sexta-feira, 20 de março de 2026

 

 

DESPREZAR A HISTÓRIA, A ARTE, A MEMÓRIA ARQUITETÔNICA, FAZ COM QUE SEJAMOS GOVERNADOS POR POLÍTICOS INCOMPETENTES

Agora é possível compreender melhor por que as autoridades tanto desprezam nossa história, nosso rico patrimônio cultural material e imaterial. O fato é que o comportamento dos políticos é reflexo direto da própria sociedade, que foi forjada sob o prisma do descartável, de valorizar a estética do "novo", do "moderno". Muitos buscam até ridicularizar afirmando categoricamente que quem quer ver coisa velha que vá ao museu. Claro que discursos como esse foi e é resultado da inserção contínua no nosso subconsciente de um projeto político que privilegia castas sociais, que trabalham incessantemente para desvalorizar a ciência, a história, as universidades públicas, os professores, os artistas etc.

Em uma reunião que participei para eleição do novo Conselho Municipal de Cultura aqui em Araranguá, uma cena ratificou o que expressei acima, reafirmando que somos também culpados pela fragilização da nossa memória histórica. Cada um que entrou no recinto onde haveria a eleição do conselho recebeu uma ficha para escolher um dos departamentos da cultura que tivesse interesse em atuar. Como sendo eu um apaixonado pela literatura e a cultura patrimonial, sem titubear assinalei com um X nesse tema. Quando foi solicitado a todos/as que estavam no recinto, a partir dos temas assinalados, que se reunissem nas mesas para indicar um titular e um suplente para integrar o conselho, imaginei que teria ao meu lado várias pessoas, isso pelo fato de ser o tema muito relevante, porém, tão desprestigiado pelas autoridades.

Fiquei perplexo quando percebi que todas as mesas, exceto a minha, possuíam boa representação. Comigo estava um jovem ligado ao direito e as artes manuais. Aquela cena no Centro Multiuso, me fez lembrar da Conferência Municipal de Cultura ocorrida quatro ou cinco anos atrás, quando eu e outras três ou quatro pessoas estavam também reunidas em uma sala no atual prédio da UFSC, também para discutir políticas relacionadas ao patrimônio cultural e arqueológico em âmbito local, estadual e federal.

Vi que os demais temas vinculados ao escopo da conferência municipal, havia uma relevante participação de delegados/as. As elites sabem e não é de hoje que quanto menos acesso o povo tiver as diferentes artes, à história, à literatura, à memória patrimonial, mais suscetível estará para ser manipulado, explorado, a ponto de eleger seus próprios algozes, aqueles/as que vão governar ou legislar para beneficiar a si próprio e os seus pares.

Depois de passar um terço do meu tempo pesquisando e escrevendo, finalmente em 2025 lancei o livro que discorre sobre a história política de Araranguá: Tramas, Intrigas e Tensas Disputas Eleitorais - História Política de Araranguá de 1880 a 2000. Portanto, são 120 anos de trajetória histórica, que foi costurada garimpando em arquivos, bibliotecas, museus e livros, informações que me ajudassem a elucidar fatos políticos de um conturbado cenário social, onde uma elite econômica já se mostrava madura o suficiente para assumir as rédeas do poder do ainda distrito Araranguá. Portanto, o processo de emancipação político administrativa do distrito se deu em 03 de abril de 1880, data em que Araranguá foi oficialmente desvinculada do histórico município de Laguna.

Alimentava até a ilusão que após o lançamento da obra, em poucos dias ou semanas estariam esgotados os duzentos livros que foram editados. Mas, para um município que despreza a literatura, a arte, a história, o patrimônio arquitetônico em geral, foi ingênuo da minha ter alimentado tal expectativa. O que se percebe de fato é o silenciamento proposital por parte de certas mídias diante do desprezo dos gestores públicos e órgãos ambientais ao nosso rico patrimônio arqueológico, suscetível ao vandalismo. Esse silenciamento também se nota aos inúmeros casarios urbanos quase seculares, bem como igrejas, a exemplo da Matriz Nossa Senhora Mãe dos Homens, explicitamente ameaçada de apagamento da memória coletiva decorrente de comportamentos  truculentos de setores do alto, baixo clero e de uma elite tosca no campo da cultura.   

Prof. Jairo Cesa  


https://draft.blogger.com/blog/post/edit/8334622275182680372/7891756470979714405   

 QUARTA CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE CULTURA, EM ARARANGUÁ/SC, REVELA O FORTE DESINTERESSE SOCIAL E DAS AUTORIDADES NESSE SETOR         

segunda-feira, 16 de março de 2026

 

POR QUE LUTAR PELA PROTEÇÃO DE GRUPOS TRADICIONAIS QUE POVOAM TERRAS DO EXTREMO SUL DE SANTA CATARINA?

Foto - Jairo


Com a ocupação colonial portuguesa no território brasileiro a partir do século XVI, a população original foi submetida à escravidão, sendo que parte expressiva dela foi dizimada pelas doenças trazidas pelo invasor europeu. Mais tarde o rendoso comércio de negros africanos fez substituir o trabalho indígena pelo africano, sendo utilizados na atividade da cana de açúcar, mineração, café, farinha de mandioca, entre outras atividades como o trabalho doméstico na “casa grande”.

Com o fim oficial da escravidão, que se deu por meio da assinatura da Lei Aurea em 1888, milhares de negros libertos foram jogados literalmente para fora das fazendas, aqueles que tiveram mais sorte foram absorvidos como trabalhadores meeiros, assalariados e tendo que se virar para sobreviver as agruras do preconceito impregnado no imaginário coletivo brasileiro. As produções historiográficas que tiveram como objeto de investigação a escravidão no Brasil apresentavam até pouco tempo frágeis menções do trabalho cativo no sul do Brasil.

O que se sabe é que a região sul recebeu levas significativas de imigrantes europeus, italianos, alemães, poloneses, que ocuparam áreas cuja presença de indígenas e de caboclos não era tão desprezível. Existem vastas fontes historiográficas que comprovam o processo de limpeza étnica no Sul, a partir da captura de originários ou até mesmo da execução em massa. Outras fontes revelam a presença de aglomerados luso africanos no interior, sul de Santa Catarina, terras das quais os ocupantes “caboclos” não possuíam títulos de posse.

