quinta-feira, 15 de outubro de 2026

 

 OPERAÇÕES PSICOLÓGICAS OU PSYOPs QUE ATUAM NA DESESTABILIZAÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO

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Há mais de quinhentos anos os territórios de populações milenares, como os Astecas, os Incas, os Maias, os Tupinambás, os Guaranis, entre outros, foram ocupados pela fúria destruidora colonial espanhola e portuguesa. Impuseram aqui sua cultura, suas práticas nefastas, roubando nossas riquezas, nosso ouro, nossa prata, nossa madeira, e escravizando o povo local. Esse processo colonizador das américas jamais cessou, a Espanha e Portugal entraram em declínio econômico, sendo agora substituídas pela Inglaterra, o grande império dos cinco mares, franqueada em manter o domínio sobre o território, agora, nações "independentes", porém, vassalos da vossa majestade.

Século XX, a ex-colônia britânica, Estados Unidos, se desponta como potência regional. Por meio de negociações e acordos com a vossa majestade imperial britânica, assume as rédeas do que viria a ser o grande quintal econômico estadunidense. O tempo passou, guerras sanguinárias se sucederam, tivemos a guerra fira, bem como transformações relevantes no campo econômico e tecnológico, fazendo com que nações viessem a confrontar o poderio do grande império do norte. Chega o século XXI, é a era da internet, das mídias digitais, da inteligência artificial, Tudo isso junto e misturado, impõe as populações não alinhadas a governança tecnológica, a América Latina, por exemplo, a permanente condição de subserviência.

Alcançar elevados níveis de desenvolvimento tecnológico exigiu anos de pesquisa e investimentos pesados em educação, algo que a Amarica Latina não o fez, claro que motivada por políticas de dependência, se especializando na exportação de commodities. Com o fim da guerra fria, os Estados Unidos assumiram o controle da governança global, porém, não avaliaram que décadas depois sua supremacia estaria ameaçada pela China, o gigante país comunista, com uma economia tão capitalista quanto as demais superpotências, porém, planificada pelo Estado.

Novos componentes eletrônicos passaram a ditar a ordem econômica global. Chips para computadores, celulares, carros e motocicletas elétricas, são equipamentos que ditariam as regras de um mundo em que a inteligência artificial insiste em querer conquistar autonomia junto aos mortais hominídeos. Do mesmo modo em que o ouro e a prata forjaram impérios, os valiosos chips são elaborados a partir de minerais, tão raros e valiosos quanto os cobiçados metais pelas metrópoles espanhola e portuguesa. Agora, tente adivinhar, onde eles estão realmente depositados?  Claro que a maior concentração está no território chinês, e em segundo lugar, o Brasil.

Enquanto as superpotências como os Estados Unidos, aplicaram bilhões de dólares em indústrias bélicas, nos últimas trinta a quarenta anos, a China dedicou esse tempo na estruturação do seu parque industrial, na educação dos seus jovens em todos os níveis. Nos últimos dez anos a China vem ameaçando o grande império do norte, que responde as ameaças reocupando o seu histórico quintal, a América Latina. O que se vê na América Latina é uma forte guinada política à direita, em muitos casos, à extrema direita, a partir das últimas eleições que se sucederam na região. Todas, sem exceção, tiveram influência direta ou indireta dos Estados Unidos. A Venezuela, o processo foi mais violento, com o sequestro do presidente e sua esposa por forças Trumpistas, sendo o/a  levado/a para os EUA e colocado/a na prisão. 

Como um tabuleiro de xadrez, governos de centro ou de esquerda foram paulatinamente sendo suprimidos pela onda direitista na América Latina. Agora, estão faltando as duas principais economias latino-americanas, o México e o Brasil. Entretanto, é o Brasil que os Estados Unidos concentram a suas forças com vistas a emplacar a vitória de mais um governo vassalo no continente. O modus operandi dessa virtual tentativa de tomada do poder no Brasil pela extrema direita, talvez não repita o caminho trilhado em 1964, quando as forças armadas ocuparam as ruas destituindo o governo João Goulart e pondo um fim ao Estado democrático de direito. 

Dessa vez há uma engenharia envolvida nessa possível tentativa de tomada de poder, a qual denominamos de Arquitetura de vigilância. Sim, são as mídias digitais que fazem esse trabalho sujo pró-imperialismo estadunidense. As principais plataformas digitais, as big tech: WhatsApp, Google, YouTube, Meta etc., estão sediadas nos EUA. Acredite, parte do aparato militar norte americano também detém nossas informações sensíveis, como a localização, os hábitos de consumo, as redes de relacionamento, as preferencias políticas, o histórico de navegação, a biometria e dados institucionais públicos.

Esse será, portanto, o modus operandi que a turma do presidente Trump irá se utilizar para emplacar o seu candidato, o ultradireitista Flávio Bolsonaro, o nome que representa o que se tem de mais atrasado, de mais tosco em termos de política. Eleger um vassalo, o candidato Flavio exibiu todas as credenciais que assim o será, pois é o instrumento que Trump usará para frear a forte influência da China na região. O que o império americano deseja no Brasil é fincar suas garras predatórias, tomas nossas riquezas naturais, em específico as terras raras.

Aqui, portanto, está o nefasto preço a pagar pela nossa condição de nação periférica. Enquanto as nações centrais concentraram os benefícios do progresso técnico, retendo maior poder de decisão, as economias periféricas permanecem vulneráveis à dependência externa. A fragilidade das nossas instituições de ensino, do básico as universidades, resultaram no que vivemos hoje, o colonialismo digital. Essa assimetria, centro e periferia, se desloca para o controle das infraestruturas, dos dados das plataformas e das tecnologias das quais a nossa sociedade depende.

