A
OBRA DE ANDRÉ F. PASSOS - AGRICULTURA, ESCRAVIDÃO E CAPITAL NO LITORAL DE SANTA CATARINA, REVELA O INTRINCADO COTIDIANO SOCIOECONÔMICO NO GRANDE ARARANGUÁ DO SÉC. XIX
| Foto - Jairo |
Recentemente
publiquei texto em meu blog discorrendo sobre importantes publicações
historiográficas que lançaram novo olhar sobre temas relevantes do território,
da economia, da sociedade e da política do grande Araranguá. No campo da
sociedade, etnicidade, por exemplo, a obra sujeito lembrados e sujeitos
esquecidos, do pesquisador Cesar Spriccigo, é leitura obrigatória nas escolas e
ciclos de debates sobre a escravidão em Araranguá no século XIX.
O
livro traz à luz um cenário intrigante e até então desconhecido acerca da
territorialidade sul catarinense, forjada com a presença africana cativa nas atividades
da mandioca, cana de açúcar e outras culturas de caráter mercantil. Foi a
partir da cultura da mandioca, do comércio e fluxo de capitais, que uma elite
política foi se constituindo, até que, em 1880, por intermédio de Lei Provincial n.901, tornaria o distrito de Araranguá politicamente emancipado
de Laguna.
O
que tornou a pesquisa sobre a escravidão em Araranguá ainda mais relevante e
respeitada, foi o fato de ter sido ela construída a partir da leitura de inventários,
de processos, dos quais dissertavam a luta de escravos buscando a sua
liberdade. Como qualquer obra historiográfica, principalmente quando o objeto
de investigação é escravidão no sul de Santa Catarina, durante os lançamentos,
os autores procuram afirmar pesquisas historiográficas são recortes de um extenso e
complexo tecido social, atravessado por disputas de interesses que ultrapassam as
fronteiras até mesmo do território nacional.
Era
exatamente isso o que faltava para, talvez, completar o ciclo de estudo da
escravidão no território catarinense, que se estruturou por meio do reordenamento do
comércio atlântico de africanos escravizados. Quem teve a primazia de pesquisar
e trazer à luz um olhar mais dilatado da economia sul catarinense entre o final
do século XVIII e metade do século XIX, foi o historiador André Fernandes
Passos, com o seu espetacular livro, Agricultura, Escravidão e Capital no Litoral de Santa
Catarina: Laguna e o mercado Atlântico (1750-1850).
Embora
não tendo citado Araranguá em sua escrita, isso porque o povoado/distrito,
integrava o município de Laguna até 1880, cada página, cada capítulo, apresenta
de forma implícita os efeitos diretos e indiretos das políticas de gestão do Brasil colonial e imperial, em
âmbito estadual e local. Cabe destacar, que a obra de André esboça uma província se destacando no circuito mercantil atlântica, fornecendo farinha de mandioca, para alimentar os escravos trazidos em navios da região da África
Central, e dos soldados nos frontes de batalhas, na região do prata e no Paraguai.
Se
o litoral catarinense estava também integrado a esse novo ciclo econômico
mercantil atlântico, era de se imaginar que nas médias e grandes propriedades
agrícolas do litoral a inserção do trabalho escravo também se fazia necessário.
Foi exatamente o que André revelou durante suas investigações sobre o acúmulo
de capital e a escravidão, consultando documentos como inventários post mortem. Durante
a leitura do livro, constatei convergências discursivas entre André (2025) e Spriccigo (2007) quando
afiram que o contingente de escravizados nas propriedades rurais catarinenses não superavam 20 pessoas ao todo. Porém, ter escravo na propriedade era quase que uma
obrigatoriedade, realidade essa confirmada por André quando revelou que em
1850 haviam cativos em mais de 90% dos inventariados realizados.
