FINALMENTE
A CIVILIZAÇÃO SE SOBREPÔS A BARBÁRIE NA ELEIÇÃO DE SEGUNDO TURNO PARA
PRESIDENTE NO BRASIL

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As
pessoas que faziam discursos clamando por "mudanças", com gritos de
"fora ladrão" direcionados ao presidente Lula, acreditavam que a
votação do segundo turno garantiria uma vitória acachapante para o candidato
Flávio Bolsonaro, superando os votos registrados no primeiro turno. Em
Araranguá, era discreto ver alguém indo votar sem estar vestido com as cores
verde e amarelo - o símbolo do "patriotismo", e muitos até cobriam o
corpo com a bandeira do Brasil.
É
evidente que esse comportamento distorcido de alguns eleitores bolsonaristas,
imersos no ódio e na ilusão de que o "tesouraço" poderia melhorar
suas vidas, não me surpreendeu, pois, no passado, Araranguá já havia
testemunhado uma situação semelhante com quase a vitória de um candidato da
Ação Integralista Brasileira (AIB) em 1936, cuja proposta de governo tinha
semelhanças com o regime nazifascista da Itália e da Alemanha. Vale ressaltar
que, em novembro de 1937, Getúlio Vargas, ligado à Aliança Libertadora Nacional
(ALN), instituiu o Estado Novo e, um mês depois, em dezembro, decretou a
dissolução de todos os partidos políticos, incluindo a AIB.
Em
relação à eleição municipal de 1936, que foi uma exceção no contexto do regime
ditatorial de Vargas, a ascensão da AIB gerou uma certa apreensão entre os
apoiadores do governo Vargas. Os resultados da votação de 1936 provavelmente
causaram descontentamento por parte desse grupo político, visto que em Santa
Catarina vários municípios elegeram candidatos integralistas para o cargo de
prefeito e mais de uma dezena de vereadores. Em Araranguá, embora o candidatado
da AIB tenha sido derrotado pelo rival da ALN por uma margem de 500 votos, a
sigla conseguiu eleger dois vereadores.
O
que se destaca é o mapa eleitoral da época, mostrando os votos recebidos pelos
dois candidatos a prefeito nas 17 seções distribuídas pelos distritos e
localidades do município de Araranguá. Noventa anos depois, em 2026, dois
partidos políticos competiram no segundo turno para a presidência do Brasil. O
partido PL defendia um projeto de governo com características semelhantes à
Ação Integralista Brasileira, cujo lema era "Deus, Pátria e Família",
de inspiração fascista italiana.
Ao
analisarmos os votos obtidos pelos dois candidatos, do PL e do PT, nas três
seções: Jacinto Machado, Praia Grande e Turvo, que 90 anos atrás viu a vitória
do candidato da AIB, percebemos que os resultados atuais são bastante similares
aos de antigamente.
1-
Volta Grande/Jacinto Machado – 1936 (AIB: 70, ALN: 46) – 2026 (PL: 78,65% ou
6.030 votos; PT: 21,45% ou 1.647 votos);
2-
Praia Grande – 1936 (AIB: 70, ALN: 46) – 2026 (PL: 65,98% ou 3.645 votos; PT:
34,02% ou 1.879 votos);
3-
Turvo – 1936 (AIB: 185, ALN: 74) – 2026 (PL: 81,90% ou 7.307 votos; PT: 18,10%
ou 1.615 votos).
Analisando
os dados acima, percebemos que o município de Turvo, em 1936, era o principal
reduto de seguidores do integralismo no extremo sul de Santa Catarina, e que
noventa anos depois, essa tendência conservadora se mantém. É essencial notar
que a população é predominantemente de origem italiana, cuja economia se baseia
na agricultura, com o destaque na produção de arroz.
Quanto
à eleição de segundo turno para presidente em Araranguá, havia uma confiança
desmedida na vitória do candidato de extrema direita. Isso levou as lideranças
da campanha do Partido Liberal a cercar uma das vias da Av. 7 de Setembro, em
frente à igreja matriz católica, e montar um grande palco para celebrar a
vitória que não aconteceu.
