quarta-feira, 4 de março de 2026

 

CAMINHOS PARA REVERTER A CRISE DA PITAYA NO SUL DE SANTA CATARINA

 

Foto - Jairo


Há pouco mais de duas semanas um vídeo foi publicado nas redes sociais de um produtor de pitaya no sul do estado despejando, com pá, sua safra para o gado, e que alcançou níveis absurdos de audiência. A ação do produtor foi por ele justificada como protesto às promessas feitas pelas autoridades de que cultivando a fruta haveria mercado garantido e preços compensadores. De fato, não foi o que ocorreu, pois a safra 2025/2026 vem se caracterizando até o momento como uma das maiores desde que a pitaya surgiu no sul do estado há menos de vinte anos. Afirmou o produtor que entrou no cultivo da pitaya há cerca de 10 anos, e que por várias vezes ameaçou desistir alegando dificuldades de mercado.

Quero aqui ressaltar que minha abordagem sobre a pitaya e da atitude do cidadão de descartá-la aos bois, não se fundamenta de uma visão distanciada, de mera especulação acerca do tema, como da maioria dos que postaram comentários no post, criminalizando-o  ou concordando com o que fez o cidadão.  Afirmo que também sou plantador de pitaya, talvez tendo iniciado um pouco antes do cidadão em tela.

Durante esses mais de 10 anos que estou na atividade vivenciei situações até piores que o respectivo produtor. Na época ainda eram discretos os que aventuraram no ramo dessa fruta, muitos dos quais advindos da atividade do tabaco. Acontece que em pouco tempo, estimulados pelos preços compensadores pagos pelo kg da fruta, houve um crescimento vertiginoso de áreas destinadas a essa atividade, sem, portanto, um planejamento adequado para escoar a grande oferta de frutas que teríamos no futuro.

Os mercados, supermercados, fruteiras da região sul passaram a comercializar a fruta mantendo preços relativamente elevados em comparação ao que estava sendo pago ao produtor. Uma ou duas cooperativas entraram nesse ramo dando suporte aos produtores filiados. Os demais não assistidos por esse segmento, tiveram que ir à luta ou tornaram-se presa fácil de atravessadores espertalhões.  Diante desse novo cenário agrícola no sul do estado, o consumidor ainda tinha um certo estranhamento acerca dessa fruta, originária da américa central, e cujo Vietnam e a China são hoje grandes produtores. Por que estranhamento? Primeiro pelo valor pago ser ainda elevado, e pelo sabor, um tanto azeda e ácida, isso pelo fato de a fruta ter sido colhida sem que o processo de maturação estivesse concluído.

Foto - Jairo


Há cinco ou seis anos, a fruta lentamente começou a ser popularizada, não somente devido ao aumento da oferta, mas pelas campanhas publicitárias e educacionais, que fizeram com que a população compreendesse que a pitaya não era apenas uma fruta qualquer, mas algo único, singular, carregado de propriedades nutricionais, indicada por médicos e especialistas no tratamento de comorbidades. Essas campanhas aqueceram um pouco a demanda pela fruta, mas ainda era insuficiente, pois milhares de pessoas ainda não tinham e não tem experimentado a fruta, a exemplo da banana, da maçã,  da uva etc., onde 100% da população conhece e tem experimentado.

A profissionalização no manejo da fruta dragão, como é conhecida, passou a ser compreendida como estratégia para galgar mais mercados, mais e mais consumidores. Por ser uma fruta sazonal e que deve ser colhida no ponto exato para consumo, ou seja, bem madura, produtores passaram a buscar outras formas de como produzi-la e comercializá-la. O que acontece atualmente é de estar fruta disseminada em muitas propriedades, pequenos pomares, mediante o manejo convencional, ou seja, com a aplicação de insumos químicos e até mesmo agrotóxicos.

Com o aumento vertiginoso da oferta da fruta de manejo convencionai nos mercados, cuja demanda de consumo não crescia na mesma proporção, muitos produtores desistiram do cultivo. Os que permaneceram, alguns migraram para o manejo orgânico. Foi exatamente o que fiz a partir de 2023 quando completei a transição obrigatória do manejo convencional para o orgânico. Entretanto, diante dessa nova modalidade, precisava agora trabalhar e muito para conquistar um novo nicho de consumidores, sem elevar o preço pago pela fruta por ser orgânica.

Foto - Jairo


Era preciso convencer o público em geral que a pitaya era tão saborosa, tão nutritiva, que valeria a pena comê-la, e que ela deveria estar acessível a todos/as. Tinha clareza que pitaya não era banana, não era maçã, não era uva, onde toda a população conhecia e já havia provado pelo menos uma vez. Era fruta “dragão” era algo muito novo e que precisaríamos de um tempo longo para que a população conhecesse e passasse a consumir também. A fruta, portanto, teria de chegar ao público infantil, nas creches, nas escolas, nas unidades de atendimento de crianças em condições vulneráveis etc., etc. Porém, para esse público, era imprescindível selecionar frutas saborosas, bem doces, porque tínhamos em nossa frente um público exigente onde a primeira impressão é que ficaria.


Foto - Viviane

Foto - Viviane




Casa da Fraternidade - Araranguá

Foto - Viviane

Foto - Viviane




Desde que obtive a certificação, venho fazendo esse trabalho de sensibilização ao consumo saudável da fruta. O que me surpreende a cada encontro, é o número de crianças e adolescentes que passaram a apreciar a fruta, e recomendando aos pais para adquiri-las. Penso que o caminho é esse, educação alimentar, e que todos os produtores de pitaya deveriam estar se ocupando fortemente nos seus municípios. Em vez de estar gravando vídeos despejando a fruta para os animais, que as leve à todas as creches e escolas e faça o mesmo trabalho que venho fazendo, converse com as crianças, explique para elas, os seus pais, devem comer pitaya, o que de bom a fruta traz para a saúde. A certeza é que em pouco tempo teremos um publico cativo de consumidores de pitaya.

