terça-feira, 20 de outubro de 2026

 

AINDA HÁ TEMPO PARA IMPEDIRMOS QUE A BARBÁRIE SE INSTALE NO BRASIL 


https://www.instagram.com/p/DeCVPImgUKg/

Durante minhas tarefas diárias de professor por aproximadamente quarenta anos, sempre me deparei com turmas, ensino fundamental, por exemplo, de um ou mais estudantes que insistiam desvirtuar o grupo com atos de rebeldia. Claro que os comportamentos inapropriados à cultura discente, geralmente tinham relações de  caráter emocional/afetivo, advindas do grupo familiar onde a criança/adolescente estava inserida. Mas afinal, por que cargas d’água trago o exemplo de crianças rebeldes para a construção narrativa desse texto? A resposta está no debate eleitoral promovido pela Rede Band de Televisão, no último domingo, 18/10/ com os candidatos presidenciáveis Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva.

Desde a redemocratização do Brasil, nos pleitos eleitorais ocorridos sempre foi hábito as emissoras de TV abertas realizarem os seus debates eleitorais, como forma de levar ao público as propostas dos candidatos nos diferentes segmentos. Acontece, que o debate ocorrido no último domingo seguiu um padrão que se distinguiu dos convencionais, ainda mais quando estiveram frente a frente duas pessoas defendendo programas ideológicos distintas, um insistindo na permanência da democracia, ou outro, a instalação da barbárie, por meio da entrega literal do Brasil ao imperialismo estadunidense.

Era de se imaginar que o candidato que integra a ala ultraconservadora, se utilizasse de todo o tipo de manobra espúria  a disposição para tentar tumultuar o debate ou confronto, termo utilizado pela mediadora do respectivo canal de TV. Por quase quinze minutos, quando os candidatos tiveram esse tempo para confrontar suas propostas, o que se viu foi um ataque sem limites do candidato extremista ao seu oponente, com ilações falsas e posturas  que fogem completamente ao nível de um estadista que pretende ocupar o posto de presidente da república.

Agora, o que causou indignação a milhões de expectadores, claro que exceto  da bolha bolsonarista, foi a insistente presença do candidato Flavio sempre se postando atrás do candidato Lula, quando estava com a palavra. Como uma assombração, ele movimentava a cabeça/corpo, como querendo negar o que o oponente dizia, com nítidas intenções de deslocar a atenção do expectador, atitude semelhante ao moleque do fundo da sala, como ressaltei acima. Esse ardiloso método foi utilizado durante a campanha eleitoral nos EUA, pelo candidato Trump contra a democrata e Hilary Clinton. Imagens do debate, exibem Pablo Marçal fazendo gestos direcionados ao candidato Flavio, para que se postasse atrás de Lula e movimentasse a cabeça, negando o que o candidato afirmava.     

    Teve o momento em que a mediadora do debate precisou interrompê-lo e chamar a atenção do candidato Flavio, solicitando que se comportasse para que o debate/confronto tivesse prosseguimento. Essa atitude, acredito que milhões de professores que estavam acompanhando o desenlace dos dois candidatos, certamente lembraram do estudante, do moleque do fundo da sala, que insistentemente perturbava o desenvolvimento da aula. Foi exatamente o comportamento do candidato Flavio, o moleque, malandro, pouco inteligente, porém, preparadíssimo para tumultuar, deslocando toda a atenção para si.

Penso que muitos devem ter ficado perplexos quando o candidato Flavio mencionou a presença na plateia dos seus “queridos apoiadores”, o ex-ministro da Justiça do presidente Jair Bolsonaro e governador eleito do Paraná, Sérgio Moro; e o ex-Procurador da República e agora Senador eleito pelo Paraná, Deltan Dallagnol. O que deve ter passado na mente de muita gente é, como assim, companheiro, alguém que na época o ministro Moro o odiava, pelo fato de o presidente Bolsonaro ter demitiu o Diretor-Geral da Polícia Federal sem o consentimento do Ministro da Justiça. Essa atitude autoritária do presidente, motivou o pedido de demissão do ministro Moro da pasta da justiça. A troca do diretor-geral foi arquitetada pela família Bolsonaro com o intuito de proteger-se de investigações por crimes cometidos.  

Propostas como transformar o Serviço Único de Saúde - SUS em padrão hospital Albert Einstein; criação do Ministério da Prosperidade, entre outras maluquices, ecoaram da mente estúpida de um cidadão que não apresenta o mínimo de qualificação ao relevante cargo que é o de Presidente da República. Penso que, aqueles que possuem o mínimo de discernimento acerca do que é certo ou errado, deve ter assimilado o erro que será ir à urna do domingo, 25/10/ e votar no 22.

Como historiador que sou, por 40 anos aproximadamente trabalhei na Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina, e alimento todas as convicções que, na desastrosa hipótese de sagrar-se presidente, seu mandato será mais autoritário que os tristes 20 anos do regime militar. Os generais, com algumas exceções, se apresentavam como nacionalistas, ou seja, defendiam arduamente a soberania nacional, em momento algum esboçaram discursos propondo entregar nossas riquezas a qualquer outro pais.

O candidato ultradireitista defende abertamente abrir as fronteiras do Brasil a vossa majestade Donald Trump, que irá se apropriar do que temos de mais precioso para assegurar a nossa soberania no futuro, as extraordinárias reservas de terras raras, principalmente o nióbio, pois concentramos a maior reserva desse importante mineral. E agora, depois de tanto esclarecimento, de tantos alertas, será possível que as pessoas, a classe trabalhadora, por exemplo, manterá sua posição de eleger alguém que promete destruir tudo o que conquistamos em décadas de luta e sofrimento?

Não podemos retroceder décadas, séculos de história. Recuperar um país destruído demora muito tempo. Não podemos colocar em risco de sofrimento duas ou mais gerações, como foi o regime militar. Ainda hoje vivemos os reflexos negativos desse perverso momento da nossa história, que reprimiu, prendeu e matou muita gente, pelo fato de defender as liberdades constitucionais, o direito de existir, de pensar de acordo com suas convicções e valores. O projeto da extrema direita, chancelado pelo candidato Flávio Bolsonaro, é calar quem pensa diferente, comportamento visto de grupos apoiadores e simpatizantes atacando aqueles que defendem opiniões contrárias à bolha extremista.

