quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

 O POUCO DO QUE RESTOU DOS CASARIOS ANTIGOS DO SUL CATARINENSE SOFREM COM AS INTEMPERIES DO TEMPO E A NEGLIGÊNCIA DAS AUTORIDADES 

Foto - Jairo


Como relatei em textos publicados nesse blog, o sul de Santa Catarina não fica atrás de outras regiões do estado e do Brasil em potencialidades turísticas e culturais. O que é relevante é a versatilidade de culturas, cada uma delas expressando suas particularidades, na arquitetura, na culinária, nas danças, nos rituais religiosos etc. É verdadeiro também que nos igualamos aos demais territórios no quesito falta de preservação, valorização do que representa identidade e pertencimento. A depreciação também se dá sobre os ricos acervos arqueológicos, com destaque os povos sambaquianos, datados de quatro, cinco mil anos de história, que enfrentam descaracterizações, sem que as autoridades competentes tomem medidas para protegê-los.

Nossa arquitetura também é muito rica e complexa, destacando estilos coloniais luso-açorianos e aqueles herdados dos imigrantes europeus: alemães, italianos, poloneses, entre outros. Em se tratando de linhas arquitetônicas coloniais, é claro que são as igrejas que esboçam esses traços, com destaque para aquelas erguidas no litoral catarinense, cujas mais antigas datam do século XVII.   Em texto que publiquei há pouco tempo, discorri acerca do abandono da igreja matriz do município de Pescaria Brava, edificada em 1887 por força de trabalho escrava. Alertei sobre a urgente necessidade de fazer reparos, principalmente o setor elétrico. Embora existam algumas manifestações no sentido de restaurá-la, o fato é que não há um cronograma nem recurso orçado para esse fim.

Se nos municípios costeiros sul-catarinenses temos traços culturais e artísticos que remontam aos grupos coloniais luso-açorianos, indo em direção ao interior, deparamo-nos com outra realidade, esboçada no estilo arquitetônico, das igrejas e das habitações erguidas pelos imigrantes italianos. Uma dica de bom roteiro para compreender melhor o modo de vida das primeiras famílias italianas instaladas no Sul é visitar o museu ao ar livre Princesa Isabel, no município de Orleans. 

A região do alto e médio vale do rio Tubarão está integrada a um complexo conjunto de rotas e destinos, que oportuniza aos turistas que queiram visitar a região conhecer fragmentos do modo de vida, do trabalho, da culinária, das crenças, das habitações, das primeiras famílias de imigrantes que lá se fixaram. Por ser a região, e com destaque o município de Pedras Grandes, o berço da imigração italiana, e por estarem lá edificações que evidenciam essa cultura, fui estimulado a conhecê-la.

Claro que, antes de nos deslocarmos, procuramos sites que pudessem dar subsídios acerca dessas edificações, a exemplo da famosa Casa dos Arcos. Fiquei entusiasmado com o que li, pois descobri que a residência, datada de 1900, havia sido tombada como Patrimônio Cultural em 21/11/2002, por meio do n. 5.919, pela Fundação Catarinense de Cultura. Presumi que, por estar a residência tombada, ela estivesse em bom estado de conservação.

Chegando ao local, conhecido também como Parque Casa dos Arcos, o primeiro objeto que nos chamou a atenção e certamente dos visitantes foi de um avião, isso mesmo, um caça AMX-1, construído pela Embraer e ali instalado. Além do Caça, ao lado estava a réplica do 14-Bis, primeiro avião, construído por Santos Dumont.  Um lago artificial, contendo uma gôndola, uma mini tirolesa e uma réplica de carretão com uma junta de bois, completara o cenário, tudo junto e misturado. Então, e a casa centenária, objeto principal da nossa ida a Pedras Grandes, onde estava? Sim, estava lá, claro que desfocada diante de tantas coisas juntas.

Para acessá-la, tivemos que atravessar uma pequena ponte para pedestres sobre o lado. Próximo à casa, havia um banco de concreto, no qual estava fixado um adesivo com QR CODE, provavelmente contendo informações sobre a residência. Chegamos mais perto e notamos que as paredes estavam bem depreciadas pelo tempo, incluindo as aberturas, elementos que dão a denominação estética, Casa dos Arcos. Ficamos atônitos com o que estava à frente dos nossos olhos, não convergindo as informações divulgadas pelos sites, noticiando um cenário contemplador, mais espetacular ainda quando o campo de girações fica florido.

Observando o cenário caótico do lado externo da casa centenária, imaginávamos que o acesso ao seu interior estivesse impedido ao público, isso para conter o máximo possível o processo depreciativo do imóvel. De repente, um pouco mais à frente, vimos uma porta escancarada.  Deduzimos que alguém da administração do parque havia esquecido de mantê-la fechada ou teria sido arrombada por vândalos. Nem uma coisa, nem outra; a casa estava literalmente aberta, permitindo que todos acessassem os frágeis cômodos.

Quando pus os pés no interior da residência, deparei-me com uma escada que levava ao sótão. Continuei a caminhar, com um sentimento de pavor, angústia, por estar transitando sobre tábuas, paredes, carregadas de memória, porém, em condições deprimentes. Forros caindo, janelas protegidas com sarrafos improvisados, fiações soltas, enfim, um cenário de horror.   

 

Foto - Jairo


Foto - Jairo


O que talvez minimizasse o cenário de tristeza exaltada pela encantadora residência, é o jardim dos girassóis, que, quando floridos, transmitiria uma tonalidade alegre, ofuscando um problema em que as autoridades locais e do estado insistem em empurrar com a barriga.  Notei que as gramíneas, junto aos girassóis, estavam ressecadas devido à pulverização por agrotóxicos.  Mesma cena impactante era perceptível nas margens do lago, cuja vegetação estava também ressecada pelo veneno. Entretanto, há um monte de incongruências junto ao parque Casa dos Arcos, que deveriam ser reavaliadas pelo gestor público, com o seu corpo técnico competente.  

Foto - Jairo

Foto - Jairo



 Gerou certa estranheza a atitude de uma cidadã que me fez críticas em um grupo no qual participo, só pelo fato de eu ter emitido opinião acerca das condições deploráveis da Casa dos Arcos.  Respondeu ela: “Por que abandonado? Ela não está abandonada, pelo contrário”.  “Sou de Pedras Grandes, que a casa dos arcos era de propriedade particular, que a prefeitura adquiriu e cuida”. Continuou a cidadã: “Essa casa, a Casa dos Arcos, era de propriedade particular; a prefeitura a adquiriu e cuida. Criou um parque no entorno e o campo de girassóis, que já está sendo cuidado, que atrai muitos turistas e visitantes. A casa não está restaurada porque precisa de muito dinheiro pra isso. Mas está sendo cuidada, sim”. 