Prof. Jairo Cesa                  

domingo, 1 de março de 2026

 

OS NOVOS/VELHOS DESAFIOS DO NÚCLEO SERRAMAR/REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA DO SUL DO ESTADO DE SANTA CATARINA.

https://www.facebook.com/serramar.ecovida/


No país onde o agronegócio se destaca navegando em águas calmas subsidiado por fartos recursos públicos, a exemplo do Plano Safra, que destinou mais de 600 bilhões a esse segmento em 2025/2026, na contramão, em águas turvas, está a agricultura familiar que tenta se virar nos trinta mantendo-se viva no cenário produtivo com parcos 90 bilhões de reais também do Plano Safra. Não é segredo para ninguém que parte significativa dos hortifrutigrangeiros disponíveis em pequenos, médios e grandes supermercados, são produzidos por famílias de agricultores, que resistem no campo as agruras de um sistema que tenta suprimi-los do mapa.

Nesse complexo conjunto produtivo agrícola nacional, tem um terceiro segmento quase apagado e que insiste em se manter presente no cenário agrícola, ocupando uma discreta franja do disputado mercado de alimentos oriundos do campo. Me refiro aqui aos heróis da resistência dos orgânicos e da agroecologia. Afinal quem são esses ainda anônimos que resistem como soldados de uma batalha de trincheira inglória ocupando pequenos nichos do mercado de hortaliças, frutas entre outros gêneros?

São famílias que decidiram fugir da bolha dos convencionais e se arriscar em produzir alimentos sem agrotóxicos e outros insumos químicos. São substâncias que fragilizar os ecossistemas inteiros levando a morte de microorganismos essenciais e pessoas, vítimas de doenças degenerativas entre outras patologias afins. Poucos sabem que o Brasil compete internacionalmente na área da soja, do suco de laranja, da cana de açúcar, porque tem subsídio público, que também atinge a área da pesquisa por meio da EMBRAPA. Se não fosse os fartos bilhões de reais públicos, não teríamos um agronegócio tão potente, que infelizmente os lucros obtidos não são compartilhados coletivamente. Bem diferente da agricultura familiar, que mesmo com subsídios comparativamente inferiores, o grau de compartilhamento social é assustadoramente superior ao do agronegócio.  

É muito difícil ainda encontrar nas casas especializadas, como agropecuárias, produtos destinados aos orgânicos e agroecológico. Bem distinto de um glifosato que geralmente não necessita de receituário de um profissional habilitado. O que se vê hoje são regras ainda muito rígidas àqueles que se arriscam se aventurar nos não convencionais/orgânicos, tendo que seguir protocolos complexos, como cumprir etapas de transição até a certificação. Muitas vezes o período transição entre o manejo convencional e não convencional pode levar de dois a três anos, etapa recomendada pelo Ministério da Agricultura e Produção Animal - MAPA, para credenciá-los aptos à atividade.

No Brasil existem formas distintas para o credenciamento orgânico e agroecológico, um deles é por auditoria, onde empresas credenciadas realizam todo o trabalho de acompanhamento das etapas até a emissão de certificação. Outro formato é o participativo, a exemplo da REDE ECOVIDA, de produtores, consumidores e simpatizantes, dos quais são disponibilizados em grupos, núcleos, que compartilham regras comuns, desde o manejo do solo, do cultivo das plantas, até a comercialização. Cada membro se apresenta como um fiscal, atuando de tal modo que a complexa rede se mantenha integra, compacta, levando credibilidade àqueles que consomem o que é produzido por essas famílias.

Foto - Jairo


Uma das grandes dificuldades que ainda enfrentam os que adotam o manejo não convencional, o orgânico, é o baixo consumo e a concorrência do sistema produtivo predador. Muitos dos que empregam o delicado manejo produtivo orgânico, são forçados, para sobreviver, a comercializar o que produzem a preços irrisórios pagos por atravessadores. Um bom exemplo para ilustrar é o mercado de pitaya. Quem conhece o manejo da fruta sabe da dificuldade que é colher frutas saudáveis sem o uso de agrotóxicos e insumos químicos. Quem vai ao mercado hoje pode constatar que há pitayas com preços inferiores a 5 reais ao kg. É bem provável que o produtor da fruta deve ter recebido menos da metade desse valor na entrega do produto. E quem trabalha com certificação, como fica?

O fato é que pouca gente está preocupada com a procedência daquilo que consome, dos insumos utilizados, pessoas envolvidas no manejo. O que mais consideram é preço a ser pago não a procedência, não é mesmo?  Diante desse sistema injusto e predador, algumas políticas públicas federais estaduais e municipais garantem um certo respiro a essas milhares de famílias que ainda atuam no campo, em especial o produtor agroecológico. O Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE, o Programa de Aquisição de Alimentos - PAA, são alguns programas que dão sobrevida às famílias, permitindo que escolas e outras tantas entidades assistenciais adquiram dessas famílias 30% do que consomem, assegurando-lhes um preço de até 30% maior do que o convencional.






Infelizmente ainda há um grande silêncio das mídias convencionais às lutas diárias das famílias do campo, as dificuldades de manter-se no campo e subsistir com aquilo que produzem com tanto sacrifício. Agora, imaginemos aqueles que produzem o feijão, o milho, a aipim, a batata, a laranja, a pitaya,  por meio do manejo orgânico e agroecológico. Muitos ainda estão na labuta diária no campo porque atuam de forma relativamente organizada, coletiva. O núcleo SERRAMAR, se orgânicos e agroecológicos, que integra a rede ECOVIDA, vem exercitando essa habilidade participativa há muito tempo. São dezenas de famílias espalhadas pelos municípios do sul do estado catarinense, que se reúnem quase mensalmente para discutir e deliberar demandas que posteriormente são debatidas no grande encontro do núcleo.


