terça-feira, 9 de junho de 2026

 

ANTEPROJETO APROVADO SOBRE DESCARTE IRREGULAR DE RESÍDUOS EM ARARANGUÁ, SE MOSTRA INÚTEL, A EXEMPLO DE OUTRAS TANTAS LEIS  JÁ SANCIONADAS

 

Foto - Jairo

Em uma das sessões da câmara de vereadores de Araranguá foi aprovado anteprojeto n. 070/2026 que estabelece punição severa aqueles que lançarem aterros, dejetos, resíduos em geral em áreas públicas do município. De certo modo admito ter sido até louvável por parte dos legisladores, de se predisporem em referendar tal proposta que a meu ver, não terá o resultado esperado, a exemplo de outras tantas leis homologadas, que hoje ocupam páginas e mais páginas nos arquivos do legislativo. Dentre as legislações esquecidas, destaco a Lei Complementar n. 149/2012, no seu Art. 18, § 4°, que trata sobre a proibição do uso de agrotóxicos e queimadas para o controle da vegetação como forma de limpeza em todo o território do município.

Para provar que esse artigo ocupa espaço inútil no arcabouço de leis do município, é só dar uma caminhada nos bairros e demais comunidades para constatar a insignificância desse artigo e seu parágrafo. Até hoje não lembro de ter sido autores da capina química, autuado e responsabilizado por tal prática ambiental criminosa. O agravante é que capina química são realizadas nas imediações de unidades de saúde do município, sem que ninguém se sinta incomodado. Claro que muita gente vai querer justificar o uso de agrotóxicos em vias públicas por desconhecerem a legislação que, como sabemos, não imputa o infrator de dolo.

Se há desconhecimento da lei por parte da população, vale lembrar que na mesma Legislação Complementar N° 149, tem o Art. 119, que obriga o município desenvolver ações de redução e de educação ambiental voltados especificamente para a redução do uso de agrotóxico na área agrícola, além de incentivos à produção orgânica e agricultura sustentável. Sobre esse artigo, aposto que talvez um ou dois vereadores da atual legislatura tenham clareza sobre manejo orgânico e agroecológico, bem como o número de famílias que atuam nessas modalidades no município. Reafirmo que a respectiva lei se mostra desnecessária quando se sabe que o município de Araranguá não tem ainda implantado o plano municipal de coleta seletiva de resíduos sólidos.

Todo o lixo produzido pela população tem como destino o aterro sanitário. Como havia escrito em texto passado e postado no meu blog, o município de Araranguá lança mensalmente no aterro mais de trezentos mil reais de resíduos que poderiam ser reciclados, proporcionando quase 200 postos de trabalho. É óbvio que no momento da execução do plano municipal de resíduos sólidos, terá no seu arcabouço legal, dispositivos referentes a destinação de aterros, entulhos, dejetos, entre outros resíduos de médio e elevado impacto ambiental.

Também não podemos esquecer que além das inúmeras legislações em vigor sobre ações que disciplinam o uso sustentável do nosso ambiente, temos também um órgão ambiental, a FAMA, cujo seu estatuto foi homologado em 1° de abril de 2011, por meio do decreto N° 5013. O inciso XIII, do Art. 3, que trata das finalidades, está assim redigido. “promover conscientização política de proteção ambiental e arqueológica, criando instrumentos adequados para educação como processo permanente, integrado e multidisciplinar, em todos os níveis de ensino, incluindo a criação de espaços formais e informais, com objetivo de fomentar as cidadanias ambiental e arqueológica, especialmente, nas crianças e adolescentes”.

Aposto que nenhum vereador sabia desse dispositivo legal presente no estatuto da fundação. Afinal, a fundação ambiental do município vem cumprindo à risca tudo que está descrito no seu estatuto? Como sugestão, penso que seria salutar que os legisladores do município encaminhassem ofício ao respectivo órgão ambiental, convidando os seus técnicos para dar informações sobre ações para a proteção dos sítios arqueológicos do município, bem como tipos de programas de educação ambiental aplicadas nas escolas e para a população no seu todo.   