Diante da fala da cidadã de Pedras Grandes, respondi que ela não tinha qualquer noção sobre patrimônio arquitetônico, entre outras afirmações. Respondeu que possuía compreensão sobre a temática patrimônio e que eu deveria acionar os órgãos, como o IPHAN, por exemplo, e ver uma forma do município conseguir dinheiro para restaurar; o discurso na prática é bem diferente. Outro integrante do grupo, fez a seguinte proposição para a cidadã de Pedras Grandes: “iniciem com um contato com o IPHAN. “Façam registros fotográficos. Busquem registros anteriores. Informações sobre a época da edificação. Tudo o que puderem. O IPHAN vai orientar a respeito dos procedimentos necessários”.

Respondeu a cidadã que “o IPHAN tem catalogado as casas aqui... mas não funcionou. Tanto que a casa de pau a pique o IPHAN tinha catalogado, inclusive visitaram e não adiantou”. Sobre a casa de pau a pique, respondeu outro cidadão do grupo: a referida casa, edificada no século XIX, foi demolida em 2024. Mais um do grupo propôs que o município buscasse recursos por meio de editais, que aproveitasse as leis de incentivo à cultura. Perguntou se a réplica da Torre de Pisa, que está sendo erguida na comunidade de Azambuja, que pertence a Pedras Grandes, é por meio de recursos próprios? Respondeu a cidadã que uma coisa é a construção, outra coisa é o restauro.

Contra-argumentou o cidadão que um exemplo de edital é a Lei Aldir Blanc, cujo valor destinado é de 40 mil reais. Outro do grupo emitiu mais informações sobre a respectiva lei, que prevê recursos para o patrimônio material e imaterial. Informou a cidadã de Pedras Grandes que “pra nós é 40 mil difíceis de aplicar pelas regras inclusive”. “Porque a lei ou o minc falam que podem ser assim ou assado, mas não mandam toda fundamentação de como fazer porq nós os coitados dos servidores públicos tem que se virar pra por isso em sistema e enviar pra tribunal de contas”.

Durante as falas envolvendo a cidadã e integrantes do grupo, que discorriam sobre o futuro incerto da Casa dos Arcos, imagens e um vídeo foram postados por outra cidadã, também criticando o estado crítico da residência. Informou ela que ficou surpresa por estar a residência com as portas abertas, que pessoas acessavam o seu interior e corriam sobre tábuas fragilizadas. Que era necessário tomar providências para preservar uma edificação tão espetacular.

 Frente a todo esse imbróglio envolvendo a Casa dos Arcos, o que de fato esperamos é que as autoridades do município de Pedras Grandes tomem medidas urgentes para evitar o que não desejamos que aconteça: a destruição completa de um rico patrimônio arquitetônico centenário, repleto de memória de gerações que tiveram as suas existências forjadas a partir desses referenciais simbólicos. A perda de referenciais históricos por parte de uma sociedade fragiliza a condição de sujeitos integrados, resistentes a qualquer tipo de imposição verticalizada.

Prof. Jairo Cesa                     

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 

90 ANOS DEPOIS, O ESPECTRO DO FASCISMO VOLTA A ASSOMBRAR O IMAGINÁRIO COLETIVO DO ESTADO BRASILEIRO

https://gz.diarioliberdade.org/opiniom/item/38692-barbarie-pouca-e-civilizacao.html


A Ação Integralista Brasileira havia sido dissolvida no golpe de 1937 por Getúlio Vargas, que instituiu o Estado Novo, que se manteve no poder até 1945. Quase cem anos mais tarde, o espectro do seu fundador, Plínio Salgado, é ressuscitado, trazendo apreensão diante da possibilidade de repetição de erros políticos crassos do passado. Enquanto em 1936, era a Aliança Liberal ou Partido Liberal, de Getúlio Vargas, que fazia oposição à Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, hoje, 2026, temos o PL, cujo principal representante, Jair Bolsonaro, que mesmo preso, continua insuflando o imaginário coletivo de milhões de brasileiros.

Claro que, racionalmente, é inseguro compreender essa digressão histórica, dos reais motivos que impulsionam pessoas apoiarem forças políticas, líderes, que reverenciam torturadores, que atacam à ciência, à cultura, às universidades, às mulheres etc. Na Europa, no começo do século XX, dirigentes sanguinários, provocaram a morte de milhões de pessoas em campos de concentração, o agravante é que as brutalidades cometidas eram abonadas pela população, que os reconhecia como representação divina na terra.

 Era de se imaginar que regimes dessa envergadura, que apregoavam ódio e morte, tivessem sido sepultado para sempre junto com seus comandantes diabólicos. Nada disso, há poucas semanas, a própria Alemanha, que protagonizara o nazismo, elegeu parlamentares integrantes de um partido com programa político contendo políticas de cunho nazista.  

Infelizmente esses retrocessos históricos no campo político, a eclosão de partidos extremistas vêm respingando em muitos países da Europa, da Ásia e do Continente Americano. Os exemplos mais categóricos de regimes extremistas em evidência nesse momento são o Estado de Israel e os Estados Unidos da América. Frente a toda essa insanidade de dois líderes insanos, na América Latina, as eleições em curso revelam forte contaminação dos ideários extremistas/fascistas em ascensão. Os únicos países que ainda mantêm governos pouco alinhados ao imperialismo estadunidense, são o Brasil e o México, ambos considerados potências latino-americanas.

A vitória da extrema direita na Argentina, na Colômbia e a ação violenta americana na Venezuela, sequestrando o presidente e levando-o à prisão nos Estados Unidos, acenderam a luz vermelha no processo político brasileiro, cuja eleição ocorrerá no próximo dia 04 de outubro de 2026. Desde 2016, quando o Congresso depôs a presidente eleita, Dilma Rousseff, a extrema direita vem adquirindo robustez impressionante. A ascensão meteórica de um ex-capitão do exército brasileiro, que por décadas ocupou o Parlamente como deputado federal, era o que a elite patriarcal escravista idealizava como um “redentor divino”.

Durante a campanha às eleições de 2018, o que apavorava parcela da população era os trejeitos apresentados pelo ex-capitão, sempre com um discurso que fez brotar das profundezas do inconsciente coletivo, o lado obscuro do cérebro, onde está acomodado a opressão, o ódio. É como um patógeno incubado, sendo Jair Bolsonaro, o impulso que faltava para desabrochar o vírus mortal. O forte engajamento ao espectro religioso, serviu como combustível para impulsionar as massas ensandecidas, que lhe credenciavam como um “messias”, o enviado dos céus.

O que era mais assombroso diante da ascensão abrupta de um indivíduo até então desconhecido na política, é que todos os trejeitos apresentados  assemelhavam-se aos esboçados polos líderes nazistas e fascistas da Europa, que resultou na Segunda Guerra Mundial. As frequentes motociatas, por exemplo, em nada se diferenciavam daquelas arquitetadas por Benito Mussolini, líder fascista da Itália. Mesmo diante de tamanhas aberrações, Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2018, cujos quatro anos de governo, se caracterizaram como um dos mais desastrosos da história do Brasil.  Um exemplo que mostrou sua incompetência como gestor, foi a condução dada à COVID 19, vírus que levou à morte de mais de 700 mil brasileiros/as.