Foto - Jairo



É bom saber que sem a participação atuante dos poderes executivo e do legislativo nas instâncias federais, estaduais e municipais, o agricultor familiar não teria como subsistir. Infelizmente, ainda são poucos os prefeitos, vereadores, deputados, que cumprem o que prometem em tempos de campanha eleitoral, como o apoio ao pequeno agricultor. Em alguns casos as cores partidárias, direita e esquerde, se confundem no trato de demandas de interesses coletivos, porém, são exceções nesse campo contaminado por ideologias extremistas.

No último dia 26 de fevereiro de 2026, integrantes dos vários grupos pertencentes ao núcleo SERRAMAR estiveram participando de importante evento no município de Rio Fortuna, junto a sede da Cooperativa Agroecológica Família. No encontro além da posse da nova coordenação da entidade, outros assuntos foram tratados como a entrega de trituradores e mudas de citros aos vários grupos que integram o núcleo agroecológico. Os equipamentos e mudas foram obtidos por meio de emenda participativa do deputado federal Pedro Uczai – PT.


Foto - Jairo





Foto - Jairo



A presença do prefeito de Rio Fortuna, Lindomar Ballmann – PSD, e da prefeita de Santa Rosa de Lima, Suzete Vandresen Baumann – PT, ambos deram um demonstrativo do quanto são importantes para a sobrevivência das famílias do campo, dando suporte com políticas de incentivo financeiro e governamental. A entrega dos trituradores ajudará o agricultor na reciclagem das sobras do seu sítio, tanto para a compostagem como para a alimentação dos animais. Os citros, cerca de 5 mil pés, serão distribuídas as famílias que adotam o manejo agroflorestal, oportunizando-as a diversificarem seu arcabouço produtivo no campo.

Além dos dois/as prefeitos/as, do deputado federal, de membros da Cooperativa Nacional de Abastecimento - CONAB, do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, o legislativo estadual de Santa Catarina estava representado pelo deputado estadual Padre Pedro Baldissera – PT, que na ALESC foca suas ações na agroecologia e alimentação saudável, agricultura familiar, agua e meio ambiente, práticas integrativas e complementares em saúde, cannabis medicinal, energias renováveis e a cadeia produtiva do mel.  A fala do deputado foi contundente, atacou em cheio o modelo produtivo atual que se contrapõe ao agroecológico, que em vez de estar protegido, tem de se proteger para não desaparecer. Falou sobre as doenças que são consequências diretas do alimento, da água, contaminadas por agrotóxicos, da importância do apicultor, uma das profissões mais importantes do planeta, porque sem as abelhas a vida vai desaparecer.

Foto - Jairo


    Destaco aqui outro momento importante do encontro que foi a presença de duas membros do Departamento de Nutrição da Secretaria da Educação de Florianópolis, para tratar o tema a Importância da Alimentação Agroecológica na Alimentação Escolar e Seus Impactos. Ambas apresentaram dados relevantes relativos a quantidade de gêneros orgânicos adquiridos da Cooperativa Família das quais são servidos a milhares de crianças e adolescentes nas escolas de Florianópolis.  Outro trabalho importante apresentado foi sobre educação alimentar saudável nas escolas do município da capital. Em reunião do núcleo SERRAMAR ocorrida há pouco tempo, foi delibado da realização de encontros com as nutricionistas dos municípios onde o núcleo tem abrangência. A proposta é convencer as profissionais da necessidade de ampliar a oferta de alimentos orgânicos nas escolas dos municípios.

Foto - Jairo



Jairo Cesa      

domingo, 22 de fevereiro de 2026

 

A ÁGUA QUE PARCELA DOS CATARINENSES BEBEM ESTÁ CONTAMINADA POR AGROTÓXICOS, ALGUNS DOS QUAIS,  BANIDOS PELA LEGISLAÇÃO

 

https://www.instagram.com/p/DUGm7e_kV78/

Durante os meses de dezembro e janeiro, acompanhei quase semanalmente o relatório do IMA sobre a balneabilidade das praias do litoral de Santa Catarina. O que se constatou nas análises apresentadas pelo órgão ambiental catarinense, foi o elevado número de pontos avaliados considerados impróprios para o banho. É possível deduzir que o surto de virose diarreica ocorrido na capital do estado, Florianópolis, tenha tido relação direta com a água do mar contaminada ou consumida pela população.

O fato é que até o momento não se viu ou se ouviu manifestações mais incisiva da imprensa e da sociedade em geral, cobrando das autoridades ações que possam reverter esse quadro vergonhoso de um estado, cujo governo, insiste em vender a imagem lá fora como um dos mais desenvolvidos do país.  Se de um lado temos um vasto litoral, procurado por turistas e veranistas que se banham em praias contaminadas por esgotos, paralelo a isso temos 155 municípios, cujas águas consumidas pela população apresentaram algum/s tipo/s de agrotóxicos, muitos dos quais banidos pela legislação brasileira.

Essas informações preocupantes com a água consumida pela população, foram publicadas pelo MPSC e encaminhadas ao Ministério da Saúde para que medidas urgentes sejam tomadas contra um mal que está matando “lentamente” a população. O termo, lentamente, é porque, segundo o MPSC, os percentuais de agrotóxicos encontrados em muitas análises laboratoriais não extrapolam os níveis toleráveis pela legislação brasileira. Em texto semelhante publicado no meu blog, afirmei que na União Europeia, a legislação sobre níveis aceitáveis de agrotóxicos na água consumida pela população é menos tolerável que a brasileira.[1]

Foram 42 resíduos de agrotóxicos detectados nos 155 municípios catarinenses. Desse total, cinco estão banidos pela legislação, como o BEMONIL, o CARBOFURANO, HALOXIBOFE METÁLICO, METALACLORO e MOLINATO. Os municípios com agrotóxicos detectados proibidos, são eles: Belneário Camboriú, Rancho Queimado, Imbuía, Canelinha, Ituporanga e São João do Sul.   O benonil, possui um princípio ativo conhecido pelo nome de caberdazim, que foi proibido pela ANVISA em 2022, devido ao elevado risco em gerar doenças cancerígenas, reprodutivas e mutagênicas. Esse agrotóxico tem o seu uso proibido nas culturas de soja, milho, citros, feijão etc.  

