O POUCO DO QUE RESTOU DOS CASARIOS ANTIGOS DO SUL CATARINENSE SOFREM COM AS INTEMPERIES DO TEMPO E A NEGLIGÊNCIA DAS AUTORIDADES
Como relatei em textos publicados
nesse blog, o sul de Santa Catarina não fica atrás de outras regiões do estado
e do Brasil em potencialidades turísticas e culturais. O que é relevante é a
versatilidade de culturas, cada uma delas expressando suas particularidades, na
arquitetura, na culinária, nas danças, nos rituais religiosos etc. É verdadeiro
também que nos igualamos aos demais territórios no quesito falta de
preservação, valorização do que representa identidade e pertencimento. A
depreciação também se dá sobre os ricos acervos arqueológicos, com destaque os
povos sambaquianos, datados de quatro, cinco mil anos de história, que
enfrentam descaracterizações, sem que as autoridades competentes tomem medidas
para protegê-los.
Nossa arquitetura também é muito rica
e complexa, destacando estilos coloniais luso-açorianos e aqueles herdados dos
imigrantes europeus: alemães, italianos, poloneses, entre outros. Em se
tratando de linhas arquitetônicas coloniais, é claro que são as igrejas que
esboçam esses traços, com destaque para aquelas erguidas no litoral
catarinense, cujas mais antigas datam do século XVII. Em texto que
publiquei há pouco tempo, discorri acerca do abandono da igreja matriz do
município de Pescaria Brava, edificada em 1887 por força de trabalho escrava.
Alertei sobre a urgente necessidade de fazer reparos, principalmente o setor
elétrico. Embora existam algumas manifestações no sentido de restaurá-la, o
fato é que não há um cronograma nem recurso orçado para esse fim.
Se nos municípios costeiros
sul-catarinenses temos traços culturais e artísticos que remontam aos grupos
coloniais luso-açorianos, indo em direção ao interior, deparamo-nos com outra
realidade, esboçada no estilo arquitetônico, das igrejas e das habitações
erguidas pelos imigrantes italianos. Uma dica de bom roteiro para compreender
melhor o modo de vida das primeiras famílias italianas instaladas no Sul é
visitar o museu ao ar livre Princesa Isabel, no município de Orleans.
A região do alto e médio vale do rio
Tubarão está integrada a um complexo conjunto de rotas e destinos, que
oportuniza aos turistas que queiram visitar a região conhecer fragmentos do
modo de vida, do trabalho, da culinária, das crenças, das habitações, das
primeiras famílias de imigrantes que lá se fixaram. Por ser a região, e com
destaque o município de Pedras Grandes, o berço da imigração italiana, e por
estarem lá edificações que evidenciam essa cultura, fui estimulado a
conhecê-la.
Claro que, antes de nos deslocarmos,
procuramos sites que pudessem dar subsídios acerca dessas edificações, a
exemplo da famosa Casa dos Arcos. Fiquei entusiasmado com o que li, pois
descobri que a residência, datada de 1900, havia sido tombada como Patrimônio
Cultural em 21/11/2002, por meio do n. 5.919, pela Fundação Catarinense de
Cultura. Presumi que, por estar a residência tombada, ela estivesse em bom
estado de conservação.
Chegando ao local, conhecido também
como Parque Casa dos Arcos, o primeiro objeto que nos chamou a atenção e
certamente dos visitantes foi de um avião, isso mesmo, um caça AMX-1,
construído pela Embraer e ali instalado. Além do Caça, ao lado estava a réplica
do 14-Bis, primeiro avião, construído por Santos Dumont. Um lago artificial, contendo uma gôndola, uma
mini tirolesa e uma réplica de carretão com uma junta de bois, completara o
cenário, tudo junto e misturado. Então, e a casa centenária, objeto principal
da nossa ida a Pedras Grandes, onde estava? Sim, estava lá, claro que desfocada
diante de tantas coisas juntas.
Para acessá-la, tivemos que
atravessar uma pequena ponte para pedestres sobre o lado. Próximo à casa, havia
um banco de concreto, no qual estava fixado um adesivo com QR CODE,
provavelmente contendo informações sobre a residência. Chegamos mais perto e notamos
que as paredes estavam bem depreciadas pelo tempo, incluindo as aberturas,
elementos que dão a denominação estética, Casa dos Arcos. Ficamos atônitos com
o que estava à frente dos nossos olhos, não convergindo as informações
divulgadas pelos sites, noticiando um cenário contemplador, mais espetacular
ainda quando o campo de girações fica florido.
Observando o cenário caótico do lado externo da casa centenária, imaginávamos que o acesso ao seu interior estivesse impedido ao público, isso para conter o máximo possível o processo depreciativo do imóvel. De repente, um pouco mais à frente, vimos uma porta escancarada. Deduzimos que alguém da administração do parque havia esquecido de mantê-la fechada ou teria sido arrombada por vândalos. Nem uma coisa, nem outra; a casa estava literalmente aberta, permitindo que todos acessassem os frágeis cômodos.