Eleições em curso, Lula derrotou o candidato extremista à reeleição em outubro de 2022, porém, em 8 de janeiro de 2023, o candidato derrotado lidera movimento golpista para impedir a posse do presidente eleito, Lula da Silva. Centenas de golpistas foram presos e condenados, entre eles, o próprio ex-presidente e diversos integrantes do exército brasileiro. Com um congresso majoritariamente conservador e aliado à figura do bolsonarismo, nos quadro anos de governo Lula procuraram “desgastá-lo” na tentativa de enfraquecer o nome do presidente Lula no pleito de 2026 que poderá reelegê-lo.

Mesmo com a prisão do principal líder da extrema direita, o seu espectro permanecia atormentando as mentes de parte da população. Era o momento de escolher alguém que pudesse ter chances reais de confrontar e derrotar o líder progressista, Lula da Silva. De repente, aparece alguém do “clã” bolsonarista, nada mais, nada menos que Flavio Bolsonaro, filho do ex-presidente, porém, como o pai, envolvido em inúmeros crimes, dentre os quais o esquema milionário com o banqueiro, atualmente preso, Daniel Vorcaro, proprietário do banco Master. A campanha segue, e as pesquisas de intenção de voto, até o momento revelam chances do candidato do PL ir para o segundo turno.

Independentemente de o atual presidente ter ou não cometido erros em sua administração, acontece que estamos às portas de escolher a civilização ou a barbárie. Não é alarmismo, é realidade. Tanto na Itália anterior a Mussolini, quanto na Alemanha de Hitler, o cenário hoje aqui esboçado pela extrema direita é muito parecido aos praticados lá fora. Precisamos, sim, optar pela civilização, pois, se perdermos essa chance, o que nos restará é o lamento. O exemplo mais próximo que temos de barbárie é o da Argentina, onde atualmente mais de 50% da população passa fome.

Prof. Jairo Cesa           

terça-feira, 22 de setembro de 2026

 

O INTEGRALISMO/FASCISMO GESTADO NO GRANDE ARARANGUÁ, A ELEIÇÃO QUE REVELOU O LADO SOMBRIO DO ULTRACONSERVADORISMO SULISTA

Foto - Livro, De Olho no Poder, João Henrique Zanelatto. p.86


Há 90 anos, o Estado brasileiro se viu assombrado pelo espectro do "fascismo", é claro que  com a ascensão da Ação Integralista Brasileira – AIB, sendo o principal líder, Plínio Salgado. A Europa, no entanto, estava às portas da Segunda Guerra Mundial, sendo que duas importantes nações, Itália e Alemanha, entraram no cenário continental e global com duas propostas de regimes, o nazismo e o fascismo, sendo que ambos arregimentaram milhões de apoiadores. A resposta à insanidade de líderes mentalmente doentes, as conhecemos de cor, foram milhões assassinatos, entre os quais seis milhões de judeus em campos de concentrações espalhados pela Europa.

O Brasil, porém, estava sob o regime ditatorial de Vargas, que, no início do mandato,  apoiou incondicionalmente os regimes totalitários da Alemanha e da Itália. Por 15 anos, tempo em que Vargas ficou à frente do governo, a única exceção à ocorrência de eleição livre no Brasil, foi em 1936, com as eleições para escolher os prefeitos e os vereadores. Em âmbito nacional, estavam previstas eleições gerais para o dia 3 de janeiro de 1938, porém, o processo eleitoral não se sucedeu, porque em 10 de novembro de 1937, Vargas decretou  o Estado Novo, cuja alegação foi "acreditar" a existência de  manobras comunistas para a execução de golpe de estado. O que as fontes revelaram foi  ter sido  o possível golpe comunista arquitetado por apoiadores de Vargas, cujo intuito era mantar-se a frente do poder.  

A Aliança Integralista Brasileira, já consolidada como partido político, prestou apoio ao golpe político de Vargas, cujos membros intuíam que seriam agraciados com cargos no governo golpista de Getúlio Vargas. Entretanto, Vargas ao assumir o governo, uma das suas premissas foi a extinção dos partidos políticos, incluindo a Ação Integralista Brasileira.  

Cabe aqui destacar que a AIB, sua "gestação" como movimento e partido, se deu estimulado por um cenário social e político conturbado no qual atravessava o Brasil. Embora  ganhando força e notoriedade em todo o território nacional, o integralismo adquiriu certas peculiaridades no sul do Brasil, com destaques os redutos com ampla presença de imigrantes alemães, italianos, poloneses. Sobre o Integralismo, discretas são as fontes disponíveis que discorrem com  fidelidade o movimento em terras brasileiras. Nesse campo reduzido de fontes, temos que prestar nossa gratidão e respeito ao pesquisador, João Henrique Zanelatto, com a sua magnifica obra historiográfica, cujo título é: De olho no Poder: o integralismo e as disputas políticas em Santa Catarina na era Vargas.   

No livro, o pesquisador consegue demover denso nevoeiro que pairava sobre o passado social do estado de Santa Catarina, atravessado por disputas entre grupos políticos vinculados as oligarquias tradicionais, bem como as nascentes elites de imigrantes europeus, que vislumbravam na Ação Integralista Brasileira a oportunidade de projeção política. O período em que pesquisador se debruçou na investigação, foram as décadas de 1920 e 1930, quando o fascismo e o nazismo estavam sendo gestados na Europa, porém, ambos se mostravam influentes nos discursos e na opinião pública dos catarinenses.

É claro que como historiador temos que ter cautela quando nos debruçamos sobre fontes historiográficas, livros, periódicos, documentos em geral, para lê-los e interpretá-los. O risco é lançarmos opiniões, geralmente acometidas por sentimentos que contaminam os fatos investigados. Se supõe que o pesquisador Zanelatto, foi cuidados na construção de sua magnifica obra. Em nenhum momento deu provas conclusivas de que o nazismo e o fascismo estavam explicitados no programa da AIB. Entretanto, por meio de um olhar mais crítico e comparativo, não negaremos que o Integralismo, de modo dissimulado, suscitava um projeto ideológico autoritário, fundamentado na ordem institucional, na moral cristã e na família.  

Era provável que havendo eleições presidenciais em janeiro de 1938, o Integralismo esboçava chances de vencer o pleito, levando ao poder seu principal líder, Plínio Salgado, isto é, Faltando dois anos para o início do grande conflito mundial. O que é passivo de reflexão é qual seria o comportamento de um presidente com um possível viés fascista junto aos países do eixo, Alemanha e Itália, por exemplo. Não nos esqueçamos que Getúlio Vagas também esboçou apoio político às lideranças do eixo. 