Outro agrotóxico de elevado teor de toxidade e uso vedado no Brasil, na União Europeia e EUA, porém detectado na água consumida pela população de Santa Catarina é o CARBAFURANO, popularmente conhecido por FURADAN. Sua toxidade causa problemas no desenvolvimento humano, bem como outras enfermidades sistêmicas. Esse inseticida era no passado permitido para o combate de pragas do solo e foliares, em culturas de café, cana-de-açúcar e da banana. Outro agrotóxico considerado tóxico, proibido no Brasil, porém, detectado nas análises de água em SC, é o HALOXIBOFE METÁLICO. Esse produto era aplicado no controle de gramíneas anuais e perenes, nas lavouras de soja, feijão, algodão, sendo classificado como Classe III, perigoso. O acúmulo desse agrotóxico no organismo pode causar danos ao fígado, rins, sistema nervoso central, bem como má formação fetal.

Outro agrotóxico que apresenta toxidade aguda para seres humanos, e detectado na água de alguns municípios, é o herbicida METALCLORO, que é aplicado no controle de gramíneas anuais nas culturas de soja, milho, feijão, arroz.  Pesquisas realizadas concluíram que o acúmulo desse herbicida no organismo pode resultar na formação de carcinomas; tumores hepáticos; desregulação endócrina; desregulação do sistema reprodutivo, alterando hormônios como a testosterona. O último agrotóxico desse grupo encontrado na água, que foi banido no Brasil, porém encontrado em análises de água de municípios catarinenses é o MOLINATO, também um herbicida utilizado no controle de ervas daninhas do arroz. Sua presença é verificada em águas superficiais e subterrâneas. O consumo contínuo da água contaminada por esse agrotóxico provoca danos no aparelho reprodutivo masculino e feminino.

No relatório apresentado pelo MPSC ficou assim distribuído o mapa dos agrotóxicos estado: na região Oeste, dos 118 municípios existentes, 63 deles apresentaram ao menos 1 princípio ativo de agrotóxico. No Norte, dos 26 municípios, 11 deles foram identificados agrotóxicos, ou seja, 42,3%; na Serra, de 30 municípios, 10 apresentaram contaminação, totalizando 33,3%; grande Florianópolis, das 21 cidades, 12 apresentaram algum tipo de contaminação, índice que chegou a 57,1%; Vale do Itajaí, das 54 cidades existentes, 24 delas tiveram presença de contaminantes na água, totalizando 44,4%; por último, a região Sul, dos 46 munícipios que compõem a região, 35 deles tiveram resíduos de agrotóxicos na água, um total de 76,1%.

O que mais deve ter gerado apreensão aos integrantes do MPSC acerca do relatório apresentado sobre a presença de agrotóxicos na água, foi a verificação de vários resíduos químicos simultâneos nas águas potáveis de dois municípios, Imbuia, com 17 tipos, sendo dois proibidos em 2019, e Ituporanga, com 23 tipos ativos de ingredientes, sendo que havia 9 desses ingredientes contendo níveis acima de 1.000 microgramas por litro.

Quanto a legislação, vale ressaltar que a Portaria n. 888 de 2021, do Ministério da Saúde, considera como toleráveis esses níveis de agrotóxicos identificados nas águas consumidas pela população desses 155 municípios, pois não geram danos imediatos a população que as consome. O fato é, segundo o MPSC, que a legislação brasileira apresenta equívocos gritantes sobre a metodologia usa nas análises das águas dos municípios, porque não considera a simultaneidade das substâncias presentes para estabelecer riscos. A resposta sobre simultaneidade é, a somatória de todos os agrotóxicos detectados na agua, a exemplo de Ituporanga, com 23 resíduos diferentes, quais suas interações e efeitos nos ecossistemas e no corpo humano?

Talvez a resposta desse combo de veneno nos ecossistemas e no organismo humano já temos, basta irmos as Unidades de Alta Complexidade em Oncologia – UNACON, e vermos com os próprios olhos a assustadora quantidade de pessoas em tratamento contra tipos diferentes de câncer. Sem contar aqui outras doenças já quase epidêmicas como Parkinson, Alzheimer e síndrome do Autismo.  Se tais distúrbios tem alguma relação com a ingestão de agrotóxicos, as pesquisas que vem sendo realizadas já indicam haver alguma relação.  O que é realidade hoje é que há uso indiscriminado de agrotóxicos, tanto na agricultura quanto em vias públicas urbanas.  Sobre vias públicas urbanas e terrenos particulares, as legislações em vigor no Brasil, estado de Santa Catarina e em Araranguá, veda o uso de agrotóxicos, com sansões severas aos infratores.  

Prof. Jairo Cesa       

  

 

 https://www.mpsc.mp.br/w/noticias/mpsc-traca-plano-estrategico-para-reduzir-impactos-causados-pela-poluicao-com-agrotoxicos-na-saude-dos-catarinenses

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sul/sc/mais-da-metade-de-sc-bebe-agua-contaminada-por-agrotoxicos-segundo-mp/

https://www.youtube.com/watch?v=7n8uji86ayA

https://globoplay.globo.com/v/14365444/

https://www.google.com/search?sca_esv=c223258de9d00832&udm=7&sxsrf=ANbL-n66Pl4n1kV3nsCfZm_5ZNGXfNj72Q:1771724891893&q=o+que+diz+o+governo+de+santa+catarina+sobre+a+presen%C3%A7a+de+agrot%C3%B3xicos+na+agua+dos+catarinenses&sa=X&ved=2ahUKEwj0rsjG_euSAxXvqpUCHZ7UD6QQ8ccDKAJ6BAgZEAQ&biw=1366&bih=641&dpr=1#fpstate=ive&ip=1&vld=cid:0589de4c,vid:UiFBO-8bSNM,st:0

https://www.tiktok.com/@agriculturaaltova/video/7606400528456633621

 