Prof. Jairo Cesa             

quarta-feira, 3 de junho de 2026

 

DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE: PRECISAMOS REFLETIR MAIS SOBRE NOSSO “LIXO”, PRODUZIDO DIARIAMENTE

Foto - Jairo


Em tempos de crises climáticas, a semana mundial do meio ambiente se caracteriza como momento importante para repensar o modo como a espécie humana vem se comportando com a sua casa maior, o planeta terra. O incrível é que ao mesmo tempo em que ciência avançou de tal modo que há preparativos de missões para colonizar a luz, bilhões de pessoas no mundo ainda passam fome e não reciclam parte expressiva do lixo que produzem. Nesse escopo de crises climáticas extremas, é necessário manter-se atento as digressões produzidas pelos agentes do sistema produtivo em vigor, que insistem em construir discursos ou narrativas equivocadas para naturalizar fenômenos climáticos extremos.

Diante dessa hipocrisia discursiva conservadora, é claro que tenderia a levantes coletivos opostos, respondendo as crises climáticas como crises de um modelo econômico que está sucumbindo dia pós dia. A resposta, portanto, à essa crise sistêmica em curso, se mostra visível no comportamento do clima global, nos ciclos das estações, completamente incompatíveis ao que naturalmente as quais foram definidos Primavera e verão, dominadas por ondas de calor escaldantes e persistentes, contrapondo com outono e inverno glaciais, são demonstrativos de que o planeta já está exibindo sinais do seu saturamento, porém, sem retorno.

Durante a semana mundial do meio ambiente, é costumeiro governos municipais, órgãos ambientais, instituições de ensino etc., promoverem atividades alusivas a data, porém, em grande parte, apenas para o cumprimento de protocolos, ou seja, construir consensos acríticos dos vários cenários apresentados. Esses consensos naturalizados acerca do clima se mostram mais presentes quando predominam agentes políticos associados as forças políticas conservadoras, entrelaçados com segmentos econômicos, beneficiados com políticas, por exemplo, de desregulação ou flexibilização de normas ambientais.

A última segunda feira, 01 de junho, foi extremamente relevante para o município de Araranguá e região. A Comissão do Meio ambiente da ALESC, por intermédio do seu presidente, o deputado Marquito, do PSol, esteve com seu staff em Araranguá, para a realização do Seminário Estadual de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos - Boas Práticas para Municípios de Santa Catarina. Por ser um evento relevante para a saúde pública e a economia dos municípios catarinenses, era de se imaginar que no auditório do IFSC, em Araranguá, estivesse presente, no mínimo, parcela significativa dos/as legisladores/as do município e quiçá o próprio chefe do executivo e seus secretários.

Porém, um único legislador do município se fez presente, mostrando que temáticas como clima e saneamento básico não atendem ainda aos interesses do segmento político local. É necessário louvar também a presença de outras duas vereadoras no seminário, uma do município do Ermo e a outra de Criciúma.  Duas importantes palestras foram apresentadas, a primeira pela professora, doutoranda no Laboratório de Pesquisas de Resíduos Sólidos (LARESO – UFSC) Marilia de Medeiros Machado. O segundo palestrante foi Ricardo Abussafy, que é Gerente de Logística Reversa do Programa Dê a Mão para o Futuro.

Tanto a palestrante Marilia de Medeiros quanto Ricardo Abussafy, ambos procuraram discorrer nas suas falas a questão dos resíduos sólidos no mundo, no Brasil e no Estado, as políticas em curso direcionadas a atender a essa demanda, a exemplo da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei n. 12.305/2010).  O que impressionou na fala de ambos é que o estado de Santa Catarina se mantém muito atrasado no cumprimento das políticas relativas a esse tema, pois grande parte do lixo coletado tem como destino os aterros sanitários.

Dentre as medidas sustentáveis aos produtos descartados está a logística reversa, que é a coleta e o retorno de produtos e embalagens ao clico produtivo para reaparelhamento, reciclagem ou descarte adequado.  Nem essa e outras tantas modalidades afins estão sendo aplicadas no município de Araranguá. O fato é que 100% do lixo produzido no município tem como destino, o aterro. É muito dinheiro descartado, lixo é ouro, como relatou a catadora de descartáveis presente no seminário, Dona Adriana.

De fato, o que deve ter chamado mais atenção dos presentes no auditório do IFSC foi o momento em que o palestrante Ricardo trouxe o exemplo do município de Araranguá para explicar um tipo de operação matemática mostrando o quanto de dinheiro é jogado no aterro todos os dias. Ricardo, para chegar ao impressionante valor, que daria para abrir até 164 postos de trabalho nesse setor no município, usou como parâmetro a população do município, de 68 mil habitantes. Afirmou que a média nacional de descarte de lixo é de 1kg/habitante dia.

