quinta-feira, 23 de julho de 2026

 

AGRICULTURA REGENERATIVA COMO RESPOSTA A FALÊNCIA DA REVOLUÇÃO VERDE?

https://www.agenciacidades.com.br/reportagens/producao-e-comercio-de-bioinsumos-sao-regulamentados-no-pais/656/


No dia 20 de julho de 2026, o programa Roda Vida, da TV Cultura, trouxe como entrevistada a Engenheira Agrônoma e Pesquisadora da EMPRAPA, Maria Hungria. Acredito que quem assistiu deve ter ficado impressionado com sua extraordinária desenvoltura em temas atualmente relevantes na atividade produtiva agrícola, como a prática regenerativa e o uso de bioinsumos. O que vale ressaltar acerca dessa atividade, principalmente quando o Brasil se coloca hoje com um dos protagonistas na pesquisa e produção em larga escala, é que, paradoxalmente, o país é líder mundial em consumo de agrotóxicos.

Afinal, como explicar essa virada de página abrupta de um setor com forte representatividade no congresso nacional, que consegue convergir a favor dos seus pares os debates sobre supressão ou flexibilização de dispositivos legais que lhes interessam? Não há dúvida que se o Brasil atingiu o know-how de excelência sobre bioinsumos, sem dúvida o mérito é da ciência, das instituições de pesquisas, setores esses tão atacados, tão desprestigiados por negacionistas extremistas de plantão.  

A mudança de rumo acerca do manejo da agricultura brasileira, atualmente dominada por exportação de comodities, como a soja, o algodão, o milho, o café etc., não se deve atribuir como elemento motivador à repentina consciência ambiental. Tem relação sim ao avanço da ciência, o forte movimento agroecológico e as mudanças de comportamentos das populações consumidoras, que cada vez mais estão se tornando rigorosas na aquisição de produtos com zero ou baixo impacto ambiental.

Para um país que importa mais de 80% dos insumos químicos utilizados na grande agricultura, as guerras em curso envolvendo países exportadores de insumos imprescindíveis, os bioinsumos passaram a ser uma excelente alternativa aos químicos. Entretanto, como tudo no Brasil se fundamenta no lucro, para as indústrias desse segmento, se mostra muito mais rentável exportar bioinsumos, principalmente para a Europa, porque lá os preços pagos por cada quilo exportado são absurdamente superiores aos comercializados aqui.  

A pesquisadora afirmou que 1 (um) real gasto em pesquisa pela EMBRAPA o retorno para a sociedade atinge os 25,7 reais. Destacou também que o uso de bioinsumos se caracteriza como excelente regenerador do solo, bem como de um recurso eficiente no processo de adaptação climática. Em solos tratados por produtos naturais as plantas conseguem se adaptar melhor durante longos períodos de estiagens, se tornado mais resilientes. Uma das críticas feitas pela pesquisadora foi em relação ao Plano Nacional de Bioinsumos, porque, segundo ela, pode prevalecer interesses do mercado e do agronegócio à revelia da ciência. Ressaltou que foi contra a proposta de permitir a produção individual de bioinsumos sem uma inspeção adequada de profissionais. “Estamos lidando com elementos vivos, bactérias, por exemplo”, alertou a pesquisadora.

Em resposta, a EMBRAPA encaminhou nota técnica afirmando que usar microorganismos no solo exige rigor técnico, ou seja, os produtos devem ter sido produzidos seguindo protocolos rigorosos de fabricação. Os microorganismos não conhecem barreiras, qualquer erro no seu manejo, pode-se estar espalhado elementos patológicos, ou seja, elementos vivos maléficos, pondo em riscos ecossistemas inteiros.

O debate sobre os bioinsumos tende-se a ficar mais tensionado com o passar do tempo e isso já vem ocorrendo a partir da aprovação da lei n. 15.070/2024, que dispõe sobre a produção, importação, exportação, comercialização, entre outras demandas relativas aos bioinsumos. Entretanto, mesmo diante da lei aprovada, críticas vêm sendo desferidas ao governo pelo atraso na regulação da respectiva lei, como os futuros decretos regulamentadores, as portarias, das quais irão detalhar e garantir a fiel aplicação da lei vigente.