 Com rapidez, o movimento Integralista conquistou adeptos nos quatro cantos do estado, chegando a se credenciar para disputar prefeituras e câmaras municipais nas eleições de 1936. Em Araranguá, a sigla foi oficializada no dia 03 de outubro de 1934, na residência do seu principal líder, Jaime Wendhause. a Ação Integralista Brasileira  se estendeu para o interior, arregimentar adeptos para tornar a sigla competitiva e que pudesse derrotar a Aliança Liberal.  Quatro meses depois da homologação da AIB, em Araranguá, em 10 de fevereiro de 1935, a comunidade do Rio Jundiá, hoje integrada ao município de Turvo, criou o subnúcleo do movimento.     

O crescimento do integralismo em Araranguá foi tão eloquente e ameaçador aos  interesses da Aliança Liberal, que fez p intendente Nereu Ramos vir à região, com o propósito de neutralizar o movimento. Se teve algum impacto à vinda do intendente a Ararangua, o fato é que nas eleições de 1936, por poucos votos, A Aliança Liberal, agremiação do candidato Caetano Lummertz, não perdeu o pleito. Concluída a contagem dos votos, Caetano Lummertz, da Aliança Liberal, conquistou 1.566 votos; e Jaime Wendhause, da Ação Integralista Brasileira, 1.025 votos.

A ameaça integralista não foi exclusividade de Araranguá,  municípios como Imaruí e Orleans, tiveram os candidatos liberais ameaçados de perder os pleitos. No fim, a Ação Integralista Brasileira, elegeu 22 prefeitos e 351 vereadores no território brasileiro. Em Santa Catarina, foram 8 prefeitos e 72 vereadores e dezenas de juízes de paz. É importante destacar que em Araranguá, o integralismo não elegeu prefeito, porém, elegeu 3 vereadores. Foi Blumenau/SC, onde o movimento obteve maior percentual de votos favoráveis, 2.983, contra 1.079, da União Democrática Blumenauense.

  Personalidades importantes do campo político em Araranguá expressavam opiniões positivas ao Movimento Integralista, opiniões escritas no livro O Grande Araranguá, o padre Leonir João Dal Alba.  Alguns entrevistados afirmaram que o integralismo tinha pretensão no campo católico, que era o melhorando a situação da população. Presume-se que a opinião relativa à pretensão católica, poderia ter alguma vinculação ao aspecto moral da população.  Os que ingressassem ao integralismo seguiriam alguns ritos protocolares, como o uso de uniforme, camisas verdes e calças pretas,  ir à missa e desfiles cívicos. Os/as que ingressavam ao integralismo, tinham a convicção que uma sociedade orgânica, cristã, hierarquizada e corporativista, impediria a ascensão do liberalismo capitalista e do comunismo.

  Essa conjugação de princípios patrióticos e morais recebeu a denominação, Deus, Pátria e Família. Regimentalmente, as mulheres quando ingressassem ao integralismo não poderiam trair seus maridos, sendo-as punidas com a expulsão. Elas deveriam ser integras, moralmente e civicamente. As igrejas, católicas ou protestantes, se caracterizavam como  locais onde os integralistas se reuniam, especialmente nas celebrações dominicais. Nos finais das missas, acredita-se que reuniões eram para discutirem as demandas do movimento. Em Araranguá, um cidadão entrevistado por Dal’Alba, afirmou que o padre Antônio Luís Dias não impedia que os integralistas desfilassem trajados durante as fastas da padroeira.

O primeiro Congresso da Ação Integralista, ocorreu em Blumenau, em 7 de outubro de 1935, com milhares de participantes.  Outro, tão importante como o congresso de Blumenau, ocorreu em Laguna, exatamente na região com baixo predomínio de imigrantes europeus. A escolha se deu motivada por ser Laguna um centro metropolitano importante, possuindo  um porto e inúmeros jornais que cobririam o evento.

Mesmo com críticas, o fato é que muitos liberais vislumbravam na AIB aspectos importantes, como a possibilidade de haver maior controle sobre a sociedade e neutralizar o crescimento do comunismo. De fato, o integralismo apregoava a militarização do corpo, portanto, o uso de uniformes, se mostrava como estratégia de inculcar no/a cidadão/ã mandamentos de unidade, pertencimento, omitindo ou desfocando conflitos de classes, tão evidenciados em sociedades capitalistas como a brasileira.

Prof. Jairo Cesa        

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 

MULHERES NA POLÍTICA: O QUE LEVAM "ELAS" ALIAR-SE ÀQUELES QUE HISTORICAMENTE AS TORTURAM

 

https://www.brasildefato.com.br/colunista/gleide-andrade/2026/01/14/a-violencia-politica-de-genero-como-estrategia-de-silenciamento-das-mulheres/#google_vignette

Transitando pelas ruas e avenidas de Criciúma me deparei com um cenário visualmente perturbador, dezenas, centenas de bandeiras de candidatos/as espalhadas nos canteiros, rótulas, onde o que mais refletia era poluição visual e mais nada. Prestando atenção nas bandeiras, números e siglas partidárias, o que chamou a atenção foi constatar que embora existissem diversidade de bandeiras, dois ou três candidatos/as de um mesmo partido ou do arco de alianças, dominavam o cenário. Claro que os destaques, são candidatos do campo conservador, vinculados ao mesmo partido do governador, que busca a reeleição no estado e do Flavio Bolsonaro, que busca à para presidente da república.

O que pouca gente sabe é que todo esse material de campanha, bandeiras, por exemplo, são financiadas com dinheiro público, recursos do fundo partidário. O PL, por exemplo, partido do governador do estado e do candidato a presidente da república, é o que recebe maior fatia do fundo, 881 milhões de reais, de um total de 4,9 bilhões de reais. É obvio que nem todos/as os candidatos/as dessa sigla recebem valores equivalentes, sempre privilegiando os/as que apresentam chances claras de vitória no pleito. Paradoxalmente, esses mesmos candidatos/as que se travestem de bons mocinhos/as, defensores da moral cristã, da família e de um Brasil melhor, nas assembleias legislativas ou no congresso nacional, sempre votam em projetos favoráveis aqueles/as que dominam, que exploram.

O que é mais horripilante é acompanhar a propaganda eleitoral na TV, assistindo mulheres candidatadas de partidos conservadores, com discursos defendendo demandas que tendem a torná-las mais submissas, mais violadas das suas condições de sujeitos da história. Mais bizarro ainda é a atitude de uma deputada, do PL, candidata à reeleição, que se traveste de “boa mocinha”, com discurso antifeminista, enaltecendo a família tradicional. Acreditem, essa mesma deputada, apresentou projeto de lei no qual assegura medida protetiva da lei Maria da Penha também aos homens que sofrem violência doméstica.