Informou que 1kg, multiplicado por 68 mil habitantes X 30 dias é = 2,066 milhões de kg coletados por mês. 2,066 X 31,9%, que é a fração seca de resíduos produzidos no Brasil, equivale a 659 toneladas de recicláveis desperdiçados todos mês em Araranguá.  Dessas 659 toneladas, 25% são rejeitos, portanto, sobram 494 toneladas de materiais recicláveis que são jogados no aterro todos os meses. Segundo o palestrante, o valor médio pago atualmente por tonelada de recicláveis é de   700 reais. Multiplicando as 494 toneladas X 700 reais, todos os meses estão indo para o aterro 346 mil reais. Num próximo texto farei mais algumas considerações sobre o assunto. Desejo que nessa semana alusiva ao  Dia Mundial do Meio Ambiente esse texto ajude a refletir questões complexas acerca do “lixo” em Araranguá e no restante do país.  

Prof. Jairo Cesa      

               

sexta-feira, 22 de maio de 2026

 

DETRITOS PLÁSTICOS ASSASSINOS NA FOZ E ORLA OCEÂNICA DE ARARANGUÁ

 

Foto - Jairo

Com a possibilidade de termos um super El Nino a partir do início da primavera, com impactos devastadores a infraestrutura e a economia dos três estados do sul, muitos municípios catarinenses já vem se preparando com limpezas de córregos, bueiros, boca de lobos, etc. São demandas das quais sabemos que independem da ocorrência ou não de fenômenos como o El ninho, sendo-as obrigatórias. Agora, o que realmente os municípios deveriam fazer é adotar medidas enérgicas e urgentes, especialmente os que integram a bacia hidrográfica do rio Araranguá, recolhendo os resíduos plásticos, garrafas pet, por exemplo, acumulados em quantidade impressionante  as margens dos rio, estuário/foz e toda a orla oceânica do município.

Acredito que o cenário de Araranguá deva ser o mais alarmante entre as bacias catarinenses que desaguam no oceano atlântico. É um fenômeno que mesmo com políticas de limpeza periódica, cada vez que ocorre pequenas enxurradas, o acúmulo de lixo, principalmente plástico na foz, é assustador. Já relatei em textos postados anteriormente acerca do tema que são 16 município que integram a bacia do rio Araranguá, desses, nenhum deles, aplica integralmente as políticas de saneamento básico como tratamento de esgoto e coleta seletiva de resíduos sólidos.

Outro fator agravante é que permanece uma cultura de descarte de entulhos, sacas de lixo, nas margens de estradas, rios e córregos. Tudo isso misturado tem como destino certo o oceano atlântico, criando, como já citei inúmeras vezes, verdadeiras ilhas de detritos no meio dos oceanos. A bacia do rio Araranguá é com certeza uma importante dinamizadora desse terrível espectro ambiental. Dos 16 municípios que compõem a bacia, é claro que o mais impactado é Araranguá, porque recebe toda a demanda residual a montante, não somente de sólidos, incluindo também, esgotamentos sanitários, industriais, detritos de carvão mineral, agrotóxicos etc.

As cenas relativas ao lixo na costa araranguaense são assustadoras, principalmente em momentos de ressaca, quando os detritos “brotam” da areia, misturados com troncos e galhadas de madeira. Claro que tem também o lixo trazido pelas redes de pesca, destacando fragmentos de plásticos, considerados armadilhas assassinas a biótica marinha. Deixar evidenciado que todo esse resíduo acumulado não advém somente do rio, tem participação dos transeuntes, que se deslocam até a barra, entre outros. 

   

Foto - Jairo

A presença de fragmentos de rede de pesca, cordas, são os mais frequentes encontrados na orla. Talvez esteja nesses objetos descartados um dos fatores da presença de tartarugas e baleias mortas na costa sul catarinense. Em 2025, a câmara de vereadores de Araranguá aprovou anteprojeto de lei determinando o poder público da instalação de ecobarreiras no rio Araranguá. A função da ecobarreira seria impedir que o lixo trazido pelo rio se deslocasse até o oceano. O anteprojeto também estabelecia o programa de educação ambiental à população e aos estudantes, sensibilizando-os sobre o descarte correto dos resíduos sólidos. É possível que o respectivo anteprojeto não teve aprovação, porque até o momento nenhum tipo de ecobarreira, muito menos ainda educação ambiental sobre resíduos sólidos foram executados.

