AS POTENCIALIDADES TURÍSTICAS DO LITORAL
CATARINENSE E A POUCA INICIATIVA NESSE SETOR NO MUNICÍPIO DE ARARANGUÁ.
No
final de 2016, três decretos foram homologados pela administração municipal de
Araranguá criando uma APA (Área de Preservação Permanente), uma RESEX (Reserva
Extrativista) e um MONA-UC (Monumento Natural-Unidade de Conservação), ambos no
balneário Morro dos Conventos, comunidade de Morro Agudo e Ilhas. A partir da data
da assinatura dos decretos, as tramitações para a concretização das etapas, como
os planos de manejo, permanecem estagnadas até o momento. Os motivos, no
entanto, se baseiam em interesses adversos do pretendido pelos decretos, que é
fortalecer o empoderamento das comunidades locais na gestão desses ecossistemas,
assegurando a proteção e o desenvolvimento econômico sustentável do município.

Não
é de hoje que está se lutando pela criação dessas unidades no município.
Entretanto, é decepcionante saber que administrações públicas aliadas a seguimentos
econômicas retrógrados tratam com desdém propostas tão necessárias que a
exemplos de outros municípios do estado, atraem milhares de turistas todos os
anos, criando milhares de vagas de emprego às comunidades envolvidas.
Um
curto Tour pela Ilha de Florianópolis, lado sul, foi suficiente para entender porque
Florianópolis atrai numero grande de turista o ano inteiro, principalmente na
alta temporada de verão. Imaginei que o fator praias fosse o principal vetor
desse desejo obsessivo de visitar a capital dos catarinenses. Sem excluir esse
elemento motivador, outros fatores como os pequenos vilarejos com sua
arquitetura preservada que acentua a presença lusa açoriana; a culinária
tradicional e o turismo de aventura completam o farto roteiro de atrações que
forçam o visitante a estender sua estadia capital por mais tempo.
O
que surpreendeu no curto tour pela ilha de santa Catarina foi saber que tais
peculiaridades lá observadas, não são exclusividade da capital, vários
municípios catarinenses litorâneos apresentam atrativos semelhantes, porém,
permanecem a mercê de gestores e de elites econômicas que não almejam alterar o
cenário de status quo permanentes que muito lhes interessam.
A cada
dia mais me convenço que o sul de Santa Catarina permanece estagnado social e
economicamente devido ao modo como essa região é gestada pelas elites locais.
Essa certeza se fundamenta na observação na qual tive diante das inúmeras
viagens que realizai em países de quatro continentes, exceto a Oceania. Países há
pouco tempo estagnado por guerras genocidas como o Camboja e o Vietnã, recebem
juntos muito mais turistas mensalmente que a soma total recebida pelo Brasil em
um ano inteiro.
Atualmente o turista que viaja pelo mundo vai em busca de conhecimento e diversão. Quanto
mais opções disponibilizadas maior o tempo de permanência no país ou na cidade
visitada. No roteiro de três dias que programei à ilha de Florianópolis, foi possível
visitar o Parque municipal da lagoa do Peri; as praias do Campeche, Matadeiro, Sambaqui
e um passeio por uma complexa trilha no Ribeirão da Ilha, extremidade sul, da
qual leva o visitante a isolada praia dos naufragados, onde há um farol
inaugurado em 1861.
Cada
um dos locais visitados daria subsídios para escrever um livro, tamanha a
beleza e as peculiaridades observadas. Não ficou só nisso, na área central da
capital, o visitante pode desfrutar de outros atrativos culturais, trafegarem
pela histórica e recém reinaugurada ponte Hercílio Luz e o museu Cruz e Sousa.
O que chamou a atenção durante o percurso feito ao centro da capital, em plena
manhã de domingo, foi a tranqüilidade de caminhar pelas ruas e outras vias que
em dias normais são quase que intransitáveis.
O
histórico museu Cruz e Sousa estava com suas portas abertas com três exposições
importantes: uma sobre imagens e objetos retratando a edificação da ponte Hercílio
Luz; outra sobre cadeiras na história e em diferentes sociedades; por fim, duas
salas expondo documentos, objetos e fotografias sobre a vida e trajetória de
dois ex-governadores de Santa Catarina, Jorge Lacerda e Antônio Carlos Konder
Reis.
