POR
QUE LUTAR PELA PROTEÇÃO DE GRUPOS TRADICIONAIS QUE POVOAM TERRAS DO EXTREMO SUL
DE SANTA CATARINA?
| Foto - Jairo |
Com
a ocupação colonial portuguesa no território brasileiro a partir do século XVI,
a população original foi submetida à escravidão, sendo que parte expressiva
dela foi dizimada pelas doenças trazidas pelo invasor europeu. Mais tarde o
rendoso comércio de negros africanos fez substituir o trabalho indígena pelo
africano, sendo utilizados na atividade da cana de açúcar, mineração, café,
farinha de mandioca, entre outras atividades como o trabalho doméstico na “casa
grande”.
Com
o fim oficial da escravidão, que se deu por meio da assinatura da Lei Aurea em
1888, milhares de negros libertos foram jogados literalmente para fora das
fazendas, aqueles que tiveram mais sorte foram absorvidos como trabalhadores
meeiros, assalariados e tendo que se virar para sobreviver as agruras do
preconceito impregnado no imaginário coletivo brasileiro. As produções
historiográficas que tiveram como objeto de investigação a escravidão no Brasil
apresentavam até pouco tempo frágeis menções do trabalho cativo no sul do
Brasil.
O
que se sabe é que a região sul recebeu levas significativas de imigrantes
europeus, italianos, alemães, poloneses, que ocuparam áreas cuja presença de
indígenas e de caboclos não era tão desprezível. Existem vastas fontes
historiográficas que comprovam o processo de limpeza étnica no Sul, a partir da
captura de originários ou até mesmo da execução em massa. Outras fontes revelam
a presença de aglomerados luso africanos no interior, sul de Santa Catarina, terras
das quais os ocupantes “caboclos” não possuíam títulos de posse.
A
visibilidade/invisibilidade da presença africana no sul de Santa Catarina, hoje
densamente constituída por descendentes europeus, foi revelada a partir da
pesquisa realizada pelo professor Antônio Cesar Spricigo, cujo título é Sujeitos
Esquecidos Sujeitos Lembrados. A investigação trouxe a luz um cenário
impressionante do sul do estado, no qual o trabalho cativo foi instrumento
imprescindível na formatação econômica e política de todo o território fronteiriço
com o estado rio grandense. A obra
desconstrói alguns conceitos ainda impregnados no imaginário coletivo de que a
escravidão se deu seguindo preceitos um tanto homogêneos como a existência quase
obrigatória da casa grande e da senzala.
O
que se observou foi, sim, o uso do escravo negro nas médias glebas de terras no
manejo do solo, no plantio e beneficiamento da mandioca e da cana de açúcar,
atividades pelas quais projetou a região do Araranguá no cenário estadual e
nacional, até mesmo internacional. É claro que o contingente de cativos no
grande Araranguá era relativamente inferior às das demais regiões do país, sudeste
e nordeste, por exemplo, porém, havia exceções, por ter existido alguns
senhores com planteis significativos de escravos, contendo mais de 30 escravos.
As
relações entre senhores e escravos no sul seguiram critérios um tanto atípicos
daqueles presentes em muitas obras escritas sobre o tema. Não se percebia uma
relação hierárquica um tanto refratária entre o cativo e o senhor, ambos até
mesmo compartilhavam o mesmo cômodo ou vivendo nu puxadinho anexo a casa do
senhor. A carência de recursos também obrigava o proprietário a construir
rudimentares engenhos cobertos com palha, e que tal realidade se replicava nas várias
residências dos senhores, cujas residência, geralmente, o assoalho, era de
terra batida e o telhado de palha.
Ter
um escravo era a garantia de acumular expressivo patrimônio, cuja venda
assegurava recursos relativamente suficientes para a aquisição de mais glebas
de terras, equipamentos de trabalho, e certa visibilidade no cenário social e
político. Convém destacar que nos inventários Pós-Mortem, destacados na obra do
professor Spricigo, entre os anos de 1841 a 1890, o período de maior incidência
de trabalho escravo no grande Araranguá, foi no decênio de 1861/1870. Dez anos mais
tarde, 1880, possivelmente decorrente desse boom econômico regional,
impulsionou essa nova elite agrária em ascensão em lutar pela emancipação
política administrativa do distrito.