 

  



[1] https://www.blogger.com/blog/post/edit/8334622275182680372/1763164108660957599

domingo, 15 de fevereiro de 2026

 

ATAQUE DO GOVERNO JORGINHO MELLO/SC A AGRICULTURA FAMILIAR E AS POLÍTICAS DE SANEAMENTO BÁSICO

https://sc.cut.org.br/noticias/cut-sc-critica-veto-de-jorginho-mello-que-retira-apoio-a-agricultura-familiar-em-43a7/amp


Quem imaginou que as arbitrariedades administrativas do governo catarinense cessariam com a supressão da lei sobre cotas raciais e a sancionamento da lei de monitoramento do trabalho docente nas escolas públicas, se enganou. Um estado que passou a ser visto como um pária em âmbito nacional por essas e outras atitudes insensatas protagonizadas pelo governador, teve mais um capítulo insólito da nossa manchada história política. Santa Catarina tem na sua essência um território moldado por milhares de pequenos agricultores, superando 150 mil famílias. São famílias que produzem a batata, o aipim, o feijão, o amendoim, as hortaliças, entre outras tantas variedades de produtos que alimentam parcela significativa da população do estado. É bom lembrar que a agricultora familiar em solo catarinense ocupa mais de 43% da área total dos estabelecimentos agropecuários, totalizando quase três milhões de hectares.

Parcela significativa desse montante de famílias de pequenos agricultores no estado, tem a sua produção destinada a programas federais como o PNAE, que assegura 30% daquilo que os agricultores familiares produzem à merenda escolar, bem como para as demais entidades sociais como hospitais, presídios, asilos etc. Esse ano, 2026, o governo federal elevou o percentual de apoio, passando de 30% para 45%, aumento que certamente trará enorme fôlego às milhões de famílias que dedicam seu tempo ao difícil trabalho no campo.

É claro que os estados podem criar programas similares ao federal para melhorar ainda mais a renda dos trabalhadores, como o que ocorreu em Santa Catarina, quando a Assembleia Legislativa votou projeto garantindo a reserva de 30% das compras públicas de alimentos para a agricultura familiar. No pacote de medidas vistas como retrocessos no governo de Jorginho Mello nesse início de 2026, o veto de trechos da lei n. 160/2024 em fevereiro último foi recebido com indignação por milhares de famílias agricultoras catarinenses.

Esses alimentos que saciam a fome de milhares de crianças nas escolas públicas municipais e estaduais catarinenses, percentual expressivo dos gêneros são oriundos de produtores que adotam manejo orgânico ou agroecológico, ou seja, sem a inserção de qualquer tipo de produto químico como agrotóxicos. Agora, cabe a Assembleia Legislativa derrubar o veto do governador, hipótese quase impossível pelo fato de como a ALESC está hoje configurada, majoritariamente constituída por parlamentares governistas.

Quem sabe, havendo uma grande pressão das entidades que representam os agricultores familiares, bem como a sociedade como um todo, os/as parlamentares podem decidir pela derrubada do veto. Outro fator convergente aos agricultores é que estamos em ano eleitoral e, portanto, muitos deputados/as sabem que votar pela manutenção do veto pode custar a reeleição em outubro. Como havia escrito no início do texto, o governador Jorginho Mello, começou 2026 administrando o estado seguindo os ditames estabelecidos pelo seu grupo de apoio de caráter ultraconservador. Acredite, Santa Catarina foi o único estado da federação cujo governador não assinou o termo de compromisso federal para combater o feminicídio.  O que assusta é saber que SC é o estado com uma das maiores taxas de assassinato de mulheres do país, além de possuir um dos maiores contingentes de células nazifascitas espalhadas pelo território.

Parece piada, Santa Catarina teve nos últimos dois anos mais de 30 prefeitos presos ou suprimidos do cargo por práticas de corrupção, principalmente relacionadas as licitações sobre a coleta de lixo urbano. Claro que é muito dinheiro em jogo, coletar lixo nos municípios e transportá-los para aterros, é certeza de polpudos repasses dos cofres públicos municipais às empresas vencedoras das licitações. Portanto é aí que aparece a tentação de gestores levarem alguma vantagem nesse “negócio da China”. Acredite, todos os mais de trinta presos nessa diabólica tentação ligada ao lixo ou são do mesmo partido do governador ou integram o grande guarda-chuva de alianças, homens reconhecidos pelos seus pares como pessoas de “bem”, que presam pelos “bons costumes”, devotos a “deus”, à “pátria” e à “família”.

Municípios catarinenses conseguiram reduzir gastos com o lixo produzido pela população por meio da aplicação de políticas de reciclagem e compostagem. Florianópolis é um desses municípios, que vem adotando desde 2019 o respectivo programa, sendo reconhecida nacionalmente por essas e outras políticas de cunho ambiental. A proposta da capital dos catarinenses é lixo zero até 2030, com o objetivo de recuperar 90% dos resíduos orgânicos e 60% dos recicláveis secos. Uma proposta estupenda como essa é claro que deve ser multiplicada para todo o estado.

Foi o que fez do deputado estadual, Marcos de Abreu/Marquito, do Psol, aprovando em 2023 a Lei n. 153 sobre políticas de gestão de resíduos sólidos, na qual assegura incentivo a compostagem no estado. Segundo o próprio autor da lei e que também protagonizou lei semelhante no município de Florianópolis quando foi vereador, o programa de compostagem reduz a emissão dos gases do efeito estufa, redução de gastos públicos e garantindo emprego e renda para milhares de pessoas. Não tinha como essa lei ser interpretada como inconstitucional porque seguiu as diretrizes da lei federal n. 12.305/2010, que autoriza os estados e municípios a elaborarem legislações especificas relativas as políticas de saneamento.