Nos vários textos que escrevi sobre o tema, destaquei que a maior incidência de plásticos na foz e na orla do município de Araranguá se deve ao descumprimento por parte de vários municípios da bacia do rio Araranguá, das políticas de gestão integrada de resíduos sólidos. Recentemente, em 11 de maio de 2026, o MPSC, ajuizou o município de Araranguá por descumprimento de legislações federais e municipais sobre o tema resíduos sólidos. Segundo o órgão estadual, há nove anos o município de Araranguá vem sendo instado para que cumprisse tais legislações. Pela omissão, a justiça determinou que o município terá dois anos, até abril de 2028, para a execução da política municipal de gestão integrada de resíduos sólidos. Finalmente uma luz no fim do túnel.

Prof. Jairo Cesa            

segunda-feira, 18 de maio de 2026

 

REGISTROS PICTÓRICOS IMPORTANTES: A ARTE COMO INSTRUMENTO DE LIBERTAÇÃO 


Foto - Jairo




A arte ao longo da história civilizatória sempre teve papel importante na representação simbólica no modo de vida das diferentes culturas. As pinturas rupestres, como as encontradas na Serra da Capivara, no Piauí, com desenhos datados de até 50.000 anos são expressões que buscam interpretar o modo de vida, as relações   interpessoais desses grupos humanos já extintos. As sociedades que valorizam a arte, nas suas diversas representações, são mais resistentes a regimes autoritários, bem como comportamentos dogmáticos, como a crença cega a indivíduos vistos como mitos, salvadores da pátria. Se prestarmos atenção vemos que o Brasil se enquadra perfeitamente nesse cenário de dogmatização social coletiva, um tipo de massificação patológica, que é quase regra atualmente no gênero musical apreciado por parte da sociedade.

Foto - Jairo

Foto - Jairo


É claro que a escola tem lá sua responsabilidade na formatação desse preocupante cenário, porém, não é culpa exclusiva das instituições de ensino, mas dos governos e grupos econômicos aliados, que quando definem os parâmetros curriculares, recaem as artes, as ciências humanas, reduzidas cargas horárias de docência. Menor tempo para o ensino da arte, associada a fragilidade pedagógica e a desqualificação profissional, modelam os tipos de sujeitos que saem das escolas, acríticos, insensíveis à estética, à empatia, ao pensamento abstrato. O agravante nisso é que serão sujeitos mais suscetíveis as patologias psíquicas.

Foto - Jairo

Foto - Jairo




Uma exposição de arte, pinturas em tela e esculturas, por exemplo, tem por finalidade não somente tornar o espaço esteticamente mais atrativo, mas também proporcionar ao público visitante momentos de introspecção, sensibilização, um encontro com sim mesmo, diante dos trabalhos produzidos pelo artista. Admito que deve ter sido exatamente essa a minha proposta quando solicitei o espaço do Travessia Shop – Calçadão, Araranguá, para a realização da exposição de esculturas e pinturas em tela, essa última, retratando o ambiente urbano de Araranguá na Primeira República do século XX.

Foto - Jairo


A exposição teve a duração de quinze dias, de 24 de abril a 10 de maio de 2026. Durante esse período foram centenas de pessoas que transitando pela galeria, muitos/as, atraídos/as pela diversidade de peças expostas, reduziram ou cessaram os paços para apreciar o que estava sendo mostrado ali. Muitos vieram até a mim, agradecer por ter escolhido o local para expor trabalhos tão primorosos e de fortes significados sensoriais. Relatou uma gerente de loja que pessoas em Araranguá não acreditam ou não sabem que no município tem pessoas que fazem arte: esculturas, pinturas, gravuras etc. Ainda hoje é hábito as pessoas interpretarem a arte como objeto eminentemente terapêutico, algo desprovido de objetividade, não veem como uma atividade profissional, que lhe proporciona ganhos financeiros para a sua subsistência.

