terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

FRASCO DE AGROTÓXICO - (FANTIN TAFIREL),  BANIDO PELA ANVISA, É IDENTIFICADO NA FOZ DO RIO ARARANGUÁ.

 

Foto - Jairo

As últimas enxurradas ocorridas na montante (rio acima) da bacia do rio Araranguá trouxeram um cenário que vem se notabilizando na foz da própria bacia: milhares de pés de árvores depositados, misturados com todo o tipo imaginável de lixo. Embora a administração de Araranguá (FAMA) faça a campanha do recolhimento anual dos detritos por meio do projeto Arco-íris, essa ação voluntária assume um papel paliativo, tamanho o volume de resíduos trazidos pelo rio.

É importante ressaltar que o lixo, depositado na foz e na orla do município de Araranguá, são apenas fragmentos, se comparado ao enorme volume que é absorvido pelo oceano atlântico. Mas, de fato, o que chama a atenção mesmo é o imenso número de embalagens de agrotóxicos que vem se acumulando nas imediações da foz do rio.   Até aí, nada disso é surpresa para ninguém, porque a região da bacia hidrográfica do rio Araranguá é uma das maiores produtoras de arroz irrigado do estado, sendo usual a aplicação de insumos químicos e agrotóxicos na lavoura.

Existem legislações em vigor que definem os agrotóxicos autorizados pela ANVISA, bem como protocolos que os produtores devem seguir, tanto na aplicação do produto quanto no destino das embalagens vazias, que devem ser recolhidas e entregues nos locais onde foram adquiridas.  Também não é segredo que muitos dos agrotóxicos autorizados no Brasil estão banidos em vários países, a exemplo da União Europeia. Embora tendo o grau de toxicidade elevado, como o 2,4-D, Atrazina, Acefato, entre outros, existem aqueles cujo uso a legislação brasileira desautoriza, por conterem princípios ativos altamente tóxicos.

Um desses agrotóxicos, banidos pela legislação brasileira, Resolução n. 1.975/2019, é o Fentin Tafirel, classificado como classe II, muito perigoso ao meio ambiente. É considerado um poluente marinho severo, que destrói a fauna aquática (peixes e plantas). No ser humano, esse agrotóxico tem potencial carcinogênico, além de afetar o sistema reprodutivo e endócrino. Nos ecossistemas, esse fungicida permanece ativo por muito tempo, não sendo dissolvido com facilidade.   

O que é espantoso é o fato de esse produto, banido pela legislação brasileira, estar sendo utilizado nas culturas da Bacia do Rio Araranguá, cuja aquisição, acredita-se, tenha sido realizada por meio de contrabando. A certeza acerca do uso desse veneno é confirmada a partir da identificação de uma embalagem, misturada com fragmentos de madeira e lixo plástico, na foz do rio Araranguá. É preciso informar que são toneladas de agrotóxicos aplicados todos os anos na região sul do estado, possivelmente estão incluídos nesse pacote, aqueles banidos pela ANVISA, que acessam ao território pelas fronteiras, por meio de contrabando.  

Foto - Jairo


Agora, imaginemos o grau de perigo a que estão sujeitas as populações que consomem alimentos e água, possivelmente contaminados por esse e outros agrotóxicos, também contrabandeados. Se um frasco de Fentin Tarifel foi identificado na margem do rio Araranguá, é provável que mais frascos desse e de outros aditivos tóxicos, classe II, tenham se deslocado para o oceano. Até que ponto podemos afirmar que peixes e crustáceos capturados na orla do município de Araranguá não estejam contaminados por agrotóxicos?

Prof. Jairo Cesa

 

A INFLUÊNCIA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO SUPER EL NIÑO: OS IMPACTOS NO SUL DE SANTA CATARINA

https://ndmais.com.br/tempo/super-el-nino-como-vai-atingir-cada-regiao-do-brasil/


As previsões de um Super El Niño vêm se confirmando, e os seus efeitos estão sendo observados nos estados do sul, com precipitações acima da média para a época. O fato é que o fenômeno climático está no começo, com previsões alarmantes para o mês de outubro, com índices pluviométricos que podem superar os 600 mm em alguns pontos dos três estados. Mais uma vez, como já é quase regra, frágeis são as iniciativas dos governantes na busca de soluções ou medidas paliativas para minimizar os impactos. Quem acompanhou as enxurradas no RS em 2024 percebeu que a tragédia não é conveniente credenciá-la a fatores naturais.   A interferência humana nos vários ecossistemas, encostas de morros, margens de rios, é vista como vetor ao agravamento da tragédia.

https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/05/29/fotos-cheias-no-rio-grande-do-sul.ghtml


Desde o momento em que os meteorologistas do mundo inteiro começaram a alertar governantes e autoridades de que as águas da costa oceânica do Pacífico equatorial estavam aquecendo em níveis anormais, no Brasil, por exemplo, ainda predominam posturas negacionistas, com críticas contra cientistas do tempo, por estarem sendo alarmistas ao extremo, cuja afirmação de aquecimento global é coisa de lunático, esquerdista. A primeira ação concreta adotada pelo presidente dos Estados Unidos, após vitória eleitoral, foi oficializar saída definitiva do país do acordo de Paris, em 2015.  Nessa COP foram assinados protocolos de intenções, incluindo o Brasil, cujo propósito era executar ações que limitam as emissões de gases do efeito estufa.

Entre os países que terão maiores impactos significativos diante das mudanças climáticas em curso está o Brasil, que poderá sofrer forte revés na sua atividade agrícola, em decorrência da redução das chuvas provenientes da floresta amazônica.   A pressão do agronegócio sobre o Cerrado e o bioma amazônico transformou e ainda transforma milhões de hectares de vegetação em áreas de cultivo, com destaque para a soja.  Sem contar a ação do garimpo ilegal sobre áreas indígenas, contaminando a água e o solo com mercúrio e outros aditivos extremamente tóxicos.