Ter
um engenho de farinha de mandioca, de cana de açúcar, na propriedade, não era algo tão
simples para se concretizar. Era necessário soma volumosa de recursos para
aquisição da maquinaria e mão de obra para a realização das tarefas. O número
mínimo necessário de trabalhadores para o funcionamento da estrutura do engenho era de 8 indivíduos: aquele que realizava
a lavação, a raspagem, a ralação, a prensagem, a torrefação, o armazenamento, e outras tantas envolvidas no cultivo, colheita, transporte, etc. Portanto o custo
para manter um engenho funcionando era bem elevado.
O
que também chama atenção na obra de André, foi o modo como o escravizado chegou
ao litoral catarinense, vindo por meio da navegação de cabotagem, ou seja, navios oriundos da Bahia, do Rio de Janeiro, fazendo atracagem em portos importantes, entre eles, o de Desterro e Laguna. Tanto Desterro quanto Laguna, quem realizou ou
deseja realizar um tour pelas estreitas ruas, repletas de casarios e opulentos
palácios, tente imaginar o dia a dia nesses espaços, a movimentação frenética das pessoas
durante as chegadas e saídas dos navios repletos de mercadorias, a atuação
dos negociadores, das pessoas interessadas em comprar para revender nos
povoados/distritos e auferir lucros vantajosos.
De
fato, os palácios requintados eram as residências daqueles que acumulavam fortunas, fabricando navios, comprando e vendendo escravos, mercadorias importadas, bem como ofertando créditos
amortizados. Claro que a atuação dos negociantes/atravessadores, aqueles que
ofereciam créditos, também teve destaque em Araranguá durante a metade do
século XIX em diante, momento em que a cultura da farinha de mandioca estava no
seu auge produtivo e comercial. Os navios, que entravam e saíam semanalmente pela barra do rio
Araranguá, supriam um pequeno comércio com mercadorias e escravos, que foi
se avolumando, fazendo forjar uma elite agrária e comercial interessada em adquirir autonomia político administrativa.
Portanto,
devemos ter clareza que Araranguá, sua construção socioeconômica, teve a
presença de sangue africano, sujeitos sequestrados de seus territórios por
traficantes que acumularam fortunas. O que vemos hoje é um permanente processo
brutal de espoliação desses sujeitos, vistos pelas elites, como uma das causas da
violência que assola o território nacional. Escondem, ou seja, procuram
invisibilizar a sua existência, o seu importante papel de construção social e
econômica do país, negando, no caso catarinense, reparos históricos, como o
direito a contas raciais nas universidades públicas.
Não
diferente dos indígenas, quase exterminados pela ação brutal dos colonizadores
e, posteriormente, pela imigração europeia, os remanescentes africanos procuram
resistir e cultivar suas tradições em quilombos, territórios, alguns legalmente reconhecidos como habitados por seus antepassados. No caso de Araranguá, embora a presença africana tenha sido relativamente expressiva na sua formação como território, a
presença em atividades de destaques, no legislativo, no judiciário, entre
outras funções públicas, é inexpressiva, quase inexistente.
Afinal,
onde estão os remanescentes africanos em Araranguá? Os que conseguiram sobrevir
da brutal escravidão imposta pelo regime colonial e imperial, vivem ou tentam
sobrevir em um minúsculo gueto no centro urbano. O que espanta é que
há pouco tempo o território foi legalmente reconhecido como um quilombo, cuja
denominação é Maria Rosalina. Muitos dos descendentes de famílias que
adquiriram fortunas no passado, com o trabalho dos africanos escravizados, vem
insistindo na remoção desses remanescentes de escravos para
lugares distantes do centro urbano.
Em
muitas cidades catarinenses é quase que imperceptível a presença de pessoas
pretas, não porque inexistem, é porque parte relevante delas vivem em bairros
distantes do perímetro central. São áreas geralmente desassistidas pelo poder
público, permeadas pela violência e pelo tráfico. O que se vê em termos de
territorialidade negra e indígena, é o contínuo e violento processo fascista de limpeza étnica,
basta ver quem são os encarcerados nos presídios, bem como os alvos prediletos da
política nas constantes blitz realizadas nas grandes, medias e pequenas cidades
brasileiras.
Prof.
Jairo Cesa