e de tomadas de decisões coletivas, são algumas conquistas já
obtidas pela comunidade de Rio Morosine.
Construção ecologicamente sustentável - Rio Morosine
Sistema de compostagem - Comunidade de Rio Morosine
O trabalho
de reciclagem de pneus virando arte; o reaproveitamento de lixo orgânico transformando
em adubo para alimentar a horta comunitária; o recolhimento seletivo do lixo
produzido; a construção de residências de baixo impacto ambiental; o trabalho
de educação ambiental com as crianças da comunidade, entre outras iniciativas
são práticas inovadoras que estão produzindo transformações significativas na
maneira como a comunidade vem pensando o ambiente. São práticas simples, porém,
de grande importância, que permite aos moradores e aos visitantes a terem
clareza que o ambiente que vivemos é parte de um complexo conjunto de ambientes
interligados e extremamente suscetíveis a impactos dependendo do grau de
consciência dos seus integrantes.
Separação e reciclagem do lixo
Horta comunitária - Rio Morosine
Biblioteca e Sala de Informática - Rio Morosine
O
que despertou o interesse em discorrer detalhe acerca do impasse envolvendo as
comunidades de Rio Morosine e Volta Redonda e uma empresa mineradora, ambas de
Treviso, é pelo fato dessa empresa e de outras do ramo carvoeiro querer
expandir suas áreas de extração para outros municípios ainda não submetidos à
mineração, como Maracajá, município vizinho de Araranguá. Quem nos garante que
situação semelhante e preocupante vivenciada pelas comunidades de Trevoso não
ocorrerão também em nosso município. Imagine uma empresa como a Belluno Ltda,
que está no epicentro dessa polêmica, venha a se interessar em fazer prospecção
de carvão em território de Araranguá, elabora um EIA/RIMA nos moldes
apresentados em Treviso, garantindo que a atividade proporcionará milhares de
empregos diretos e indiretos.
Qual
a justificativa que seria adotada pelo município para recusar tal
empreendimento? Talvez o argumento de que o município possui uma legislação
aprovada pelo legislativo restringindo a mineração no território, que tudo
indica é inconstitucional. Facilmente a legislação poderá ser derrubada pelo
empreendedor. Outro argumento é o impacto aos mananciais que abastecem o
município, cuja recarga depende dos aqüíferos existentes. Porém, nossos
aqüíferos e mananciais estão comprometidos pelo avanço da mineração de areia e
turfa nos limites do seu entorno. Como impedir o avanço da mineração de carvão adotando
o argumento de que ambos estão secando por outras formas de mineração tão
impactantes como o carvão. Diante disso
o município de Araranguá está desprotegido, podendo se tornar refém do cartel
do carvão se mantiver atitudes negligentes às práticas predatórias de empresas
mineradoras situadas nas proximidades dos mananciais.
Extração de seixos e a fragilização dos
rios da região
Outro
item discutido no encontro foi a extração de seixos rolados de forma
indiscriminada na comunidade de Serra da Pedra, município de Morro Grande.
Segundo um dos membros do comitê que esteve no local, o mesmo ouviu da comunidade
de irrigantes que a retirada do material está comprometendo a vazão da água do
rio com sérios riscos de secar. De acordo com a narrativa já há formação de
enormes crateras de 5 a 6 metros de profundidade, não respeitando muito menos
os limites mínimos das margens do rio como determina a legislações ambientais vigentes.
Que a empresa responsável pela extração do mineral é a SETEP, no qual é britado
por empresa terceirizada, transformando em componente para o asfalto. Após
exposição do ocorrido, foi proposto que o comitê encaminhe denúncia ao DNPM de
Florianópolis, para que envie técnicos para averiguar em loco se a empresa vem
cumprindo as normas legais. Um dos quesitos recomendados para esse tipo de ação
é a obrigação da empresa a apresentar projeto de lavra explicitando todos os
procedimentos que devem ser cumpridos. Após etapa concluída pelo DNPM, a
comunidade dos irrigantes deve acionar a FATMA para que proceda as sansões
previstas em lei.
Opiniões controvertidas acerca do
manancial Lagoa do Caverá
O
último assunto tratado na reunião foi sobre a audiência pública ocorrida no
município de Sombrio para tratar sobre a problemática que cerca as Lagoas do Sombrio
e Caverá. Jairo, que representa a comissão pró Lagoa do Ca verá, fez uma breve narrativa
do encontro, destacando que a proposta de unidade para a Lagoa do Sombrio se
estenderá para os mananciais da Lagoa do Ca verá e da Serra. Quando esclareceu
que é função dos municípios que fazem limites com a lagoa decretarem estado de
emergência, o diretor do Samae Araranguá, o retrucou admitindo que quem deve
tomar tal posição é o Estado, não os municípios, que não acredita que o governo,
um dia, irá executar a obra do vertedouro.
De
imediato, sua resposta recebeu severas críticas. O coordenador regional da
defesa civil lhe esclareceu é função sim dos municípios elaborarem o decreto
usando como justificativa que a água da lagoa está secando. Não entendo talvez
o que estava sendo proposto ou demonstrando total desconhecimento acerca do
caso da Lagoa do Caverá, continuou insistindo, tentando convencer a todos que
“desde quando os prefeitos citados irão construir a obra”? Insistiu em
perguntar, por que os municípios têm que decretar estado de emergência? Mais
uma vez, Rosinei da defesa Civil deixou claro que: O Estado pode ser acionado
pelo Ministério Público Estadual pela sua posição de negligência ao problema
apresentado.
Disse
que o município de Sombrio decretou estado de emergência em relação a lagoa do
Sombrio e foi contemplado com um milhão de reais. Criciúma, depois de quatro
decretos de situação de emergência foi contemplado com 75 milhões de reais. O
processo de decretação não é complexo, é só justificar os motivos, que no caso
da Lagoa do Caverá, não poderá ser feito individualmente, por ser o manancial
um recurso estadual.
Prof.
Jairo Cezar
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