Durante os El Niños, as regiões norte, nordeste e parte do centro-oeste são afetadas por períodos longos de estiagens. O Sul recebe correntes de umidade da Amazônia, provocando enxurradas e outros episódios extremos, como ventanias, tornados, chuvas de granizo etc. Frente a esses episódios cíclicos do tempo, agora agravados pela emergência climática em curso, o mínimo que os governos deveriam estar fazendo é a adoção de políticas de adaptação climática, que não acontece de fato. Todos os municípios brasileiros deveriam estar ajustando os seus planos diretores, inserindo prerrogativas que minimizassem ao máximo os efeitos negativos do tempo. É possível contar nos dedos aqueles que tomaram atitudes preventivas; o mínimo que fizeram foi limpar canais, bocas de lobo, com pouca ou nenhuma ação educativa, a partir das escolas públicas e particulares.

O estado de Santa Catarina já está sofrendo os efeitos do Super El Niño, sendo o mês de setembro marcado por vários episódios extremos, com impactos diretos na vida de milhares de catarinenses. E o sul do estado, que tem a sua economia baseada quase que exclusivamente na rizicultura, como estão reagindo os gestores municipais e o próprio governo do estado para que os efeitos do tempo sejam o menor possível?

https://www.4oito.com.br/noticia/r-36-8-milhoes-em-perdas-chuva-castiga-lavouras-e-estruturas-rurais-em-sc-89160


Infelizmente, o elemento político-partidário ainda tem enorme peso nas decisões tomadas pelos gestores. Quase a totalidade das prefeituras são administradas por prefeitos que comungam concepções pouco fundamentadas na ciência, na razão. A meteorologia, no entanto, é uma dessas ciências “amaldiçoadas”, considerada descompensada com as doutrinas “reveladoras”.

Parece que essa visão pouco racional também contamina o raciocínio dos cidadãos e cidadãs catarinenses, quiçá, dos administradores públicos e de seu corpo técnico, secretários, por exemplo, cegados pela pressão vinda das elites, principalmente do agronegócio. NO extremo sul de Santa Catarina, as respostas às mudanças climáticas são quase tênues. Se agora está ocorrendo de maneira ainda discreta, é devido à saraivada de alertas de que um super El Niño estava se formando e cujos impactos na região seriam avassaladores.

Para comprovar que o atual governo do estado tratava os alertas climáticos com desdém, basta observar o quanto foi investido no Plano Plurianual de Gestão de Programa de Risco, entre 2024 e 2027. Dos 2,7 bilhões previstos, até agora foram aplicados de fato 275 milhões de reais, ou seja, 10% do total. Até o final, será aplicado pouco mais de 20%. O que são vistos pela sociedade catarinense são avalanches de imagens, vídeos bem-produzidos, exibindo um estado preocupado com o que poderá vir com o super El Niño.  

O sul do estado recentemente teve as primeiras manifestações extremas do tempo, com impactos violentos à infraestrutura e à atividade agrícola. O município com maior precipitação pluviométrica foi Timbé do Sul, o mesmo que em 1995 sofreu uma das maiores catástrofes climáticas de sua história, com inúmeras pessoas mortas e prejuízos milionários. Enquanto que na época havia chovido aproximadamente 200 mm em poucas horas, o que provocou uma avalanche de madeira e pedra sobre a comunidade do Rio Figueira, dessa vez, o volume pluviométrico foi quase igual ao de 1995, porém, esse volume ocorreu em um tempo mais prolongado.

https://ndmais.com.br/meio-ambiente/enxurrada-em-timbe-do-sul-que-matou-16-completa-30-anos/


Vendo as imagens da destruição nos vários municípios do extremo sul de Santa Catarina, o que chama a atenção é a redução significativa de cobertura vegetal, em especial das APPS das margens dos afluentes e subafluentes do rio Araranguá. Sem a presença dessa cobertura protetiva, durante as enxurradas, volume absurdo de sedimentos é transportado para o leito dos rios. O que espanta é a quantidade de lixo, plástico, por exemplo, levado pelas águas em direção à foz da bacia do rio Araranguá. São toneladas que se depositam em toda a extensão norte e sul da orla marítima do município de Araranguá. É claro que outras tantas toneladas são sugadas pelo oceano, impactando toda a biótica marinha.

Foto -. Jairo


É de conhecimento de todos/as que a bacia hidrográfica do rio Araranguá é uma das mais degradadas de SC. Além de resíduos de carvão, o agrotóxico se desponta como o segundo item contaminante da bacia. O motivo é a atividade do arroz, que absorve toneladas de aditivos químicos durante o seu ciclo produtivo. Há legislações que impõem ao produtor a realização da tríplice lavagem; guarda temporária das embalagens vazias; devolução dos frascos vazios no estabelecimento onde o produto foi comprado e a logística reversa, entre outras ações mitigatórias.

Foto - Jairo


Quem transita pelo entorno da foz do rio Araranguá, o cenário lá confere o não cumprimento das regras relativas às embalagens de agrotóxicos, talvez por muitos agricultores. São inúmeras as embalagens de agrotóxicos espalhadas, algumas contendo líquido no seu interior. O fato de estarmos às portas de um super El Niño, em nenhum momento o governo, bem como a imprensa corporativa, cita a ocorrência da retirada criminosa de seixos rolados do leito dos rios, bem como o descumprimento no que tange à proteção da APP ciliar, como determina a legislação em vigor. Se não atacar na raiz essas e outras demandas, os efeitos desse super El Niño terão impactos severos na vida de milhares de indivíduos que habitam o sul de Santa Catarina.  

Prof. Jairo Cesa 

https://www.dw.com/pt-br/risco-de-desastre-aumenta-mas-santa-catarina-economiza-em-preven%C3%A7%C3%A3o/a-77905295  

https://www.cnnbrasil.com.br/agro/sete-agrotoxicos-mais-usados-no-brasil-sao-proibidos-na-ue-diz-pesquisa/

            

     

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

 O POUCO DO QUE RESTOU DOS CASARIOS ANTIGOS DO SUL CATARINENSE SOFRE COM AS INTEMPÉRIES DO TEMPO E A NEGLIGÊNCIA DAS AUTORIDADES 


Foto - Jairo


Como relatei em textos publicados nesse blog, o sul de Santa Catarina não fica atrás de outras regiões do estado e do Brasil em potencialidades turísticas e culturais. O que é relevante é a versatilidade de culturas, cada uma delas expressando suas particularidades, na arquitetura, na culinária, nas danças, nos rituais religiosos etc. É verdadeiro também que nos igualamos aos demais territórios no quesito falta de preservação, valorização do que representa identidade e pertencimento. A depreciação também se dá sobre os ricos acervos arqueológicos, com destaque os povos sambaquianos, datados de quatro, cinco mil anos de história, que enfrentam descaracterizações, sem que as autoridades competentes tomem medidas para protegê-los.

