AGRICULTURA
REGENERATIVA COMO RESPOSTA A FALÊNCIA DA REVOLUÇÃO VERDE?
https://www.agenciacidades.com.br/reportagens/producao-e-comercio-de-bioinsumos-sao-regulamentados-no-pais/656/
No
dia 20 de julho de 2026, o programa Roda Vida, da TV Cultura, trouxe como
entrevistada a Engenheira Agrônoma e Pesquisadora da EMPRAPA, Maria Hungria.
Acredito que quem assistiu deve ter ficado impressionado com sua extraordinária
desenvoltura em temas atualmente relevantes na atividade produtiva agrícola,
como a prática regenerativa e o uso de bioinsumos. O que vale ressaltar acerca
dessa atividade, principalmente quando o Brasil se coloca hoje com um dos
protagonistas na pesquisa e produção em larga escala, é que, paradoxalmente, o
país é líder mundial em consumo de agrotóxicos.
Afinal,
como explicar essa virada de página abrupta de um setor com forte
representatividade no congresso nacional, que consegue convergir a favor dos
seus pares os debates sobre supressão ou flexibilização de dispositivos legais
que lhes interessam? Não há dúvida que se o Brasil atingiu o know-how de
excelência sobre bioinsumos, sem dúvida o mérito é da ciência, das instituições
de pesquisas, setores esses tão atacados, tão desprestigiados por negacionistas
extremistas de plantão.
A
mudança de rumo acerca do manejo da agricultura brasileira, atualmente dominada
por exportação de comodities, como a soja, o algodão, o milho, o café etc., não
se deve atribuir como elemento motivador à repentina consciência ambiental. Tem
relação sim ao avanço da ciência, o forte movimento agroecológico e as mudanças
de comportamentos das populações consumidoras, que cada vez mais estão se
tornando rigorosas na aquisição de produtos com zero ou baixo impacto
ambiental.
Para
um país que importa mais de 80% dos insumos químicos utilizados na grande agricultura,
as guerras em curso envolvendo países exportadores de insumos imprescindíveis,
os bioinsumos passaram a ser uma excelente alternativa aos químicos.
Entretanto, como tudo no Brasil se fundamenta no lucro, para as indústrias desse
segmento, se mostra muito mais rentável exportar bioinsumos, principalmente
para a Europa, porque lá os preços pagos por cada quilo exportado são
absurdamente superiores aos comercializados aqui.
A
pesquisadora afirmou que 1 (um) real gasto em pesquisa pela EMBRAPA o retorno
para a sociedade atinge os 25,7 reais. Destacou também que o uso de bioinsumos
se caracteriza como excelente regenerador do solo, bem como de um recurso
eficiente no processo de adaptação climática. Em solos tratados por produtos
naturais as plantas conseguem se adaptar melhor durante longos períodos de
estiagens, se tornado mais resilientes. Uma das críticas feitas pela
pesquisadora foi em relação ao Plano Nacional de Bioinsumos, porque, segundo
ela, pode prevalecer interesses do mercado e do agronegócio à revelia da
ciência. Ressaltou que foi contra a proposta de permitir a produção individual
de bioinsumos sem uma inspeção adequada de profissionais. “Estamos lidando com
elementos vivos, bactérias, por exemplo”, alertou a pesquisadora.
Em
resposta, a EMBRAPA encaminhou nota técnica afirmando que usar microorganismos no
solo exige rigor técnico, ou seja, os produtos devem ter sido produzidos
seguindo protocolos rigorosos de fabricação. Os microorganismos não conhecem
barreiras, qualquer erro no seu manejo, pode-se estar espalhado elementos
patológicos, ou seja, elementos vivos maléficos, pondo em riscos ecossistemas
inteiros.
O
debate sobre os bioinsumos tende-se a ficar mais tensionado com o passar do
tempo e isso já vem ocorrendo a partir da aprovação da lei n. 15.070/2024, que
dispõe sobre a produção, importação, exportação, comercialização, entre outras
demandas relativas aos bioinsumos. Entretanto, mesmo diante da lei aprovada, críticas
vêm sendo desferidas ao governo pelo atraso na regulação da respectiva lei,
como os futuros decretos regulamentadores, as portarias, das quais irão detalhar
e garantir a fiel aplicação da lei vigente.