Foto - Jairo





De fato, poucos/as tem a arte como meio exclusivo de subsistência, incluindo nesse mote o músico, o escritor, exceto, é claro, os que escrevem obras de autoajuda. Como prova que em Araranguá a arte ainda ocupa espaço secundário no cotidiano da sociedade, nos quinze dias de exposição, não houve a presença de qualquer órgão de imprensa local ou regional para dar alguma cobertura para incentivar a mostra.   Talvez o desinteresse seja pelo fato de a arte ainda estar vinculada a personificação de nomes de forte veiculação midiática.  Se perguntarmos as pessoas se lembram o nome de algum escultor brasileiro importante, certamente o nome que virá à mente será de Aleijadinho, artista barroco mineiro, não é mesmo?

Foto - Jairo


As pinturas e em especial as esculturas expostas, todas, tem forte representação simbólica. Cada peça exibida traz informações e vestígios das várias catástrofes climáticas que se abateram na região da bacia do rio Araranguá. São milhares de troncos, alguns centenários, que se desprenderam e que continuam se desprendendo das encostas da serra geral, que empurrados pela força do rio tende a se acumular na foz do rio Araranguá e em toda a extensão da respectiva orla.  Na exposição, portanto, o espectro climático planetário também é esboçado, cada árvore erodida das encostas ou até aquelas suprimidas para expansão agrícola ou pecuária, seus impactos a biótica planetária já se mostram devastadores.

Prof. Jairo Cesa                 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

 

EFEITOS DO SUPER EL NINO JÁ SÃO SENTIDOS NO SUL DE SANTA CATARINA

 

Foto - Jairo


Começou o mês de maio e já são visíveis os reflexos do super El nino ainda em formação no oceano pacífico equatorial. Ventos fortes, tornados, e agora um ciclone extratropical de intensidade elevada provocaram problemas com prejuízos econômicos elevados. Se havia alguma dúvida quanto aos alertas dos meteorologistas, não há mais, pois teve até falas minimalistas, alegando que os alertas deles/as traziam pânicos exacerbados e desnecessários à população.

Desde os episódios climáticos extremos e destrutivos no Sul em 2023, as comunidades cientificas do Brasil e do exterior vem lançando frequentes comunicados para que os governos tomem providencias, executando políticas para mitigar os efeitos das emergências climáticas em curso. Se prestarmos atenção nos locais que ultimamente estão sendo mais afetados por enxurradas no Brasil, veremos que é a parte litorânea, a exemplo do nordeste.

Recife, entre outras cidades costeiras, tiveram perdas significativas de vidas humanas por deslizamentos de encostas e afogamentos. Tudo isso tem relação direta e indireta com os desmatamentos e o aquecimento das águas do oceano atlântico na qual empurra umidade do oceano para a costa continental. A faixa costeira litorânea catarinense e gaúcha são também áreas sensíveis as mudanças climáticas em curso. A cada ciclo do el nino seus efeitos são mais devastadores à infraestrutura de toda a região.

Acontece que mesmo diante das fragilidades da geografia costeira de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, o que se vê é o avanço desordenado do setor imobiliário, avalizados por planos diretores cada vez mais permissivos. As próprias legislações ambientais favorecem essas ocupações, tendo agora como agravante a flexibilização dos licenciamentos ambientais.  

A faixa costeira do município de Araranguá é considerada uma das mais frágeis ambientalmente do litoral sul de Santa Catarina. Devido a essas peculiaridades, em 2016 três decretos municipais criaram:  uma APA, um MONA-UC e uma RESEX. Os três tinham o propósito de assegurar maior proteção aos frágeis ecossistemas, bem como garantir participação ativa da sociedade em todas as discussões relativas às ocupações desses espaços. O próprio projeto orla, concluído em 2016, também teve o mesmo propósito, porém, seguiu mesmo caminho dos decretos, sofrendo todo tipo de ataque das administrações que se sucederam.

Tentativas de descumprimento de demandas do Plano de Gestão Integrada - PGI e de legislações ambientais, fez o Ministério Público Federal imputar ação de embargo de obras públicas vistas como passíveis de impactos ambientais severos. A abertura de uma estrada ligando a praia do Paiquerê à orla do Morro dos Conventos, foi uma dessas demandas ajuizadas pelo MPF. Construída sobre dunas frontais, o erro praticado foi ter instalado tubos com diâmetros pequenos para desaguar as águas do manancial Lago Dourado. Primeira ressaca de grau médio, os tubos foram totalmente assoreados.