De fato a arquitetura de vigilância vem atuando com extraordinária eficiência no território brasileiro, criando desinformação de tal modo a gerar um clima de desestabilização social permanente. O receio de a China se estabelecer como protagonista econômico por meio da difusão da rota da ceda no quintal americano, fez com que as big tech entrassem em ação, cujo propósito inicial é gerar desinformações e pavimentar o terreno político para eleger um governo subserviente ao imperialismo americano.

Parece que esse modus operandi tecnológico no campo cognitivo de parte da sociedade brasileira vem galgando algum sucesso. Um candidato com um currículo tão repleto de suspeitas de ter cometido atos criminosos, que põe em risco o próprio estado republicano, e que está à frente das pesquisas na eleição de segundo turno, há indícios claro de que as operações psicológicas ou PSY OPS, estão atuando com intensidade nas diferentes mídias sociais, que são controladas pelas corporações midiáticas estadunidenses.     

Prof. Jairo Cesa                

https://diplomatique.org.br/entre-terras-raras-e-dados-a-disputa-pela-soberania-tecnologica-do-brasil/

https://diplomatique.org.br/para-alem-das-tarifas-a-disputa-esta-na-cognicao/

https://diplomatique.org.br/o-brasil-como-baluarte-das-terras-raras/

https://www.youtube.com/watch?v=_AK8PtKw3L4

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domingo, 11 de outubro de 2026

 

PLEITO DE 04 DE OUTUBRO DE 2026 ELEGEU UM CONGRESSO QUE REMETE AO REGIME MILITAR, DA ARENA E O MDB

https://pt.slideshare.net/slideshow/partido-arena-e-mb/41980905



O recente pleito eleitoral de 04 de outubro destacou uma preocupação que remete ao período da ditadura militar, quando apenas dois partidos políticos, a ARENA e o MDB, tiveram autorização para atuar. A eleição evidenciou a significativa quantidade de cadeiras conquistadas pelo Partido Liberal – PL, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. Esse sucesso eleitoral do Partido Liberal também abrangeu o executivo e as assembleias legislativas estaduais, que registraram um aumento no número de cadeiras em comparação ao pleito anterior.

Durante o regime militar, o general Castelo Branco, em 1965, implementou o AI 2, o qual eliminou os partidos políticos e criou as duas legendas: a Aliança Renovadora Nacional e o Movimento Democrático Brasileiro. Dois anos depois, em 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi promulgado o Ato Institucional n° 5, que concedeu plenos poderes ao governo, incluindo o fechamento do congresso e a proibição de eleições. Em 1972, sob o governo do general Médici, as eleições diretas para senador e prefeito foram restabelecidas.

Com a intensificação dos movimentos de oposição ao regime militar, manifestados pelo MDB através do aumento de prefeitos e vereadores eleitos, os generais instituíram a Lei Falcão para neutralizar essa oposição, a qual limitava a propaganda eleitoral a simples fotos dos candidatos e à narração de suas biografias por um locutor. Esta era a maneira que os generais encontraram para bloquear o avanço do MDB, que incluía diversas tendências ideológicas, como o PCB e o PTB, além de nomes de esquerda do PSD que se opuseram à filiação à ARENA.

Apesar da ARENA defender a ideologia do regime militar e suas demandas reacionárias, as disputas eram intensas nas indicações de candidatos à majoritária nos municípios. Para mitigar as disputas entre as facções na ARENA e no MDB, os generais criaram sublegendas. Em vez de ter apenas um candidato ao executivo municipal, a legenda poderia incluir mais dois nomes, atendendo assim às diferentes demandas dos grupos econômicos, resultando nas denominações ARENA-1, ARENA-2 e ARENA-3, o que também era válido para o MDB. No entanto, o candidato mais votado, que poderia ser da ARENA ou do MDB, frequentemente não era o eleito para o cargo, pois o que importava era a soma das sublegendas.

Um exemplo claro do uso desse instrumento para reduzir as tensões eleitorais e evitar uma possível vitória da oposição ocorreu em Araranguá/SC, nas eleições municipais de 1976, onde a ARENA lançou duas sublegendas e o MDB, três. Com apenas 152 votos de diferença, a ARENA elegeu o candidato da Sublegenda-1, Salmi Paladini, que obteve 3.673 votos. Caso o MDB tivesse vencido, o prefeito teria sido João da Silva, da sublegenda-2, com um total de 2.553 votos, ou seja, 1.120 votos a menos que o candidato da ARENA eleito.

Embora o contexto atual seja diferente, há um cenário alarmante que sugere a repetição de erros do passado recente, quando a população ficou submissa às agruras do autoritarismo militar por duas décadas. O resultado do pleito de 4 de outubro indicou que viveremos sob um legislativo ultraconservador, que ameaçará as conquistas históricas dos trabalhadores. Agora, não é mais a ARENA que impõe suas diretrizes, mas o PL e seus partidos aliados, que juntos ocuparão 388 cadeiras na Câmara dos Deputados. Na oposição, não é o MDB, mas o PT e mais cinco ou seis siglas aliadas, que ocuparão 124 assentos na casa legislativa.

Se, hipoteticamente, o PT vencer no segundo turno em 25 de novembro, certamente enfrentará um mandato repleto de chantagens por parte do parlamento e de grupos econômicos aliados. Considero que, com um parlamento tão desprovido de apoio ao governo Lula, o quarto mandato exigirá a mobilização popular nas ruas, algo que se mostrou discreto nos últimos quatro anos. Nas eleições de 2022, com a vitória de Lula e, posteriormente, a tentativa de golpe em 08 de janeiro, não havia, como agora, um clima de intolerância tão feroz da direita contra o PT/LULA.

A interferência dos EUA, se houve no passado, foi sutil, muito diferente da atualidade, que vê o país apostando todas as suas fichas na vitória do candidato de extrema direita. Até que ponto é possível confiar nas instituições para que Lula seja empossado caso vença as eleições? Existe o risco de repetição dos eventos de 8 de janeiro de 2023, agora com a participação direta das forças repressivas dos EUA, semelhante ao que aconteceu na Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Precisamos estar preparados para evitar o pior.