O mínimo que as mulheres que ascendem a política deveriam se incumbir, primeiro, jamais se filiar em partidos de vertentes conservadores, segundo, atuar no parlamento, nas três instâncias de poder, lutando incessantemente por mais direitos, como equidade salarial a dos homens. Defender pautas conservadoras, a família tradicional, por exemplo, é manter-se subordinada ao gênero masculino, pois o modelo da família brasileira, foi forjada sob o prisma do patriarcalismo, sendo a mulher, reduzida a condição de mera reprodutora, cuidadora dos filhos, do marido etc.  Atuar na política, nos negócios, até mesmo na universidade, era uma exceção no universo feminino.

O que dizer dessas mulheres que integram partidos, onde seus representantes máximos, homens, cometem uma série de atos agressivas contra o sexo feminino, a exemplo da misoginia. Quem lembra do ex-presidente da república, Jair Bolsonaro, quando ainda era deputado federal, agredindo uma deputada, afirmando que não a estupraria porque ela não merece. O caso mais recente, foi do atual governador do estado catarinense, Jorginho Melo, onde agrediu com palavrões uma representante indígena: “vai para a puta que pariu, e a senhora não quer ir à merda?

Autoridades que deveriam dar o exemplo de educação e civilidade, são os que mais infringem regras protocolares. O que é insano é perceber que são as mulheres os alvos prediletos dessas figuras escrotas. Não tem como explicar racionalmente o que motivam   mulheres a ingressarem na política, optando por partidos, que jamais proporcionarão condições para se libertar desse longo processo histórico de silenciamento. Incrível que as conquistas que asseguram as mulheres graus de liberdade e equidade, se deram recentemente, claro que com o apoio dos movimentos feministas, que, sem hesitar, enfrentaram a fúria repressiva de governos.

Se a explicação não é racional de as mulheres se aventurarem na política filiando-se a partidos conservadores, como explicar então? Claro que devemos buscar respostas no campo psicanalítico, transgeracional, sendo um processo que tem as suas raízes nas sociedades clássicas, a exemplo da Grécia antiga. Desde a antiguidade clássica, a mulher assumia um papel secundário no processo familiar. Portanto, se o esposo fosse para guerra, a esposa era que cuidava da casa, dos filhos. No instante que o filho homem saísse da adolescência, teria a incumbência de assumir as responsabilidades do lar, ficando a mãe sob sua tutela.

Na idade média, a Santa Inquisição, por exemplo, condenou à fogueira milhares de mulheres, sentenciadas por práticas de adultério ou outros crimes, como bruxaria e heresia, vistos como ameaças à ordem social, religiosa e patriarcal. Admitiam os clérigos e governantes na época, que atitudes desviantes às mulheres, ocorriam por estarem elas dominadas por forças demoníacas, sendo, portanto, a fogueira, o instrumento necessário para a “purificação” das suas almas.

Na idade moderna e contemporânea, em maior ou em menor grau, dependendo do nível de evolução de cada país ou região, era negada a mulher direitos elementares, como de votar e ser votada. Em sociedades escravocratas como a brasileira, o papel da mulher se resumia a objeto de procriação e afazes domésticos, exceto aquelas que se rebelavam, que eram taxadas pelas famílias e a sociedade como sujeitos com desvios de personalidade.

Chegar ao século XXI, carregando nos ombros enorme carga de culpa dos males da civilização ocidental, entrar na política seria o caminho estratégico para a redenção da mulher, a supressão dos muros, das barreiras sociais impostas pela sociedade patriarcal, machista, que as impede de empoderar-se como sujeito histórico. O que vemos, portanto, são mulheres realizando um brutal desserviço ao gênero feminino, talvez, impulsionadas, inconscientemente, pela sua própria história familiar, forjada em um ambiente de repressão e subjugação ao masculino.

Prof. Jairo Cesa      

           

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

A "INTERVENÇÃO DIVINA NO STF", O GOLPE DA TOGA

https://www.facebook.com/reel/1609198277524002


A poucos dias do primeiro turno do pleito eleitoral que deverá, a priori, levar para o segundo turno os candidatos Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL, o STF protagonizou um episódio inédito na história da República, interpretado como um golpe da alta corte. O caso se deu com a decisão do ministro, “terrivelmente evangélico”, André Mendonça, que tomou a decisão pelo afastamento preventivo do diretor geral da PF, cuja alegação foi ter produzido relatórios sigilosos, da atuação do magistrado e a do advogado-geral da União (AGU). O episódio que levou a dispensa do chefe da PF, que foi reintegrado ao cargo mais tarde, se caracterizou como um golpe, porque tal atitude deve partir de decisão da plenária do judiciário e não ato individualizado de um juiz.

De certo modo, a postura do ministro em criar o emblemático fato, que também envolveu o seu colega de toga, Alexandre de Moraes, tem a finalidade clara de produzir clima de confusão social e revolta a poucos dias da eleição. É preciso deixar bem claro que esse ministro foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que além de jurista é pastor evangélico. É nítido que, tomada a decisão que tomou o ministro Mendonça, o ato insólito reverberaria positivamente junto a militância e aos milhares de evangélicos que denotam apoio ao candidato da extrema direita.

É claro que ninguém impede que integrantes de órgão de tamanha relevância como o STF pratique uma religião, até mesmo ocupando o cargo de pastor ou quem sabe outra função litúrgica, porém, isso jamais deveria se mesclar com decisões tomadas frente ao cargo de ministro da Alta Corte. Uma sociedade como a brasileira, onde a religião perpassa os limites da própria constituição, que define a laicidade como regra pátria, ter um ministro terrivelmente evangélico, que nos cultos que ministra, admite ser o Messias, o enviado de Deus, é, sim, uma estratégia de induzir a população evangélica a votar no candidato da extrema direita.

Atitude como essa de um ministro, de se classificar como um escolhido dos céus, foi explorado no passado pelo ex-candidato e depois presidente, Jair Bolsonaro, que sempre usava como slogan de campanha a expressão:  “Brasil acima de tudo, deus acima de todos”. Não há dúvida que há um projeto “evangelistão” sendo incubado, basta prestar atenção na quantidade de igrejas neopentecostais instaladas nas cidades brasileiras. É assustador o número de fiéis que essas igrejas conseguem atrair durante os seus cultos, grande maioria impregnando aos seus fiéis, valores morais conservadores, fundamentados no slogan fascista, Deus, Pátria e Família.    

O que é verdadeiro no caso do STF, é que o circo está montado, com objetivo explícito de distrair a população. Fazer acreditar que o órgão está contaminado, que todos/as estão envolvidos/as, que é preciso suprimir o órgão, prender, impeachment, ou até mesmo uma intervenção golpista, a exemplo de 08 de janeiro de 2023. E isso jamais podermos admitir, não queremos retroceder décadas na nossa história, porque eleger Flavio Bolsonaro, é perder direitos sociais e humanos, é voltar a censura, a fome, a violência, o negacionismo, as fobias de gênero, o empobrecimento. Acredite, será o retorno da barbárie.