Imaginamos um presidente que tenha ao seu lado um congresso tomado por parlamentares do mesmo partido que o seu, resguardado por um vasto guarda-chuva de partidos associados; um número acachapante de governadores e prefeitos que seguem essa mesma lógica; um STF majoritariamente aparelhado ao governo federal, será que tantos exemplos não abram os olhos de que e estaremos sob a égide da ditadura? Não precisamos esperar para ver o que dá, temos que cortar essa mal pela raiz, e tem que ser agora, domingo, votando não à quadrilha que quer se apropriar da nossa Pátria Amada Brasil.

Não duvide, o governo Bolsonaro será letal às classes trabalhadoras, porque terá como escudo, a força militar e persuasiva dos Estados Unidos. Ainda há tempo, porém, temos poucos dias para trocar nosso voto e eleger o candidato da democracia, da civilização, que é contrário a barbárie, Lula da Silva – 13. Outra alerta relevante, acredite, o cenário político atual brasileiro é similar à Alemanha de 1933, quando ocorreram eleições democráticas e o eleito foi nada mais nada menos que Adolfo Hitler, sendo que o resultado não preciso expor aqui.

Prof. Jairo Cesa

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

 

 OPERAÇÕES PSICOLÓGICAS OU (PSY OPS) QUE ATUAM NA DESESTABILIZAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO

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 Há mais de quinhentos anos, os territórios habitados por civilizações antigas como os Astecas, Incas, Maias, Tupinambás e Guaranis, entre outros, foram invadidos pela fúria destrutiva da colonização espanhola e portuguesa. Impuseram aqui suas culturas, suas práticas prejudiciais, saqueando nossas riquezas, nosso ouro, nossa prata, nossa madeira e escravizando a população local. Este processo de colonização nas Américas nunca cessou; enquanto Espanha e Portugal entraram em declínio econômico, a Inglaterra, o grande império dos cinco mares, assumiu o controle, mantendo o domínio sobre o território, mesmo que fossem nações "independentes", mas ainda vassalas da sua majestade.

No século XX, a ex-colônia britânica, os Estados Unidos, emergiu como uma potência regional. Por meio de negociações e acordos com a vossa majestade imperial britânica, tomou as rédeas do que se tornaria o enorme quintal econômico estadunidense. O tempo passou, guerras sangrentas ocorreram, incluindo a violenta guerra fria, assim como mudanças significativas nos domínios econômico e tecnológico, levando nações a desafiar o poder do grande império do norte. Entramos no século XXI, é a era da internet, das mídias digitais e da inteligência artificial; tudo isso combinado impõe àquelas populações que não se alinham a uma governança tecnológica, como é o caso da América Latina, uma condição de subserviência permanente.

Alcançar altos níveis de desenvolvimento tecnológico demandou anos de pesquisa e significativos investimentos em educação, algo que a América Latina não fez, claro, devido a políticas de dependência, especializando-se apenas na exportação de commodities. Com o fim da guerra fria, os Estados Unidos estabeleceram seu controle sobre a governança global, mas não previram que décadas depois sua supremacia estaria sob ameaça da China, o gigantesco país comunista, cuja economia é tão capitalista quanto as demais superpotências, porém, com planejamento estatal.

Novos componentes eletrônicos passaram a impor a ordem econômica global. Chips para computadores, celulares, carros e motocicletas elétricas são equipamentos que determinarão as regras de um mundo no qual a inteligência artificial busca conquistar autonomia em relação aos seres humanos. Assim como o ouro e a prata construíram impérios, os valiosos chips são produzidos a partir de minerais, tão raros e valiosos quanto os cobiçados metais pelas metrópoles espanholas e portuguesas. Agora, tente adivinhar onde esses recursos estão realmente localizados? É claro que a maior parte está no território chinês, seguida pelo Brasil.

Enquanto superpotências como os Estados Unidos investiram bilhões de dólares em indústrias bélicas nos últimos trinta a quarenta anos, a China concentrou seus esforços na construção de um parque industrial e na educação de seus jovens em todos os níveis. Nos últimos dez anos, a China tem se tornado uma ameaça ao grande império do norte, que está respondendo às ameaças reocupando seu histórico quintal, a América Latina.

O que se observa na América Latina é uma forte mudança política para a direita, em muitos casos, para a extrema direita, a partir das últimas eleições ocorridas na região. Todas, sem exceção, tiveram influência direta ou indireta dos Estados Unidos. Na Venezuela, o processo foi ainda mais violento, com o sequestro do presidente e sua esposa por forças ligadas ao Trump, sendo ambos levados para os EUA e presos.

Como um tabuleiro de xadrez, governos de centro ou de esquerda foram gradualmente eliminados pela onda direitista na América Latina. Agora, estão pendentes as duas principais economias da região, o México e o Brasil. Contudo, é no Brasil que os Estados Unidos estão concentrando seus esforços para garantir a vitória de mais um governo vassalo no continente. O modus operandi dessa possível tentativa de tomada de poder no Brasil pela extrema direita poderá, talvez, não seguir o mesmo caminho trilhado em 1964, quando as forças armadas tomaram as ruas, depuseram o governo João Goulart e encerraram o Estado democrático de direito.

Desta vez, há uma engenharia em jogo nessa possível tentativa de golpe, que chamamos de Arquitetura de Vigilância. De fato, são as mídias digitais que realizam esse trabalho sujo a favor do imperialismo estadunidense. As principais plataformas digitais, as big techs: WhatsApp, Google, YouTube, Meta, etc., estão localizadas nos EUA. Acredite, uma parte do aparato militar norte-americano também possui nossas informações sensíveis, como localização, hábitos de consumo, redes de relacionamento, preferências políticas, histórico de navegação, biometria e dados institucionais públicos.