 

Prof. Jairo Cesa

             


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 

O LAÇO/CHICOTE COMO REPRESENTAÇÃO ARQUETÍPICA/SIMBÓLICA DE SÉCULOS DE OPRESSÃO

https://lemad.fflch.usp.br/node/5408


Nunca imaginei que, após quase quarenta anos na profissão de professor de história, na qual sempre me opôs às brutalidades cometidas por regimes sanguinários como o nazismo, o fascismo e a escravidão, acabaria testemunhando cenas tão grotescas e repletas de simbolismos nefastos, como as ações de uma deputada de Santa Catarina, reeleita deputada federal nas eleições de 04 de outubro. A figura a qual me refiro é Júlia Zanatta, que faz parte do espectro extremista do estado, tendo recebido mais de 560 mil votos. 

Um vídeo que circulou nas redes sociais mostrava a deputada segurando um relho/chicote e caminhando por uma rua em estado de agitação, acompanhada por seus apoiadores, enquanto proferia palavras como “dando de relho”, referindo-se à impressionante quantidade de votos que estava recebendo. É possível que uma parte significativa dos votos que ela obteve tenha vindo de homens e mulheres de baixa renda, que talvez não soubessem que essa mesma deputada havia votado dias antes contra eles, especificamente contra a redução da jornada de trabalho de 6x1 para 5x2. 

O uso do relho ou chicote durante sua caminhada, batendo no chão, traz uma representação simbólica profunda, remetendo a uma cultura supremacista, branca, que durante mais de três séculos se apropriou do corpo de africanos, escravizando-os para gerar riqueza e poder. Essa mesma deputada, que portava o relho, talvez inconscientemente carregue o peso da dor transgeracional de seus antepassados europeus, que também foram oprimidos por regimes sanguinários dos quais foram vítimas. 

É ainda mais alarmante perceber que a história, como ciência dos acontecimentos, que deveria ser um instrumento para enterrar tragédias passadas a fim de que nunca mais se repetissem, não tem alcançado esse objetivo, pois basta observar o cenário atual para ver que comportamentos e fatos se assemelham ao final do século XIX, quando regimes sanguinários estavam sendo formados na Europa. 

Por que, de repente, comportamentos de ódio e xenofobia são tão fortemente evidenciados? O que os poetas diziam sobre o Brasil como um país ordeiro, pacífico e cordial revela-se como uma antítese, uma sociedade moldada pelo ódio geracional. Mesmo após o fim da escravidão, o Senhor da Casa Grande, hoje o “moderno sinhozinho”, continuou com seu “chicote” ao alcance, arrancando do trabalhador/as seu sangue, suor e dignidade. 

É oportuno mencionar o filósofo educador Paulo Freire, que afirma que o opressor é, na verdade, um sujeito oprimido, e que para libertá-lo dessa condição, precisamos libertar a própria humanidade. Em tempos difíceis como os atuais, considero que a história, enquanto disciplina escolar e acadêmica, não dispõe de todos os instrumentos teóricos e filosóficos necessários para explicar o que ocorre no Brasil e no restante do mundo ocidental. É claro que as ciências sociais, particularmente a sociologia, representam um campo de conhecimento relevante, mas ainda não são suficientes para trazer explicações adequadas. Uma resposta viável para todo esse turbilhão de tensões demanda a colaboração de diversas ciências: história, sociologia, antropologia e, especialmente, psicanálise. 

Sim, a psicanálise, a partir de Freud, Carl Jung e seus discípulos, ao abordar os instintos de morte e arquétipos, que são representações simbólicas do bem e do mal, sugere que os indivíduos carregam inconscientemente o peso opressor de gerações. O laço/chicote utilizado pela deputada catarinense se configura como um arquétipo que simboliza o mal, respaldado por mais de 560 mil catarinenses que votaram nela, indicando que, portanto, também são opressores e oprimidos. Cada um dos/as eleitores/as tende a amenizar sua dor através de seu álter ego, que, nesse caso, é a deputada. 

No que tange aos instintos de morte, essa representação arquetípica se manifesta por meio da exibição de armas ou gestos manuais, como o ex-presidente Jair Bolsonaro costumava fazer ao defender a liberação do porte de armas. Um vídeo que mostrava uma criança segurando uma arma de fogo e dançando sobre um carro durante as comemorações dos resultados eleitorais, possivelmente ligado ao partido do candidato a presidente, do PL, também constitui uma representação arquetípica de poder, da virilidade masculina e de um rito de passagem. O uso dessas representações, de forma inconsciente, revela o lado obscuro da masculinidade, os recalques emocionais e a indefinição da própria sexualidade. 

Outro exemplo que traz essa representação arquetípica negativa é de uma candidata eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo, também do PL, que obteve cerca de 2 milhões de votos. O que marcou sua campanha foram demandas polêmicas que não condizem com as pautas convencionais de uma mulher brasileira, ainda mais sendo uma parlamentar, que deveria primar pela ampliação dos direitos de igualdade e empoderamento social do campo feminino. Uma mulher que é eleita defendendo pautas antifeministas em um país onde a cada seis minutos ocorre um feminicídio é uma clara demonstração de que mulheres também são vítimas passivas da opressão. Portanto, oposição às demandas libertárias contribui para alimentar vícios de domínio, arquétipos do mal, que vão se amalgamando no inconsciente coletivo feminino. 

Até então desconhecida, a candidata que recebeu o maior número de votos em São Paulo rapidamente conseguiu angariar uma infinidade de inimigos, especialmente mulheres, por suas posições controversas em relação ao campo feminino. Um dos absurdos defendidos por ela é a negação da própria existência do feminicídio como uma categoria específica de crime. Observem o que essa pessoa acredita! Até pode, uma vez que se diz seguidora do filósofo e escritor Olavo de Carvalho. Sim, ele mesmo, o guru do conservadorismo e o guia intelectual de Jair Bolsonaro. 

