O AMEAÇADO CICLO DAS AVES MIGRATÓRIAS NA COSTA OCEÂNICA DE ARARANGUÁ
| Foto - Jairo |
Duas
vezes por ano, no outono e na primavera, a costa oceânica de Araranguá recebe
centenas de pequenos pássaros que fazem o longo e obrigatório percurso entre o
sul da Argentina à região nordeste e norte do Brasil. Há relatos que esses pássaros viajam
até a costa mexicana e norte americana. As
aves que me refiro são as batuíras, que impressionam pela rapidez no solo procurando o alimento necessário para concluir a longa jornada de sobrevivência da espécie.
https://www.wikiaves.com.br/wiki/batuira-de-bando
É
importante saber que nossa costa oceânica não é passagem obrigatória somente
dessa aves, também temos a visita anual das Baleias Francas, e em menor proporção, de lobos-marinhos, pinguins, entre
outros/as. Os pinguins, por exemplo, dependendo do ano e das correntes marítimas
vindas da Antártida, geralmente chegam já sem vida nas nossas praias,
acometidos por desnutrição e doenças.
Por
ser a costa atlântica do Brasil e em especial a sul catarinense, habitat e rota
obrigatória de aves e mamíferos marinhos, a existência de legislações com vistas a
regulação de ocupações habitacionais e do trânsito de veículos na
faixa costeira, se fez e faz necessária para assegurar que esses espetáculos da
natureza continuem sendo desfrutados pelas futuras gerações. A faixa costeira do extremo
sul catarinense, pelas suas características geomorfológicas, extensa faixa de
praia com o mínimo de obstáculo, consiste em ambiente imprescindível às aves
migratórias.
É
nesse intervalo territorial um tanto longo que permite as batuíras acumular energia suficiente para alçar voos até encontrarem outros locais que
ofereçam alimentos em quantidade e de boa qualidade. A atuação de órgãos
ambientais como o MPF, impondo aos municípios costeiros que estabeleçam
regras de controle do trânsito de veículos na orla e demais ecossistemas costeiros, que garante que aves como as batuíras se alimentem
sem serem molestadas.
A
criação de Áreas de Preservação Ambiental - APA, como a da Baleia Franca, abrangendo uma extensa área territorial entre a
costa sul de Florianópolis ao Balneário Rincão, são importantes recursos que
garantem a sobrevivência dessa espécie de mamífero. Se observarmos os laudos semanais do Instituto do Meio Ambiente, IMA, da balneabilidade das praias catarinenses, a região que compreende a APA da baleia
franca é a que apresenta menores índices de praias impróprias para o banho. Claro que existem exceções, um dos exemplos é o município de Balneário Rincão, que tiveram quase todos os pontos diagnosticados com a presença de substâncias contaminantes na água. São municípios que necessitam receber maior atenção das
autoridades, por ser também parada obrigatórias de aves migratórias.
https://conapabaleiafranca.wordpress.com/sobre/
A contaminação das praias por clorofórmios fecais é ainda o grande gargalo enfrentado pelas espécies migratórias, bem como de toda a complexa biótica marinha. O que minimiza os impactos ao ciclo natural das batuíras é saber que sua passagem pela costa catarinense ocorre entre o
final do mês de março e começo de abril, já fora da temporada de verão, cuja água
e a área das praias estão menos contaminadas.
Creditar
ao esgoto como principal vilão da contaminação de nossas praias é querer omitir
outros vetores poluentes, tão graves e até mesmo mais impactantes. Rios que
desaguam na faixa costeira do sul do Estado catarinense, o Araranguá, o
Urussanga e o Tubarão, todos despejam toneladas de resíduos sólidos no oceano atlântico todos
os dias. O caso do rio Araranguá é bem representativo, que integra uma bacia de tamanho médio, com 21 municípios, é uma das que mais despeja agrotóxicos, resíduos de
carvão mineral, esgoto doméstico, industrial e outros tantos tipos de partículas poluentes no oceano atlântico.
| Foto - Jairo |
Uma
pequena precipitação pluviométrica na montante da bacia já é suficiente para acumular lixo na foz e em toda a orla do município de Araranguá. Já repeti em outros textos publicados, que esse passivo ambiental não deve ser creditado exclusivamente ao município
de Araranguá. Todos os municípios que integram a bacia deveriam contribuir para mitigar os
impactos ambientais, por meio de programas ambientais em seus territórios, ou por políticas
conjuntas chanceladas pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Araranguá. Fora isso, não resolve o município de
Araranguá, todos os anos querer insistir no projeto arco ires, de recolher lixo nas imediações da foz da respectiva bacia. É o mesmo que enxugar gelo, de continuar mitigando um problema que não terá fim se não for atacado na sua raiz.
Prof.
Jairo Cesa