Esse será, portanto, o modus operandi que a equipe do presidente Trump irá utilizar para eleger seu candidato, o ultradireitista Flávio Bolsonaro, que representa o que há de mais arcaico e tosco em termos de política. Eleger um vassalo, o candidato Flávio mostrou todas as credenciais que o qualificam para tal, pois é o instrumento que Trump usará para conter a forte influência da China na região. O que o império americano busca no Brasil é fincar suas garras predatórias, apropriando-se de nossas riquezas naturais, em especial as terras raras.

Aqui, portanto, está o custo nefando que pagamos por nossa condição de nação periférica. Enquanto as nações centrais acumularam os benefícios do progresso técnico, detendo maior poder de decisão, as economias periféricas continuam vulneráveis à dependência externa. A fragilidade das nossas instituições de ensino, desde o nível básico até as universidades, resultou na situação atual, caracterizada pelo colonialismo digital. Essa assimetria, entre centro e periferia, se move para a dominação das infraestruturas, dos dados das plataformas e das tecnologias das quais nossa sociedade depende.

De fato, a arquitetura de vigilância tem atuado com eficiência extraordinária no Brasil, gerando desinformação de tal forma a estabelecer um clima de desestabilização social contínua. O medo de que a China se torne uma protagonista econômica pela difusão da Rota da Seda no quintal americano fez com que as big techs entrassem em ação, com o objetivo inicial de gerar desinformações e preparar o terreno político para eleger um governo subserviente ao imperialismo americano.

Parece que esse modus operandi tecnológico no campo cognitivo de parte da sociedade brasileira vem logrando algum sucesso. Um candidato com um histórico repleto de suspeitas de atos criminosos, que ameaça o próprio estado republicano, é o que lidera as pesquisas no segundo turno, indicando claramente que operações psicológicas (PSY OPS) estão atuando com intensidade nas diversas mídias sociais, controladas por corporações midiáticas estadunidenses. Acredite, iremos superar as big techs elegendo Lula presidente. As centenas de milhares de pessoas nas ruas em defesa da democracia são o termômetro real de que iremos sim vencer a barbárie, prevalecendo a civilização.   

Prof. Jairo Cesa                

https://diplomatique.org.br/entre-terras-raras-e-dados-a-disputa-pela-soberania-tecnologica-do-brasil/

https://diplomatique.org.br/para-alem-das-tarifas-a-disputa-esta-na-cognicao/

https://diplomatique.org.br/o-brasil-como-baluarte-das-terras-raras/

https://www.youtube.com/watch?v=_AK8PtKw3L4

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domingo, 11 de outubro de 2026

 

PLEITO DE 04 DE OUTUBRO DE 2026 ELEGEU UM CONGRESSO QUE REMETE AO REGIME MILITAR, DA ARENA E O MDB

https://pt.slideshare.net/slideshow/partido-arena-e-mb/41980905



O recente pleito eleitoral de 04 de outubro destacou uma preocupação que remete ao período da ditadura militar, quando apenas dois partidos políticos, a ARENA e o MDB, tiveram autorização para atuar. A eleição evidenciou a significativa quantidade de cadeiras conquistadas pelo Partido Liberal – PL, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. Esse sucesso eleitoral do Partido Liberal também abrangeu o executivo e as assembleias legislativas estaduais, que registraram um aumento no número de cadeiras em comparação ao pleito anterior.

Durante o regime militar, o general Castelo Branco, em 1965, implementou o AI 2, o qual eliminou os partidos políticos e criou as duas legendas: a Aliança Renovadora Nacional e o Movimento Democrático Brasileiro. Dois anos depois, em 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi promulgado o Ato Institucional n° 5, que concedeu plenos poderes ao governo, incluindo o fechamento do congresso e a proibição de eleições. Em 1972, sob o governo do general Médici, as eleições diretas para senador e prefeito foram restabelecidas.

Com a intensificação dos movimentos de oposição ao regime militar, manifestados pelo MDB através do aumento de prefeitos e vereadores eleitos, os generais instituíram a Lei Falcão para neutralizar essa oposição, a qual limitava a propaganda eleitoral a simples fotos dos candidatos e à narração de suas biografias por um locutor. Esta era a maneira que os generais encontraram para bloquear o avanço do MDB, que incluía diversas tendências ideológicas, como o PCB e o PTB, além de nomes de esquerda do PSD que se opuseram à filiação à ARENA.

Apesar da ARENA defender a ideologia do regime militar e suas demandas reacionárias, as disputas eram intensas nas indicações de candidatos à majoritária nos municípios. Para mitigar as disputas entre as facções na ARENA e no MDB, os generais criaram sublegendas. Em vez de ter apenas um candidato ao executivo municipal, a legenda poderia incluir mais dois nomes, atendendo assim às diferentes demandas dos grupos econômicos, resultando nas denominações ARENA-1, ARENA-2 e ARENA-3, o que também era válido para o MDB. No entanto, o candidato mais votado, que poderia ser da ARENA ou do MDB, frequentemente não era o eleito para o cargo, pois o que importava era a soma das sublegendas.

Um exemplo claro do uso desse instrumento para reduzir as tensões eleitorais e evitar uma possível vitória da oposição ocorreu em Araranguá/SC, nas eleições municipais de 1976, onde a ARENA lançou duas sublegendas e o MDB, três. Com apenas 152 votos de diferença, a ARENA elegeu o candidato da Sublegenda-1, Salmi Paladini, que obteve 3.673 votos. Caso o MDB tivesse vencido, o prefeito teria sido João da Silva, da sublegenda-2, com um total de 2.553 votos, ou seja, 1.120 votos a menos que o candidato da ARENA eleito.