Nossa arquitetura também é muito rica e complexa, destacando estilos coloniais luso-açorianos e aqueles herdados dos imigrantes europeus: alemães, italianos, poloneses, entre outros. Em se tratando de linhas arquitetônicas coloniais, é claro que são as igrejas que esboçam esses traços, com destaque para aquelas erguidas no litoral catarinense, cujas mais antigas datam do século XVII.   Em texto que publiquei há pouco tempo, discorri acerca do abandono da igreja matriz do município de Pescaria Brava, edificada em 1887 por força de trabalho escrava. Alertei sobre a urgente necessidade de fazer reparos, principalmente o setor elétrico. Embora existam algumas manifestações no sentido de restaurá-la, o fato é que não há um cronograma nem recurso orçado para esse fim.

Se nos municípios costeiros sul-catarinenses temos traços culturais e artísticos que remontam aos grupos coloniais luso-açorianos, indo em direção ao interior, deparamo-nos com outra realidade, esboçada no estilo arquitetônico, das igrejas e das habitações erguidas pelos imigrantes italianos. Uma dica de bom roteiro para compreender melhor o modo de vida das primeiras famílias italianas instaladas no Sul é visitar o museu ao ar livre Princesa Isabel, no município de Orleans. 

A região do alto e médio vale do rio Tubarão está integrada a um complexo conjunto de rotas e destinos, que oportuniza aos turistas que queiram visitar a região conhecer fragmentos do modo de vida, do trabalho, da culinária, das crenças, das habitações, das primeiras famílias de imigrantes que lá se fixaram. Por ser a região, e com destaque o município de Pedras Grandes, o berço da imigração italiana, e por estarem lá edificações que evidenciam essa cultura, fui estimulado a conhecê-la.

Claro que, antes de nos deslocarmos, procuramos sites que pudessem dar subsídios acerca dessas edificações, a exemplo da famosa Casa dos Arcos. Fiquei entusiasmado com o que li, pois descobri que a residência, datada de 1900, havia sido tombada como Patrimônio Cultural em 21/11/2002, por meio do n. 5.919, pela Fundação Catarinense de Cultura. Presumi que, por estar a residência tombada, ela estivesse em bom estado de conservação.

Chegando ao local, conhecido também como Parque Casa dos Arcos, o primeiro objeto que nos chamou a atenção e certamente dos visitantes foi de um avião, isso mesmo, um caça AMX-1, construído pela Embraer e ali instalado. Além do Caça, ao lado estava a réplica do 14-Bis, primeiro avião, construído por Santos Dumont.  Um lago artificial, contendo uma gôndola, uma mini tirolesa e uma réplica de carretão com uma junta de bois, completara o cenário, tudo junto e misturado. Então, e a casa centenária, objeto principal da nossa ida a Pedras Grandes, onde estava? Sim, estava lá, claro que desfocada diante de tantas coisas juntas.

Para acessá-la, tivemos que atravessar uma pequena ponte para pedestres sobre o lado. Próximo à casa, havia um banco de concreto, no qual estava fixado um adesivo com QR CODE, provavelmente contendo informações sobre a residência. Chegamos mais perto e notamos que as paredes estavam bem depreciadas pelo tempo, incluindo as aberturas, elementos que dão a denominação estética, Casa dos Arcos. Ficamos atônitos com o que estava à frente dos nossos olhos, não convergindo as informações divulgadas pelos sites, noticiando um cenário contemplador, mais espetacular ainda quando o campo de girações fica florido.

Observando o cenário caótico do lado externo da casa centenária, imaginávamos que o acesso ao seu interior estivesse impedido ao público, isso para conter o máximo possível o processo depreciativo do imóvel. De repente, um pouco mais à frente, vimos uma porta escancarada.  Deduzimos que alguém da administração do parque havia esquecido de mantê-la fechada ou teria sido arrombada por vândalos. Nem uma coisa, nem outra; a casa estava literalmente aberta, permitindo que todos acessassem os frágeis cômodos.

Quando pus os pés no interior da residência, deparei-me com uma escada que levava ao sótão. Continuei a caminhar, com um sentimento de pavor, angústia, por estar transitando sobre tábuas, paredes, carregadas de memória, porém, em condições deprimentes. Forros caindo, janelas protegidas com sarrafos improvisados, fiações soltas, enfim, um cenário de horror.   

 

Foto - Jairo


Foto - Jairo


O que talvez minimizasse o cenário de tristeza exaltada pela encantadora residência, é o jardim dos girassóis, que, quando floridos, transmitiria uma tonalidade alegre, ofuscando um problema em que as autoridades locais e do estado insistem em empurrar com a barriga.  Notei que as gramíneas, junto aos girassóis, estavam ressecadas devido à pulverização por agrotóxicos.  Mesma cena impactante era perceptível nas margens do lago, cuja vegetação estava também ressecada pelo veneno. Entretanto, há um monte de incongruências junto ao parque Casa dos Arcos, que deveriam ser reavaliadas pelo gestor público, com o seu corpo técnico competente.  

Foto - Jairo

Foto - Jairo



 Gerou certa estranheza a atitude de uma cidadã que me fez críticas em um grupo no qual participo, só pelo fato de eu ter emitido opinião acerca das condições deploráveis da Casa dos Arcos.  Respondeu ela: “Por que abandonado? Ela não está abandonada, pelo contrário”.  “Sou de Pedras Grandes, que a casa dos arcos era de propriedade particular, que a prefeitura adquiriu e cuida”. Continuou a cidadã: “Essa casa, a Casa dos Arcos, era de propriedade particular; a prefeitura a adquiriu e cuida. Criou um parque no entorno e o campo de girassóis, que já está sendo cuidado, que atrai muitos turistas e visitantes. A casa não está restaurada porque precisa de muito dinheiro pra isso. Mas está sendo cuidada, sim”. 