E não parou por aí a série de ações da jovem deputada paulista que refletem suas opiniões e defesas, enaltecendo o lema integralista/fascista de Deus, Pátria, Família e Liberdade. Para mostrar que a sua mentalidade também está repleta de ódio, similar ao da deputada catarinense, da tiara de flores e do chicote, fez, em maio de 2026, um comentário em seu podcast Red/Cast, exaltando Deus por ter catequizado os indígenas brasileiros. Além disso, associou os indígenas a práticas de sacrifícios e canibalismo. 

Não há como não incluir essa figura na longa lista de danos causados por uma família e seus acéfalos, que se espalharam como um vírus letal entre milhões de mentes vazias, fazendo-as acreditar que a terra era plana. São essas pessoas que desejam governar o Brasil!!    Quatro anos de governo Bolsonaro foram suficientes para evidenciar a incapacidade desse grupo de administrar nossa querida e amada pátria brasileira. Precisamos lutar até o fim para que esse mal não se repita.

Prof. Jairo Cesa 

 

            

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

FRASCO DE AGROTÓXICO - (FANTIN TAFIREL),  BANIDO PELA ANVISA, É IDENTIFICADO NA FOZ DO RIO ARARANGUÁ.

 

Foto - Jairo

As últimas enxurradas ocorridas na montante (rio acima) da bacia do rio Araranguá trouxeram um cenário que vem se notabilizando na foz da própria bacia: milhares de pés de árvores depositados, misturados com todo o tipo imaginável de lixo. Embora a administração de Araranguá (FAMA) faça a campanha do recolhimento anual dos detritos por meio do projeto Arco-íris, essa ação voluntária assume um papel paliativo, tamanho o volume de resíduos trazidos pelo rio.

É importante ressaltar que o lixo, depositado na foz e na orla do município de Araranguá, são apenas fragmentos, se comparado ao enorme volume que é absorvido pelo oceano atlântico. Mas, de fato, o que chama a atenção mesmo é o imenso número de embalagens de agrotóxicos que vem se acumulando nas imediações da foz do rio.   Até aí, nada disso é surpresa para ninguém, porque a região da bacia hidrográfica do rio Araranguá é uma das maiores produtoras de arroz irrigado do estado, sendo usual a aplicação de insumos químicos e agrotóxicos na lavoura.

Existem legislações em vigor que definem os agrotóxicos autorizados pela ANVISA, bem como protocolos que os produtores devem seguir, tanto na aplicação do produto quanto no destino das embalagens vazias, que devem ser recolhidas e entregues nos locais onde foram adquiridas.  Também não é segredo que muitos dos agrotóxicos autorizados no Brasil estão banidos em vários países, a exemplo da União Europeia. Embora tendo o grau de toxicidade elevado, como o 2,4-D, Atrazina, Acefato, entre outros, existem aqueles cujo uso a legislação brasileira desautoriza, por conterem princípios ativos altamente tóxicos.

Um desses agrotóxicos, banidos pela legislação brasileira, Resolução n. 1.975/2019, é o Fentin Tafirel, classificado como classe II, muito perigoso ao meio ambiente. É considerado um poluente marinho severo, que destrói a fauna aquática (peixes e plantas). No ser humano, esse agrotóxico tem potencial carcinogênico, além de afetar o sistema reprodutivo e endócrino. Nos ecossistemas, esse fungicida permanece ativo por muito tempo, não sendo dissolvido com facilidade.   

O que é espantoso é o fato de esse produto, banido pela legislação brasileira, estar sendo utilizado nas culturas da Bacia do Rio Araranguá, cuja aquisição, acredita-se, tenha sido realizada por meio de contrabando. A certeza acerca do uso desse veneno é confirmada a partir da identificação de uma embalagem, misturada com fragmentos de madeira e lixo plástico, na foz do rio Araranguá. É preciso informar que são toneladas de agrotóxicos aplicados todos os anos na região sul do estado, possivelmente estão incluídos nesse pacote, aqueles banidos pela ANVISA, que acessam ao território pelas fronteiras, por meio de contrabando.  

Foto - Jairo


Agora, imaginemos o grau de perigo a que estão sujeitas as populações que consomem alimentos e água, possivelmente contaminados por esse e outros agrotóxicos, também contrabandeados. Se um frasco de Fentin Tarifel foi identificado na margem do rio Araranguá, é provável que mais frascos desse e de outros aditivos tóxicos, classe II, tenham se deslocado para o oceano. Até que ponto podemos afirmar que peixes e crustáceos capturados na orla do município de Araranguá não estejam contaminados por agrotóxicos?

Prof. Jairo Cesa

 

A INFLUÊNCIA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO SUPER EL NIÑO: OS IMPACTOS NO SUL DE SANTA CATARINA

https://ndmais.com.br/tempo/super-el-nino-como-vai-atingir-cada-regiao-do-brasil/


As previsões de um Super El Niño vêm se confirmando, e os seus efeitos estão sendo observados nos estados do sul, com precipitações acima da média para a época. O fato é que o fenômeno climático está no começo, com previsões alarmantes para o mês de outubro, com índices pluviométricos que podem superar os 600 mm em alguns pontos dos três estados. Mais uma vez, como já é quase regra, frágeis são as iniciativas dos governantes na busca de soluções ou medidas paliativas para minimizar os impactos. Quem acompanhou as enxurradas no RS em 2024 percebeu que a tragédia não é conveniente credenciá-la a fatores naturais.   A interferência humana nos vários ecossistemas, encostas de morros, margens de rios, é vista como vetor ao agravamento da tragédia.

https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/05/29/fotos-cheias-no-rio-grande-do-sul.ghtml


Desde o momento em que os meteorologistas do mundo inteiro começaram a alertar governantes e autoridades de que as águas da costa oceânica do Pacífico equatorial estavam aquecendo em níveis anormais, no Brasil, por exemplo, ainda predominam posturas negacionistas, com críticas contra cientistas do tempo, por estarem sendo alarmistas ao extremo, cuja afirmação de aquecimento global é coisa de lunático, esquerdista. A primeira ação concreta adotada pelo presidente dos Estados Unidos, após vitória eleitoral, foi oficializar saída definitiva do país do acordo de Paris, em 2015.  Nessa COP foram assinados protocolos de intenções, incluindo o Brasil, cujo propósito era executar ações que limitam as emissões de gases do efeito estufa.