Fatos recentes e muitos que estão em evidência, mostram que o “ovo” do fascismo está prestes a descascar, isso se não enfrentarmos o monstro fascista, com todo o afinco no pleito do dia 04 de outubro. O 07 de setembro comemorado em Içara/SC, quando grupos de pessoas ligadas a uma igreja evangélica, desfilaram, transportando faixas com mensagens de cunho moralista, como, por exemplo, “casamento é monogâmico e Heterossexual”, infringe princípios constitucionais de liberdade de gênero. Outro caso que merece atenção redobrada foi a agressão contra a candidata a suplente de senadora, pelo PT, por parte da polícia militar do estado em Jaraguá do Sul/SC. Tanto o insólito ato do desfile no dia 07/09, quanto a agressão recebida pela candidata a suplente de senado, em Jaraguá do Sul, ambos refletem o comportamento da sociedade brasileira, forjada pela barbárie de um patriarcalismo escravista ainda latente no imaginário coletivo.  

Se a credibilidade da população brasileira em relação a política já era pífia, agora com esses escândalos envolvendo integrantes da Alta Corte, o cenário ficou pior ainda. Quem ganha com isso são os políticos oportunistas, ditos “não tradicionais”, que apostam as fichas na aquisição desses votos e na vitória. É sabido que a extrema direita também aposta as fichas na eleição do máximo possível de congressistas, dos quais proporcionarão a uma revisão ou construção de uma nova constitucional, com a supressão de direitos aos trabalhadores.

O momento que seria para debater demandas importantes para a sociedade, como saúde, segurança, educação, meio ambiente, os/as candidatos/as e a própria sociedade, estão envoltos ao que está orbitando no STF, atolado por denúncias de corrupção e desvio de conduta de alguns dos seus membros. Enquanto a população concentra o foco das atenções sobre o supremo tribunal federal, que se transformou num ringue político, a crise ambiental deixa de ser discutida, bem como a educação. É tão sério esse desinteresse em discutir temas tão relevantes, como educação pública, que pouca gente sabe que permaneceremos nas últimas posições no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA).

Dos 91 países avaliados e que integram a OCDA, o Brasil ficou na 67ª posição geral. Porém, os resultados foram mais decepcionantes em matemática, alcançando a 71ª posição. Já em literatura, obteve a 52ª posição; e ciências, a 67ª, atrás de países como o Uruguai, Chile, México, Costa Rica, Peru, Colômbia. Esses números explicam por que elegemos candidatos que, na câmara, na assembleia e no congresso, procuram esfolar os trabalhadores.  Portanto, temos que ter lucidez, mesmo aqueles que não gostam do candidato Lula, devem ter clareza que o que está em jogo é a civilização, e que votar na extrema direita é optar pela barbárie.   

Prof. Jairo Cesa                             

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 

A REPÚBLICA BRASILEIRA MAIS UMA VEZ AMEAÇADA PELOS TIRANOS FASCISTAS DE PLANTÃO

https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/ato-da-direita-na-av-paulista-tem-boneco-gigante-de-trump-levantando-lula/


Mais do que nunca, a história que deveria ser uma das ciências mais respeitadas, com profissionais altamente habilitados e críticos nas escolas brasileiras ainda é renegada a disciplina de segundo plano. Se fosse considerada como área de conhecimento estratégica, com se busca com a matemática e língua portuguesa, talvez não repetiríamos erros absurdos como a ascensão de regimes tiranos e pessoas sem qualquer histórico público, verdadeiros paraquedistas, oportunistas, erroneamente apelidados como salvadores da pátria. Olha que foram muitos que passaram por nós desde a redemocratização, começando com Collor de Mello, eleito e suprimido do cargo de presidente em 1992, a Augusto Cury, que tenta galgar o cargo máximo da República, apostando na fragilidade das instituições e na ignorância funcional de milhões de brasileiros.

Deixar claro que a ignorância funcional é uma ferida social ainda não cicatrizada da nossa triste história, forjada por um projeto de sociedade pensada a partir da exploração dos recursos naturais por meio da força de trabalho cativa. Até hoje é discurso quase consensual, como um país tão grande e tão rico em recursos naturais, consegue ser tão atrasado culturalmente, a ponto de eleger tantos algozes, verdadeiros tiranos, mal caráter, sanguessugas do dinheiro público.   Mais uma vez, repito, a história tenta explicar essas contradições sociais, porém, infelizmente, essa ferida social insiste em não cicatrizar, como de muitos erros recorrentes na condução da nossa política.

Às vésperas de mais um pleito, que parece será decidido entre dois candidatos de correntes ideológicas distintas, fatos polêmicos vem a público mostrando membros do STF beneficiados em esquema de corrupção do Banco Master. Claro que gera preocupação, até mesmo dúvidas acerca do modo como essa instituição atuou e vem atuando no arbitramento de casos polêmicos, onde, quem julga ou julgou, não está ou esteve isento de imparcialidade. Entretanto, não me sinto surpreso ouvindo notícias do envolvimento de membros da alta corte do judiciário em tramas políticos, ferindo frontalmente a constituição. fato é que no consciente coletivo o que sobressai é a certeza que tudo é permitido em terras onde o dinheiro e o poder são verdadeiros mediadores dos limites daqueles que mandam e obedecem.

O que temos desenhado no nosso imaginário coletivo é o conceito de uma sociedade primada pelos princípios do republicanismo positivista, calcada na Liberdade, na fraternidade e na igualdade. São esses os arquétipos que norteiam as regras do jogo do processo político de todas as repúblicas ocidentais burguesas, porém, muitas delas, a exemplo do Brasil, mesmo com esses lemas emoldurando as constituições, elas se revelam para expressiva parcela da população como letras mortas, validadas somente para ritos solenes. A separação dos poderes em executivo, legislativo e judiciário, é o que de mais avançado alcançaram as repúblicas pós-revolução francesa, uma forma de ordenamento institucional, cujo Estado, presidencialista ou parlamentarista, são os agentes condutores legais reconhecidos.

Porém, mesmo com todo o ordenamento jurídico esboçado em suas cartas constitucionais, no dia a dia das sociedades dos países que transitaram tardiamente da monarquia escravista para a república, a exemplo do Brasil, o que prevaleceu mesmo foi o tradicional mandonismo das elites, forjado por trocas de favores, protegidas pelas togas do judiciário e a bênção sagrada de membros da santa igreja católica. Não precisamos buscar em bibliografias de historiadores renomados, fatos que reúnem combinações espúrias, de um republicanismo às avessas, tangenciado por disputas eleitorais fraticidas, onde o que menos interessava era o respeito tácito aos ritos regimentais, constitucionais. Para a época em destaque ou qualquer época, o que valia ou vale mesmo era ou é o dito popular: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Todo esse jogo de cena, de um republicanismo contagiado pelo manto da toga, pela batina do clérigo, pelo "curral", pela eleição bico de pena, tudo isso acontecia aqui mesmo, em Araranguá, que ainda hoje, em maior ou menor proporção, vem se repetindo nos pleitos eleitorais. Tanto Araranguá, como o Brasil num todo, a população começava respirar ares de liberdade, igualdade e fraternidade, princípios esses esboçados na bandeira nacional, com o lema Ordem e Progresso. Jamais o republicanismo assegurou a toda a sociedade o que fora esboçado nos inúmeros artigos, parágrafos e incisos, tanto da primeira constituição de 1891, quanto nas demais, redigidas por "representantes" do povo, eleitos “democraticamente”.