Quanto
as singulares belezas naturais, não havia como deixar de mencionar com mais
detalhes a Lagoa do Peri, transformada em monumento natural municipal, da qual
abastece parcela significativa da população da ilha com água. Na década de
1990, quando integrava a ONG Sócios da Natureza, tive a oportunidade de
conhecer esse complexo manancial junto com outros membros da entidade. Naquela
ocasião, a mesma apresentava características bem rústicas e com elevado volume
de água, bem diferente do que hoje é revelado.
O
que me surpreendeu dessa vez foram as transformações ocorridas no local,
convertida em monumento natural, na qual garantiu o credenciamento “Bandeira Azul”,
uma titulação internacional concedida as praias e lagoas que se comprometem a
cumprirem certos requisitos ambientais. Em 2016 publiquei artigo no meu blog
dissertando sobre esse tema. Naquela ocasião dois balneários no estado haviam
sido contemplados com o selo bandeira azul, o balneário Palmas, em Celso Ramos
e o manancial Lagoa do Peri.
https://draft.blogger.com/blogger.g?blogID=8334622275182680372#editor/target=post;postID=1545551493389097896;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=257;src=postname
https://draft.blogger.com/blogger.g?blogID=8334622275182680372#editor/target=post;postID=1545551493389097896;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=257;src=postname
A
intenção do texto era ressaltar a importância ambiental e turística da
respectiva titulação, bem como chamar a atenção das autoridades do município de
Araranguá para que também abraçasse essa causa. Um dos elementos motivadores à
inscrição à obtenção do selo se fundamentava no fato de estar tramitando no
município proposta de criação de unidades de conservação, como de fato ocorreu
no final de 2016. Uma única vez, em 2018, numa das reuniões do comitê do
projeto orla, o ex-presidente do comitê fez menção ao tema, até propondo lançar
o município como candidato ao selo. A ideia não germinou, morrendo ali mesmo.
Em
Florianópolis, um dia foi insuficiente para explorar todos os atrativos
oferecidos pela Lagoa do Peri, forçando a mim e o meu filho a retornarmos no
dia seguinte, agora para nos banharmos na água limpa do manancial. No dia
anterior, quando adentramos ao parque, por cerca de uma hora, realizamos um
passeio caminhando por uma das trilhas lá existente. Imagino que quem aprecia
trilhas deve ter ficado maravilhado com incomparável beleza desfrutada no
percurso. Desde o começo até o término do trajeto existem inúmeras as placas
informativas descrevendo aspectos da flora, fauna, entre outras.
.
O parque também abriga um centro de
recuperação e educação ambiental de animais silvestres, com destaque a Lontra,
um dos mamíferos endêmicos da região. Em contato com dois funcionários do
parque, uma bióloga e um geógrafo, os mesmos mostraram o horto florestal, onde
são cultivas espécies da flora nativa, destinadas ao reflorestamento do parque.
Na entrada do parque estava a sede administrativa, uma construção que serve
também para promover exposições de projetos ambientais diversos. Na parede da
sede estavam quatro bandeiras azuis penduradas.
Desde
o momento que parque foi contemplado com selo bandeira azul, em 2015, todos os
anos o credenciamento é revalidado por estar em conformidade com os critérios
recomendados. Na entrada do lago estava pendurada no mastro a quinta bandeira
azul, referente aos anos de 2020 e 2021. Conforme relatou uma funcionária
responsável pela segurança no parque, ela informou que houve expressivo aumento
do fluxo turistas nacionais e estrangeiros visitando o parque. Acredita ela que
o um dos fatores motivadores do aumento da demanda deve ser o selo Bandeira
Azul.
Há
muito tempo as águas da lagoa do Peri abastecem parcela importante da população
de Florianópolis. Lembro que na época que lá tivemos, uma das preocupações das
entidades ambientais era com o risco da mesma vir a secar, com o aumento da
demanda por água e permanentes estiagens. Foi exatamente o primeiro aspecto que
me chamou a atenção quando entramos no parque. A distância da margem à ao
espelho d’água da lagoa era de aproximadamente cinqüenta a cem metros.