Entre os países que terão maiores impactos significativos diante das mudanças climáticas em curso está o Brasil, que poderá sofrer forte revés na sua atividade agrícola, em decorrência da redução das chuvas provenientes da floresta amazônica.   A pressão do agronegócio sobre o Cerrado e o bioma amazônico transformou e ainda transforma milhões de hectares de vegetação em áreas de cultivo, com destaque para a soja.  Sem contar a ação do garimpo ilegal sobre áreas indígenas, contaminando a água e o solo com mercúrio e outros aditivos extremamente tóxicos.

Durante os El Niños, as regiões norte, nordeste e parte do centro-oeste são afetadas por períodos longos de estiagens. O Sul recebe correntes de umidade da Amazônia, provocando enxurradas e outros episódios extremos, como ventanias, tornados, chuvas de granizo etc. Frente a esses episódios cíclicos do tempo, agora agravados pela emergência climática em curso, o mínimo que os governos deveriam estar fazendo é a adoção de políticas de adaptação climática, que não acontece de fato. Todos os municípios brasileiros deveriam estar ajustando os seus planos diretores, inserindo prerrogativas que minimizassem ao máximo os efeitos negativos do tempo. É possível contar nos dedos aqueles que tomaram atitudes preventivas; o mínimo que fizeram foi limpar canais, bocas de lobo, com pouca ou nenhuma ação educativa, a partir das escolas públicas e particulares.

O estado de Santa Catarina já está sofrendo os efeitos do Super El Niño, sendo o mês de setembro marcado por vários episódios extremos, com impactos diretos na vida de milhares de catarinenses. E o sul do estado, que tem a sua economia baseada quase que exclusivamente na rizicultura, como estão reagindo os gestores municipais e o próprio governo do estado para que os efeitos do tempo sejam o menor possível?

https://www.4oito.com.br/noticia/r-36-8-milhoes-em-perdas-chuva-castiga-lavouras-e-estruturas-rurais-em-sc-89160


Infelizmente, o elemento político-partidário ainda tem enorme peso nas decisões tomadas pelos gestores. Quase a totalidade das prefeituras são administradas por prefeitos que comungam concepções pouco fundamentadas na ciência, na razão. A meteorologia, no entanto, é uma dessas ciências “amaldiçoadas”, considerada descompensada com as doutrinas “reveladoras”.

Parece que essa visão pouco racional também contamina o raciocínio dos cidadãos e cidadãs catarinenses, quiçá, dos administradores públicos e de seu corpo técnico, secretários, por exemplo, cegados pela pressão vinda das elites, principalmente do agronegócio. NO extremo sul de Santa Catarina, as respostas às mudanças climáticas são quase tênues. Se agora está ocorrendo de maneira ainda discreta, é devido à saraivada de alertas de que um super El Niño estava se formando e cujos impactos na região seriam avassaladores.

Para comprovar que o atual governo do estado tratava os alertas climáticos com desdém, basta observar o quanto foi investido no Plano Plurianual de Gestão de Programa de Risco, entre 2024 e 2027. Dos 2,7 bilhões previstos, até agora foram aplicados de fato 275 milhões de reais, ou seja, 10% do total. Até o final, será aplicado pouco mais de 20%. O que são vistos pela sociedade catarinense são avalanches de imagens, vídeos bem-produzidos, exibindo um estado preocupado com o que poderá vir com o super El Niño.  

O sul do estado recentemente teve as primeiras manifestações extremas do tempo, com impactos violentos à infraestrutura e à atividade agrícola. O município com maior precipitação pluviométrica foi Timbé do Sul, o mesmo que em 1995 sofreu uma das maiores catástrofes climáticas de sua história, com inúmeras pessoas mortas e prejuízos milionários. Enquanto que na época havia chovido aproximadamente 200 mm em poucas horas, o que provocou uma avalanche de madeira e pedra sobre a comunidade do Rio Figueira, dessa vez, o volume pluviométrico foi quase igual ao de 1995, porém, esse volume ocorreu em um tempo mais prolongado.

https://ndmais.com.br/meio-ambiente/enxurrada-em-timbe-do-sul-que-matou-16-completa-30-anos/


Vendo as imagens da destruição nos vários municípios do extremo sul de Santa Catarina, o que chama a atenção é a redução significativa de cobertura vegetal, em especial das APPS das margens dos afluentes e subafluentes do rio Araranguá. Sem a presença dessa cobertura protetiva, durante as enxurradas, volume absurdo de sedimentos é transportado para o leito dos rios. O que espanta é a quantidade de lixo, plástico, por exemplo, levado pelas águas em direção à foz da bacia do rio Araranguá. São toneladas que se depositam em toda a extensão norte e sul da orla marítima do município de Araranguá. É claro que outras tantas toneladas são sugadas pelo oceano, impactando toda a biótica marinha.