A visibilidade/invisibilidade da presença africana no sul de Santa Catarina, hoje densamente constituída por descendentes europeus, foi revelada a partir da pesquisa realizada pelo professor Antônio Cesar Spricigo, cujo título é Sujeitos Esquecidos Sujeitos Lembrados. A investigação trouxe a luz um cenário impressionante do sul do estado, no qual o trabalho cativo foi instrumento imprescindível na formatação econômica e política de todo o território fronteiriço com o estado rio grandense.  A obra desconstrói alguns conceitos ainda impregnados no imaginário coletivo de que a escravidão se deu seguindo preceitos um tanto homogêneos como a existência quase obrigatória da casa grande e da senzala.

O que se observou foi, sim, o uso do escravo negro nas médias glebas de terras no manejo do solo, no plantio e beneficiamento da mandioca e da cana de açúcar, atividades pelas quais projetou a região do Araranguá no cenário estadual e nacional, até mesmo internacional. É claro que o contingente de cativos no grande Araranguá era relativamente inferior às das demais regiões do país, sudeste e nordeste, por exemplo, porém, havia exceções, por ter existido alguns senhores com planteis significativos de escravos, contendo mais de 30 escravos.

As relações entre senhores e escravos no sul seguiram critérios um tanto atípicos daqueles presentes em muitas obras escritas sobre o tema. Não se percebia uma relação hierárquica um tanto refratária entre o cativo e o senhor, ambos até mesmo compartilhavam o mesmo cômodo ou vivendo nu puxadinho anexo a casa do senhor. A carência de recursos também obrigava o proprietário a construir rudimentares engenhos cobertos com palha, e que tal realidade se replicava nas várias residências dos senhores, cujas residência, geralmente, o assoalho, era de terra batida e o telhado de palha.

Ter um escravo era a garantia de acumular expressivo patrimônio, cuja venda assegurava recursos relativamente suficientes para a aquisição de mais glebas de terras, equipamentos de trabalho, e certa visibilidade no cenário social e político. Convém destacar que nos inventários Pós-Mortem, destacados na obra do professor Spricigo, entre os anos de 1841 a 1890, o período de maior incidência de trabalho escravo no grande Araranguá, foi no decênio de 1861/1870. Dez anos mais tarde, 1880, possivelmente decorrente desse boom econômico regional, impulsionou essa nova elite agrária em ascensão em lutar pela emancipação política administrativa do distrito.  

Outro aspecto um tanto curioso visto na obra do professor Sprícigo sobre a escravidão em Araranguá foram os casos de cativos de terem obtidos cartas de alforrias por meio da compra, ou seja, acumulavam certa soma financeira, suficiente para indenizar o proprietário. Essas prerrogativas a favor do escravo se deram por meio de normativas, legislações, que se sucediam ao longo do tempo. A Lei do Ventre Livre, de 1871, assegurou “liberdade” ao cativo a partir do seu nascimento. Devido a fragilidade das estruturas jurídicas em âmbito distrital/municipal/estadual, os distritos/comunidades distantes das sedes administrativas, Araranguá em especial, a presença do Estado como agente regulador/fiscalizar das novas normatizações se mostrava inexistente. Entretanto, demorou muito tempo para que fosse aqui estabelecido um satisfatório arcabouço institucional que desse algum suporte ao cidadão negro/escravo/liberto.

A visibilidade/invisibilidade do negro africano no sul de Santa Catarina se mostrou relevante com a homologação de terras quilombolas, ou seja, territórios dos quais no passado foram ocupados por escravos fugitivos e libertos. Aqui na região sul de Santa Catarina temos dois quilombos da Pedra Afiada, comunidade de São Roque, no município de Praia Grande, e o da Maria Rosalina, no perímetro urbano do centro do município de Araranguá. Conhecer os dois territórios permite entender suas histórias e suas permanentes lutas de resistência e existência. Visitar o quilombo da Pedra Afiada nos faz refletir sobre preconceitos que ainda povoam nosso imaginário acerca do dia a dia dessas comunidades. Geralmente fazemos confusões acerca das suas organizações, como disposição das residências, como sendo de uma aldeia indígena ou na própria hierarquia de gestão.

Outro aspecto revelador no quilombo de Praia Grande é que ele se fez junto as bordas de uma das importantes trilhas de tropeiros que ligou as fazendas do topo da serra ao litoral entre os séculos XVIII, XIX e início do XX. Além do trabalho escravo no cultivo da mandioca e da cana de açúcar no litoral, na parte serrana, fronteira com o estado catarinense, houve o emprego cativo no manejo do gado das fazendas de cima da serra. As características observadas da trilha na qual fizemos até o topo da serra, comprovou a quantidade de vezes que aquele caminho foi usado pelos tropeiros e posteriormente pelos pés de escravos.

As obras escritas até então sobre redutos de negros fugitivos no extremo sul do estado catarinense eram bem discretas até pouco tempo. O livro do professor Sprícigo procuro discorrer o caso do quilombo São Roque, trazendo trecho escrito pelo historiador Gilberto Ronsinim. Nas palavras de Sprícito, Pedra Branca merece especial atenção pois, conforme o autor Ronsinim, esse local era um antigo refúgio de escravos e que a falta de registros sobre o local deveu-se à necessidade dos escravos foragidos manterem-se bem escondidos. Afirma que o primeiro morador da região Pedro de Souza Fagundes, nasceu em 1824, falecendo em 1916.

Conhecer as peculiaridades relativas a ocupação indígena e africana que moldaram junto com outros povos o complexo cenário social e econômico do sul de Santa Catarina pode contribuir para desmistificar preconceitos que ainda permeiam nosso imaginário. A leitura, a pesquisa, bem como visitas em comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas, revelam realidades desconhecidas para a maioria da população. Saberes em relação ao modo de cultivo da terra, dos animais, os ritos tradicionais, a culinária, a arte, são aspectos que nos faz pensar que é possível sim viver sem destruir nossos ecossistemas.