Diante da fala da cidadã de Pedras Grandes, respondi que ela não tinha qualquer noção sobre patrimônio arquitetônico, entre outras afirmações. Respondeu que possuía compreensão sobre a temática patrimônio e que eu deveria acionar os órgãos, como o IPHAN, por exemplo, e ver uma forma do município conseguir dinheiro para restaurar; o discurso na prática é bem diferente. Outro integrante do grupo, fez a seguinte proposição para a cidadã de Pedras Grandes: “iniciem com um contato com o IPHAN. “Façam registros fotográficos. Busquem registros anteriores. Informações sobre a época da edificação. Tudo o que puderem. O IPHAN vai orientar a respeito dos procedimentos necessários”.

Respondeu a cidadã que “o IPHAN tem catalogado as casas aqui... mas não funcionou. Tanto que a casa de pau a pique o IPHAN tinha catalogado, inclusive visitaram e não adiantou”. Sobre a casa de pau a pique, respondeu outro cidadão do grupo: a referida casa, edificada no século XIX, foi demolida em 2024. Mais um do grupo propôs que o município buscasse recursos por meio de editais, que aproveitasse as leis de incentivo à cultura. Perguntou se a réplica da Torre de Pisa, que está sendo erguida na comunidade de Azambuja, que pertence a Pedras Grandes, é por meio de recursos próprios? Respondeu a cidadã que uma coisa é a construção, outra coisa é o restauro.

Contra-argumentou o cidadão que um exemplo de edital é a Lei Aldir Blanc, cujo valor destinado é de 40 mil reais. Outro do grupo emitiu mais informações sobre a respectiva lei, que prevê recursos para o patrimônio material e imaterial. Informou a cidadã de Pedras Grandes que “pra nós é 40 mil difíceis de aplicar pelas regras inclusive”. “Porque a lei ou o minc falam que podem ser assim ou assado, mas não mandam toda fundamentação de como fazer porq nós os coitados dos servidores públicos tem que se virar pra por isso em sistema e enviar pra tribunal de contas”.

Durante as falas envolvendo a cidadã e integrantes do grupo, que discorriam sobre o futuro incerto da Casa dos Arcos, imagens e um vídeo foram postados por outra cidadã, também criticando o estado crítico da residência. Informou ela que ficou surpresa por estar a residência com as portas abertas, que pessoas acessavam o seu interior e corriam sobre tábuas fragilizadas. Que era necessário tomar providências para preservar uma edificação tão espetacular.

 Frente a todo esse imbróglio envolvendo a Casa dos Arcos, o que de fato esperamos é que as autoridades do município de Pedras Grandes tomem medidas urgentes para evitar o que não desejamos que aconteça: a destruição completa de um rico patrimônio arquitetônico centenário, repleto de memória de gerações que tiveram as suas existências forjadas a partir desses referenciais simbólicos. A perda de referenciais históricos por parte de uma sociedade fragiliza a condição de sujeitos integrados, resistentes a qualquer tipo de imposição verticalizada.

Prof. Jairo Cesa                     

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 

90 ANOS DEPOIS, O ESPECTRO DO FASCISMO VOLTA A ASSOMBRAR O IMAGINÁRIO COLETIVO DO ESTADO BRASILEIRO

https://gz.diarioliberdade.org/opiniom/item/38692-barbarie-pouca-e-civilizacao.html


A Ação Integralista Brasileira havia sido dissolvida no golpe de 1937 por Getúlio Vargas, que instituiu o Estado Novo, que se manteve no poder até 1945. Quase cem anos mais tarde, o espectro do seu fundador, Plínio Salgado, é ressuscitado, trazendo apreensão diante da possibilidade de repetição de erros políticos crassos do passado. Enquanto em 1936, era a Aliança Liberal ou Partido Liberal, de Getúlio Vargas, que fazia oposição à Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, hoje, 2026, temos o PL, cujo principal representante, Jair Bolsonaro, que mesmo preso, continua insuflando o imaginário coletivo de milhões de brasileiros.

Claro que, racionalmente, é inseguro compreender essa digressão histórica, dos reais motivos que impulsionam pessoas apoiarem forças políticas, líderes, que reverenciam torturadores, que atacam à ciência, à cultura, às universidades, às mulheres etc. Na Europa, no começo do século XX, dirigentes sanguinários, provocaram a morte de milhões de pessoas em campos de concentração, o agravante é que as brutalidades cometidas eram abonadas pela população, que os reconhecia como representação divina na terra.

 Era de se imaginar que regimes dessa envergadura, que apregoavam ódio e morte, tivessem sido sepultado para sempre junto com seus comandantes diabólicos. Nada disso, há poucas semanas, a própria Alemanha, que protagonizara o nazismo, elegeu parlamentares integrantes de um partido com programa político contendo políticas de cunho nazista.  

Infelizmente esses retrocessos históricos no campo político, a eclosão de partidos extremistas vêm respingando em muitos países da Europa, da Ásia e do Continente Americano. Os exemplos mais categóricos de regimes extremistas em evidência nesse momento são o Estado de Israel e os Estados Unidos da América. Frente a toda essa insanidade de dois líderes insanos, na América Latina, as eleições em curso revelam forte contaminação dos ideários extremistas/fascistas em ascensão. Os únicos países que ainda mantêm governos pouco alinhados ao imperialismo estadunidense, são o Brasil e o México, ambos considerados potências latino-americanas.

A vitória da extrema direita na Argentina, na Colômbia e a ação violenta americana na Venezuela, sequestrando o presidente e levando-o à prisão nos Estados Unidos, acenderam a luz vermelha no processo político brasileiro, cuja eleição ocorrerá no próximo dia 04 de outubro de 2026. Desde 2016, quando o Congresso depôs a presidente eleita, Dilma Rousseff, a extrema direita vem adquirindo robustez impressionante. A ascensão meteórica de um ex-capitão do exército brasileiro, que por décadas ocupou o Parlamente como deputado federal, era o que a elite patriarcal escravista idealizava como um “redentor divino”.