Foto -. Jairo


É de conhecimento de todos/as que a bacia hidrográfica do rio Araranguá é uma das mais degradadas de SC. Além de resíduos de carvão, o agrotóxico se desponta como o segundo item contaminante da bacia. O motivo é a atividade do arroz, que absorve toneladas de aditivos químicos durante o seu ciclo produtivo. Há legislações que impõem ao produtor a realização da tríplice lavagem; guarda temporária das embalagens vazias; devolução dos frascos vazios no estabelecimento onde o produto foi comprado e a logística reversa, entre outras ações mitigatórias.

Foto - Jairo


Quem transita pelo entorno da foz do rio Araranguá, o cenário lá confere o não cumprimento das regras relativas às embalagens de agrotóxicos, talvez por muitos agricultores. São inúmeras as embalagens de agrotóxicos espalhadas, algumas contendo líquido no seu interior. O fato de estarmos às portas de um super El Niño, em nenhum momento o governo, bem como a imprensa corporativa, cita a ocorrência da retirada criminosa de seixos rolados do leito dos rios, bem como o descumprimento no que tange à proteção da APP ciliar, como determina a legislação em vigor. Se não atacar na raiz essas e outras demandas, os efeitos desse super El Niño terão impactos severos na vida de milhares de indivíduos que habitam o sul de Santa Catarina.  

Prof. Jairo Cesa 

https://www.dw.com/pt-br/risco-de-desastre-aumenta-mas-santa-catarina-economiza-em-preven%C3%A7%C3%A3o/a-77905295  

https://www.cnnbrasil.com.br/agro/sete-agrotoxicos-mais-usados-no-brasil-sao-proibidos-na-ue-diz-pesquisa/

            

     

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

 O POUCO DO QUE RESTOU DOS CASARIOS ANTIGOS DO SUL CATARINENSE SOFRE COM AS INTEMPÉRIES DO TEMPO E A NEGLIGÊNCIA DAS AUTORIDADES 


Foto - Jairo


Como relatei em textos publicados nesse blog, o sul de Santa Catarina não fica atrás de outras regiões do estado e do Brasil em potencialidades turísticas e culturais. O que é relevante é a versatilidade de culturas, cada uma delas expressando suas particularidades, na arquitetura, na culinária, nas danças, nos rituais religiosos etc. É verdadeiro também que nos igualamos aos demais territórios no quesito falta de preservação, valorização do que representa identidade e pertencimento. A depreciação também se dá sobre os ricos acervos arqueológicos, com destaque os povos sambaquianos, datados de quatro, cinco mil anos de história, que enfrentam descaracterizações, sem que as autoridades competentes tomem medidas para protegê-los.

Nossa arquitetura também é muito rica e complexa, destacando estilos coloniais luso-açorianos e aqueles herdados dos imigrantes europeus: alemães, italianos, poloneses, entre outros. Em se tratando de linhas arquitetônicas coloniais, é claro que são as igrejas que esboçam esses traços, com destaque para aquelas erguidas no litoral catarinense, cujas mais antigas datam do século XVII.   Em texto que publiquei há pouco tempo, discorri acerca do abandono da igreja matriz do município de Pescaria Brava, edificada em 1887 por força de trabalho escrava. Alertei sobre a urgente necessidade de fazer reparos, principalmente o setor elétrico. Embora existam algumas manifestações no sentido de restaurá-la, o fato é que não há um cronograma nem recurso orçado para esse fim.

Se nos municípios costeiros sul-catarinenses temos traços culturais e artísticos que remontam aos grupos coloniais luso-açorianos, indo em direção ao interior, deparamo-nos com outra realidade, esboçada no estilo arquitetônico, das igrejas e das habitações erguidas pelos imigrantes italianos. Uma dica de bom roteiro para compreender melhor o modo de vida das primeiras famílias italianas instaladas no Sul é visitar o museu ao ar livre Princesa Isabel, no município de Orleans. 

A região do alto e médio vale do rio Tubarão está integrada a um complexo conjunto de rotas e destinos, que oportuniza aos turistas que queiram visitar a região conhecer fragmentos do modo de vida, do trabalho, da culinária, das crenças, das habitações, das primeiras famílias de imigrantes que lá se fixaram. Por ser a região, e com destaque o município de Pedras Grandes, o berço da imigração italiana, e por estarem lá edificações que evidenciam essa cultura, fui estimulado a conhecê-la.

Claro que, antes de nos deslocarmos, procuramos sites que pudessem dar subsídios acerca dessas edificações, a exemplo da famosa Casa dos Arcos. Fiquei entusiasmado com o que li, pois descobri que a residência, datada de 1900, havia sido tombada como Patrimônio Cultural em 21/11/2002, por meio do n. 5.919, pela Fundação Catarinense de Cultura. Presumi que, por estar a residência tombada, ela estivesse em bom estado de conservação.

Chegando ao local, conhecido também como Parque Casa dos Arcos, o primeiro objeto que nos chamou a atenção e certamente dos visitantes foi de um avião, isso mesmo, um caça AMX-1, construído pela Embraer e ali instalado. Além do Caça, ao lado estava a réplica do 14-Bis, primeiro avião, construído por Santos Dumont.  Um lago artificial, contendo uma gôndola, uma mini tirolesa e uma réplica de carretão com uma junta de bois, completara o cenário, tudo junto e misturado. Então, e a casa centenária, objeto principal da nossa ida a Pedras Grandes, onde estava? Sim, estava lá, claro que desfocada diante de tantas coisas juntas.

Para acessá-la, tivemos que atravessar uma pequena ponte para pedestres sobre o lado. Próximo à casa, havia um banco de concreto, no qual estava fixado um adesivo com QR CODE, provavelmente contendo informações sobre a residência. Chegamos mais perto e notamos que as paredes estavam bem depreciadas pelo tempo, incluindo as aberturas, elementos que dão a denominação estética, Casa dos Arcos. Ficamos atônitos com o que estava à frente dos nossos olhos, não convergindo as informações divulgadas pelos sites, noticiando um cenário contemplador, mais espetacular ainda quando o campo de girações fica florido.