Foto - Jairo


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Foto - Jairo


Foto - Jairo

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Foto - Jairo

Foto - Jairo
















Prof. Jairo Cesa

   

                       

quarta-feira, 4 de março de 2026

 

CAMINHOS PARA REVERTER A CRISE DA PITAYA NO SUL DE SANTA CATARINA

 

Foto - Jairo


Há pouco mais de duas semanas um vídeo foi publicado nas redes sociais de um produtor de pitaya no sul do estado despejando, com pá, sua safra para o gado, e que alcançou níveis absurdos de audiência. A ação do produtor foi por ele justificada como protesto às promessas feitas pelas autoridades de que cultivando a fruta haveria mercado garantido e preços compensadores. De fato, não foi o que ocorreu, pois a safra 2025/2026 vem se caracterizando até o momento como uma das maiores desde que a pitaya surgiu no sul do estado há menos de vinte anos. Afirmou o produtor que entrou no cultivo da pitaya há cerca de 10 anos, e que por várias vezes ameaçou desistir alegando dificuldades de mercado.

Quero aqui ressaltar que minha abordagem sobre a pitaya e da atitude do cidadão de descartá-la aos bois, não se fundamenta de uma visão distanciada, de mera especulação acerca do tema, como da maioria dos que postaram comentários no post, criminalizando-o  ou concordando com o que fez o cidadão.  Afirmo que também sou plantador de pitaya, talvez tendo iniciado um pouco antes do cidadão em tela.

Durante esses mais de 10 anos que estou na atividade vivenciei situações até piores que o respectivo produtor. Na época ainda eram discretos os que aventuraram no ramo dessa fruta, muitos dos quais advindos da atividade do tabaco. Acontece que em pouco tempo, estimulados pelos preços compensadores pagos pelo kg da fruta, houve um crescimento vertiginoso de áreas destinadas a essa atividade, sem, portanto, um planejamento adequado para escoar a grande oferta de frutas que teríamos no futuro.

Os mercados, supermercados, fruteiras da região sul passaram a comercializar a fruta mantendo preços relativamente elevados em comparação ao que estava sendo pago ao produtor. Uma ou duas cooperativas entraram nesse ramo dando suporte aos produtores filiados. Os demais não assistidos por esse segmento, tiveram que ir à luta ou tornaram-se presa fácil de atravessadores espertalhões.  Diante desse novo cenário agrícola no sul do estado, o consumidor ainda tinha um certo estranhamento acerca dessa fruta, originária da américa central, e cujo Vietnam e a China são hoje grandes produtores. Por que estranhamento? Primeiro pelo valor pago ser ainda elevado, e pelo sabor, um tanto azeda e ácida, isso pelo fato de a fruta ter sido colhida sem que o processo de maturação estivesse concluído.

Foto - Jairo


Há cinco ou seis anos, a fruta lentamente começou a ser popularizada, não somente devido ao aumento da oferta, mas pelas campanhas publicitárias e educacionais, que fizeram com que a população compreendesse que a pitaya não era apenas uma fruta qualquer, mas algo único, singular, carregado de propriedades nutricionais, indicada por médicos e especialistas no tratamento de comorbidades. Essas campanhas aqueceram um pouco a demanda pela fruta, mas ainda era insuficiente, pois milhares de pessoas ainda não tinham e não tem experimentado a fruta, a exemplo da banana, da maçã,  da uva etc., onde 100% da população conhece e tem experimentado.

A profissionalização no manejo da fruta dragão, como é conhecida, passou a ser compreendida como estratégia para galgar mais mercados, mais e mais consumidores. Por ser uma fruta sazonal e que deve ser colhida no ponto exato para consumo, ou seja, bem madura, produtores passaram a buscar outras formas de como produzi-la e comercializá-la. O que acontece atualmente é de estar fruta disseminada em muitas propriedades, pequenos pomares, mediante o manejo convencional, ou seja, com a aplicação de insumos químicos e até mesmo agrotóxicos.

Com o aumento vertiginoso da oferta da fruta de manejo convencionai nos mercados, cuja demanda de consumo não crescia na mesma proporção, muitos produtores desistiram do cultivo. Os que permaneceram, alguns migraram para o manejo orgânico. Foi exatamente o que fiz a partir de 2023 quando completei a transição obrigatória do manejo convencional para o orgânico. Entretanto, diante dessa nova modalidade, precisava agora trabalhar e muito para conquistar um novo nicho de consumidores, sem elevar o preço pago pela fruta por ser orgânica.

Foto - Jairo


Era preciso convencer o público em geral que a pitaya era tão saborosa, tão nutritiva, que valeria a pena comê-la, e que ela deveria estar acessível a todos/as. Tinha clareza que pitaya não era banana, não era maçã, não era uva, onde toda a população conhecia e já havia provado pelo menos uma vez. Era fruta “dragão” era algo muito novo e que precisaríamos de um tempo longo para que a população conhecesse e passasse a consumir também. A fruta, portanto, teria de chegar ao público infantil, nas creches, nas escolas, nas unidades de atendimento de crianças em condições vulneráveis etc., etc. Porém, para esse público, era imprescindível selecionar frutas saborosas, bem doces, porque tínhamos em nossa frente um público exigente onde a primeira impressão é que ficaria.


Foto - Viviane

Foto - Viviane




Casa da Fraternidade - Araranguá

Foto - Viviane

Foto - Viviane




Desde que obtive a certificação, venho fazendo esse trabalho de sensibilização ao consumo saudável da fruta. O que me surpreende a cada encontro, é o número de crianças e adolescentes que passaram a apreciar a fruta, e recomendando aos pais para adquiri-las. Penso que o caminho é esse, educação alimentar, e que todos os produtores de pitaya deveriam estar se ocupando fortemente nos seus municípios. Em vez de estar gravando vídeos despejando a fruta para os animais, que as leve à todas as creches e escolas e faça o mesmo trabalho que venho fazendo, converse com as crianças, explique para elas, os seus pais, devem comer pitaya, o que de bom a fruta traz para a saúde. A certeza é que em pouco tempo teremos um publico cativo de consumidores de pitaya.

Prof. Jairo Cesa                  

domingo, 1 de março de 2026

 

OS NOVOS/VELHOS DESAFIOS DO NÚCLEO SERRAMAR/REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA DO SUL DO ESTADO DE SANTA CATARINA.

https://www.facebook.com/serramar.ecovida/


No país onde o agronegócio se destaca navegando em águas calmas subsidiado por fartos recursos públicos, a exemplo do Plano Safra, que destinou mais de 600 bilhões a esse segmento em 2025/2026, na contramão, em águas turvas, está a agricultura familiar que tenta se virar nos trinta mantendo-se viva no cenário produtivo com parcos 90 bilhões de reais também do Plano Safra. Não é segredo para ninguém que parte significativa dos hortifrutigrangeiros disponíveis em pequenos, médios e grandes supermercados, são produzidos por famílias de agricultores, que resistem no campo as agruras de um sistema que tenta suprimi-los do mapa.