Outro
aspecto um tanto curioso visto na obra do professor Sprícigo sobre a escravidão
em Araranguá foram os casos de cativos de terem obtidos cartas de alforrias por
meio da compra, ou seja, acumulavam certa soma financeira, suficiente para
indenizar o proprietário. Essas prerrogativas a favor do escravo se deram por
meio de normativas, legislações, que se sucediam ao longo do tempo. A Lei do Ventre
Livre, de 1871, assegurou “liberdade” ao cativo a partir do seu nascimento.
Devido a fragilidade das estruturas jurídicas em âmbito distrital/municipal/estadual,
os distritos/comunidades distantes das sedes administrativas, Araranguá em
especial, a presença do Estado como agente regulador/fiscalizar das novas
normatizações se mostrava inexistente. Entretanto, demorou muito tempo para que
fosse aqui estabelecido um satisfatório arcabouço institucional que desse algum
suporte ao cidadão negro/escravo/liberto.
A
visibilidade/invisibilidade do negro africano no sul de Santa Catarina se mostrou
relevante com a homologação de terras quilombolas, ou seja, territórios dos
quais no passado foram ocupados por escravos fugitivos e libertos. Aqui na
região sul de Santa Catarina temos dois quilombos da Pedra Afiada, comunidade de
São Roque, no município de Praia Grande, e o da Maria Rosalina, no perímetro
urbano do centro do município de Araranguá. Conhecer os dois territórios
permite entender suas histórias e suas permanentes lutas de resistência e
existência. Visitar o quilombo da Pedra Afiada nos faz refletir sobre
preconceitos que ainda povoam nosso imaginário acerca do dia a dia dessas
comunidades. Geralmente fazemos confusões acerca das suas organizações, como disposição
das residências, como sendo de uma aldeia indígena ou na própria hierarquia de
gestão.
Outro
aspecto revelador no quilombo de Praia Grande é que ele se fez junto as bordas
de uma das importantes trilhas de tropeiros que ligou as fazendas do topo da
serra ao litoral entre os séculos XVIII, XIX e início do XX. Além do trabalho
escravo no cultivo da mandioca e da cana de açúcar no litoral, na parte
serrana, fronteira com o estado catarinense, houve o emprego cativo no manejo
do gado das fazendas de cima da serra. As características observadas da trilha
na qual fizemos até o topo da serra, comprovou a quantidade de vezes que aquele
caminho foi usado pelos tropeiros e posteriormente pelos pés de escravos.
As
obras escritas até então sobre redutos de negros fugitivos no extremo sul do
estado catarinense eram bem discretas até pouco tempo. O livro do professor Sprícigo
procuro discorrer o caso do quilombo São Roque, trazendo trecho escrito pelo
historiador Gilberto Ronsinim. Nas palavras de Sprícito, Pedra Branca merece
especial atenção pois, conforme o autor Ronsinim, esse local era um antigo
refúgio de escravos e que a falta de registros sobre o local deveu-se à
necessidade dos escravos foragidos manterem-se bem escondidos. Afirma que o
primeiro morador da região Pedro de Souza Fagundes, nasceu em 1824, falecendo
em 1916.
Conhecer
as peculiaridades relativas a ocupação indígena e africana que moldaram junto
com outros povos o complexo cenário social e econômico do sul de Santa Catarina
pode contribuir para desmistificar preconceitos que ainda permeiam nosso
imaginário. A leitura, a pesquisa, bem como visitas em comunidades
tradicionais, como indígenas e quilombolas, revelam realidades desconhecidas
para a maioria da população. Saberes em relação ao modo de cultivo da terra, dos
animais, os ritos tradicionais, a culinária, a arte, são aspectos que nos faz
pensar que é possível sim viver sem destruir nossos ecossistemas.
| Foto - Jairo |
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Prof.
Jairo Cesa
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