Durante a campanha às eleições de 2018, o que apavorava parcela da população era os trejeitos apresentados pelo ex-capitão, sempre com um discurso que fez brotar das profundezas do inconsciente coletivo, o lado obscuro do cérebro, onde está acomodado a opressão, o ódio. É como um patógeno incubado, sendo Jair Bolsonaro, o impulso que faltava para desabrochar o vírus mortal. O forte engajamento ao espectro religioso, serviu como combustível para impulsionar as massas ensandecidas, que lhe credenciavam como um “messias”, o enviado dos céus.

O que era mais assombroso diante da ascensão abrupta de um indivíduo até então desconhecido na política, é que todos os trejeitos apresentados  assemelhavam-se aos esboçados polos líderes nazistas e fascistas da Europa, que resultou na Segunda Guerra Mundial. As frequentes motociatas, por exemplo, em nada se diferenciavam daquelas arquitetadas por Benito Mussolini, líder fascista da Itália. Mesmo diante de tamanhas aberrações, Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2018, cujos quatro anos de governo, se caracterizaram como um dos mais desastrosos da história do Brasil.  Um exemplo que mostrou sua incompetência como gestor, foi a condução dada à COVID 19, vírus que levou à morte de mais de 700 mil brasileiros/as.

Eleições em curso, Lula derrotou o candidato extremista à reeleição em outubro de 2022, porém, em 8 de janeiro de 2023, o candidato derrotado lidera movimento golpista para impedir a posse do presidente eleito, Lula da Silva. Centenas de golpistas foram presos e condenados, entre eles, o próprio ex-presidente e diversos integrantes do exército brasileiro. Com um congresso majoritariamente conservador e aliado à figura do bolsonarismo, nos quadro anos de governo Lula procuraram “desgastá-lo” na tentativa de enfraquecer o nome do presidente Lula no pleito de 2026 que poderá reelegê-lo.

Mesmo com a prisão do principal líder da extrema direita, o seu espectro permanecia atormentando as mentes de parte da população. Era o momento de escolher alguém que pudesse ter chances reais de confrontar e derrotar o líder progressista, Lula da Silva. De repente, aparece alguém do “clã” bolsonarista, nada mais, nada menos que Flavio Bolsonaro, filho do ex-presidente, porém, como o pai, envolvido em inúmeros crimes, dentre os quais o esquema milionário com o banqueiro, atualmente preso, Daniel Vorcaro, proprietário do banco Master. A campanha segue, e as pesquisas de intenção de voto, até o momento revelam chances do candidato do PL ir para o segundo turno.

Independentemente de o atual presidente ter ou não cometido erros em sua administração, acontece que estamos às portas de escolher a civilização ou a barbárie. Não é alarmismo, é realidade. Tanto na Itália anterior a Mussolini, quanto na Alemanha de Hitler, o cenário hoje aqui esboçado pela extrema direita é muito parecido aos praticados lá fora. Precisamos, sim, optar pela civilização, pois, se perdermos essa chance, o que nos restará é o lamento. O exemplo mais próximo que temos de barbárie é o da Argentina, onde atualmente mais de 50% da população passa fome.

Prof. Jairo Cesa           

terça-feira, 22 de setembro de 2026

 

O INTEGRALISMO/FASCISMO GESTADO NO GRANDE ARARANGUÁ, A ELEIÇÃO QUE REVELOU O LADO SOMBRIO DO ULTRACONSERVADORISMO SULISTA

Foto - Livro, De Olho no Poder, João Henrique Zanelatto. p.86


Há 90 anos, o Estado brasileiro se viu assombrado pelo espectro do "fascismo", é claro que  com a ascensão da Ação Integralista Brasileira – AIB, sendo o principal líder, Plínio Salgado. A Europa, no entanto, estava às portas da Segunda Guerra Mundial, sendo que duas importantes nações, Itália e Alemanha, entraram no cenário continental e global com duas propostas de regimes, o nazismo e o fascismo, sendo que ambos arregimentaram milhões de apoiadores. A resposta à insanidade de líderes mentalmente doentes, as conhecemos de cor, foram milhões assassinatos, entre os quais seis milhões de judeus em campos de concentrações espalhados pela Europa.

O Brasil, porém, estava sob o regime ditatorial de Vargas, que, no início do mandato,  apoiou incondicionalmente os regimes totalitários da Alemanha e da Itália. Por 15 anos, tempo em que Vargas ficou à frente do governo, a única exceção à ocorrência de eleição livre no Brasil, foi em 1936, com as eleições para escolher os prefeitos e os vereadores. Em âmbito nacional, estavam previstas eleições gerais para o dia 3 de janeiro de 1938, porém, o processo eleitoral não se sucedeu, porque em 10 de novembro de 1937, Vargas decretou  o Estado Novo, cuja alegação foi "acreditar" a existência de  manobras comunistas para a execução de golpe de estado. O que as fontes revelaram foi  ter sido  o possível golpe comunista arquitetado por apoiadores de Vargas, cujo intuito era mantar-se a frente do poder.  

A Aliança Integralista Brasileira, já consolidada como partido político, prestou apoio ao golpe político de Vargas, cujos membros intuíam que seriam agraciados com cargos no governo golpista de Getúlio Vargas. Entretanto, Vargas ao assumir o governo, uma das suas premissas foi a extinção dos partidos políticos, incluindo a Ação Integralista Brasileira.  

Cabe aqui destacar que a AIB, sua "gestação" como movimento e partido, se deu estimulado por um cenário social e político conturbado no qual atravessava o Brasil. Embora  ganhando força e notoriedade em todo o território nacional, o integralismo adquiriu certas peculiaridades no sul do Brasil, com destaques os redutos com ampla presença de imigrantes alemães, italianos, poloneses. Sobre o Integralismo, discretas são as fontes disponíveis que discorrem com  fidelidade o movimento em terras brasileiras. Nesse campo reduzido de fontes, temos que prestar nossa gratidão e respeito ao pesquisador, João Henrique Zanelatto, com a sua magnifica obra historiográfica, cujo título é: De olho no Poder: o integralismo e as disputas políticas em Santa Catarina na era Vargas.   