Embora o contexto atual seja diferente, há um cenário alarmante que sugere a repetição de erros do passado recente, quando a população ficou submissa às agruras do autoritarismo militar por duas décadas. O resultado do pleito de 4 de outubro indicou que viveremos sob um legislativo ultraconservador, que ameaçará as conquistas históricas dos trabalhadores. Agora, não é mais a ARENA que impõe suas diretrizes, mas o PL e seus partidos aliados, que juntos ocuparão 388 cadeiras na Câmara dos Deputados. Na oposição, não é o MDB, mas o PT e mais cinco ou seis siglas aliadas, que ocuparão 124 assentos na casa legislativa.

Se, hipoteticamente, o PT vencer no segundo turno em 25 de novembro, certamente enfrentará um mandato repleto de chantagens por parte do parlamento e de grupos econômicos aliados. Considero que, com um parlamento tão desprovido de apoio ao governo Lula, o quarto mandato exigirá a mobilização popular nas ruas, algo que se mostrou discreto nos últimos quatro anos. Nas eleições de 2022, com a vitória de Lula e, posteriormente, a tentativa de golpe em 08 de janeiro, não havia, como agora, um clima de intolerância tão feroz da direita contra o PT/LULA.

A interferência dos EUA, se houve no passado, foi sutil, muito diferente da atualidade, que vê o país apostando todas as suas fichas na vitória do candidato de extrema direita. Até que ponto é possível confiar nas instituições para que Lula seja empossado caso vença as eleições? Existe o risco de repetição dos eventos de 8 de janeiro de 2023, agora com a participação direta das forças repressivas dos EUA, semelhante ao que aconteceu na Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Precisamos estar preparados para evitar o pior.

 

Prof. Jairo Cesa

             


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

O LAÇO/CHICOTE COMO REPRESENTAÇÃO ARQUETÍPICA/SIMBÓLICA DE SÉCULOS DE OPRESSÃO

https://lemad.fflch.usp.br/node/5408


Nunca imaginei que, após quase quarenta anos na profissão de professor de história, na qual sempre me opôs às brutalidades cometidas por regimes sanguinários como o nazismo, o fascismo e a escravidão, acabaria testemunhando cenas tão grotescas e repletas de simbolismos nefastos, como as ações de uma deputada de Santa Catarina, reeleita deputada federal nas eleições de 04 de outubro. A figura a qual me refiro é Júlia Zanatta, que faz parte do espectro extremista do estado, tendo recebido mais de 560 mil votos. 

Um vídeo que circulou nas redes sociais mostrava a deputada segurando um relho/chicote e caminhando por uma rua em estado de agitação, acompanhada por seus apoiadores, enquanto proferia palavras como “dando de relho”, referindo-se à impressionante quantidade de votos que estava recebendo. É possível que uma parte significativa dos votos que ela obteve tenha vindo de homens e mulheres de baixa renda, que talvez não soubessem que essa mesma deputada havia votado dias antes contra eles, especificamente contra a redução da jornada de trabalho de 6x1 para 5x2. 

O uso do relho ou chicote durante sua caminhada, batendo no chão, traz uma representação simbólica profunda, remetendo a uma cultura supremacista, branca, que durante mais de três séculos se apropriou do corpo de africanos, escravizando-os para gerar riqueza e poder. Essa mesma deputada, que portava o relho, talvez inconscientemente carregue o peso da dor transgeracional de seus antepassados europeus, que também foram oprimidos por regimes sanguinários dos quais foram vítimas. 

É ainda mais alarmante perceber que a história, como ciência dos acontecimentos, que deveria ser um instrumento para enterrar tragédias passadas a fim de que nunca mais se repetissem, não tem alcançado esse objetivo, pois basta observar o cenário atual para ver que comportamentos e fatos se assemelham ao final do século XIX, quando regimes sanguinários estavam sendo formados na Europa. 

Por que, de repente, comportamentos de ódio e xenofobia são tão fortemente evidenciados? O que os poetas diziam sobre o Brasil como um país ordeiro, pacífico e cordial revela-se como uma antítese, uma sociedade moldada pelo ódio geracional. Mesmo após o fim da escravidão, o Senhor da Casa Grande, hoje o “moderno sinhozinho”, continuou com seu “chicote” ao alcance, arrancando do trabalhador/as seu sangue, suor e dignidade. 

É oportuno mencionar o filósofo educador Paulo Freire, que afirma que o opressor é, na verdade, um sujeito oprimido, e que para libertá-lo dessa condição, precisamos libertar a própria humanidade. Em tempos difíceis como os atuais, considero que a história, enquanto disciplina escolar e acadêmica, não dispõe de todos os instrumentos teóricos e filosóficos necessários para explicar o que ocorre no Brasil e no restante do mundo ocidental. É claro que as ciências sociais, particularmente a sociologia, representam um campo de conhecimento relevante, mas ainda não são suficientes para trazer explicações adequadas. Uma resposta viável para todo esse turbilhão de tensões demanda a colaboração de diversas ciências: história, sociologia, antropologia e, especialmente, psicanálise. 

Sim, a psicanálise, a partir de Freud, Carl Jung e seus discípulos, ao abordar os instintos de morte e arquétipos, que são representações simbólicas do bem e do mal, sugere que os indivíduos carregam inconscientemente o peso opressor de gerações. O laço/chicote utilizado pela deputada catarinense se configura como um arquétipo que simboliza o mal, respaldado por mais de 560 mil catarinenses que votaram nela, indicando que, portanto, também são opressores e oprimidos. Cada um dos/as eleitores/as tende a amenizar sua dor através de seu álter ego, que, nesse caso, é a deputada. 

No que tange aos instintos de morte, essa representação arquetípica se manifesta por meio da exibição de armas ou gestos manuais, como o ex-presidente Jair Bolsonaro costumava fazer ao defender a liberação do porte de armas. Um vídeo que mostrava uma criança segurando uma arma de fogo e dançando sobre um carro durante as comemorações dos resultados eleitorais, possivelmente ligado ao partido do candidato a presidente, do PL, também constitui uma representação arquetípica de poder, da virilidade masculina e de um rito de passagem. O uso dessas representações, de forma inconsciente, revela o lado obscuro da masculinidade, os recalques emocionais e a indefinição da própria sexualidade. 

