MULHERES NA POLÍTICA: O QUE LEVAM "ELAS" ALIAR-SE ÀQUELES QUE
HISTORICAMENTE AS TORTURAM
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Transitando pelas ruas e avenidas de Criciúma
me deparei com um cenário visualmente perturbador, dezenas, centenas de
bandeiras de candidatos/as espalhadas nos canteiros, rótulas, onde o que mais
refletia era poluição visual e mais nada. Prestando atenção nas bandeiras,
números e siglas partidárias, o que chamou a atenção foi constatar que embora
existissem diversidade de bandeiras, dois ou três candidatos/as de um mesmo
partido ou do arco de alianças, dominavam o cenário. Claro que os destaques,
são candidatos do campo conservador, vinculados ao mesmo partido do governador,
que busca a reeleição no estado e do Flavio Bolsonaro, que busca à para
presidente da república.
O que pouca gente sabe é que todo
esse material de campanha, bandeiras, por exemplo, são financiadas com dinheiro
público, recursos do fundo partidário. O PL, por exemplo, partido do governador
do estado e do candidato a presidente da república, é o que recebe maior fatia
do fundo, 881 milhões de reais, de um total de 4,9 bilhões de reais. É obvio
que nem todos/as os candidatos/as dessa sigla recebem valores equivalentes,
sempre privilegiando os/as que apresentam chances claras de vitória no pleito.
Paradoxalmente, esses mesmos candidatos/as que se travestem de bons mocinhos/as,
defensores da moral cristã, da família e de um Brasil melhor, nas assembleias
legislativas ou no congresso nacional, sempre votam em projetos favoráveis
aqueles/as que dominam, que exploram.
O que é mais horripilante é acompanhar
a propaganda eleitoral na TV, assistindo mulheres candidatadas de partidos
conservadores, com discursos defendendo demandas que tendem a torná-las mais
submissas, mais violadas das suas condições de sujeitos da história. Mais
bizarro ainda é a atitude de uma deputada, do PL, candidata à reeleição, que se
traveste de “boa mocinha”, com discurso antifeminista, enaltecendo a família
tradicional. Acreditem, essa mesma deputada, apresentou projeto de lei no qual
assegura medida protetiva da lei Maria da Penha também aos homens que sofrem
violência doméstica.
O mínimo que as mulheres que ascendem
a política deveriam se incumbir, primeiro, jamais se filiar em partidos de vertentes
conservadores, segundo, atuar no parlamento, nas três instâncias de poder, lutando
incessantemente por mais direitos, como equidade salarial a dos homens.
Defender pautas conservadoras, a família tradicional, por exemplo, é manter-se subordinada
ao gênero masculino, pois o modelo da família brasileira, foi forjada sob o
prisma do patriarcalismo, sendo a mulher, reduzida a condição de mera
reprodutora, cuidadora dos filhos, do marido etc. Atuar na política, nos negócios, até mesmo na
universidade, era uma exceção no universo feminino.
O que dizer dessas mulheres que
integram partidos, onde seus representantes máximos, homens, cometem uma série
de atos agressivas contra o sexo feminino, a exemplo da misoginia. Quem lembra
do ex-presidente da república, Jair Bolsonaro, quando ainda era deputado
federal, agredindo uma deputada, afirmando que não a estupraria porque ela não
merece. O caso mais recente, foi do atual governador do estado catarinense,
Jorginho Melo, onde agrediu com palavrões uma representante indígena: “vai para
a puta que pariu, e a senhora não quer ir à merda?
Autoridades que deveriam dar o
exemplo de educação e civilidade, são os que mais infringem regras
protocolares. O que é insano é perceber que são as mulheres os alvos prediletos
dessas figuras escrotas. Não tem como explicar racionalmente o que motivam mulheres a ingressarem na política, optando
por partidos, que jamais proporcionarão condições para se libertar desse longo
processo histórico de silenciamento. Incrível que as conquistas que asseguram
as mulheres graus de liberdade e equidade, se deram recentemente, claro que com
o apoio dos movimentos feministas, que, sem hesitar, enfrentaram a fúria
repressiva de governos.
Se a explicação não é racional de as
mulheres se aventurarem na política filiando-se a partidos conservadores, como
explicar então? Claro que devemos buscar respostas no campo psicanalítico,
transgeracional, sendo um processo que tem as suas raízes nas sociedades
clássicas, a exemplo da Grécia antiga. Desde a antiguidade clássica, a mulher
assumia um papel secundário no processo familiar. Portanto, se o esposo fosse
para guerra, a esposa era que cuidava da casa, dos filhos. No instante que o
filho homem saísse da adolescência, teria a incumbência de assumir as
responsabilidades do lar, ficando a mãe sob sua tutela.
Na idade média, a Santa Inquisição,
por exemplo, condenou à fogueira milhares de mulheres, sentenciadas por
práticas de adultério ou outros crimes, como bruxaria e heresia, vistos como
ameaças à ordem social, religiosa e patriarcal. Admitiam os clérigos e
governantes na época, que atitudes desviantes às mulheres, ocorriam por estarem
elas dominadas por forças demoníacas, sendo, portanto, a fogueira, o
instrumento necessário para a “purificação” das suas almas.
Na idade moderna e contemporânea, em
maior ou em menor grau, dependendo do nível de evolução de cada país ou região,
era negada a mulher direitos elementares, como de votar e ser votada. Em
sociedades escravocratas como a brasileira, o papel da mulher se resumia a
objeto de procriação e afazes domésticos, exceto aquelas que se rebelavam, que
eram taxadas pelas famílias e a sociedade como sujeitos com desvios de
personalidade.
Chegar ao século XXI, carregando nos ombros
enorme carga de culpa dos males da civilização ocidental, entrar na política
seria o caminho estratégico para a redenção da mulher, a supressão dos muros,
das barreiras sociais impostas pela sociedade patriarcal, machista, que as
impede de empoderar-se como sujeito histórico. O que vemos, portanto, são
mulheres realizando um brutal desserviço ao gênero feminino, talvez,
impulsionadas, inconscientemente, pela sua própria história familiar, forjada em
um ambiente de repressão e subjugação ao masculino.
Prof. Jairo Cesa