Conforme
relatou um dos moradores do entorno e freqüentador do parque, o mesmo afirmou
que houve uma redução de cerca de um metro de água da lagoa, devido a longa
estiagem que se abate na região. O problema de uma possível escassez de água
não é exclusividade apenas da lagoa do Peri. Quase todos os mananciais de água
doce do litoral catarinense vêm enfrentando esse drama há anos. Uma das causas
principais é a falta de planejamento dos administradores que colocam a fator
hídrico nos seus planejamentos de urbanização.
Araranguá
e outros municípios do extremo sul do estado não incluem a oferta de água nos
seus programas urbanísticos de médio e longo prazo. Duas das principais lagoas
da região, a Lagoa do Caverá e do sombrio, continuam secando sem que qualquer
medida para evitar essa tragédia seja executada. O fato é que a região costeira
do extremo sul do estado vem tendo um crescimento populacional expressivo. Se o
tema mananciais hídricos não for definido como prioridade nos planos diretores
municipais, a região terá problemas sérias de abastecimento muito mais rápido
do que se imagina.
Sobre
as potencialidades turísticas da região do extremo sul de santa Catarina, é
importante salientar que apresenta características semelhantes ou até melhores
que de outras regiões do estado. No entanto, o número de turistas que são
atraídos para essa região é insignificante. A resposta está na fragilidade
infraestrutural, a exemplo de Araranguá, que possui uma faixa costeira que
quase iguala a Ilha de Florianópolis em potencialidade. A criação de três
unidades de conservação em 2016 representou um caminho importante e necessário
a uma possível guinada econômica.
Tudo
permanece estagnado, sem qualquer perspectiva de que algo relevante possa o
ocorrer na atual administração. A única coisa que nos conforta é saber que os
decretos de criação das unidades permanecem válidos. Mas já houve tentativas de
descaracterizá-los, como no decreto que criou o APA, com supressão de
dispositivos importantes. O que poderá salvar as demandas elencadas no projeto
orla, dentre elas os decretos da UCs, é a escolha de um gestor público e
legisladores comprometidos com a causa ambiental e turística no município.
Na
hipótese de tal desejo não se concretizar continuaremos amargando por mais
quatro anos o triste posto de uma das regiões mais atrasadas economicamente do
estado de Santa Catarina. No dia 23 de janeiro de 2020, veio a confirmação de região
mais atrasada do sul do estado. Um dos jornais de circulação regional trouxe reportagem
comparando os níveis de crescimento econômico relativo à 2018/2019, entre as
regiões da AMUREL, AMREC e AMESC.
Enquanto
as regiões da AMREC e ANUREL tiveram um crescimento positivo de 3 a 7%, a
AMESC, decresceu, atingindo -0,48%. Quantas e quantas vezes, políticos e
empresários na região da AMESC, comungam a mesma opinião de que atrair
indústrias é o único caminho para alavancar a economia da região. Enquanto esses
equívocos argumentativos permanecerem, dificilmente a AMESC, Araranguá em
especial, continuarão com esses baixos coeficientes econômicos.
A
região da AMESC tem uma vocação para o turismo, essa é a indústria sem chaminé
e rentável que deveria permear o pensamento de todos os políticos, empresários
e da população. O geossítio caminho dos cânions, envolvendo quatro municípios
catarinenses, Praia Grande, Jacinto Machado, Turvo, Timbé do Sul e Morro
Grande, é um bom exemplo de iniciativa que poderá alavancar a economia da
região.
Já Araranguá que não foi inserido do projeto
geossítio, deve concentrar todos os esforços na efetivação dos decretos que criaram
a APA, a Resex e o MONA-UC Morro dos Conventos. No entanto, o cenário ora
revelado não é muito alvissareiro na atual gestão. O legislativo, o executivo,
toda vez que lançam opinião sobre o turismo, com ênfase ao Morro dos Conventos,
se esquivam em falar sobre PGI, que dentre as demandas elencadas estão as
Unidades de conservação. Então o que nos
resta é torcer que sejam eleitos nas próximas eleições, legisladores e um
gestor público com olhares mais focados a um projeto de desenvolvimento voltado
ao turismo sustentável.
Prof.
Jairo Cezar