O inacreditável aconteceu, o governo Jorginho Mello vetou a lei sobre compostagem, sendo que na ALESC, todos/as os deputados/as do PL, um dos Podemos e outro do União Brasil seguiram o governo, mantendo o veto.  Atitude como essa do legislativo e do executivo explica o porquê SC tem um dos piores índices de saneamento básico do país. Tratamento de esgotos e reciclagem são ínfimos os municípios que vêm executando até o momento. Para ter ideia do problema causado pela fragilidade do saneamento no estado, basta acessar a página do Instituto do Meio Ambiente do estado, no item referente a balneabilidade das praias, e verá a assustadora quantidade de pontos impróprios para o banho. Olha que são cidades importantes, das quais residem parte significativa da elite endinheirada do estado, que sem relutar, banham-se em águas contaminadas por fezes humanas.

Prof. Jairo Cesa   

         

     

sábado, 7 de fevereiro de 2026

 

OS ATUAIS RETROCESSOS NO SOCIAL E NA EDUCAÇÃO EM SANTA CATARINA PROTAGONIZADOS POR UM SISTEMA DE GOVERNO ULTRACONSERVADOR

https://www.instagram.com/p/DSILheOkg6f/


Nesses últimos meses o povo catarinense vem sendo ridicularizado diante de falas enviesadas e atitudes insensatas do governador, filiado ao Partido Liberal. Podemos acrescentar também nesse balaio de atos espúrios, legislações aprovadas pela ALESC e sancionada pelo governador, muitas das quais fazem retroceder o estado ao século XIX. Uma dessas falas que envergonhou os catarinenses foi durante visita ao município de Pomerode, de colonização alemã, no seu discurso destacou que a cidade se diferencia  “pela cor da pele”. Na realidade, o governador falou o que sente, porque representa uma legião de seguidores, vistos como o que se tem de mais atrasado no conjunto da sociedade. Ele e seus apoiadores fanáticos não estão sozinhos nessa empreitada de retrocessos, têm o apoio incondicional de parcela do legislativo estadual.

Um bom exemplo que confirma essa postura retrógrada, racista, do legislativo e do executivo, foi a aprovação na ALESC de um projeto de lei que suprimiu o direito de cotas raciais destinadas para pretos e pardos.  O ato político, foi interpretado como um ataque as populações historicamente marginalizadas do país e do estado, ocorrido no apagar das luzes do legislativo em 2025,  infringindo regras regimentais como o debate em plenário. A intenção, é presumível,  era votar e aprovar tudo rapidamente, não permitindo chance às populações afetadas o direito de se defenderem. A justificativa do chefe do executivo estadual ao fim das cotas  foi mais absurda ainda, afirmando que Santa Catarina é o estado que possui maior proporção de população branca do país.

Se alguém tinha dúvidas acerca da sua conduta racista, com esse argumento a coisa ficou bem escancarada. Afirmar que é um estado quase que predominantemente de branco é querer invisibilizar 2 milhões de catarinenses, ou seja, 23% da população que se declararam pretos e pardos.  É claro que em todos os lugares, cidades pequenas, medias e grandes, negros e pardos estão lá vivendo, ocupando as periferias, os morros, geralmente espaços insalubres, distantes de escolas, hospitais e do trabalho. Ressaltemos que  a Lei de Cotas é um direito, uma forma de reparação histórica de mais de quatro séculos de escravização, de sequestro de um povo de  suas terras no continente africano.   

Santa Catarina, no seu processo de formação, o território também foi forjado com o trabalho escravo. O que a elite fez e insiste em fazer é negar a presença do negro na nossa história. Portanto, a aprovação de lei que suprimi contas raciais em universidades públicas, o objetivo concreto de mantê-los segregados, excluídos da condição de sujeitos de direitos. Não tem mais como negar a existência de trabalho escravo em solo catarinense, isso foi revelado a partir de pesquisas historiográficas, como do professor historiador Antônio César Sprícigo, cuja obra Sujeitos Esquecidos, Sujeitos Lembrados, revela o que a elite araranguaense tenta ainda hoje esconder, um município forjado pela escravidão. Diante do exposto, é importante ressaltar que os descendentes de escravos libertos, continuam aí entre nós, muitos, vivendo nas periferias das cidades, em quilombos, lugares quase esquecidos pelo poder público.  

É possível até suspeitar que o governo do estado desconhece essa triste realidade dos negros em Santa Catarina, fato esse que lhe credencia em lançar opiniões descabidas e desconectadas da realidade. Mas, contudo, é possível admitir que o chefe do executivo estadual catarinense tem real consciência do que falou e qual o público direcionado.  Por estar vinculado a um partido, o PL,  no qual convergiu para as sus trincheiras uma elite branca de comportamento extremista, racista, e outros/as milhares de apoiadores, o governador se credenciou como principal força simbólica desse modelo de pensamento ultra conservador. Por ser a referência simbólica de um sistema de poder constituído, o atual chefe do executivo estadual deveria ser alertado que opiniões de cunho racista tende a despertar condutas semelhantes entre os seus milhares de apoiadores.

Mas, acreditamos, que o despertar a fúria racista, alojada no inconsciente de seguidores, não lhe causa constrangimento ou abalo emocional. O que ele pretende é agradar os/as que lhe dão sustentação no legislativo e nas instâncias municipais, dos quais farão o serviço de arrebanhar os eleitores nos seus currais eleitorais para garantir sua reeleição ao governo do estado no próximo mês de outubro.

Se a intenção é retroceder o estado há dois ou três séculos, é preciso dar seguimento com as políticas conservadoras defendidas por sua base aliada no legislativo. Muitos ainda devem lembrar do projeto de lei Escola sem Partido, proposta cuja intenção era monitorar/controlar os/as professores/as daquilo que seria expressado e ensinado em sala de aula. Um sistema de monitoramento, segundo os seus idealizadores, para combater a "doutrinação ideológica" nas escolas. É claro que os responsáveis por propostas espúrias como da Escola sem Partido são grupos políticos que defendiam e ainda defendem princípios fascistas como a tríade ideológica integralista: Deus, Pátria e Família.