Outro exemplo que traz essa representação arquetípica negativa é de uma candidata eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo, também do PL, que obteve cerca de 2 milhões de votos. O que marcou sua campanha foram demandas polêmicas que não condizem com as pautas convencionais de uma mulher brasileira, ainda mais sendo uma parlamentar, que deveria primar pela ampliação dos direitos de igualdade e empoderamento social do campo feminino. Uma mulher que é eleita defendendo pautas antifeministas em um país onde a cada seis minutos ocorre um feminicídio é uma clara demonstração de que mulheres também são vítimas passivas da opressão. Portanto, oposição às demandas libertárias contribui para alimentar vícios de domínio, arquétipos do mal, que vão se amalgamando no inconsciente coletivo feminino. 

Até então desconhecida, a candidata que recebeu o maior número de votos em São Paulo rapidamente conseguiu angariar uma infinidade de inimigos, especialmente mulheres, por suas posições controversas em relação ao campo feminino. Um dos absurdos defendidos por ela é a negação da própria existência do feminicídio como uma categoria específica de crime. Observem o que essa pessoa acredita! Até pode, uma vez que se diz seguidora do filósofo e escritor Olavo de Carvalho. Sim, ele mesmo, o guru do conservadorismo e o guia intelectual de Jair Bolsonaro. 

E não parou por aí a série de ações da jovem deputada paulista que refletem suas opiniões e defesas, enaltecendo o lema integralista/fascista de Deus, Pátria, Família e Liberdade. Para mostrar que a sua mentalidade também está repleta de ódio, similar ao da deputada catarinense, da tiara de flores e do chicote, fez, em maio de 2026, um comentário em seu podcast Red/Cast, exaltando Deus por ter catequizado os indígenas brasileiros. Além disso, associou os indígenas a práticas de sacrifícios e canibalismo. 

Não há como não incluir essa figura na longa lista de danos causados por uma família e seus acéfalos, que se espalharam como um vírus letal entre milhões de mentes vazias, fazendo-as acreditar que a terra era plana. São essas pessoas que desejam governar o Brasil!!    Quatro anos de governo Bolsonaro foram suficientes para evidenciar a incapacidade desse grupo de administrar nossa querida e amada pátria brasileira. Precisamos lutar até o fim para que esse mal não se repita.

Prof. Jairo Cesa 

 

            

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

FRASCO DE AGROTÓXICO - (FANTIN TAFIREL),  BANIDO PELA ANVISA, É IDENTIFICADO NA FOZ DO RIO ARARANGUÁ.

 

Foto - Jairo

As últimas enxurradas ocorridas na montante (rio acima) da bacia do rio Araranguá trouxeram um cenário que vem se notabilizando na foz da própria bacia: milhares de pés de árvores depositados, misturados com todo o tipo imaginável de lixo. Embora a administração de Araranguá (FAMA) faça a campanha do recolhimento anual dos detritos por meio do projeto Arco-íris, essa ação voluntária assume um papel paliativo, tamanho o volume de resíduos trazidos pelo rio.

É importante ressaltar que o lixo, depositado na foz e na orla do município de Araranguá, são apenas fragmentos, se comparado ao enorme volume que é absorvido pelo oceano atlântico. Mas, de fato, o que chama a atenção mesmo é o imenso número de embalagens de agrotóxicos que vem se acumulando nas imediações da foz do rio.   Até aí, nada disso é surpresa para ninguém, porque a região da bacia hidrográfica do rio Araranguá é uma das maiores produtoras de arroz irrigado do estado, sendo usual a aplicação de insumos químicos e agrotóxicos na lavoura.

Existem legislações em vigor que definem os agrotóxicos autorizados pela ANVISA, bem como protocolos que os produtores devem seguir, tanto na aplicação do produto quanto no destino das embalagens vazias, que devem ser recolhidas e entregues nos locais onde foram adquiridas.  Também não é segredo que muitos dos agrotóxicos autorizados no Brasil estão banidos em vários países, a exemplo da União Europeia. Embora tendo o grau de toxicidade elevado, como o 2,4-D, Atrazina, Acefato, entre outros, existem aqueles cujo uso a legislação brasileira desautoriza, por conterem princípios ativos altamente tóxicos.

Um desses agrotóxicos, banidos pela legislação brasileira, Resolução n. 1.975/2019, é o Fentin Tafirel, classificado como classe II, muito perigoso ao meio ambiente. É considerado um poluente marinho severo, que destrói a fauna aquática (peixes e plantas). No ser humano, esse agrotóxico tem potencial carcinogênico, além de afetar o sistema reprodutivo e endócrino. Nos ecossistemas, esse fungicida permanece ativo por muito tempo, não sendo dissolvido com facilidade.   

O que é espantoso é o fato de esse produto, banido pela legislação brasileira, estar sendo utilizado nas culturas da Bacia do Rio Araranguá, cuja aquisição, acredita-se, tenha sido realizada por meio de contrabando. A certeza acerca do uso desse veneno é confirmada a partir da identificação de uma embalagem, misturada com fragmentos de madeira e lixo plástico, na foz do rio Araranguá. É preciso informar que são toneladas de agrotóxicos aplicados todos os anos na região sul do estado, possivelmente estão incluídos nesse pacote, aqueles banidos pela ANVISA, que acessam ao território pelas fronteiras, por meio de contrabando.  

Foto - Jairo


Agora, imaginemos o grau de perigo a que estão sujeitas as populações que consomem alimentos e água, possivelmente contaminados por esse e outros agrotóxicos, também contrabandeados. Se um frasco de Fentin Tarifel foi identificado na margem do rio Araranguá, é provável que mais frascos desse e de outros aditivos tóxicos, classe II, tenham se deslocado para o oceano. Até que ponto podemos afirmar que peixes e crustáceos capturados na orla do município de Araranguá não estejam contaminados por agrotóxicos?

