UMA
NAÇÃO FORJADA PELA ESCRAVIDÃO, PORÉM, OFUSCADA NOS VERSOS ROMÂNTICOS DE BRASIL,
PÁTRIA AMADA, IDOLATRADA

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Após a eleição que resultou na vitória do
presidente Lula para seu quarto mandato, o que não se esperava era o profundo
ódio de alguns apoiadores do candidato derrotado e fugitivo, Flavio Bolsonaro,
que disseminaram uma lista contendo nomes e negócios de eleitores petistas para
que fossem boicotados. A atitude de criar essa lista é um exemplo de violência
extrema, um comportamento odioso, semelhante ao regime nazista da Alemanha, que
marcava lojas de comerciantes judeus com uma estrela, um símbolo religioso
judaico, para promover boicotes.
Aqueles
que conhecem fragmentos da história sabem que regimes dessa magnitude sempre
surgem gradualmente. Entretanto, quando a população finalmente se dá conta da
situação criada, já é tarde; o nazismo, o fascismo e outras denominações
hediondas já estão estabelecidos, espalhando terror entre os cidadãos. Como
mencionei anteriormente, o espectro do fascismo no Brasil começou a ser
fomentado no início do século XX, com a criação da Ação Integralista Brasileira
- AIB, um partido político inspirado pelo fascismo italiano de Benito
Mussolini. Contudo, mesmo após a AIB ser cassada em 1937 por um decreto
assinado por Getúlio Vargas, seus princípios e valores extremistas e moralistas
sobreviveram, aguardando um momento propício para eclodir novamente.
As
crises cíclicas do capitalismo globalizado resultaram em convulsões sociais,
entretanto, em contrapartida, partidos e governos ultraconservadores tendem a
emergir prometendo reformas estruturais que seguem a lógica de beneficiar o
grande capital. O ultraconservadorismo pode se manifestar por meio de ditaduras
ou regimes de exceção, quando as regras constitucionais perdem sua eficácia
jurídica. A continuidade dos conflitos, como as tensões entre Ucrânia e Rússia,
legitima ações governamentais que agem à revelia de suas constituições.
O
Brasil, como toda a América Latina, embora suas influências se mostrem um tanto
discretas em relação às tensões na Europa e no Oriente Médio, é visto pelo
mundo como um grande reservatório de riquezas naturais de imensa relevância
econômica. A China, que se destaca como uma das protagonistas da nova
geopolítica em formação, gera apreensão nas tradicionais potências
imperialistas em decadência. A atual revolução tecnológica, ou quarta revolução
industrial – 4.0, manifesta-se na fabricação de sofisticados chips e condutores
elétricos, utilizados na indústria automobilística e de computadores, entre
outros segmentos industriais importantes, elevando as tensões entre a China e
seu vizinho Taiwan, além de outras potências europeias e os Estados Unidos, nas
disputas pelo controle desse promissor mercado bilionário do futuro. A
crescente perda de importantes mercados na Europa e na Ásia, influenciada pelos
conflitos e pela forte ascensão da China através da Rota da Seda, levou os
Estados Unidos a redirecionar sua bússola geoeconômica, agora focando a atenção
na América Latina, nas vastas reservas de minerais.
A
atuação direta e indireta no processo de gestão política das nações
latino-americanas tem se mostrado decisiva para a consolidação do domínio
estadunidense na região. Entre os países que passaram por processos eleitorais
nos últimos meses, apenas três não se alinharam ao regime de Donald Trump:
Uruguai, México e Brasil. Naturalmente, o Brasil, devido à sua extensão
continental, sempre despertou mais interesse nas pretensões geopolíticas do
império do norte. Entretanto, as eleições de 25 de outubro, que resultaram na
derrota do candidato entreguista pró-Estados Unidos, Flavio Bolsonaro, não
representaram apenas uma derrota para os interesses norte-americanos, mas
também uma derrota da extrema direita internacional, dado o significado da
vitória de Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores.
O
estrago causado à referida “nação ordeira” tupiniquim pela ascensão de forças
políticas extremistas fez emergir feridas ainda não curadas de uma nação
construída sobre três séculos de escravidão. Como mencionei anteriormente, a
derrota, seguida da fuga do candidato do PL Flavio Bolsonaro, expôs um cenário
social delinquente, que até então estava encoberto por algumas obras literárias
e pelo próprio hino nacional, o qual sugere a imagem de uma nação romantizada,
uma pátria amada idolatrada com um povo heroicizado.
Entretanto,
nada disso; as rusgas históricas resultantes de contradições sociais
rapidamente emergiram das sombras, invadindo as mentes medíocres de cidadãos
brasileiros, levando ao surgimento de figuras públicas que se identificam como
um alter ego, ou seja, representações arquetípicas de um mal transgeracional. A
literatura e a historiografia têm registrado dezenas de líderes políticos
psicóticos e fanáticos, que manipulavam multidões com discursos de reprovação e
ódio àqueles que expressavam ideias divergentes das suas. “Deus, Pátria e
Família”, “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” são exemplos de
distopias que evidenciam uma clara disfunção cognitiva, até mesmo
psicanalítica, de quem as defende.
No
estado de Santa Catarina, encontramos exemplos de pessoas, como políticos, que
demonstram um certo desvio de comportamento diante de atitudes estranhas em
suas práticas. Caminhar pelas ruas estalando um chicote no chão, ato realizado
por uma candidata a deputada federal pelo PL, é um evidente sintoma de desvio
comportamental patológico. Não bastando esse horror originado de uma deputada,
inconscientemente configurado no desejo de subjugação, servidão e resignação do
outro, temos outro exemplo de aberração, agora de um deputado estadual eleito
no pleito eleitoral de 25 de outubro, que propõe um plebiscito visando separar
o Sul do Brasil do restante do território nacional.
Essa
proposta separatista insana não é nova, tendo sempre reaparecido em pleitos
eleitorais, como o que garantiu a vitória de Lula ao cargo de presidente do
Brasil. Na verdade, esse deputado, que pertence ao PL, o mesmo partido do
candidato derrotado e fugitivo Flavio Bolsonaro, foi eleito com mais de 40 mil
votos, cujo lema de campanha era exatamente esse: o plebiscito. De acordo com a
opinião do deputado na rede X, “o sul merece ser livre”. É evidente que a
atitude insensata apresentada pelo deputado não seria bem-vista por um estado
que tem sido alvo de críticas no exterior por ser um reduto de nazistas que cultuam
regimes sanguinários responsáveis pelo assassinato de milhões de judeus,
comunistas, negros, ciganos, deficientes físicos, entre outros.
O
que é surpreendente na proposta do deputado é a realização do plebiscito apenas
nos três estados do Sul, infringindo violentamente os princípios
constitucionais de indivisibilidade federativa. Essa atitude expõe de maneira
explícita a xenofobia desse deputado e de seus milhares de eleitores. Em um
país sério, um deputado xenófobo nunca teria a permissão para assumir um cargo
parlamentar e deveria ser cassado antes de tomar posse. Como acreditar em seu
juramento sobre a constituição brasileira no dia de sua posse? Precisamos prestar
atenção no comportamento, nas atitudes daqueles que expressam piadas contra
negros, índios, pobres, pois é assim que regimes extremistas, xenófobos, são
formados.
Prof.
Jairo Cesa