Nesse complexo conjunto produtivo agrícola nacional, tem um terceiro segmento quase apagado e que insiste em se manter presente no cenário agrícola, ocupando uma discreta franja do disputado mercado de alimentos oriundos do campo. Me refiro aqui aos heróis da resistência dos orgânicos e da agroecologia. Afinal quem são esses ainda anônimos que resistem como soldados de uma batalha de trincheira inglória ocupando pequenos nichos do mercado de hortaliças, frutas entre outros gêneros?

São famílias que decidiram fugir da bolha dos convencionais e se arriscar em produzir alimentos sem agrotóxicos e outros insumos químicos. São substâncias que fragilizar os ecossistemas inteiros levando a morte de microorganismos essenciais e pessoas, vítimas de doenças degenerativas entre outras patologias afins. Poucos sabem que o Brasil compete internacionalmente na área da soja, do suco de laranja, da cana de açúcar, porque tem subsídio público, que também atinge a área da pesquisa por meio da EMBRAPA. Se não fosse os fartos bilhões de reais públicos, não teríamos um agronegócio tão potente, que infelizmente os lucros obtidos não são compartilhados coletivamente. Bem diferente da agricultura familiar, que mesmo com subsídios comparativamente inferiores, o grau de compartilhamento social é assustadoramente superior ao do agronegócio.  

É muito difícil ainda encontrar nas casas especializadas, como agropecuárias, produtos destinados aos orgânicos e agroecológico. Bem distinto de um glifosato que geralmente não necessita de receituário de um profissional habilitado. O que se vê hoje são regras ainda muito rígidas àqueles que se arriscam se aventurar nos não convencionais/orgânicos, tendo que seguir protocolos complexos, como cumprir etapas de transição até a certificação. Muitas vezes o período transição entre o manejo convencional e não convencional pode levar de dois a três anos, etapa recomendada pelo Ministério da Agricultura e Produção Animal - MAPA, para credenciá-los aptos à atividade.

No Brasil existem formas distintas para o credenciamento orgânico e agroecológico, um deles é por auditoria, onde empresas credenciadas realizam todo o trabalho de acompanhamento das etapas até a emissão de certificação. Outro formato é o participativo, a exemplo da REDE ECOVIDA, de produtores, consumidores e simpatizantes, dos quais são disponibilizados em grupos, núcleos, que compartilham regras comuns, desde o manejo do solo, do cultivo das plantas, até a comercialização. Cada membro se apresenta como um fiscal, atuando de tal modo que a complexa rede se mantenha integra, compacta, levando credibilidade àqueles que consomem o que é produzido por essas famílias.

Foto - Jairo


Uma das grandes dificuldades que ainda enfrentam os que adotam o manejo não convencional, o orgânico, é o baixo consumo e a concorrência do sistema produtivo predador. Muitos dos que empregam o delicado manejo produtivo orgânico, são forçados, para sobreviver, a comercializar o que produzem a preços irrisórios pagos por atravessadores. Um bom exemplo para ilustrar é o mercado de pitaya. Quem conhece o manejo da fruta sabe da dificuldade que é colher frutas saudáveis sem o uso de agrotóxicos e insumos químicos. Quem vai ao mercado hoje pode constatar que há pitayas com preços inferiores a 5 reais ao kg. É bem provável que o produtor da fruta deve ter recebido menos da metade desse valor na entrega do produto. E quem trabalha com certificação, como fica?

O fato é que pouca gente está preocupada com a procedência daquilo que consome, dos insumos utilizados, pessoas envolvidas no manejo. O que mais consideram é preço a ser pago não a procedência, não é mesmo?  Diante desse sistema injusto e predador, algumas políticas públicas federais estaduais e municipais garantem um certo respiro a essas milhares de famílias que ainda atuam no campo, em especial o produtor agroecológico. O Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE, o Programa de Aquisição de Alimentos - PAA, são alguns programas que dão sobrevida às famílias, permitindo que escolas e outras tantas entidades assistenciais adquiram dessas famílias 30% do que consomem, assegurando-lhes um preço de até 30% maior do que o convencional.






Infelizmente ainda há um grande silêncio das mídias convencionais às lutas diárias das famílias do campo, as dificuldades de manter-se no campo e subsistir com aquilo que produzem com tanto sacrifício. Agora, imaginemos aqueles que produzem o feijão, o milho, a aipim, a batata, a laranja, a pitaya,  por meio do manejo orgânico e agroecológico. Muitos ainda estão na labuta diária no campo porque atuam de forma relativamente organizada, coletiva. O núcleo SERRAMAR, se orgânicos e agroecológicos, que integra a rede ECOVIDA, vem exercitando essa habilidade participativa há muito tempo. São dezenas de famílias espalhadas pelos municípios do sul do estado catarinense, que se reúnem quase mensalmente para discutir e deliberar demandas que posteriormente são debatidas no grande encontro do núcleo.


Foto - Jairo



É bom saber que sem a participação atuante dos poderes executivo e do legislativo nas instâncias federais, estaduais e municipais, o agricultor familiar não teria como subsistir. Infelizmente, ainda são poucos os prefeitos, vereadores, deputados, que cumprem o que prometem em tempos de campanha eleitoral, como o apoio ao pequeno agricultor. Em alguns casos as cores partidárias, direita e esquerde, se confundem no trato de demandas de interesses coletivos, porém, são exceções nesse campo contaminado por ideologias extremistas.

No último dia 26 de fevereiro de 2026, integrantes dos vários grupos pertencentes ao núcleo SERRAMAR estiveram participando de importante evento no município de Rio Fortuna, junto a sede da Cooperativa Agroecológica Família. No encontro além da posse da nova coordenação da entidade, outros assuntos foram tratados como a entrega de trituradores e mudas de citros aos vários grupos que integram o núcleo agroecológico. Os equipamentos e mudas foram obtidos por meio de emenda participativa do deputado federal Pedro Uczai – PT.