Embora a proposta asquerosa Escola sem Partido tenha sido arquivada pelo Supremo Tribunal Federal, os fantasmas dala continuavam assombrando o imaginário dos docentes das escolas públicas com a criação das Escolas Cívico-Militares. Estados cujos governos se mostram ainda fies ao seu principal líder e hoje presidiário, o ex-presidente Bolsonaro, insistem em defender esse modelo de educação tosca, que tem por objetivo formar uma legião de sujeitos doutrinados, alienados, docilizados, adaptáveis ao sistema de trabalho que o escraviza.     

Agora responda, qual foi o estado da federação que fez ressuscitar essa proposta maléfica de controle sistemático do corpo docente em sua atividade laboral?  Quem respondeu Santa Catarina, acertou na mosca. Isso mesmo, a intenção de supervisionar o trabalho dos/as professores/as das escolas públicas se concretizou com a aprovação da lei 19.723/2026, que autoriza a instalação de câmeras de vigilância nas instituições de ensino para monitorar suas condutas. No corpo da lei está escrito que os que farão a fiscalização da conduta do/a professor/a serão o coordenador ou qualquer funcionário da escola, autorizados a denunciar os profissionais ao MPSC.

Percebam que a intenção é gerar o terror nas escolas, provocar a discórdia entre os docentes, comportamento parecido ao do regime militar, onde livros eram censurados, professores perseguidos, interrogados, até mesmo torturados. Essa gente do legislativo estadual, só pode ter delírios em acreditar que ocorre doutrinação política de esquerda nas escolas públicas do estado. Se de fato ocorre doutrinação, como deduzem, como explicar os mais de 70% de votos obtidos pelo atual governador no último pleito eleitoral de Santa Catarina? Se houvesse doutrinação de cunho esquerdista, é óbvio que teríamos um governador, prefeitos/as, deputados/as, vereadores/as, majoritariamente de partidos de esquerda, não é mesmo?

O que querem mesmo é amordaçar os/as professores/as, amedrontá-los/as, transformar escolas públicas em espaços para disseminar suas políticas conservadoras, e isso ocorre por intermédio do currículo, do sucateamento das estruturas e da doutrinação. As mudanças ocorridas nos dispositivos que conduzem o processo eleitoral nas escolas, regime democrático, que criou a paridade de votos entre os três segmentos, pais, estudantes e professores, já resultaram em retrocessos, com muitas escolas cujos gestores passaram a ser indicados por partidos alinhados as políticas do governo do estado.

Prof. Jairo Cesa          


sábado, 31 de janeiro de 2026

 

ATOS CONTRA A MORTE VIOLENTA DO CÃO ORELHA DEVERIAM SE REPETIR EM DEFESA DAS NOSSAS PRAIAS CONTAMINADAS

https://balneabilidade.ima.sc.gov.br/


Nas últimas duas semanas o assunto que bombou nas redes sociais, emissoras de rádios e TV no estado e no Brasil foi o ato violento praticado por quatro adolescentes contra um cachorro comunitário, conhecido pelo nome de Orelha. Penso que é nobre tal dedicação da imprensa e das redes sociais contra ato brutal a um animal indefeso. Isso, é claro, evidencia ainda mais o quanto é importante cuidarmos desses animais, que infelizmente tomam conta de nossas ruas por falta de políticas públicas de proteção, bem como de redução da proliferação. Insisto em afirmar que louvo toda essa iniciativa contra o ato brutal ao Orelha, isso porque tenho em minha residência três cães de rua, dos quais dedico todo o carinho e atenção necessários.  

Afinal, por que trago o cão Orelha como tema para reflexão hoje? A resposta se deve pelo fato do episódio da morte do animal ter gerado comoção coletiva sem precedentes, que há muito tempo não se via no estado. Manifestações, passeatas públicas contra os adolescentes infratores e em defesa dos cães se espalharam por muitos lugares. Penso que se tal atitude drástica fosse investida com a mesma tenacidade contra os gestores públicos municipais que não cumprem  suas obrigações no saneamento público, tenho certeza que num curto espaço de tempo o grande número de placas impróprias para o banho reduziriam significativamente.

O que espanta é a pouca divulgação nos meios de comunicação  das praias contaminadas e dos riscos aos banhistas em contrair doenças principalmente parasitárias. Imagine agora um balneário importante como de Palmas, em Governador Celso Ramos/SC, que de 2015 a 2019 foi premiada com o selo internacional Bandeira Azul, e hoje esse mesmo balneário é um dos mais poluídos do litoral catarinense. A última análise divulgada pelo IMA, 30/01,  mostrou contaminação em todos os sete pontos avaliados em Palmas. Palmas não é um caso isolado, situação  semelhante acontece em outros municípios costeiros, como Bombinhas e o Rincão, esse último no sul do estado.

O fato é que tudo permanece normal, as pessoas continuam se banhando nessas praias como se tivessem limpas. Parece que banhar-se em águas tomadas por fezes humanas não causa nenhum tipo de indignação, é como se fosse algo naturalizado. É bom que se diga que praias a exemplo de Bombinhas e o Rincão não são pessoas pouco abastadas as maiores frequentadoras, são bem aquinhoadas, esclarecidas, porém, pouco se incomodam em ter que mergulhar num mar contaminado por fezes humanas.

Se há contaminação é claro que um dos motivos é a inexistência de sistemas de tratamentos de esgotos, problema que se repete em quase todo o território catarinense, que possui um dos piores índices nesse segmento entre os 27 estados.  Embora não havendo o tratamento dos resíduos sólidos na maioria dos municípios, na construção de residências ou outras edificações, o proprietário deve instalar fossa séptica que reduz significativamente a liberalização de fluidos contaminantes no solo. Mas por que então tanta praia contaminada?