Foro - Jairo



Reconhecendo o erro, a administração teve que retirar os tubos e substituí-los por outros com diâmetros maiores. Agora, no começo do mês de maio, nova ressaca de grau médio se sucedeu na costa oceânica, cujo canal que desagua o lago dourado, que recebera novas tubulações, fora outra vez obstruído por sedimentos.   Se a comunidade fosse ouvida e acatada suas opiniões, especialmente dos/as mais experientes, que conhecem a dinâmica da geografia costeira do local, é claro que as falhas cometidas na execução das obras seriam menores ou até mesmo inexistentes.       

Foto - Jairo


        Mas a prepotência, o individualismo, o ego exacerbado, prevalecem em administrações onde o consenso burro é quase hegemônico. É aqui que está o perigo. Um governo que tem ao seu lado a mídia, o legislativo, o segmento religioso, entre outros, se submete ao risco de estar se tornando aquilo que o escritor português José Saramago escreveu e que virou filme em seu Ensaio sobre a Cegueira.  

Prof. Jairo Cesa

sexta-feira, 8 de maio de 2026

 

A ARQUEOLOGIA DO LIXO NA FAIXA COSTEIRA DE ARARANGUÁ

Foto - Jairo


A arqueologia é uma ciência que procura reconstruir cenários por meio de fragmentos, objetos, de culturas antigas desaparecidas há milênios. Um exemplo concreto são as culturas sambaquianas que ocuparam a faixa costeira do estado de Santa Catarina há quatro, cinco mil anos. Por que então relaciono o temo lixo à arqueologia? A resposta vem da inúmeras caminhadas que faço semanalmente até a atual barra aberta mais ao sul do posto de salva vidas central no Morro dos Conventos.

Durante a incidência de ventos fortes e ressacas parte da areia das dunas frontais são removidas revelando no seu interior um cenário assustador. Garrafas pets, long neck, sacolas plásticas, copos e mais uma infinidade de objetos estão ali cobertos e de repente vem a luz gerando estarrecimento. Claro que se continuar escavando é possível identificar mais lixo, de épocas mais antigas, pois fragmentos como vidros, plásticos tem o seu ciclo de vida extremante longo.

O lixo enterrado não é exclusividade apenas no nosso município, é um fenômeno que domina todo o litoral catarinense e brasileiro, no qual revela o nível de cultura que ainda hoje impera por aqui. No caso de Araranguá, além do lixo trazido pelo rio, principalmente durante as enxurradas, o acúmulo dele na praia e nas dunas tem a contribuição direta de sujeitos que integram a espécie humana, desprovidos de qualquer reflexão, sensibilização acerca dos seus impactos aos ecossistemas.

Foto - Jairo


 Já que estamos sob a iminência de um novo El Nino e com previsões de ser muito forte, a tendência é o acúmulo de novas camadas lixo em nossa faixa costeira. O que intriga é saber que muitos governos sempre procuram dispor recursos para mitigar os efeitos climáticos extremos, porém, nenhum centavo a mais para a execução de programas de recolhimento e reciclagem de plásticos, entre outros resíduos, que tomam nossas praias, nossos oceanos, no grau absurdo de formarem extensas ilhas de lixo, das quais influenciam na dinâmica da biótica marinha global.

A pergunta que todos gostariam de resposta é o que fazer para que nossas praias, nossos oceanos não sejam mais impactados, colocando em nível de extinção centenas de espécies marinhas? A resposta, portanto, é política, ou seja, enquanto tivermos governos que negam a ciência, que não priorizam a educação, que concebem rios, córregos, mares, como depositários de tudo que é descartado, permaneceremos reféns as intempéries climáticas. É claro que mudar o cenário dramático do lixo que domina nossas praias depende direta e indiretamente do que consumimos, do que pensamos, como nos comportamos no ambiente que compartilhamos com outros indivíduos e demais seres.

Se cada individuo quando consumisse um produto, um refrigerante, um cigarro, colocasse os resíduos em um local indicado para depois ser recolhido e depositado em local apropriado, as cidades sofreriam menos os impactos climáticos extremos. Portanto, temos clareza que o acúmulo de lixo em nossas vias públicas e praias, tem relação direta com o nosso modelo produtivo que sobrevive dos excessos, da exploração, do descarte. Reciclar, reutilizar, não condiz com o atual sistema produtivo, mas de outro modelo que presa o coletivo, a reciprocidade, o respeito, a solidariedade. Temos que pensar que não existe outro planeta de reserva com as mesmas características que a terra, que estamos nele há pouco tempo, que os estragos já provocados dão a certeza que estamos sucumbindo o mais rápido que imaginávamos.