Não garantiu e jamais garantirá o que apregoa, pelo fato de a constituição, embora alguns de seus artigos afirmam de modo explícito que somos iguais perante a lei, porém, quando nos confrontamos com a realidade, nos convencemos que alguns são mais iguais que outros. São esses paradoxos que mantem intactos os sistemas de classes, de um lado, a elite, que manda, que controla as leis e as demais estruturas do estado, do outro lado, o grosso da sociedade, que é manipulada, que pensa com a cabeça daqueles que a exploram, a elite burguesa.

O que a república propunha à sociedade quando da sua proclamação em 1889 jamais se confirmou até o momento. Nem mesmo houve o amadurecimento tácito da sua estrutura organizacional, ou seja, a separação dos poderes como forma de assegurar o mínimo de imparcialidade e legitimidade institucional. O sistema político, portanto, se mantém tão frágil que o próprio conceito de Estado laico ainda confunde legisladores, acreditando ser natural existir crucifixos fixados nas paredes das casas legislativas.

Nas sociedades latino-americanas, de colonização europeia, cuja economia foi forjada com mão de obra escrava, foram poucas que com a independência, e posteriormente, com a república, impediram ações golpistas, ou seja, ataques contra a república e que fez ascender regimes autoritários.  O Brasil viveu essa experiência golpista por vinte anos, de 1964 a 1984. Entretanto, com a nova república, viveu um golpe branco em 2016, com o impeachment de Presidente Dilma Rousseff; e a tentativa de golpe em 08 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram a sede dos três poderes em Brasília, para impedir a posse do presidente eleito, Lula.

As vésperas de mais uma eleição, em outubro de 2026, o cenário político se mostra um tanto conturbado, porque diante da possibilidade de vitória do presidente Lula, a quarta, no seu currículo, a extrema direita e seus milhares de apoiadores, buscam articular um ambiente de instabilidade institucional envolvendo o STF. O imbróglio agora coloca no centro das atenções integrantes do STF, suspeitos de ligação com o proprietário do banco Master. Isso tudo a menos de 30 dias do primeiro turno da eleição, criando possibilidades de termos um pleito eleitoral conturbado, elevando o risco de, hipoteticamente Lula vencer as eleições, atos golpistas virem a se repetir como em 2023.

As denúncias de suspeitas de envolvimento do ministro Moraes com o esquema do banco Master, com pedidos até de impeachment por parlamentares de extrema direita, se mostra como sendo uma armadilha para golpear a possível eleição de Lula. Sendo Alexandre de Moraes uma personalidade chave na preservação dos preceitos republicanos nas eleições de 2022, sendo agora um dos pivôs do imbróglio no judiciário, pode confundir os eleitores, a ponto de acreditarem de estar Lula no centro dessa maracutaia.

Se o judiciário expôs suas fissuras históricas, que não é exceção desse poder, alcançando o legislativo e o executivo, o modo como foi escancarado, envolvendo dois magistrados de vertentes políticas distintas, fatos como esse devem ser interpretados com certa precaução, pois há nítidos interesses eleitorais implícitos no caso. Se a postura do ministro Alexandre de Moraes, foi decisiva na prisão dos inúmeros envolvidos na tentativa de golpe de 08 de janeiro de 2023, inseri-lo agora nesse abacaxi do banco Master, é fomentar no imaginário coletivo o sentimento de um judiciário completamente falido, sem qualquer legitimidade, portanto, passa a visão de uma república sem legitimidade, prestes a ser golpeada pelos tiranos fascistas de plantão.

Prof. Jairo Cesa

           

                                      

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

TRAGÉDIA CLIMÁTICA NO NEPAL SERVE PARA REFLETIR SOBRE A EFETIVIDADE DOS PLANOS DE CONTINGÊNCIAS A DESASTRES AMBIENTAIS EM SANTA CATARINA

https://tadeusantos.blogspot.com/2011/12/furacao-catarina-e-o.html


Quando assisti as impressionantes cenas das avalanches que devastaram territórios inteiros no Nepal, provocando centenas de mortes, desaparecidos, e prejuízos bilionários à infraestrutura, na hora veio ao pensamento o episódio climático semelhante ocorrido no Timbé do Sul/SC, em dezembro de 1995. Claro que aqui foi em menor proporção, porém, o fato ocorrido no país do Himalaia, deve, necessariamente, servir de alerta às autoridades locais, porque nos trinta anos pós avalanche no Timbé, a temperatura média do planeta vem tendo elevação progressiva, com recordes sucessivos de calor a cada verão. Nos vários sites disponíveis na internet que reportaram o ocorrido no Nepal, é quase unânime os relatos, que a avalanche, composta de gelo derretido, rochas e lama, tenha relação com o aquecimento global.

É possível também que o Super El Nino também tenha contribuído com o desastre, com o aumento das precipitações, ainda mais porque aquela região está atualmente sob a influência das monções. As enxurradas históricas no Rio Grande do Sul em 2024, que insiste em repetir, em menor proporção no estado gaúcho catarinense desde então, não podem ser interpretadas como eventos climáticos isolados ao aumento da temperatura do planeta. É possível que foram inexpressivas as ações tomadas pelas autoridades do RS, com vistas a ações preventivas a desastres climáticos futuros. Uma das ações seria estimular os municípios a reelaborarem os seus planos diretores, inserindo dispositivos direcionados a adaptação climática local.    

Penso que o negacionismo climático ainda perpetua nas mentes de inúmeros gestores públicos, que devem compartilhar com o mesmo pensamento do candidato extremista a presidente, onde afirma que os episódios climáticos extremos, são ciclos naturais, que não tem relação com o que os cientistas apregoam, que o planeta passa por uma emergência climática. Com base nessa opinião, de negar o que afirma a ciência acerca do aquecimento global, e de não constar no seu plano de governo demandas relativas as adaptações climáticas, o candidato a presidente pelo PL, se eleito for, poderá estar colocando de vez o povo brasileiro em um terrível abismo climático, em especial os estados do sul, os mais impactados pelos atuais episódios climáticos extremos.