Foto - Jairo





Foto - Jairo



A presença do prefeito de Rio Fortuna, Lindomar Ballmann – PSD, e da prefeita de Santa Rosa de Lima, Suzete Vandresen Baumann – PT, ambos deram um demonstrativo do quanto são importantes para a sobrevivência das famílias do campo, dando suporte com políticas de incentivo financeiro e governamental. A entrega dos trituradores ajudará o agricultor na reciclagem das sobras do seu sítio, tanto para a compostagem como para a alimentação dos animais. Os citros, cerca de 5 mil pés, serão distribuídas as famílias que adotam o manejo agroflorestal, oportunizando-as a diversificarem seu arcabouço produtivo no campo.

Além dos dois/as prefeitos/as, do deputado federal, de membros da Cooperativa Nacional de Abastecimento - CONAB, do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, o legislativo estadual de Santa Catarina estava representado pelo deputado estadual Padre Pedro Baldissera – PT, que na ALESC foca suas ações na agroecologia e alimentação saudável, agricultura familiar, agua e meio ambiente, práticas integrativas e complementares em saúde, cannabis medicinal, energias renováveis e a cadeia produtiva do mel.  A fala do deputado foi contundente, atacou em cheio o modelo produtivo atual que se contrapõe ao agroecológico, que em vez de estar protegido, tem de se proteger para não desaparecer. Falou sobre as doenças que são consequências diretas do alimento, da água, contaminadas por agrotóxicos, da importância do apicultor, uma das profissões mais importantes do planeta, porque sem as abelhas a vida vai desaparecer.

Foto - Jairo


    Destaco aqui outro momento importante do encontro que foi a presença de duas membros do Departamento de Nutrição da Secretaria da Educação de Florianópolis, para tratar o tema a Importância da Alimentação Agroecológica na Alimentação Escolar e Seus Impactos. Ambas apresentaram dados relevantes relativos a quantidade de gêneros orgânicos adquiridos da Cooperativa Família das quais são servidos a milhares de crianças e adolescentes nas escolas de Florianópolis.  Outro trabalho importante apresentado foi sobre educação alimentar saudável nas escolas do município da capital. Em reunião do núcleo SERRAMAR ocorrida há pouco tempo, foi delibado da realização de encontros com as nutricionistas dos municípios onde o núcleo tem abrangência. A proposta é convencer as profissionais da necessidade de ampliar a oferta de alimentos orgânicos nas escolas dos municípios.

Foto - Jairo



Jairo Cesa      

domingo, 22 de fevereiro de 2026

 

A ÁGUA QUE PARCELA DOS CATARINENSES BEBEM ESTÁ CONTAMINADA POR AGROTÓXICOS, ALGUNS DOS QUAIS,  BANIDOS PELA LEGISLAÇÃO

 

https://www.instagram.com/p/DUGm7e_kV78/

Durante os meses de dezembro e janeiro, acompanhei quase semanalmente o relatório do IMA sobre a balneabilidade das praias do litoral de Santa Catarina. O que se constatou nas análises apresentadas pelo órgão ambiental catarinense, foi o elevado número de pontos avaliados considerados impróprios para o banho. É possível deduzir que o surto de virose diarreica ocorrido na capital do estado, Florianópolis, tenha tido relação direta com a água do mar contaminada ou consumida pela população.

O fato é que até o momento não se viu ou se ouviu manifestações mais incisiva da imprensa e da sociedade em geral, cobrando das autoridades ações que possam reverter esse quadro vergonhoso de um estado, cujo governo, insiste em vender a imagem lá fora como um dos mais desenvolvidos do país.  Se de um lado temos um vasto litoral, procurado por turistas e veranistas que se banham em praias contaminadas por esgotos, paralelo a isso temos 155 municípios, cujas águas consumidas pela população apresentaram algum/s tipo/s de agrotóxicos, muitos dos quais banidos pela legislação brasileira.

Essas informações preocupantes com a água consumida pela população, foram publicadas pelo MPSC e encaminhadas ao Ministério da Saúde para que medidas urgentes sejam tomadas contra um mal que está matando “lentamente” a população. O termo, lentamente, é porque, segundo o MPSC, os percentuais de agrotóxicos encontrados em muitas análises laboratoriais não extrapolam os níveis toleráveis pela legislação brasileira. Em texto semelhante publicado no meu blog, afirmei que na União Europeia, a legislação sobre níveis aceitáveis de agrotóxicos na água consumida pela população é menos tolerável que a brasileira.[1]

Foram 42 resíduos de agrotóxicos detectados nos 155 municípios catarinenses. Desse total, cinco estão banidos pela legislação, como o BEMONIL, o CARBOFURANO, HALOXIBOFE METÁLICO, METALACLORO e MOLINATO. Os municípios com agrotóxicos detectados proibidos, são eles: Belneário Camboriú, Rancho Queimado, Imbuía, Canelinha, Ituporanga e São João do Sul.   O benonil, possui um princípio ativo conhecido pelo nome de caberdazim, que foi proibido pela ANVISA em 2022, devido ao elevado risco em gerar doenças cancerígenas, reprodutivas e mutagênicas. Esse agrotóxico tem o seu uso proibido nas culturas de soja, milho, citros, feijão etc.  

Outro agrotóxico de elevado teor de toxidade e uso vedado no Brasil, na União Europeia e EUA, porém detectado na água consumida pela população de Santa Catarina é o CARBAFURANO, popularmente conhecido por FURADAN. Sua toxidade causa problemas no desenvolvimento humano, bem como outras enfermidades sistêmicas. Esse inseticida era no passado permitido para o combate de pragas do solo e foliares, em culturas de café, cana-de-açúcar e da banana. Outro agrotóxico considerado tóxico, proibido no Brasil, porém, detectado nas análises de água em SC, é o HALOXIBOFE METÁLICO. Esse produto era aplicado no controle de gramíneas anuais e perenes, nas lavouras de soja, feijão, algodão, sendo classificado como Classe III, perigoso. O acúmulo desse agrotóxico no organismo pode causar danos ao fígado, rins, sistema nervoso central, bem como má formação fetal.

