PESQUISA DE DOUTORADO DE JONATÃ
CLEMES, TRAZ REVELAÇÕES SOBRE AS FRUSTRADAS TENTATIVAS DE FIXAÇÃO DA
BARRA DO RIO ARARANGUÁ
Não
descarto a hipótese que possivelmente esse ano ou no próximo, o assunto fixação
da barra do rio Araranguá entrará nas rodas de conversas da população e das
autoridades locais. Por que faço essa previsão? Isso porque há riscos iminentes
de vivenciarmos fortes enxurradas, que poderão ser agravadas com o super El Nino
alertado pelos meteorologistas. O tema fixação da barra do rio Araranguá não um
assunto novo, os mais antigos já devem ter presenciado muitas e muitas falas e
promessas da necessidade de fixação daquele complexo estuário. A resposta que
ainda incomoda muita gente hoje é, por que essa obra não foi concretizada até o
momento?
Na
tentativa de dar algumas respostas a essa indagação, que ainda domina o
imaginário coletivo da população do extremo sul de Santa Catarina, o
pesquisador Jonatã Vieira Clemes, nos presenteia com sua extraordinária
pesquisa, trazendo à luz informações preciosas sobre a várias tentativas,
porém, jamais concretizadas, de fixação da foz do rio Araranguá. O trabalho nos
proporciona entender que os fatores motivadores para fixar a barra não são os
mesmos, desde a primeira iniciativa, em 1896, até 2012, quando o IBAMA embargou
o projeto de fixação.
De
acordo com a tese de Jonatã, (A fixação da barra do Rio Araranguá, SC: disputas e história ambiental, 1896-2014) a barra do rio Araranguá sempre foi um importante canal
para o escoamento das riquezas produzidas na região de Araranguá durante o
final do século XIX e começo do XX. A farinha de mandioca, entre outras
culturas, como açúcar e aguardente, foram as atividades que se destacaram e que
forjaram uma elite que protagonizou o processo de emancipação político-administrativa
de Araranguá. As tradicionais carretas puxadas por inúmeras juntas de bois para
transportar mercadorias até os portos de Laguna, foram paulatinamente sendo substituídas
por transporte marítimo, grandes lanchas e iates, que adentravam a barra, atracando nas
imediações da barranca, trazendo produtos manufaturados e levando gêneros
agrícolas.
O
problema, na época, envolvendo as embarcações, era a barra do rio, que,
permanentemente, ficava impossibilitada de acessar as embarcações devido aos
bancos de areia que se acumulavam no seu leito. Existem fotos, no arquivo
público de Araranguá, que mostram barcos transitando pelo rio, bem como parados
na boca da barra por impossibilidade de atravessá-la.
Em
1896, foi sancionada lei estadual de n. 239 criando a Companhia da Nova Barra
do Rio Araranguá. Porém, o que determinava essa lei era que o estado se isentaria
de financiar a sua execução, cabendo, portanto, aos responsáveis, os
proprietários de terras e de embarcações do município, a incumbência de alocarem
os recursos necessários por meio de talões de pagamentos mensais ou anuais. O projeto
da fixação da barra não se consolidou, talvez as respostas do não êxito se devem
as transformações econômicas na região, as descobertas das jazidas de carvão
mineral, que fez entrar na discussão das elites a extensão do ramal ferroviário
até Araranguá.
Vale,
portanto, ressaltar, que a primeira explicação acerca da motivação da fixação
da barra do rio era econômica, isto é, facilitar o fluxo de navios que traziam
e levavam mercadorias. Esse propósito permaneceu até a década de 1950 quando a
demanda ambiental começou a se sobrepor ao econômico. As frequentes enxurradas
que devastavam culturas, provocando prejuízos econômicos aos municípios da
bacia hidrográfica, o setor produtivo e os governos locais convergiam com os
mesmos propósitos de concretização do projeto de fixação da barra.
A
década de 1970 em diante, foram muitas as iniciativas dos gestores municipais
de Araranguá, em ações de abertura de canal, lado sul do braço do rio, para extravasar
água em períodos de intensas enxurradas. O ano de 1974 ficou registrado na
história do município de Araranguá por ter sido atingindo por uma das maiores
enchentes do século XX. Três anos depois, em 1977, outra enchente de menor
proporção atingiu a bacia, fato que motivou o gestor público da época em abrir
canal para extravasar o excesso da água do rio.
Esse
episódio climático foi tema de reportagem em jornais da época, das quais são
destacados na pesquisa de Clemes (2025). Geralmente, os jornais reportavam apenas falas
do gestor público sobre o fato climático ocorrido, como querendo enaltecê-lo
pelo empreendimento realizado, o canal, sem uma abordagem contextualizada, crítica,
dos motivos influenciadores das constantes enxurradas.