A
derrota de um miliciano, suspeito de envolvimento em vários crimes que estão
sendo julgados, incluindo o caso emblemático do Banco Master, trouxe à
população brasileira, especialmente àquelas dotadas de um mínimo de sensatez,
uma reconfortante sensação de paz, esperança e a tranquilidade de poder
descansar após o resultado eleitoral, acreditando que o Brasil continuaria
soberano, expulsando os entreguistas do poder.
Após
a histórica vitória de Lula para seu quarto mandato, uma votação que o
candidato derrotado não aceitou, em Araranguá, a canalhice de alguns cidadãos,
possivelmente simpatizantes do Partido Liberal, causou indignação e revolta em
muitos munícipes. Uma lista, contendo mais de uma dezena de nomes de pessoas
físicas e jurídicas, foi divulgada nas redes sociais, apontando-as como
filiadas ao PT ou como eleitores do partido, e a população foi incentivada a
boicotar essas pessoas.
É
impressionante como erros do passado que deveriam permanecer enterrados tendem
a ressurgir; uma pequena desatenção pode levar a tragédias civilizatórias
repetidas. O caso da lista de nomes circulando em Araranguá/SC se assemelha
àquela de abril de 1933 na Alemanha, elaborada pelo regime nazista. Diante da
crise econômica que assolava a Europa, motivada pela Grande Depressão de 1929,
o regime alemão culpou os judeus, pequenos comerciantes, pela instabilidade do
país. Os negócios judaicos eram marcados com a estrela de Davi, a ponto de os
cidadãos israelitas terem que andar pelas ruas com placas portando mensagens
anti-judaicas.
Ao
dizer que esses comportamentos são reflexos de traumas transgeracionais não
curados, que ressurgem em momentos de forte convulsão social, parece que a
região de Araranguá e o estado de Santa Catarina estão condenados a repetir os
erros do passado, à maldição de seus antepassados, que praticaram mazelas
contra os povos originários. Apoiar a eleição de um miliciano, membro de uma
família que procurou propagar o ódio, negou a ciência, a vacina contra a COVID-19 e usou a religião para encobrir suas ações, deveria imputar aos eleitores a
cumplicidade no sofrimento a que milhões de brasileiros estariam sujeitos caso
ele fosse eleito.
Por
que tamanha certeza de que o Brasil estaria à beira da barbárie se o miliciano
vencesse? Cito alguns exemplos para respaldar meu ponto. O primeiro deles é um
vídeo postado que mostra nas redes sociais de um homem branco sendo guiado por
um cidadão negro, acorrentado; o segundo é um vídeo de uma deputada federal,
eleita por Santa Catarina, celebrando suas milhares de vitória nas urnas com um
relho que batia no chão.
Tanto
o primeiro quanto o segundo vídeo são representações arquetípicas do que há de
mais pérfido e violento na história do Brasil. Uma sociedade forjada na Casa
Grande, onde o senhor do engenho explorava o escravo até a morte. Era esse
modelo de sociedade, a da casa grande moderna, que estava sendo gestado e que
seria implementado caso o candidato a presidente, fujão do PL, fosse eleito.
Observe
que os neofascistas de plantão tentaram incessantemente sabotar o processo
eleitoral em várias cidades brasileiras, buscando impedir que os eleitores
votassem no candidato Lula. Uma prática suja e desprezível, semelhante àquela
empregada por simpatizantes derrotados nas eleições de 2022, quando invadiram a
Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, com o claro objetivo de
consumar um golpe de estado, mas sem sucesso. Mesmo com a prisão de centenas de
golpistas, a ameaça do espectro bolsonarista continuou a assombrar as mentes de
milhares de brasileiros.
A
prisão do principal idealizador do golpe de 8 de janeiro, Jair Bolsonaro, a
fuga de seu filho derrotado, Eduardo Bolsonaro, para os Estados Unidos e a
detenção de vários prefeitos bolsonaristas em Santa Catarina, acusados de
diversos crimes de responsabilidade, não foram suficientes para sensibilizar
aqueles ainda animados por ódio a não cavar ainda mais a cova da democracia,
votando na extrema direita. A vitória da civilização sobre a barbárie se deu
graças à lucidez de mais de 60 milhões de eleitores que entenderam que entregar
o país à extrema direita seria o fim da democracia.
Prof.
Jairo Cesa