Acessando alguns sites que discorrem sobre a regulamentação, óbvio que são de canais que convergem interesses dos segmentos do agronegócio, todos são unânimes em afirmar que a lei de bioinsumos será a “revolução da agricultura moderna”. São argumentos estranhos porque até pouco tempo esses mesmos que agora defendem ardorosamente o emprego de microorganismos no manejo agrícola, criminalizavam qualquer um que defendesse esse sistema na agricultura, alegando ineficiência e incompatibilidade ao modelo tradicional, considerado altamente eficiente e lucrativo.

Na realidade, o que vê é um setor que busca se apropriar o que a agroecologia vem aplicando há muito tempo, que ocupa uma fração do mercado que o grande produtor tenta se apoderar. Repito, não é por um despertar de consciência evolutiva que os bioinsumos entram no radar desse segmento, mas por fatores econômicos, perdas de lucratividade e da forte dependência de insumos externos. Imagine agora ver grandes corporações que dominam o mercado de sementes e insumos químicos, tendo o risco de terem os seus lucros bilionários reduzidos, porque sabem que o agricultor pode usar o conhecimento da ciência para produzir o seu fertilizante, o seu repelente biológico, com custo quase zero.   

A agroecologia, a exemplo da rede ECOVIDA, que integra os três estados do Sul, junto com o MST já conquistaram essa hegemonia, esse empoderamento aos insumos biológicos no seu manejo diário há muito tempo. O fato é que o grande capital, associado as mídias conservadoras sempre procuraram taxá-los, a exemplo do MST, como movimentos subversivos, invasores de terras, que comprometem o desenvolvimento do dito carro chefe da economia brasileira, o agronegócio. Não nos surpreenderá quando virmos e ouvirmos líderes de corporações e ancoras de sites ligados a agricultura convencional, estufam o peito afirmando que a agricultura regenerativa é a solução às emergências climáticas e as crises de insumos.   

De fato, o que vemos é a usurpação de um conhecimento que a agroecologia vem aplicando na regeneração de ecossistemas, sem o mínimo de pretensão de apropriação das patentes ou inóculos para obter lucros. A Rede ECOVIDA de agroecologia, constituída por 34 núcleos regionais, 436 grupos, 2848 famílias envolvidas em 352 municípios dos três estados do Sul, se destaca como movimento com elevada experiência e expertise na produção e comercialização de alimentos isentos de qualquer resíduo químico.

Infelizmente ou felizmente, tanto a rede ECOVIDA como demais segmentos afins são regidos por legislações que impõem aos envolvidos o cumprimento de protocolos rígidos acerca do manejo e comercialização. O processo da rede, no entanto, se dá de modo distinto de outras categorias no segmento agroecológico. No lugar de procedimentos auditados de inspeção, a rede adota o sistema participativo, onde cada família, cada grupo, cada núcleo, tem o compromisso ético de zelar pelas regras estatutárias, com riscos de serem penalizados, bem como de toda a rede. O Ministério do Meio Ambiente e Produção Agrária – MAPA, impõe uma série de regramentos aos produtores agroecológicos, como instalações de barreiras naturais para impedir a contaminação por agrotóxicos e variedades modificadas, os transgênicos.

Com a liberação dos bioinsumos, permitindo, quem sabe, que agricultores tenham as suas próprias biofábricas, o risco é produzir microorganismos patológicos, ou seja, seres vivos altamente prejudiciais à toda biótica, não é mesmo? Se na agroecologia já se tem bem definido os protocolos sobre o seu manejo, cujo MAPA é o responsável pela inspeção, com a difusão das fábricas de bioinsumos por todos os cantos, será que o fator ético dos seus proprietários prevalecerá entre os pares vinculados ao grande capital?

Prof. Jairo Cesa     

 

https://www.youtube.com/watch?v=WXqvjoWJlVo

       

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