Acessando
alguns sites que discorrem sobre a regulamentação, óbvio que são de canais que
convergem interesses dos segmentos do agronegócio, todos são unânimes em
afirmar que a lei de bioinsumos será a “revolução da agricultura moderna”. São
argumentos estranhos porque até pouco tempo esses mesmos que agora defendem ardorosamente
o emprego de microorganismos no manejo agrícola, criminalizavam qualquer um que
defendesse esse sistema na agricultura, alegando ineficiência e
incompatibilidade ao modelo tradicional, considerado altamente eficiente e
lucrativo.
Na
realidade, o que vê é um setor que busca se apropriar o que a agroecologia vem aplicando
há muito tempo, que ocupa uma fração do mercado que o grande produtor tenta se
apoderar. Repito, não é por um despertar de consciência evolutiva que os bioinsumos
entram no radar desse segmento, mas por fatores econômicos, perdas de
lucratividade e da forte dependência de insumos externos. Imagine agora ver grandes
corporações que dominam o mercado de sementes e insumos químicos, tendo o risco
de terem os seus lucros bilionários reduzidos, porque sabem que o agricultor pode
usar o conhecimento da ciência para produzir o seu fertilizante, o seu repelente
biológico, com custo quase zero.
A
agroecologia, a exemplo da rede ECOVIDA, que integra os três estados do Sul,
junto com o MST já conquistaram essa hegemonia, esse empoderamento aos insumos
biológicos no seu manejo diário há muito tempo. O fato é que o grande capital,
associado as mídias conservadoras sempre procuraram taxá-los, a exemplo do MST,
como movimentos subversivos, invasores de terras, que comprometem o desenvolvimento
do dito carro chefe da economia brasileira, o agronegócio. Não nos surpreenderá
quando virmos e ouvirmos líderes de corporações e ancoras de sites ligados a
agricultura convencional, estufam o peito afirmando que a agricultura regenerativa
é a solução às emergências climáticas e as crises de insumos.
De
fato, o que vemos é a usurpação de um conhecimento que a agroecologia vem
aplicando na regeneração de ecossistemas, sem o mínimo de pretensão de apropriação
das patentes ou inóculos para obter lucros. A Rede ECOVIDA de agroecologia, constituída
por 34 núcleos regionais, 436 grupos, 2848 famílias envolvidas em 352 municípios
dos três estados do Sul, se destaca como movimento com elevada experiência e expertise
na produção e comercialização de alimentos isentos de qualquer resíduo químico.
Infelizmente
ou felizmente, tanto a rede ECOVIDA como demais segmentos afins são regidos por
legislações que impõem aos envolvidos o cumprimento de protocolos rígidos acerca
do manejo e comercialização. O processo da rede, no entanto, se dá de modo distinto
de outras categorias no segmento agroecológico. No lugar de procedimentos
auditados de inspeção, a rede adota o sistema participativo, onde cada família,
cada grupo, cada núcleo, tem o compromisso ético de zelar pelas regras
estatutárias, com riscos de serem penalizados, bem como de toda a rede. O Ministério
do Meio Ambiente e Produção Agrária – MAPA, impõe uma série de regramentos aos
produtores agroecológicos, como instalações de barreiras naturais para impedir a
contaminação por agrotóxicos e variedades modificadas, os transgênicos.
Com
a liberação dos bioinsumos, permitindo, quem sabe, que agricultores tenham as
suas próprias biofábricas, o risco é produzir microorganismos patológicos, ou
seja, seres vivos altamente prejudiciais à toda biótica, não é mesmo? Se na
agroecologia já se tem bem definido os protocolos sobre o seu manejo, cujo MAPA
é o responsável pela inspeção, com a difusão das fábricas de bioinsumos por
todos os cantos, será que o fator ético dos seus proprietários prevalecerá
entre os pares vinculados ao grande capital?
Prof.
Jairo Cesa
https://www.youtube.com/watch?v=WXqvjoWJlVo