Observando o cenário caótico do lado externo da casa centenária, imaginávamos que o acesso ao seu interior estivesse impedido ao público, isso para conter o máximo possível o processo depreciativo do imóvel. De repente, um pouco mais à frente, vimos uma porta escancarada.  Deduzimos que alguém da administração do parque havia esquecido de mantê-la fechada ou teria sido arrombada por vândalos. Nem uma coisa, nem outra; a casa estava literalmente aberta, permitindo que todos acessassem os frágeis cômodos.

Quando pus os pés no interior da residência, deparei-me com uma escada que levava ao sótão. Continuei a caminhar, com um sentimento de pavor, angústia, por estar transitando sobre tábuas, paredes, carregadas de memória, porém, em condições deprimentes. Forros caindo, janelas protegidas com sarrafos improvisados, fiações soltas, enfim, um cenário de horror.   

 

Foto - Jairo


Foto - Jairo


O que talvez minimizasse o cenário de tristeza exaltada pela encantadora residência, é o jardim dos girassóis, que, quando floridos, transmitiria uma tonalidade alegre, ofuscando um problema em que as autoridades locais e do estado insistem em empurrar com a barriga.  Notei que as gramíneas, junto aos girassóis, estavam ressecadas devido à pulverização por agrotóxicos.  Mesma cena impactante era perceptível nas margens do lago, cuja vegetação estava também ressecada pelo veneno. Entretanto, há um monte de incongruências junto ao parque Casa dos Arcos, que deveriam ser reavaliadas pelo gestor público, com o seu corpo técnico competente.  

Foto - Jairo

Foto - Jairo



 Gerou certa estranheza a atitude de uma cidadã que me fez críticas em um grupo no qual participo, só pelo fato de eu ter emitido opinião acerca das condições deploráveis da Casa dos Arcos.  Respondeu ela: “Por que abandonado? Ela não está abandonada, pelo contrário”.  “Sou de Pedras Grandes, que a casa dos arcos era de propriedade particular, que a prefeitura adquiriu e cuida”. Continuou a cidadã: “Essa casa, a Casa dos Arcos, era de propriedade particular; a prefeitura a adquiriu e cuida. Criou um parque no entorno e o campo de girassóis, que já está sendo cuidado, que atrai muitos turistas e visitantes. A casa não está restaurada porque precisa de muito dinheiro pra isso. Mas está sendo cuidada, sim”. 

Diante da fala da cidadã de Pedras Grandes, respondi que ela não tinha qualquer noção sobre patrimônio arquitetônico, entre outras afirmações. Respondeu que possuía compreensão sobre a temática patrimônio e que eu deveria acionar os órgãos, como o IPHAN, por exemplo, e ver uma forma do município conseguir dinheiro para restaurar; o discurso na prática é bem diferente. Outro integrante do grupo, fez a seguinte proposição para a cidadã de Pedras Grandes: “iniciem com um contato com o IPHAN. “Façam registros fotográficos. Busquem registros anteriores. Informações sobre a época da edificação. Tudo o que puderem. O IPHAN vai orientar a respeito dos procedimentos necessários”.

Respondeu a cidadã que “o IPHAN tem catalogado as casas aqui... mas não funcionou. Tanto que a casa de pau a pique o IPHAN tinha catalogado, inclusive visitaram e não adiantou”. Sobre a casa de pau a pique, respondeu outro cidadão do grupo: a referida casa, edificada no século XIX, foi demolida em 2024. Mais um do grupo propôs que o município buscasse recursos por meio de editais, que aproveitasse as leis de incentivo à cultura. Perguntou se a réplica da Torre de Pisa, que está sendo erguida na comunidade de Azambuja, que pertence a Pedras Grandes, é por meio de recursos próprios? Respondeu a cidadã que uma coisa é a construção, outra coisa é o restauro.

Contra-argumentou o cidadão que um exemplo de edital é a Lei Aldir Blanc, cujo valor destinado é de 40 mil reais. Outro do grupo emitiu mais informações sobre a respectiva lei, que prevê recursos para o patrimônio material e imaterial. Informou a cidadã de Pedras Grandes que “pra nós é 40 mil difíceis de aplicar pelas regras inclusive”. “Porque a lei ou o minc falam que podem ser assim ou assado, mas não mandam toda fundamentação de como fazer porq nós os coitados dos servidores públicos tem que se virar pra por isso em sistema e enviar pra tribunal de contas”.

Durante as falas envolvendo a cidadã e integrantes do grupo, que discorriam sobre o futuro incerto da Casa dos Arcos, imagens e um vídeo foram postados por outra cidadã, também criticando o estado crítico da residência. Informou ela que ficou surpresa por estar a residência com as portas abertas, que pessoas acessavam o seu interior e corriam sobre tábuas fragilizadas. Que era necessário tomar providências para preservar uma edificação tão espetacular.

 Frente a todo esse imbróglio envolvendo a Casa dos Arcos, o que de fato esperamos é que as autoridades do município de Pedras Grandes tomem medidas urgentes para evitar o que não desejamos que aconteça: a destruição completa de um rico patrimônio arquitetônico centenário, repleto de memória de gerações que tiveram as suas existências forjadas a partir desses referenciais simbólicos. A perda de referenciais históricos por parte de uma sociedade fragiliza a condição de sujeitos integrados, resistentes a qualquer tipo de imposição verticalizada.