No livro, o pesquisador consegue demover denso nevoeiro que pairava sobre o passado social do estado de Santa Catarina, atravessado por disputas entre grupos políticos vinculados as oligarquias tradicionais, bem como as nascentes elites de imigrantes europeus, que vislumbravam na Ação Integralista Brasileira a oportunidade de projeção política. O período em que pesquisador se debruçou na investigação, foram as décadas de 1920 e 1930, quando o fascismo e o nazismo estavam sendo gestados na Europa, porém, ambos se mostravam influentes nos discursos e na opinião pública dos catarinenses.

É claro que como historiador temos que ter cautela quando nos debruçamos sobre fontes historiográficas, livros, periódicos, documentos em geral, para lê-los e interpretá-los. O risco é lançarmos opiniões, geralmente acometidas por sentimentos que contaminam os fatos investigados. Se supõe que o pesquisador Zanelatto, foi cuidados na construção de sua magnifica obra. Em nenhum momento deu provas conclusivas de que o nazismo e o fascismo estavam explicitados no programa da AIB. Entretanto, por meio de um olhar mais crítico e comparativo, não negaremos que o Integralismo, de modo dissimulado, suscitava um projeto ideológico autoritário, fundamentado na ordem institucional, na moral cristã e na família.  

Era provável que havendo eleições presidenciais em janeiro de 1938, o Integralismo esboçava chances de vencer o pleito, levando ao poder seu principal líder, Plínio Salgado, isto é, Faltando dois anos para o início do grande conflito mundial. O que é passivo de reflexão é qual seria o comportamento de um presidente com um possível viés fascista junto aos países do eixo, Alemanha e Itália, por exemplo. Não nos esqueçamos que Getúlio Vagas também esboçou apoio político às lideranças do eixo. 

 Com rapidez, o movimento Integralista conquistou adeptos nos quatro cantos do estado, chegando a se credenciar para disputar prefeituras e câmaras municipais nas eleições de 1936. Em Araranguá, a sigla foi oficializada no dia 03 de outubro de 1934, na residência do seu principal líder, Jaime Wendhause. a Ação Integralista Brasileira  se estendeu para o interior, arregimentar adeptos para tornar a sigla competitiva e que pudesse derrotar a Aliança Liberal.  Quatro meses depois da homologação da AIB, em Araranguá, em 10 de fevereiro de 1935, a comunidade do Rio Jundiá, hoje integrada ao município de Turvo, criou o subnúcleo do movimento.     

O crescimento do integralismo em Araranguá foi tão eloquente e ameaçador aos  interesses da Aliança Liberal, que fez p intendente Nereu Ramos vir à região, com o propósito de neutralizar o movimento. Se teve algum impacto à vinda do intendente a Ararangua, o fato é que nas eleições de 1936, por poucos votos, A Aliança Liberal, agremiação do candidato Caetano Lummertz, não perdeu o pleito. Concluída a contagem dos votos, Caetano Lummertz, da Aliança Liberal, conquistou 1.566 votos; e Jaime Wendhause, da Ação Integralista Brasileira, 1.025 votos.

A ameaça integralista não foi exclusividade de Araranguá,  municípios como Imaruí e Orleans, tiveram os candidatos liberais ameaçados de perder os pleitos. No fim, a Ação Integralista Brasileira, elegeu 22 prefeitos e 351 vereadores no território brasileiro. Em Santa Catarina, foram 8 prefeitos e 72 vereadores e dezenas de juízes de paz. É importante destacar que em Araranguá, o integralismo não elegeu prefeito, porém, elegeu 3 vereadores. Foi Blumenau/SC, onde o movimento obteve maior percentual de votos favoráveis, 2.983, contra 1.079, da União Democrática Blumenauense.

  Personalidades importantes do campo político em Araranguá expressavam opiniões positivas ao Movimento Integralista, opiniões escritas no livro O Grande Araranguá, o padre Leonir João Dal Alba.  Alguns entrevistados afirmaram que o integralismo tinha pretensão no campo católico, que era o melhorando a situação da população. Presume-se que a opinião relativa à pretensão católica, poderia ter alguma vinculação ao aspecto moral da população.  Os que ingressassem ao integralismo seguiriam alguns ritos protocolares, como o uso de uniforme, camisas verdes e calças pretas,  ir à missa e desfiles cívicos. Os/as que ingressavam ao integralismo, tinham a convicção que uma sociedade orgânica, cristã, hierarquizada e corporativista, impediria a ascensão do liberalismo capitalista e do comunismo.

  Essa conjugação de princípios patrióticos e morais recebeu a denominação, Deus, Pátria e Família. Regimentalmente, as mulheres quando ingressassem ao integralismo não poderiam trair seus maridos, sendo-as punidas com a expulsão. Elas deveriam ser integras, moralmente e civicamente. As igrejas, católicas ou protestantes, se caracterizavam como  locais onde os integralistas se reuniam, especialmente nas celebrações dominicais. Nos finais das missas, acredita-se que reuniões eram para discutirem as demandas do movimento. Em Araranguá, um cidadão entrevistado por Dal’Alba, afirmou que o padre Antônio Luís Dias não impedia que os integralistas desfilassem trajados durante as fastas da padroeira.

O primeiro Congresso da Ação Integralista, ocorreu em Blumenau, em 7 de outubro de 1935, com milhares de participantes.  Outro, tão importante como o congresso de Blumenau, ocorreu em Laguna, exatamente na região com baixo predomínio de imigrantes europeus. A escolha se deu motivada por ser Laguna um centro metropolitano importante, possuindo  um porto e inúmeros jornais que cobririam o evento.

Mesmo com críticas, o fato é que muitos liberais vislumbravam na AIB aspectos importantes, como a possibilidade de haver maior controle sobre a sociedade e neutralizar o crescimento do comunismo. De fato, o integralismo apregoava a militarização do corpo, portanto, o uso de uniformes, se mostrava como estratégia de inculcar no/a cidadão/ã mandamentos de unidade, pertencimento, omitindo ou desfocando conflitos de classes, tão evidenciados em sociedades capitalistas como a brasileira.