Durante a construção de edificações são comuns ligações clandestinas da tubulação de esgoto nas redes fluviais que desaguam no oceano. Em casos mais específicos, devido ao grande acúmulo de edificações nos municípios costeiros e a inexistência de tratamento de esgoto, em período de maior incidência de chuvas, o esgoto extravasa na superfície agravando ainda mais a balneabilidade. Repito, se a imprensa e a população reagissem aos problemas da contaminação das nossas praias com o mesmo afinco a do cão Orelha, rapidinho balneários como Arroio do Silva, Rincão, Palmas, Bombinhas, entre outros tantos, não apareceriam mais no mapa do IMA com tantas bandeiras vermelhas, simbolizando água imprópria para o banho.

Prof. Jairo Cesa    

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

 

APOLOGIA AO NAZISMO EM ARARANGUÁ

https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2026/01/25/homem-adesivo-suastica-carro-domiciliar-tornozeleira-eletronica-em-sc.ghtml


Todo o cidadão/ã com o mínimo de esclarecimento sabe que durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) mais de seis milhões de judeus, negros, comunistas, ciganos, foram assassinados pela política nazista alemã. A intensão do regime nazista da Alemanha cuja liderança esteve a cargo do seu líder máximo, o chanceler Adolfo Hitler, era criar uma “sociedade pura”, constituída de brancos arianos, bem como criar o grande império alemão. Porém, o que se notou após o Holocausto judeu, foi que os princípios do nazismo/fascismo jamais foram exterminados por completo, permanecendo latente no imaginário coletivo como um vírus incubado, prestes a ser reanimado num mínimo vacilo institucional.

Regimes que apregoam o ódio, a violência, a aversão ao diferente, geralmente se aproveitam de elementos constituídos nas muitas sociedades capitalistas como as crises sociais e econômicas. O Brasil, a presença de células nazistas e fascistas datam do começo do século XX, principalmente em municípios do sul do Brasil dos quais foram colonizados por imigrantes italianos, alemães, poloneses. Durante a segunda grande guerra, o próprio regime de Vargas (1930-1945) apresentou certa afinidade aos preceitos do totalitarismo nazista e fascista, fato esse que resultou na outorgação  de uma constituição em 1937 inspirada na carta constitucional polonesa.

O que revela a forte influência nazista alemã em solo sul brasileiro é da existência de um túmulo em município do extremo norte gaúcho, local em que está sepultado indivíduo cujo primeiro nome é Adolpho. O nome Adolpho, segundo relatos, foi dado por membro da família para homenagear o Fuhrer Alemão, que embora não tenha vindo ao batismo do afilhado, solicitou que fosse enviado presentes e dinheiro para a família.

Note que a apologia nazista ainda presente no nosso cotidiano não é algo aleatório, isolado. Ela é um processo construído e que vem sendo alimentado no mundo inteiro por forças políticas extremistas que aproveitam qualquer vacilo institucional para ocupar espaços de poder. Quando falamos em presença institucional nos referimos ao final da década de 1930 quando do surgimento do Partido Integralista Brasileiro, força política moldada sob forte influência do fascismo italiano. Esse partido teve como slogan de propaganda Deus, Pátria e Família. Nas eleições municipais de 1936, por cerca de 500 votos o integralismo araranguaense não venceu o pleito. Entretanto vários municípios catarinenses, os resultados dos pleitos levaram aos paços municipais e as câmaras legislativas prefeitos e vereadores simpatizantes dos regimes totalitários alemão e italiano.

Como um vírus alojado no organismo vivo, diante da presença de algum elemento motivador externo, serve como um gatilho para despertá-lo, resultando em uma epidemia ou até mesmo uma pandemia. Isso acontece também no campo social e político, a exemplo do Brasil, quando em 2018 nas eleições para presidente foi eleito um candidato ultraconservador que  apregoou discursos fascistas na campanha eleitoral, bem como durante os quatro anos de mandato.

Era tudo o que necessitavam os milhares de cidadãos(ã) brasileiros contaminados pelo vírus do ódio transgeracional contra populações negras, indígenas e aos pobres. Lembram do slogan Deus, Pátria e Família que dominou a campanha e os quatro anos de desgoverno do ex-presidente e atualmente preso e condenado por tentativa de golpe militar e outros crimes cometidos? Esse mesmo Slogan foi utilizado nas passeatas por simpatizantes ao regime militar e que resultou no golpe de 1964.

Quem achava que propaganda ou apologia ao nazismo era algo comum somente em municípios com forte presença de descendentes alemães e italianos deve ter se surpreendido com a notícia da prisão de um cidadão conduzindo pelas ruas de Araranguá automóvel contendo no vidro traseiro adesivo com a suástica nazista e a frase Guerra Civil Já. Talvez na mente desse cidadão havia a compreensão de que o ato convergiria grande legião de simpatizantes, até mesmo acreditando que tal atitude incitaria revolta social contra o atual governo.

O caso da apologia nazista em Araranguá não é um fato isolado. Em outubro de 2025 foi descoberta uma célula nazista no município de Cocal do Sul, sul de SC. A ação do Grupo de Atuação de Combate ao Crime Organizado – GAECO, contra essas células nazistas também foi desencadeada em outros municípios brasileiros. Eram organizações bem estruturadas e consideras extremamente violentas. As reuniões serviam para o planejamento de ações e, em alguns casos, para a organização de confrontos com grupos ideologicamente opostos.

É preciso, portanto, ficarmos sempre vigilantes contra taus vírus demoníacos, genocidas, que jamais sejam despertados das profundezas sombrias do inconsciente coletivo. O que nos preocupa é saber que atos fascistas vêm sendo aplicados com naturalidade e extrema brutalidade atualmente, a exemplo a população palestina nos territórios ocupados pelo exército israelense. Os EUA são outro exemplo de difusão fascista contra imigrantes, praticadas por forças repressoras do estado, a exemplo do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos - ICE.

Prof. Jairo Cesa