O
canal aberto, na extremidade sul do braço do rio, em pouco tempo foi coberto por
sedimentos, perdendo completamente sua utilidade. Era de se imaginar que frente
a dinâmica oceânica e dos ventos, atuando no rápido assoreamento do canal extravasor
que fora aberto em 1977, as próximas administrações seriam alertadas por essas
experiências negativas para que não repetissem os mesmos erros. Anos mais
tarde, em 1987, novamente outro canal extravasor foi aberto no mesmo traçado
dos anteriores, porém, agora com um orçamento muito mais robusto e tomado por denúncias
de desvio de finalidades.
A
proposta era fixar a barra utilizando sacas de areia, na qual dispensava pedras
na construção do molhe. Esse projeto, que também foi infrutífero, teve como
agravantes, denúncias de irregularidades nos tramites contratuais, bem como o
uso de equipamentos sucateados, a exemplo de uma draga flutuante, apelidada por
um jornal da época como sendo uma “droga” devido ao seu péssimo estado. O que
se especula é de ter sido enterrados nesse projeto de fixação vultuosas somas
de recursos, sem nenhum retorno significativo para a sociedade, pois, o canal,
em poucos anos foi completamente assoreado.
O
fato é que o caso negativo de má gestão de recursos públicos em projeto
fracassado de tentativa de fixação da barra do rio Araranguá em 1987, teria que
servir como referência as próximas administrações à não repetirem. Nada disso,
outros prefeitos vieram, e raros aqueles que não cravaram o seu nome na
história por terem tentado resolver o problema das cheias em Araranguá do seu
modo. Foi, de fato, no começo do século XXI, que discussões mais aprimoradas acerca
da fixação da barra ocuparam os debates dos poderes constituídos, poder
executivo e legislativo, universidades, sociedade civil e organizações ambientais.
Finalmente
estaríamos dando o adeus ao amadorismo dos governos anteriores, no trato do
assunto, entrando a ciência e os órgãos judiciais como avalizadores dos
projetos. Será? Como eu havia destacado no começo do texto, a proposta de
fixação da barra teve dois momentos distintos, a primeira, de 1896 a 1952,
pautadas em princípios econômicos, e, a segunda, dessa data para em diante, fundamentada
em parâmetros socioambientais, mudanças climáticas, por exemplo.
Foi,
em 2009, a data aproximada da inserção de um robusto projeto de tentar ou
minimizar ao máximo os efeitos das frequentes enxurradas que assolavam toda a
bacia do rio Araranguá. Um projeto caro, porém, repleto de incongruências
técnicas, que teve como resultado, o seu arquivamento definitivo em 2012. As considerações
que resultaram no arquivamento desse projeto partiram do MPF, cujas argumentações
foram as seguintes, destacarei aqui duas, das quais considero mais relevantes,
claro que com base na pesquisa de Clemes (2025). 1- Devido a perda de vazão a
que o braço morto do rio estará destinado, seguindo-se a formação de dunas
frontais sobre o depósito praial no local de fechamento, circunstância que
impedirá extravasamento sobre a barreira nos eventos de cheias. 2- Apesar
disto, a modelagem computacional da eficácia da obra, supôs que a desembocadura
atual continuará aberta, contrariando todas as evidências técnicas.
É
sobre esses dois tópicos, destacados no relatório encaminhado pelo MPF para o
embargo da obra de fixação da barra, que quero fazer algumas reflexões. Deixar claro
que esse relatório, Recomendação n. 32/2011 de 20 de outubro de 2012, não deve jamais
ser desconsiderado em possíveis tratativas futuras de recuperar ou criar projeto
de fixação da barra. O que mais chama
atenção nessa pesquisa de Jonatã, é realmente o capítulo que trata do projeto
de abertura da barra, iniciativa essa embargada pelo MPF em 2012.
Por
que é considerado importante o posicionamento do órgão federal pelo embargo? A resposta
está visível aos olhos de todos, basta dar uma caminhada até a antiga foz do
rio Araranguá é presenciar de perto o que o MPF alertava em 2012. Em 2023, a
atual administração, devido as enxurradas que assolaram toda a região, decidiu
por abrir canal extravasor no local onde gestores passados também realizaram. O
fato é que, seguindo a lógica das aberturas passadas que rapidamente perderam
utilidade pelo assoreamento, havia a crença que com a redução da vazão sobre o
canal, ele seria tomado por sedimentos e o rio seguiria o seu curso tradicional.
A lógica não se concretizou, pois o canal, que seria provisório, se tornou
permanente, ficando a foz original, completamente assoreada, como havia
previsto o MPF.
O
que era um braço de rio ativo, repleto de vida, que desaguava no oceano, agora
é um rio morto, com tendência de assoreamento completo para as próximas
décadas. A pergunta que fica é o seguinte, na hipótese de uma enchente, de
intensidade igual ou superior a de 1974, qual seria o seu impacto, direto e
indireto, às comunidades de Morro Agudo e Ilhas? É de se imaginar que o canal
extravasor, aberto ao sul, não dê conta de escoar toda à água vinda a montante
da bacia. Com a foz assoreada, Ilhas poderá sofrer uma das maiores inundações
de sua história, quem viver, verá.
Prof. Jairo Cesa