Prof. Jairo Cesa        

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 

MULHERES NA POLÍTICA: O QUE LEVAM "ELAS" ALIAR-SE ÀQUELES QUE HISTORICAMENTE AS TORTURAM

 

https://www.brasildefato.com.br/colunista/gleide-andrade/2026/01/14/a-violencia-politica-de-genero-como-estrategia-de-silenciamento-das-mulheres/#google_vignette

Transitando pelas ruas e avenidas de Criciúma me deparei com um cenário visualmente perturbador, dezenas, centenas de bandeiras de candidatos/as espalhadas nos canteiros, rótulas, onde o que mais refletia era poluição visual e mais nada. Prestando atenção nas bandeiras, números e siglas partidárias, o que chamou a atenção foi constatar que embora existissem diversidade de bandeiras, dois ou três candidatos/as de um mesmo partido ou do arco de alianças, dominavam o cenário. Claro que os destaques, são candidatos do campo conservador, vinculados ao mesmo partido do governador, que busca a reeleição no estado e do Flavio Bolsonaro, que busca à para presidente da república.

O que pouca gente sabe é que todo esse material de campanha, bandeiras, por exemplo, são financiadas com dinheiro público, recursos do fundo partidário. O PL, por exemplo, partido do governador do estado e do candidato a presidente da república, é o que recebe maior fatia do fundo, 881 milhões de reais, de um total de 4,9 bilhões de reais. É obvio que nem todos/as os candidatos/as dessa sigla recebem valores equivalentes, sempre privilegiando os/as que apresentam chances claras de vitória no pleito. Paradoxalmente, esses mesmos candidatos/as que se travestem de bons mocinhos/as, defensores da moral cristã, da família e de um Brasil melhor, nas assembleias legislativas ou no congresso nacional, sempre votam em projetos favoráveis aqueles/as que dominam, que exploram.

O que é mais horripilante é acompanhar a propaganda eleitoral na TV, assistindo mulheres candidatadas de partidos conservadores, com discursos defendendo demandas que tendem a torná-las mais submissas, mais violadas das suas condições de sujeitos da história. Mais bizarro ainda é a atitude de uma deputada, do PL, candidata à reeleição, que se traveste de “boa mocinha”, com discurso antifeminista, enaltecendo a família tradicional. Acreditem, essa mesma deputada, apresentou projeto de lei no qual assegura medida protetiva da lei Maria da Penha também aos homens que sofrem violência doméstica.

O mínimo que as mulheres que ascendem a política deveriam se incumbir, primeiro, jamais se filiar em partidos de vertentes conservadores, segundo, atuar no parlamento, nas três instâncias de poder, lutando incessantemente por mais direitos, como equidade salarial a dos homens. Defender pautas conservadoras, a família tradicional, por exemplo, é manter-se subordinada ao gênero masculino, pois o modelo da família brasileira, foi forjada sob o prisma do patriarcalismo, sendo a mulher, reduzida a condição de mera reprodutora, cuidadora dos filhos, do marido etc.  Atuar na política, nos negócios, até mesmo na universidade, era uma exceção no universo feminino.

O que dizer dessas mulheres que integram partidos, onde seus representantes máximos, homens, cometem uma série de atos agressivas contra o sexo feminino, a exemplo da misoginia. Quem lembra do ex-presidente da república, Jair Bolsonaro, quando ainda era deputado federal, agredindo uma deputada, afirmando que não a estupraria porque ela não merece. O caso mais recente, foi do atual governador do estado catarinense, Jorginho Melo, onde agrediu com palavrões uma representante indígena: “vai para a puta que pariu, e a senhora não quer ir à merda?

Autoridades que deveriam dar o exemplo de educação e civilidade, são os que mais infringem regras protocolares. O que é insano é perceber que são as mulheres os alvos prediletos dessas figuras escrotas. Não tem como explicar racionalmente o que motivam   mulheres a ingressarem na política, optando por partidos, que jamais proporcionarão condições para se libertar desse longo processo histórico de silenciamento. Incrível que as conquistas que asseguram as mulheres graus de liberdade e equidade, se deram recentemente, claro que com o apoio dos movimentos feministas, que, sem hesitar, enfrentaram a fúria repressiva de governos.

Se a explicação não é racional de as mulheres se aventurarem na política filiando-se a partidos conservadores, como explicar então? Claro que devemos buscar respostas no campo psicanalítico, transgeracional, sendo um processo que tem as suas raízes nas sociedades clássicas, a exemplo da Grécia antiga. Desde a antiguidade clássica, a mulher assumia um papel secundário no processo familiar. Portanto, se o esposo fosse para guerra, a esposa era que cuidava da casa, dos filhos. No instante que o filho homem saísse da adolescência, teria a incumbência de assumir as responsabilidades do lar, ficando a mãe sob sua tutela.

Na idade média, a Santa Inquisição, por exemplo, condenou à fogueira milhares de mulheres, sentenciadas por práticas de adultério ou outros crimes, como bruxaria e heresia, vistos como ameaças à ordem social, religiosa e patriarcal. Admitiam os clérigos e governantes na época, que atitudes desviantes às mulheres, ocorriam por estarem elas dominadas por forças demoníacas, sendo, portanto, a fogueira, o instrumento necessário para a “purificação” das suas almas.

Na idade moderna e contemporânea, em maior ou em menor grau, dependendo do nível de evolução de cada país ou região, era negada a mulher direitos elementares, como de votar e ser votada. Em sociedades escravocratas como a brasileira, o papel da mulher se resumia a objeto de procriação e afazes domésticos, exceto aquelas que se rebelavam, que eram taxadas pelas famílias e a sociedade como sujeitos com desvios de personalidade.

Chegar ao século XXI, carregando nos ombros enorme carga de culpa dos males da civilização ocidental, entrar na política seria o caminho estratégico para a redenção da mulher, a supressão dos muros, das barreiras sociais impostas pela sociedade patriarcal, machista, que as impede de empoderar-se como sujeito histórico. O que vemos, portanto, são mulheres realizando um brutal desserviço ao gênero feminino, talvez, impulsionadas, inconscientemente, pela sua própria história familiar, forjada em um ambiente de repressão e subjugação ao masculino.