Quando pus os pés no interior da residência, deparei-me com uma escada que levava ao sótão. Continuei a caminhar, com um sentimento de pavor, angústia, por estar transitando sobre tábuas, paredes, carregadas de memória, porém, em condições deprimentes. Forros caindo, janelas protegidas com sarrafos improvisados, fiações soltas, enfim, um cenário de horror.
| Foto - Jairo |
O que talvez minimizasse o cenário de
tristeza exaltada pela encantadora residência, é o jardim dos girassóis, que,
quando floridos, transmitiria uma tonalidade alegre, ofuscando um problema em
que as autoridades locais e do estado insistem em empurrar com a barriga. Notei que as gramíneas, junto aos girassóis,
estavam ressecadas devido à pulverização por agrotóxicos. Mesma cena impactante era perceptível nas
margens do lago, cuja vegetação estava também ressecada pelo veneno.
Entretanto, há um monte de incongruências junto ao parque Casa dos Arcos, que
deveriam ser reavaliadas pelo gestor público, com o seu corpo técnico
competente.
Gerou certa estranheza a atitude de uma cidadã
que me fez críticas em um grupo no qual participo, só pelo fato de eu ter
emitido opinião acerca das condições deploráveis da Casa dos Arcos. Respondeu ela: “Por que abandonado? Ela não
está abandonada, pelo contrário”. “Sou
de Pedras Grandes, que a casa dos arcos era de propriedade particular, que a
prefeitura adquiriu e cuida”. Continuou a cidadã: “Essa casa, a Casa dos Arcos,
era de propriedade particular; a prefeitura a adquiriu e cuida. Criou um parque
no entorno e o campo de girassóis, que já está sendo cuidado, que atrai muitos
turistas e visitantes. A casa não está restaurada porque precisa de muito
dinheiro pra isso. Mas está sendo cuidada, sim”.
Diante da fala da cidadã de Pedras
Grandes, respondi que ela não tinha qualquer noção sobre patrimônio
arquitetônico, entre outras afirmações. Respondeu que possuía compreensão sobre
a temática patrimônio e que eu deveria acionar os órgãos, como o IPHAN, por
exemplo, e ver uma forma do município conseguir dinheiro para restaurar; o
discurso na prática é bem diferente. Outro integrante do grupo, fez a seguinte
proposição para a cidadã de Pedras Grandes: “iniciem com um contato com o
IPHAN. “Façam registros fotográficos. Busquem registros anteriores. Informações
sobre a época da edificação. Tudo o que puderem. O IPHAN vai orientar a
respeito dos procedimentos necessários”.
Respondeu a cidadã que “o IPHAN tem
catalogado as casas aqui... mas não funcionou. Tanto que a casa de pau a pique
o IPHAN tinha catalogado, inclusive visitaram e não adiantou”. Sobre a casa de
pau a pique, respondeu outro cidadão do grupo: a referida casa, edificada no
século XIX, foi demolida em 2024. Mais um do grupo propôs que o município
buscasse recursos por meio de editais, que aproveitasse as leis de incentivo à
cultura. Perguntou se a réplica da Torre de Pisa, que está sendo erguida na
comunidade de Azambuja, que pertence a Pedras Grandes, é por meio de recursos
próprios? Respondeu a cidadã que uma coisa é a construção, outra coisa é o
restauro.
Contra-argumentou o cidadão que um
exemplo de edital é a Lei Aldir Blanc, cujo valor destinado é de 40 mil reais.
Outro do grupo emitiu mais informações sobre a respectiva lei, que prevê
recursos para o patrimônio material e imaterial. Informou a cidadã de Pedras
Grandes que “pra nós é 40 mil difíceis de aplicar pelas regras inclusive”.
“Porque a lei ou o minc falam que podem ser assim ou assado, mas não mandam
toda fundamentação de como fazer porq nós os coitados dos servidores públicos
tem que se virar pra por isso em sistema e enviar pra tribunal de contas”.
Durante as falas envolvendo a cidadã
e integrantes do grupo, que discorriam sobre o futuro incerto da Casa dos
Arcos, imagens e um vídeo foram postados por outra cidadã, também criticando o
estado crítico da residência. Informou ela que ficou surpresa por estar a
residência com as portas abertas, que pessoas acessavam o seu interior e
corriam sobre tábuas fragilizadas. Que era necessário tomar providências para
preservar uma edificação tão espetacular.
Frente a todo esse imbróglio envolvendo a Casa
dos Arcos, o que de fato esperamos é que as autoridades do município de Pedras
Grandes tomem medidas urgentes para evitar o que não desejamos que aconteça: a
destruição completa de um rico patrimônio arquitetônico centenário, repleto de
memória de gerações que tiveram as suas existências forjadas a partir desses
referenciais simbólicos. A perda de referenciais históricos por parte de uma
sociedade fragiliza a condição de sujeitos integrados, resistentes a qualquer
tipo de imposição verticalizada.
Prof. Jairo Cesa