Prof. Jairo Cesa

 

A INFLUÊNCIA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO SUPER EL NIÑO: OS IMPACTOS NO SUL DE SANTA CATARINA

https://ndmais.com.br/tempo/super-el-nino-como-vai-atingir-cada-regiao-do-brasil/


As previsões de um Super El Niño vêm se confirmando, e os seus efeitos estão sendo observados nos estados do sul, com precipitações acima da média para a época. O fato é que o fenômeno climático está no começo, com previsões alarmantes para o mês de outubro, com índices pluviométricos que podem superar os 600 mm em alguns pontos dos três estados. Mais uma vez, como já é quase regra, frágeis são as iniciativas dos governantes na busca de soluções ou medidas paliativas para minimizar os impactos. Quem acompanhou as enxurradas no RS em 2024 percebeu que a tragédia não é conveniente credenciá-la a fatores naturais.   A interferência humana nos vários ecossistemas, encostas de morros, margens de rios, é vista como vetor ao agravamento da tragédia.

https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/05/29/fotos-cheias-no-rio-grande-do-sul.ghtml


Desde o momento em que os meteorologistas do mundo inteiro começaram a alertar governantes e autoridades de que as águas da costa oceânica do Pacífico equatorial estavam aquecendo em níveis anormais, no Brasil, por exemplo, ainda predominam posturas negacionistas, com críticas contra cientistas do tempo, por estarem sendo alarmistas ao extremo, cuja afirmação de aquecimento global é coisa de lunático, esquerdista. A primeira ação concreta adotada pelo presidente dos Estados Unidos, após vitória eleitoral, foi oficializar saída definitiva do país do acordo de Paris, em 2015.  Nessa COP foram assinados protocolos de intenções, incluindo o Brasil, cujo propósito era executar ações que limitam as emissões de gases do efeito estufa.

Entre os países que terão maiores impactos significativos diante das mudanças climáticas em curso está o Brasil, que poderá sofrer forte revés na sua atividade agrícola, em decorrência da redução das chuvas provenientes da floresta amazônica.   A pressão do agronegócio sobre o Cerrado e o bioma amazônico transformou e ainda transforma milhões de hectares de vegetação em áreas de cultivo, com destaque para a soja.  Sem contar a ação do garimpo ilegal sobre áreas indígenas, contaminando a água e o solo com mercúrio e outros aditivos extremamente tóxicos.

Durante os El Niños, as regiões norte, nordeste e parte do centro-oeste são afetadas por períodos longos de estiagens. O Sul recebe correntes de umidade da Amazônia, provocando enxurradas e outros episódios extremos, como ventanias, tornados, chuvas de granizo etc. Frente a esses episódios cíclicos do tempo, agora agravados pela emergência climática em curso, o mínimo que os governos deveriam estar fazendo é a adoção de políticas de adaptação climática, que não acontece de fato. Todos os municípios brasileiros deveriam estar ajustando os seus planos diretores, inserindo prerrogativas que minimizassem ao máximo os efeitos negativos do tempo. É possível contar nos dedos aqueles que tomaram atitudes preventivas; o mínimo que fizeram foi limpar canais, bocas de lobo, com pouca ou nenhuma ação educativa, a partir das escolas públicas e particulares.

O estado de Santa Catarina já está sofrendo os efeitos do Super El Niño, sendo o mês de setembro marcado por vários episódios extremos, com impactos diretos na vida de milhares de catarinenses. E o sul do estado, que tem a sua economia baseada quase que exclusivamente na rizicultura, como estão reagindo os gestores municipais e o próprio governo do estado para que os efeitos do tempo sejam o menor possível?

https://www.4oito.com.br/noticia/r-36-8-milhoes-em-perdas-chuva-castiga-lavouras-e-estruturas-rurais-em-sc-89160


Infelizmente, o elemento político-partidário ainda tem enorme peso nas decisões tomadas pelos gestores. Quase a totalidade das prefeituras são administradas por prefeitos que comungam concepções pouco fundamentadas na ciência, na razão. A meteorologia, no entanto, é uma dessas ciências “amaldiçoadas”, considerada descompensada com as doutrinas “reveladoras”.

Parece que essa visão pouco racional também contamina o raciocínio dos cidadãos e cidadãs catarinenses, quiçá, dos administradores públicos e de seu corpo técnico, secretários, por exemplo, cegados pela pressão vinda das elites, principalmente do agronegócio. NO extremo sul de Santa Catarina, as respostas às mudanças climáticas são quase tênues. Se agora está ocorrendo de maneira ainda discreta, é devido à saraivada de alertas de que um super El Niño estava se formando e cujos impactos na região seriam avassaladores.

Para comprovar que o atual governo do estado tratava os alertas climáticos com desdém, basta observar o quanto foi investido no Plano Plurianual de Gestão de Programa de Risco, entre 2024 e 2027. Dos 2,7 bilhões previstos, até agora foram aplicados de fato 275 milhões de reais, ou seja, 10% do total. Até o final, será aplicado pouco mais de 20%. O que são vistos pela sociedade catarinense são avalanches de imagens, vídeos bem-produzidos, exibindo um estado preocupado com o que poderá vir com o super El Niño.  

O sul do estado recentemente teve as primeiras manifestações extremas do tempo, com impactos violentos à infraestrutura e à atividade agrícola. O município com maior precipitação pluviométrica foi Timbé do Sul, o mesmo que em 1995 sofreu uma das maiores catástrofes climáticas de sua história, com inúmeras pessoas mortas e prejuízos milionários. Enquanto que na época havia chovido aproximadamente 200 mm em poucas horas, o que provocou uma avalanche de madeira e pedra sobre a comunidade do Rio Figueira, dessa vez, o volume pluviométrico foi quase igual ao de 1995, porém, esse volume ocorreu em um tempo mais prolongado.

https://ndmais.com.br/meio-ambiente/enxurrada-em-timbe-do-sul-que-matou-16-completa-30-anos/


Vendo as imagens da destruição nos vários municípios do extremo sul de Santa Catarina, o que chama a atenção é a redução significativa de cobertura vegetal, em especial das APPS das margens dos afluentes e subafluentes do rio Araranguá. Sem a presença dessa cobertura protetiva, durante as enxurradas, volume absurdo de sedimentos é transportado para o leito dos rios. O que espanta é a quantidade de lixo, plástico, por exemplo, levado pelas águas em direção à foz da bacia do rio Araranguá. São toneladas que se depositam em toda a extensão norte e sul da orla marítima do município de Araranguá. É claro que outras tantas toneladas são sugadas pelo oceano, impactando toda a biótica marinha.