Prof. Jairo Cesa                     

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 

90 ANOS DEPOIS, O ESPECTRO DO FASCISMO VOLTA A ASSOMBRAR O IMAGINÁRIO COLETIVO DO ESTADO BRASILEIRO

https://gz.diarioliberdade.org/opiniom/item/38692-barbarie-pouca-e-civilizacao.html


A Ação Integralista Brasileira havia sido dissolvida no golpe de 1937 por Getúlio Vargas, que instituiu o Estado Novo, que se manteve no poder até 1945. Quase cem anos mais tarde, o espectro do seu fundador, Plínio Salgado, é ressuscitado, trazendo apreensão diante da possibilidade de repetição de erros políticos crassos do passado. Enquanto em 1936, era a Aliança Liberal ou Partido Liberal, de Getúlio Vargas, que fazia oposição à Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, hoje, 2026, temos o PL, cujo principal representante, Jair Bolsonaro, que mesmo preso, continua insuflando o imaginário coletivo de milhões de brasileiros.

Claro que, racionalmente, é inseguro compreender essa digressão histórica, dos reais motivos que impulsionam pessoas apoiarem forças políticas, líderes, que reverenciam torturadores, que atacam à ciência, à cultura, às universidades, às mulheres etc. Na Europa, no começo do século XX, dirigentes sanguinários, provocaram a morte de milhões de pessoas em campos de concentração, o agravante é que as brutalidades cometidas eram abonadas pela população, que os reconhecia como representação divina na terra.

 Era de se imaginar que regimes dessa envergadura, que apregoavam ódio e morte, tivessem sido sepultado para sempre junto com seus comandantes diabólicos. Nada disso, há poucas semanas, a própria Alemanha, que protagonizara o nazismo, elegeu parlamentares integrantes de um partido com programa político contendo políticas de cunho nazista.  

Infelizmente esses retrocessos históricos no campo político, a eclosão de partidos extremistas vêm respingando em muitos países da Europa, da Ásia e do Continente Americano. Os exemplos mais categóricos de regimes extremistas em evidência nesse momento são o Estado de Israel e os Estados Unidos da América. Frente a toda essa insanidade de dois líderes insanos, na América Latina, as eleições em curso revelam forte contaminação dos ideários extremistas/fascistas em ascensão. Os únicos países que ainda mantêm governos pouco alinhados ao imperialismo estadunidense, são o Brasil e o México, ambos considerados potências latino-americanas.

A vitória da extrema direita na Argentina, na Colômbia e a ação violenta americana na Venezuela, sequestrando o presidente e levando-o à prisão nos Estados Unidos, acenderam a luz vermelha no processo político brasileiro, cuja eleição ocorrerá no próximo dia 04 de outubro de 2026. Desde 2016, quando o Congresso depôs a presidente eleita, Dilma Rousseff, a extrema direita vem adquirindo robustez impressionante. A ascensão meteórica de um ex-capitão do exército brasileiro, que por décadas ocupou o Parlamente como deputado federal, era o que a elite patriarcal escravista idealizava como um “redentor divino”.

Durante a campanha às eleições de 2018, o que apavorava parcela da população era os trejeitos apresentados pelo ex-capitão, sempre com um discurso que fez brotar das profundezas do inconsciente coletivo, o lado obscuro do cérebro, onde está acomodado a opressão, o ódio. É como um patógeno incubado, sendo Jair Bolsonaro, o impulso que faltava para desabrochar o vírus mortal. O forte engajamento ao espectro religioso, serviu como combustível para impulsionar as massas ensandecidas, que lhe credenciavam como um “messias”, o enviado dos céus.

O que era mais assombroso diante da ascensão abrupta de um indivíduo até então desconhecido na política, é que todos os trejeitos apresentados  assemelhavam-se aos esboçados polos líderes nazistas e fascistas da Europa, que resultou na Segunda Guerra Mundial. As frequentes motociatas, por exemplo, em nada se diferenciavam daquelas arquitetadas por Benito Mussolini, líder fascista da Itália. Mesmo diante de tamanhas aberrações, Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2018, cujos quatro anos de governo, se caracterizaram como um dos mais desastrosos da história do Brasil.  Um exemplo que mostrou sua incompetência como gestor, foi a condução dada à COVID 19, vírus que levou à morte de mais de 700 mil brasileiros/as.

Eleições em curso, Lula derrotou o candidato extremista à reeleição em outubro de 2022, porém, em 8 de janeiro de 2023, o candidato derrotado lidera movimento golpista para impedir a posse do presidente eleito, Lula da Silva. Centenas de golpistas foram presos e condenados, entre eles, o próprio ex-presidente e diversos integrantes do exército brasileiro. Com um congresso majoritariamente conservador e aliado à figura do bolsonarismo, nos quadro anos de governo Lula procuraram “desgastá-lo” na tentativa de enfraquecer o nome do presidente Lula no pleito de 2026 que poderá reelegê-lo.

Mesmo com a prisão do principal líder da extrema direita, o seu espectro permanecia atormentando as mentes de parte da população. Era o momento de escolher alguém que pudesse ter chances reais de confrontar e derrotar o líder progressista, Lula da Silva. De repente, aparece alguém do “clã” bolsonarista, nada mais, nada menos que Flavio Bolsonaro, filho do ex-presidente, porém, como o pai, envolvido em inúmeros crimes, dentre os quais o esquema milionário com o banqueiro, atualmente preso, Daniel Vorcaro, proprietário do banco Master. A campanha segue, e as pesquisas de intenção de voto, até o momento revelam chances do candidato do PL ir para o segundo turno.

Independentemente de o atual presidente ter ou não cometido erros em sua administração, acontece que estamos às portas de escolher a civilização ou a barbárie. Não é alarmismo, é realidade. Tanto na Itália anterior a Mussolini, quanto na Alemanha de Hitler, o cenário hoje aqui esboçado pela extrema direita é muito parecido aos praticados lá fora. Precisamos, sim, optar pela civilização, pois, se perdermos essa chance, o que nos restará é o lamento. O exemplo mais próximo que temos de barbárie é o da Argentina, onde atualmente mais de 50% da população passa fome.

Prof. Jairo Cesa