Outro agrotóxico que apresenta toxidade aguda para seres humanos, e detectado na água de alguns municípios, é o herbicida METALCLORO, que é aplicado no controle de gramíneas anuais nas culturas de soja, milho, feijão, arroz.  Pesquisas realizadas concluíram que o acúmulo desse herbicida no organismo pode resultar na formação de carcinomas; tumores hepáticos; desregulação endócrina; desregulação do sistema reprodutivo, alterando hormônios como a testosterona. O último agrotóxico desse grupo encontrado na água, que foi banido no Brasil, porém encontrado em análises de água de municípios catarinenses é o MOLINATO, também um herbicida utilizado no controle de ervas daninhas do arroz. Sua presença é verificada em águas superficiais e subterrâneas. O consumo contínuo da água contaminada por esse agrotóxico provoca danos no aparelho reprodutivo masculino e feminino.

No relatório apresentado pelo MPSC ficou assim distribuído o mapa dos agrotóxicos estado: na região Oeste, dos 118 municípios existentes, 63 deles apresentaram ao menos 1 princípio ativo de agrotóxico. No Norte, dos 26 municípios, 11 deles foram identificados agrotóxicos, ou seja, 42,3%; na Serra, de 30 municípios, 10 apresentaram contaminação, totalizando 33,3%; grande Florianópolis, das 21 cidades, 12 apresentaram algum tipo de contaminação, índice que chegou a 57,1%; Vale do Itajaí, das 54 cidades existentes, 24 delas tiveram presença de contaminantes na água, totalizando 44,4%; por último, a região Sul, dos 46 munícipios que compõem a região, 35 deles tiveram resíduos de agrotóxicos na água, um total de 76,1%.

O que mais deve ter gerado apreensão aos integrantes do MPSC acerca do relatório apresentado sobre a presença de agrotóxicos na água, foi a verificação de vários resíduos químicos simultâneos nas águas potáveis de dois municípios, Imbuia, com 17 tipos, sendo dois proibidos em 2019, e Ituporanga, com 23 tipos ativos de ingredientes, sendo que havia 9 desses ingredientes contendo níveis acima de 1.000 microgramas por litro.

Quanto a legislação, vale ressaltar que a Portaria n. 888 de 2021, do Ministério da Saúde, considera como toleráveis esses níveis de agrotóxicos identificados nas águas consumidas pela população desses 155 municípios, pois não geram danos imediatos a população que as consome. O fato é, segundo o MPSC, que a legislação brasileira apresenta equívocos gritantes sobre a metodologia usa nas análises das águas dos municípios, porque não considera a simultaneidade das substâncias presentes para estabelecer riscos. A resposta sobre simultaneidade é, a somatória de todos os agrotóxicos detectados na agua, a exemplo de Ituporanga, com 23 resíduos diferentes, quais suas interações e efeitos nos ecossistemas e no corpo humano?

Talvez a resposta desse combo de veneno nos ecossistemas e no organismo humano já temos, basta irmos as Unidades de Alta Complexidade em Oncologia – UNACON, e vermos com os próprios olhos a assustadora quantidade de pessoas em tratamento contra tipos diferentes de câncer. Sem contar aqui outras doenças já quase epidêmicas como Parkinson, Alzheimer e síndrome do Autismo.  Se tais distúrbios tem alguma relação com a ingestão de agrotóxicos, as pesquisas que vem sendo realizadas já indicam haver alguma relação.  O que é realidade hoje é que há uso indiscriminado de agrotóxicos, tanto na agricultura quanto em vias públicas urbanas.  Sobre vias públicas urbanas e terrenos particulares, as legislações em vigor no Brasil, estado de Santa Catarina e em Araranguá, veda o uso de agrotóxicos, com sansões severas aos infratores.  

Prof. Jairo Cesa       

  

 

 https://www.mpsc.mp.br/w/noticias/mpsc-traca-plano-estrategico-para-reduzir-impactos-causados-pela-poluicao-com-agrotoxicos-na-saude-dos-catarinenses

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sul/sc/mais-da-metade-de-sc-bebe-agua-contaminada-por-agrotoxicos-segundo-mp/

https://www.youtube.com/watch?v=7n8uji86ayA

https://globoplay.globo.com/v/14365444/

https://www.google.com/search?sca_esv=c223258de9d00832&udm=7&sxsrf=ANbL-n66Pl4n1kV3nsCfZm_5ZNGXfNj72Q:1771724891893&q=o+que+diz+o+governo+de+santa+catarina+sobre+a+presen%C3%A7a+de+agrot%C3%B3xicos+na+agua+dos+catarinenses&sa=X&ved=2ahUKEwj0rsjG_euSAxXvqpUCHZ7UD6QQ8ccDKAJ6BAgZEAQ&biw=1366&bih=641&dpr=1#fpstate=ive&ip=1&vld=cid:0589de4c,vid:UiFBO-8bSNM,st:0

https://www.tiktok.com/@agriculturaaltova/video/7606400528456633621

 

 

  



[1] https://www.blogger.com/blog/post/edit/8334622275182680372/1763164108660957599

domingo, 15 de fevereiro de 2026

 

ATAQUE DO GOVERNO JORGINHO MELLO/SC A AGRICULTURA FAMILIAR E AS POLÍTICAS DE SANEAMENTO BÁSICO

https://sc.cut.org.br/noticias/cut-sc-critica-veto-de-jorginho-mello-que-retira-apoio-a-agricultura-familiar-em-43a7/amp


Quem imaginou que as arbitrariedades administrativas do governo catarinense cessariam com a supressão da lei sobre cotas raciais e a sancionamento da lei de monitoramento do trabalho docente nas escolas públicas, se enganou. Um estado que passou a ser visto como um pária em âmbito nacional por essas e outras atitudes insensatas protagonizadas pelo governador, teve mais um capítulo insólito da nossa manchada história política. Santa Catarina tem na sua essência um território moldado por milhares de pequenos agricultores, superando 150 mil famílias. São famílias que produzem a batata, o aipim, o feijão, o amendoim, as hortaliças, entre outras tantas variedades de produtos que alimentam parcela significativa da população do estado. É bom lembrar que a agricultora familiar em solo catarinense ocupa mais de 43% da área total dos estabelecimentos agropecuários, totalizando quase três milhões de hectares.

Parcela significativa desse montante de famílias de pequenos agricultores no estado, tem a sua produção destinada a programas federais como o PNAE, que assegura 30% daquilo que os agricultores familiares produzem à merenda escolar, bem como para as demais entidades sociais como hospitais, presídios, asilos etc. Esse ano, 2026, o governo federal elevou o percentual de apoio, passando de 30% para 45%, aumento que certamente trará enorme fôlego às milhões de famílias que dedicam seu tempo ao difícil trabalho no campo.