Foto -. Jairo


É de conhecimento de todos/as que a bacia hidrográfica do rio Araranguá é uma das mais degradadas de SC. Além de resíduos de carvão, o agrotóxico se desponta como o segundo item contaminante da bacia. O motivo é a atividade do arroz, que absorve toneladas de aditivos químicos durante o seu ciclo produtivo. Há legislações que impõem ao produtor a realização da tríplice lavagem; guarda temporária das embalagens vazias; devolução dos frascos vazios no estabelecimento onde o produto foi comprado e a logística reversa, entre outras ações mitigatórias.

Foto - Jairo


Quem transita pelo entorno da foz do rio Araranguá, o cenário lá confere o não cumprimento das regras relativas às embalagens de agrotóxicos, talvez por muitos agricultores. São inúmeras as embalagens de agrotóxicos espalhadas, algumas contendo líquido no seu interior. O fato de estarmos às portas de um super El Niño, em nenhum momento o governo, bem como a imprensa corporativa, cita a ocorrência da retirada criminosa de seixos rolados do leito dos rios, bem como o descumprimento no que tange à proteção da APP ciliar, como determina a legislação em vigor. Se não atacar na raiz essas e outras demandas, os efeitos desse super El Niño terão impactos severos na vida de milhares de indivíduos que habitam o sul de Santa Catarina.  

Prof. Jairo Cesa 

https://www.dw.com/pt-br/risco-de-desastre-aumenta-mas-santa-catarina-economiza-em-preven%C3%A7%C3%A3o/a-77905295  

https://www.cnnbrasil.com.br/agro/sete-agrotoxicos-mais-usados-no-brasil-sao-proibidos-na-ue-diz-pesquisa/

            

     

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

 O POUCO DO QUE RESTOU DOS CASARIOS ANTIGOS DO SUL CATARINENSE SOFRE COM AS INTEMPÉRIES DO TEMPO E A NEGLIGÊNCIA DAS AUTORIDADES 


Foto - Jairo


Como relatei em textos publicados nesse blog, o sul de Santa Catarina não fica atrás de outras regiões do estado e do Brasil em potencialidades turísticas e culturais. O que é relevante é a versatilidade de culturas, cada uma delas expressando suas particularidades, na arquitetura, na culinária, nas danças, nos rituais religiosos etc. É verdadeiro também que nos igualamos aos demais territórios no quesito falta de preservação, valorização do que representa identidade e pertencimento. A depreciação também se dá sobre os ricos acervos arqueológicos, com destaque os povos sambaquianos, datados de quatro, cinco mil anos de história, que enfrentam descaracterizações, sem que as autoridades competentes tomem medidas para protegê-los.

Nossa arquitetura também é muito rica e complexa, destacando estilos coloniais luso-açorianos e aqueles herdados dos imigrantes europeus: alemães, italianos, poloneses, entre outros. Em se tratando de linhas arquitetônicas coloniais, é claro que são as igrejas que esboçam esses traços, com destaque para aquelas erguidas no litoral catarinense, cujas mais antigas datam do século XVII.   Em texto que publiquei há pouco tempo, discorri acerca do abandono da igreja matriz do município de Pescaria Brava, edificada em 1887 por força de trabalho escrava. Alertei sobre a urgente necessidade de fazer reparos, principalmente o setor elétrico. Embora existam algumas manifestações no sentido de restaurá-la, o fato é que não há um cronograma nem recurso orçado para esse fim.

Se nos municípios costeiros sul-catarinenses temos traços culturais e artísticos que remontam aos grupos coloniais luso-açorianos, indo em direção ao interior, deparamo-nos com outra realidade, esboçada no estilo arquitetônico, das igrejas e das habitações erguidas pelos imigrantes italianos. Uma dica de bom roteiro para compreender melhor o modo de vida das primeiras famílias italianas instaladas no Sul é visitar o museu ao ar livre Princesa Isabel, no município de Orleans. 

A região do alto e médio vale do rio Tubarão está integrada a um complexo conjunto de rotas e destinos, que oportuniza aos turistas que queiram visitar a região conhecer fragmentos do modo de vida, do trabalho, da culinária, das crenças, das habitações, das primeiras famílias de imigrantes que lá se fixaram. Por ser a região, e com destaque o município de Pedras Grandes, o berço da imigração italiana, e por estarem lá edificações que evidenciam essa cultura, fui estimulado a conhecê-la.

Claro que, antes de nos deslocarmos, procuramos sites que pudessem dar subsídios acerca dessas edificações, a exemplo da famosa Casa dos Arcos. Fiquei entusiasmado com o que li, pois descobri que a residência, datada de 1900, havia sido tombada como Patrimônio Cultural em 21/11/2002, por meio do n. 5.919, pela Fundação Catarinense de Cultura. Presumi que, por estar a residência tombada, ela estivesse em bom estado de conservação.

Chegando ao local, conhecido também como Parque Casa dos Arcos, o primeiro objeto que nos chamou a atenção e certamente dos visitantes foi de um avião, isso mesmo, um caça AMX-1, construído pela Embraer e ali instalado. Além do Caça, ao lado estava a réplica do 14-Bis, primeiro avião, construído por Santos Dumont.  Um lago artificial, contendo uma gôndola, uma mini tirolesa e uma réplica de carretão com uma junta de bois, completara o cenário, tudo junto e misturado. Então, e a casa centenária, objeto principal da nossa ida a Pedras Grandes, onde estava? Sim, estava lá, claro que desfocada diante de tantas coisas juntas.