Prof. Jairo Cesa      

           

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

A "INTERVENÇÃO DIVINA NO STF", O GOLPE DA TOGA

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A poucos dias do primeiro turno do pleito eleitoral que deverá, a priori, levar para o segundo turno os candidatos Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL, o STF protagonizou um episódio inédito na história da República, interpretado como um golpe da alta corte. O caso se deu com a decisão do ministro, “terrivelmente evangélico”, André Mendonça, que tomou a decisão pelo afastamento preventivo do diretor geral da PF, cuja alegação foi ter produzido relatórios sigilosos, da atuação do magistrado e a do advogado-geral da União (AGU). O episódio que levou a dispensa do chefe da PF, que foi reintegrado ao cargo mais tarde, se caracterizou como um golpe, porque tal atitude deve partir de decisão da plenária do judiciário e não ato individualizado de um juiz.

De certo modo, a postura do ministro em criar o emblemático fato, que também envolveu o seu colega de toga, Alexandre de Moraes, tem a finalidade clara de produzir clima de confusão social e revolta a poucos dias da eleição. É preciso deixar bem claro que esse ministro foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que além de jurista é pastor evangélico. É nítido que, tomada a decisão que tomou o ministro Mendonça, o ato insólito reverberaria positivamente junto a militância e aos milhares de evangélicos que denotam apoio ao candidato da extrema direita.

É claro que ninguém impede que integrantes de órgão de tamanha relevância como o STF pratique uma religião, até mesmo ocupando o cargo de pastor ou quem sabe outra função litúrgica, porém, isso jamais deveria se mesclar com decisões tomadas frente ao cargo de ministro da Alta Corte. Uma sociedade como a brasileira, onde a religião perpassa os limites da própria constituição, que define a laicidade como regra pátria, ter um ministro terrivelmente evangélico, que nos cultos que ministra, admite ser o Messias, o enviado de Deus, é, sim, uma estratégia de induzir a população evangélica a votar no candidato da extrema direita.

Atitude como essa de um ministro, de se classificar como um escolhido dos céus, foi explorado no passado pelo ex-candidato e depois presidente, Jair Bolsonaro, que sempre usava como slogan de campanha a expressão:  “Brasil acima de tudo, deus acima de todos”. Não há dúvida que há um projeto “evangelistão” sendo incubado, basta prestar atenção na quantidade de igrejas neopentecostais instaladas nas cidades brasileiras. É assustador o número de fiéis que essas igrejas conseguem atrair durante os seus cultos, grande maioria impregnando aos seus fiéis, valores morais conservadores, fundamentados no slogan fascista, Deus, Pátria e Família.    

O que é verdadeiro no caso do STF, é que o circo está montado, com objetivo explícito de distrair a população. Fazer acreditar que o órgão está contaminado, que todos/as estão envolvidos/as, que é preciso suprimir o órgão, prender, impeachment, ou até mesmo uma intervenção golpista, a exemplo de 08 de janeiro de 2023. E isso jamais podermos admitir, não queremos retroceder décadas na nossa história, porque eleger Flavio Bolsonaro, é perder direitos sociais e humanos, é voltar a censura, a fome, a violência, o negacionismo, as fobias de gênero, o empobrecimento. Acredite, será o retorno da barbárie.

Fatos recentes e muitos que estão em evidência, mostram que o “ovo” do fascismo está prestes a descascar, isso se não enfrentarmos o monstro fascista, com todo o afinco no pleito do dia 04 de outubro. O 07 de setembro comemorado em Içara/SC, quando grupos de pessoas ligadas a uma igreja evangélica, desfilaram, transportando faixas com mensagens de cunho moralista, como, por exemplo, “casamento é monogâmico e Heterossexual”, infringe princípios constitucionais de liberdade de gênero. Outro caso que merece atenção redobrada foi a agressão contra a candidata a suplente de senadora, pelo PT, por parte da polícia militar do estado em Jaraguá do Sul/SC. Tanto o insólito ato do desfile no dia 07/09, quanto a agressão recebida pela candidata a suplente de senado, em Jaraguá do Sul, ambos refletem o comportamento da sociedade brasileira, forjada pela barbárie de um patriarcalismo escravista ainda latente no imaginário coletivo.  

Se a credibilidade da população brasileira em relação a política já era pífia, agora com esses escândalos envolvendo integrantes da Alta Corte, o cenário ficou pior ainda. Quem ganha com isso são os políticos oportunistas, ditos “não tradicionais”, que apostam as fichas na aquisição desses votos e na vitória. É sabido que a extrema direita também aposta as fichas na eleição do máximo possível de congressistas, dos quais proporcionarão a uma revisão ou construção de uma nova constitucional, com a supressão de direitos aos trabalhadores.

O momento que seria para debater demandas importantes para a sociedade, como saúde, segurança, educação, meio ambiente, os/as candidatos/as e a própria sociedade, estão envoltos ao que está orbitando no STF, atolado por denúncias de corrupção e desvio de conduta de alguns dos seus membros. Enquanto a população concentra o foco das atenções sobre o supremo tribunal federal, que se transformou num ringue político, a crise ambiental deixa de ser discutida, bem como a educação. É tão sério esse desinteresse em discutir temas tão relevantes, como educação pública, que pouca gente sabe que permaneceremos nas últimas posições no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA).

Dos 91 países avaliados e que integram a OCDA, o Brasil ficou na 67ª posição geral. Porém, os resultados foram mais decepcionantes em matemática, alcançando a 71ª posição. Já em literatura, obteve a 52ª posição; e ciências, a 67ª, atrás de países como o Uruguai, Chile, México, Costa Rica, Peru, Colômbia. Esses números explicam por que elegemos candidatos que, na câmara, na assembleia e no congresso, procuram esfolar os trabalhadores.  Portanto, temos que ter lucidez, mesmo aqueles que não gostam do candidato Lula, devem ter clareza que o que está em jogo é a civilização, e que votar na extrema direita é optar pela barbárie.   

Prof. Jairo Cesa