Se o sul do Brasil, cujos estados são os mais afetados por tragédias climáticas, onde parte da população comunga com o que pensam políticos negacionistas, é previsível que, em um cenário trágico de derrota da democracia, as legislações que asseguram o mínimo de proteção aos ecossistemas, como a lei da mata atlântica, serão violentamente atacadas.  Graças ao uso de imagens de satélite, os percentuais de desmatamentos em 2025 tiveram ligeira redução, segundo relatório apresentado pelo MapaBiomas.

Derrotar o candidato da extrema direita nas eleições de outubro próximo é uma questão de prioridade das prioridades à segurança ambiental nacional, sem contar outros demandas que poderão sofrer retrocessos irreversíveis. Por que dou destaque a seguridade ambiental nacional? A resposta parece óbvia para aqueles que acompanharam a entrevista do candidato Flávio Bolsonaro, no Jornal Nacional, quando afirmou não acreditar nas mudanças climáticas em curso. Sua postura negacionista, se assemelha a do ex-presidente Bolsonaro, seu pai, hoje prisioneiro, que governou o Brasil de 2019 a 2023.

Olha o absurdo dos absurdos, respondeu durante a entrevista, ou por desconhecimento ou por atitude de deboche aos entrevistadores, que para solucionar o problema do aquecimento global, dará maior atenção ao saneamento básico, com a expansão das redes de esgotamento sanitário. Resposta essa que não tem relação direta com o que determina o Acordo de Páris. É, sim, desmontar completamente todo o arcabouço ambiental já existente no Brasil, seguindo o caminho do presidente dos Estados Unidos, que decidiu abandonar os acordos assinados sobre o combate ao aquecimento global.

Quando afirmamos que os desastres climáticos no sul do Brasil têm se intensificado, o aumento dos desmatamentos de 2019 até 2022, durante os governos Temer e Bolsonaro, deve ser visto como um dos inúmeros gatilhos às enxurradas que devastaram cidades inteiras e a infraestrutura do estado. Como não lembrar a fala criminosa do ex-ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, quem em 2020, no governo de Bolsonaro, afirmou em reunião de ministros, que era necessário passar a boiada, ou seja, destruir ou fragilizar as legislações de proteção às florestas.

É quase certo que a fala do ministro teve influência direta no crescimento vertiginoso dos desmatamentos no estado de Santa Catarina, pois, de 2019 para 2020, houve perda de cobertura vegetal superior a 200%, passando de 508,1 hectares, registrado em 2019, para 1.755,62, em 2020. A ação dos desmatadores continuou nos dois anos subsequentes, em 2021, foi de 1.467,16 hectares, e em 2022, acredito que deve ter sido o ano mais devastador da história de Santa Catarina, com 2.309,56 ha. Essa tragédia só não teve continuidade porque o presidente que protagonizou esse cenário devastador foi contido na eleição de 2022, com a eleição do candidato Lula, do PT.  

O cenário de desmatamento no estado do RS, seguiu o mesmo ritmo ao de Santa Catarina, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.  É claro que seguem a lógica geral do restante do Brasil, porém, no Sul, teve um ingrediente a mais, grande concentração de simpatizantes, apoiadores das políticas extremistas do antigo governo, Jair Bolsonaro, que tem agora como candidato à presidente no pleito de outubro próximo, o seu filho, Flávio Bolsonaro.  

Votar no candidato que afirma não ter os episódios climáticos extremos qualquer relação com as mudanças climáticas globais, é como cavar mais sepulturas aos mortos advindos das futuras tragédias climáticas que tenderão a se intensificar com o retorno dos desmatamentos criminosos. Vale destacar que sendo maior a homogeneidade da cobertura florestal de um território menor serão seus impactos nos rios, em decorrência dos assoreamentos. Nos últimos 38 anos, o território brasileiro teve a sua floresta nativa fragmentada de 2.7 milhões de hectares, para 7.1 milhões de hectares, ou seja, um aumento de 163%.  Em 1986, o tamanho de um fragmento de floresta que era de 241 há, estava reduzido para 77 ha em 2023. Fragmentos de florestas ocorre quando, por exemplo, uma área de 100 ha, fracionada em 10 pedações, ou 100, de 1ha cada.

Já que o código florestal determina a manutenção de 20% da reserva legal no bioma da mata atlântica, a cultura de arroz que esteve em franca ascensão, somada a baixa fiscalização, permitiu que áreas de mata nativa no extremo sul fosse fragmentada. Imagem de satélite do extremo sul de Santa Catarina, revela cenário quase completamente descoberto por florestas. O mais impactante é os afluentes e subafluentes do rio Araranguá, cuja mata ciliar não atende as medidas mínimas de proteção estabelecidas pelo Código Florestal. Menor cobertura florestal e redução da mata ciliar, são dois vetores às incidências de enchentes na área que congrega a bacia do rio Araranguá.

Outra reflexão necessária, há possibilidades de evento climático extremo semelhante ao que devastou comunidades no município de Timbé do Sul e Jacinto Machado? Lembro que algumas semanas depois da avalanche no Timbé do Sul, tivemos a visita de um professor de uma universidade da Inglaterra, onde realizou um tour nos locais afetados pelo desastre climático. Ficou impressionado com o que viu e alertou que toda a encosta da serra geral no extremo sul se apresentava suscetível a ocorrência de episódios extremos e de elevado risco a população que habita as encostas.

Durante as várias audiências e reuniões para discutir a construção da polêmica barragem no Rio do Salto, no Timbé do Sul, cuja alegação é fornecer água à população e para a irrigação agrícola, o professor de UFSC, Luiz Fernando Sheibe, fez algumas reflexões sobre os riscos de barragens em locais suscetíveis a cabeças d’água, enxurradas, como no trecho sul das encostas da serra geral. Na hipótese de uma obra de tamanha complexidade, se faz necessário a elaboração de planos de contingências rigorosos.

É o caso da barragem do rio São Bento, em Siderópolis, que abastece municípios da região, havendo uma enxurrada na mesma proporção a de Timbé do Sul, teria algum risco de vir a colapsar? Penso que governos como o atual em Santa Catarina, que comunga com o que acredita o seu candidato a presidente, Flávio Bolsonaro, de negar o aquecimento global, é possível que as políticas de contingências às tragédias climáticas no estado estão aquém do recomendado pelas autoridades do assunto.

Prof. Jairo Cesa        

 

 https://datastudio.google.com/reporting/578d1b52-c77b-450e-bb0f-c5c8b72f7bbf/page/p_imumkip73d     

https://brasil.mapbiomas.org/fragmentacao-da-vegetacao-nativa-no-brasil-cresceu-260-em-38-anos/

https://plataforma.alerta.mapbiomas.org/mapa?monthRange[0]=2019-01&monthRange[1]=2026-06&sources[0]=All&territoryType=all&authorization=all&embargoed=all&embargoedAlerta=all&embargoedRuralProperty=all&locationType=alert_code&activeBaseMap=1&map=-14.288794%2C-54.289764%2C4