Para acessá-la, tivemos que atravessar uma pequena ponte para pedestres sobre o lado. Próximo à casa, havia um banco de concreto, no qual estava fixado um adesivo com QR CODE, provavelmente contendo informações sobre a residência. Chegamos mais perto e notamos que as paredes estavam bem depreciadas pelo tempo, incluindo as aberturas, elementos que dão a denominação estética, Casa dos Arcos. Ficamos atônitos com o que estava à frente dos nossos olhos, não convergindo as informações divulgadas pelos sites, noticiando um cenário contemplador, mais espetacular ainda quando o campo de girações fica florido.

Observando o cenário caótico do lado externo da casa centenária, imaginávamos que o acesso ao seu interior estivesse impedido ao público, isso para conter o máximo possível o processo depreciativo do imóvel. De repente, um pouco mais à frente, vimos uma porta escancarada.  Deduzimos que alguém da administração do parque havia esquecido de mantê-la fechada ou teria sido arrombada por vândalos. Nem uma coisa, nem outra; a casa estava literalmente aberta, permitindo que todos acessassem os frágeis cômodos.

Quando pus os pés no interior da residência, deparei-me com uma escada que levava ao sótão. Continuei a caminhar, com um sentimento de pavor, angústia, por estar transitando sobre tábuas, paredes, carregadas de memória, porém, em condições deprimentes. Forros caindo, janelas protegidas com sarrafos improvisados, fiações soltas, enfim, um cenário de horror.   

 

Foto - Jairo


Foto - Jairo


O que talvez minimizasse o cenário de tristeza exaltada pela encantadora residência, é o jardim dos girassóis, que, quando floridos, transmitiria uma tonalidade alegre, ofuscando um problema em que as autoridades locais e do estado insistem em empurrar com a barriga.  Notei que as gramíneas, junto aos girassóis, estavam ressecadas devido à pulverização por agrotóxicos.  Mesma cena impactante era perceptível nas margens do lago, cuja vegetação estava também ressecada pelo veneno. Entretanto, há um monte de incongruências junto ao parque Casa dos Arcos, que deveriam ser reavaliadas pelo gestor público, com o seu corpo técnico competente.  

Foto - Jairo

Foto - Jairo



 Gerou certa estranheza a atitude de uma cidadã que me fez críticas em um grupo no qual participo, só pelo fato de eu ter emitido opinião acerca das condições deploráveis da Casa dos Arcos.  Respondeu ela: “Por que abandonado? Ela não está abandonada, pelo contrário”.  “Sou de Pedras Grandes, que a casa dos arcos era de propriedade particular, que a prefeitura adquiriu e cuida”. Continuou a cidadã: “Essa casa, a Casa dos Arcos, era de propriedade particular; a prefeitura a adquiriu e cuida. Criou um parque no entorno e o campo de girassóis, que já está sendo cuidado, que atrai muitos turistas e visitantes. A casa não está restaurada porque precisa de muito dinheiro pra isso. Mas está sendo cuidada, sim”. 

Diante da fala da cidadã de Pedras Grandes, respondi que ela não tinha qualquer noção sobre patrimônio arquitetônico, entre outras afirmações. Respondeu que possuía compreensão sobre a temática patrimônio e que eu deveria acionar os órgãos, como o IPHAN, por exemplo, e ver uma forma do município conseguir dinheiro para restaurar; o discurso na prática é bem diferente. Outro integrante do grupo, fez a seguinte proposição para a cidadã de Pedras Grandes: “iniciem com um contato com o IPHAN. “Façam registros fotográficos. Busquem registros anteriores. Informações sobre a época da edificação. Tudo o que puderem. O IPHAN vai orientar a respeito dos procedimentos necessários”.

Respondeu a cidadã que “o IPHAN tem catalogado as casas aqui... mas não funcionou. Tanto que a casa de pau a pique o IPHAN tinha catalogado, inclusive visitaram e não adiantou”. Sobre a casa de pau a pique, respondeu outro cidadão do grupo: a referida casa, edificada no século XIX, foi demolida em 2024. Mais um do grupo propôs que o município buscasse recursos por meio de editais, que aproveitasse as leis de incentivo à cultura. Perguntou se a réplica da Torre de Pisa, que está sendo erguida na comunidade de Azambuja, que pertence a Pedras Grandes, é por meio de recursos próprios? Respondeu a cidadã que uma coisa é a construção, outra coisa é o restauro.

Contra-argumentou o cidadão que um exemplo de edital é a Lei Aldir Blanc, cujo valor destinado é de 40 mil reais. Outro do grupo emitiu mais informações sobre a respectiva lei, que prevê recursos para o patrimônio material e imaterial. Informou a cidadã de Pedras Grandes que “pra nós é 40 mil difíceis de aplicar pelas regras inclusive”. “Porque a lei ou o minc falam que podem ser assim ou assado, mas não mandam toda fundamentação de como fazer porq nós os coitados dos servidores públicos tem que se virar pra por isso em sistema e enviar pra tribunal de contas”.

Durante as falas envolvendo a cidadã e integrantes do grupo, que discorriam sobre o futuro incerto da Casa dos Arcos, imagens e um vídeo foram postados por outra cidadã, também criticando o estado crítico da residência. Informou ela que ficou surpresa por estar a residência com as portas abertas, que pessoas acessavam o seu interior e corriam sobre tábuas fragilizadas. Que era necessário tomar providências para preservar uma edificação tão espetacular.

 Frente a todo esse imbróglio envolvendo a Casa dos Arcos, o que de fato esperamos é que as autoridades do município de Pedras Grandes tomem medidas urgentes para evitar o que não desejamos que aconteça: a destruição completa de um rico patrimônio arquitetônico centenário, repleto de memória de gerações que tiveram as suas existências forjadas a partir desses referenciais simbólicos. A perda de referenciais históricos por parte de uma sociedade fragiliza a condição de sujeitos integrados, resistentes a qualquer tipo de imposição verticalizada.

Prof. Jairo Cesa