Prof. Jairo Cesa          

terça-feira, 5 de maio de 2026

 

SUPER EL NINO E AS FRÁGEIS ´POLÍTICAS MUNICIPAIS DE ADAPTAÇÃO CLIMÁTICA

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Os meteorologistas vêm alertando acerca do gradual aquecimento das águas do oceano pacífico na linha do equador, dando a entender que teremos outra vez o retorno do fenômeno el nino influenciando o clima no mundo inteiro a partir do segundo semestre, mais especificamente na parte sul da América do Sul. O que chama atenção é que dessa vez o fenômeno climático poderá ser mais intenso que os últimos, em especial o de 2023, cujo epicentro foi o estado do Rio Grande do Sul, com quase dois terços do território destruído pelas enxurradas.   

Na época, a tragédia se tornou maior pelo fato de os governos terem minimizado as previsões, não propondo ações preventivas como sirenes e comunicados às populações das áreas de riscos para que procurassem locais mais seguros. O exemplo foi o município de Muçum, totalmente devastado. É muito provável que passados dois anos da tragédia no estado gauche e parte expressiva do estado catarinense, pouca coisa foi feita para pelos governos para minimizar impactos durante o retorno do fenômeno El nino.

Meteorologistas renomados com grande assertividade nas previsões do tempo vem alertando insistentemente que no segundo semestre de 2026 teremos o retorno do El nino. Essa insistência se deve ao fato de o fenômeno estar se configurando como   um dos mais poderosos das últimas décadas. Acontece que nos últimos anos segmentos da sociedade e da política procuraram construir discursos criminalizando a ciência, as instituições de pesquisa, a ponto de querer negar verdades inquestionáveis como a própria esfericidade da terra.

Em uma sociedade como a brasileira majoritariamente carente de educação formal tende a construir suas opiniões a partir desses discursos negacionistas, onde a fé se sobrepõe a ciência. O que afirmo é bem real, basta ler os comentários de alguns posts publicados recentemente no estado catarinense alertando a população e as autoridades para se precaverem acerca do super el nino que está se formando no oceano pacífico, próximo ao Equador, e que trará impactos catastróficos ao sul do Brasil.  São poucos os comentários que não intercedem a ajuda divina para evitar ou mitigar as tragédias. O que é mais grave é que muitos tentam minimizar o problema, subestimando informações postadas por meteorologistas com extraordinária respeitabilidade entre os seus pares.  

O que é real mesmo é que o Brasil está diretamente inserido nesse imbróglio climático global, tanto como um dos maiores emissores de gases do efeito estufa, como também principal alvo dos seus efeitos. Mesmo com dados que comprovam redução dos desmatamentos na Amazônia, o planeta continua recebendo toneladas e mais toneladas de CO2 diariamente, decorrente da queima de combustíveis fósseis. O aumento médio da temperatura do planeta de 1.5 graus célsius previstos para o final do século já é uma realidade. Há fortes indícios que antes de 2050 a temperatura média do planeta estará beirando os 2.0 graus, e o resultado disso será o colapso definitivo da vida no planeta.

O que preocupa é saber que raros são os municípios brasileiros que tem a demanda climática como prioridade das prioridades nos seus planos diretores. As cidades ainda são hoje pensadas, planejadas, desconsiderando políticas como adaptações climáticas, ou seja, como torná-la resilientes às enxurradas, a episódios extremos como furações, tornados. Araranguá e demais municípios atingidos pelo Furacão Catarina em 2004, nesses 21 anos pós ocorrência do fenômeno não há informação de ter havido algum treinamento com a população de como deve agir na hipótese de vir a ocorrer outro furação.

É possível também que não temos hoje dados meteorológicos confiáveis da região sul do estado, tanto pela escassez de estações meteorológicas instaladas, como pela fragilidade funcional de muitas delas. Devemos considerar que existe atualmente um processo de fragmentação institucional no qual impede respostas integradas de políticas ambientais no campo da gestão hídrica, planejamento urbano e proteção territorial. Esses sistemas operam como ilhas desconectadas do conjunto institucional dos municípios brasileiros.

Prof. Jairo Cesa