É claro que os estados podem criar programas similares ao federal para melhorar ainda mais a renda dos trabalhadores, como o que ocorreu em Santa Catarina, quando a Assembleia Legislativa votou projeto garantindo a reserva de 30% das compras públicas de alimentos para a agricultura familiar. No pacote de medidas vistas como retrocessos no governo de Jorginho Mello nesse início de 2026, o veto de trechos da lei n. 160/2024 em fevereiro último foi recebido com indignação por milhares de famílias agricultoras catarinenses.

Esses alimentos que saciam a fome de milhares de crianças nas escolas públicas municipais e estaduais catarinenses, percentual expressivo dos gêneros são oriundos de produtores que adotam manejo orgânico ou agroecológico, ou seja, sem a inserção de qualquer tipo de produto químico como agrotóxicos. Agora, cabe a Assembleia Legislativa derrubar o veto do governador, hipótese quase impossível pelo fato de como a ALESC está hoje configurada, majoritariamente constituída por parlamentares governistas.

Quem sabe, havendo uma grande pressão das entidades que representam os agricultores familiares, bem como a sociedade como um todo, os/as parlamentares podem decidir pela derrubada do veto. Outro fator convergente aos agricultores é que estamos em ano eleitoral e, portanto, muitos deputados/as sabem que votar pela manutenção do veto pode custar a reeleição em outubro. Como havia escrito no início do texto, o governador Jorginho Mello, começou 2026 administrando o estado seguindo os ditames estabelecidos pelo seu grupo de apoio de caráter ultraconservador. Acredite, Santa Catarina foi o único estado da federação cujo governador não assinou o termo de compromisso federal para combater o feminicídio.  O que assusta é saber que SC é o estado com uma das maiores taxas de assassinato de mulheres do país, além de possuir um dos maiores contingentes de células nazifascitas espalhadas pelo território.

Parece piada, Santa Catarina teve nos últimos dois anos mais de 30 prefeitos presos ou suprimidos do cargo por práticas de corrupção, principalmente relacionadas as licitações sobre a coleta de lixo urbano. Claro que é muito dinheiro em jogo, coletar lixo nos municípios e transportá-los para aterros, é certeza de polpudos repasses dos cofres públicos municipais às empresas vencedoras das licitações. Portanto é aí que aparece a tentação de gestores levarem alguma vantagem nesse “negócio da China”. Acredite, todos os mais de trinta presos nessa diabólica tentação ligada ao lixo ou são do mesmo partido do governador ou integram o grande guarda-chuva de alianças, homens reconhecidos pelos seus pares como pessoas de “bem”, que presam pelos “bons costumes”, devotos a “deus”, à “pátria” e à “família”.

Municípios catarinenses conseguiram reduzir gastos com o lixo produzido pela população por meio da aplicação de políticas de reciclagem e compostagem. Florianópolis é um desses municípios, que vem adotando desde 2019 o respectivo programa, sendo reconhecida nacionalmente por essas e outras políticas de cunho ambiental. A proposta da capital dos catarinenses é lixo zero até 2030, com o objetivo de recuperar 90% dos resíduos orgânicos e 60% dos recicláveis secos. Uma proposta estupenda como essa é claro que deve ser multiplicada para todo o estado.

Foi o que fez do deputado estadual, Marcos de Abreu/Marquito, do Psol, aprovando em 2023 a Lei n. 153 sobre políticas de gestão de resíduos sólidos, na qual assegura incentivo a compostagem no estado. Segundo o próprio autor da lei e que também protagonizou lei semelhante no município de Florianópolis quando foi vereador, o programa de compostagem reduz a emissão dos gases do efeito estufa, redução de gastos públicos e garantindo emprego e renda para milhares de pessoas. Não tinha como essa lei ser interpretada como inconstitucional porque seguiu as diretrizes da lei federal n. 12.305/2010, que autoriza os estados e municípios a elaborarem legislações especificas relativas as políticas de saneamento.

O inacreditável aconteceu, o governo Jorginho Mello vetou a lei sobre compostagem, sendo que na ALESC, todos/as os deputados/as do PL, um dos Podemos e outro do União Brasil seguiram o governo, mantendo o veto.  Atitude como essa do legislativo e do executivo explica o porquê SC tem um dos piores índices de saneamento básico do país. Tratamento de esgotos e reciclagem são ínfimos os municípios que vêm executando até o momento. Para ter ideia do problema causado pela fragilidade do saneamento no estado, basta acessar a página do Instituto do Meio Ambiente do estado, no item referente a balneabilidade das praias, e verá a assustadora quantidade de pontos impróprios para o banho. Olha que são cidades importantes, das quais residem parte significativa da elite endinheirada do estado, que sem relutar, banham-se em águas contaminadas por fezes humanas.

Prof. Jairo Cesa   

         

     

sábado, 7 de fevereiro de 2026

 

OS ATUAIS RETROCESSOS NO SOCIAL E NA EDUCAÇÃO EM SANTA CATARINA PROTAGONIZADOS POR UM SISTEMA DE GOVERNO ULTRACONSERVADOR

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Nesses últimos meses o povo catarinense vem sendo ridicularizado diante de falas enviesadas e atitudes insensatas do governador, filiado ao Partido Liberal. Podemos acrescentar também nesse balaio de atos espúrios, legislações aprovadas pela ALESC e sancionada pelo governador, muitas das quais fazem retroceder o estado ao século XIX. Uma dessas falas que envergonhou os catarinenses foi durante visita ao município de Pomerode, de colonização alemã, no seu discurso destacou que a cidade se diferencia  “pela cor da pele”. Na realidade, o governador falou o que sente, porque representa uma legião de seguidores, vistos como o que se tem de mais atrasado no conjunto da sociedade. Ele e seus apoiadores fanáticos não estão sozinhos nessa empreitada de retrocessos, têm o apoio incondicional de parcela do legislativo estadual.

Um bom exemplo que confirma essa postura retrógrada, racista, do legislativo e do executivo, foi a aprovação na ALESC de um projeto de lei que suprimiu o direito de cotas raciais destinadas para pretos e pardos.  O ato político, foi interpretado como um ataque as populações historicamente marginalizadas do país e do estado, ocorrido no apagar das luzes do legislativo em 2025,  infringindo regras regimentais como o debate em plenário. A intenção, é presumível,  era votar e aprovar tudo rapidamente, não permitindo chance às populações afetadas o direito de se defenderem. A justificativa do chefe do executivo estadual ao fim das cotas  foi mais absurda ainda, afirmando que Santa Catarina é o estado que possui maior proporção de população branca do país.

Se alguém tinha dúvidas acerca da sua conduta racista, com esse argumento a coisa ficou bem escancarada. Afirmar que é um estado quase que predominantemente de branco é querer invisibilizar 2 milhões de catarinenses, ou seja, 23% da população que se declararam pretos e pardos.  É claro que em todos os lugares, cidades pequenas, medias e grandes, negros e pardos estão lá vivendo, ocupando as periferias, os morros, geralmente espaços insalubres, distantes de escolas, hospitais e do trabalho. Ressaltemos que  a Lei de Cotas é um direito, uma forma de reparação histórica de mais de quatro séculos de escravização, de sequestro de um povo de  suas terras no continente africano.   

Santa Catarina, no seu processo de formação, o território também foi forjado com o trabalho escravo. O que a elite fez e insiste em fazer é negar a presença do negro na nossa história. Portanto, a aprovação de lei que suprimi contas raciais em universidades públicas, o objetivo concreto de mantê-los segregados, excluídos da condição de sujeitos de direitos. Não tem mais como negar a existência de trabalho escravo em solo catarinense, isso foi revelado a partir de pesquisas historiográficas, como do professor historiador Antônio César Sprícigo, cuja obra Sujeitos Esquecidos, Sujeitos Lembrados, revela o que a elite araranguaense tenta ainda hoje esconder, um município forjado pela escravidão. Diante do exposto, é importante ressaltar que os descendentes de escravos libertos, continuam aí entre nós, muitos, vivendo nas periferias das cidades, em quilombos, lugares quase esquecidos pelo poder público.  

É possível até suspeitar que o governo do estado desconhece essa triste realidade dos negros em Santa Catarina, fato esse que lhe credencia em lançar opiniões descabidas e desconectadas da realidade. Mas, contudo, é possível admitir que o chefe do executivo estadual catarinense tem real consciência do que falou e qual o público direcionado.  Por estar vinculado a um partido, o PL,  no qual convergiu para as sus trincheiras uma elite branca de comportamento extremista, racista, e outros/as milhares de apoiadores, o governador se credenciou como principal força simbólica desse modelo de pensamento ultra conservador. Por ser a referência simbólica de um sistema de poder constituído, o atual chefe do executivo estadual deveria ser alertado que opiniões de cunho racista tende a despertar condutas semelhantes entre os seus milhares de apoiadores.

Mas, acreditamos, que o despertar a fúria racista, alojada no inconsciente de seguidores, não lhe causa constrangimento ou abalo emocional. O que ele pretende é agradar os/as que lhe dão sustentação no legislativo e nas instâncias municipais, dos quais farão o serviço de arrebanhar os eleitores nos seus currais eleitorais para garantir sua reeleição ao governo do estado no próximo mês de outubro.

Se a intenção é retroceder o estado há dois ou três séculos, é preciso dar seguimento com as políticas conservadoras defendidas por sua base aliada no legislativo. Muitos ainda devem lembrar do projeto de lei Escola sem Partido, proposta cuja intenção era monitorar/controlar os/as professores/as daquilo que seria expressado e ensinado em sala de aula. Um sistema de monitoramento, segundo os seus idealizadores, para combater a "doutrinação ideológica" nas escolas. É claro que os responsáveis por propostas espúrias como da Escola sem Partido são grupos políticos que defendiam e ainda defendem princípios fascistas como a tríade ideológica integralista: Deus, Pátria e Família.

Embora a proposta asquerosa Escola sem Partido tenha sido arquivada pelo Supremo Tribunal Federal, os fantasmas dala continuavam assombrando o imaginário dos docentes das escolas públicas com a criação das Escolas Cívico-Militares. Estados cujos governos se mostram ainda fies ao seu principal líder e hoje presidiário, o ex-presidente Bolsonaro, insistem em defender esse modelo de educação tosca, que tem por objetivo formar uma legião de sujeitos doutrinados, alienados, docilizados, adaptáveis ao sistema de trabalho que o escraviza.     

Agora responda, qual foi o estado da federação que fez ressuscitar essa proposta maléfica de controle sistemático do corpo docente em sua atividade laboral?  Quem respondeu Santa Catarina, acertou na mosca. Isso mesmo, a intenção de supervisionar o trabalho dos/as professores/as das escolas públicas se concretizou com a aprovação da lei 19.723/2026, que autoriza a instalação de câmeras de vigilância nas instituições de ensino para monitorar suas condutas. No corpo da lei está escrito que os que farão a fiscalização da conduta do/a professor/a serão o coordenador ou qualquer funcionário da escola, autorizados a denunciar os profissionais ao MPSC.

Percebam que a intenção é gerar o terror nas escolas, provocar a discórdia entre os docentes, comportamento parecido ao do regime militar, onde livros eram censurados, professores perseguidos, interrogados, até mesmo torturados. Essa gente do legislativo estadual, só pode ter delírios em acreditar que ocorre doutrinação política de esquerda nas escolas públicas do estado. Se de fato ocorre doutrinação, como deduzem, como explicar os mais de 70% de votos obtidos pelo atual governador no último pleito eleitoral de Santa Catarina? Se houvesse doutrinação de cunho esquerdista, é óbvio que teríamos um governador, prefeitos/as, deputados/as, vereadores/as, majoritariamente de partidos de esquerda, não é mesmo?

O que querem mesmo é amordaçar os/as professores/as, amedrontá-los/as, transformar escolas públicas em espaços para disseminar suas políticas conservadoras, e isso ocorre por intermédio do currículo, do sucateamento das estruturas e da doutrinação. As mudanças ocorridas nos dispositivos que conduzem o processo eleitoral nas escolas, regime democrático, que criou a paridade de votos entre os três segmentos, pais, estudantes e professores, já resultaram em retrocessos, com muitas escolas cujos gestores passaram a ser indicados por partidos alinhados as políticas do governo do estado.

Prof. Jairo Cesa