O LAÇO/CHICOTE COMO REPRESENTAÇÃO
ARQUETÍPICA/SIMBÓLICA DE SÉCULOS DE OPRESSÃO

https://lemad.fflch.usp.br/node/5408
Nunca imaginei que, após quase
quarenta anos na profissão de professor de história, na qual sempre me opôs às
brutalidades cometidas por regimes sanguinários como o nazismo, o fascismo e a
escravidão, acabaria testemunhando cenas tão grotescas e repletas de
simbolismos nefastos, como as ações de uma deputada de Santa Catarina, reeleita
deputada federal nas eleições de 04 de outubro. A figura a qual me refiro é
Júlia Zanatta, que faz parte do espectro extremista do estado, tendo recebido
mais de 560 mil votos.
Um vídeo que circulou nas redes
sociais mostrava a deputada segurando um relho/chicote e caminhando por uma rua
em estado de agitação, acompanhada por seus apoiadores, enquanto proferia
palavras como “dando de relho”, referindo-se à impressionante quantidade de
votos que estava recebendo. É possível que uma parte significativa dos votos
que ela obteve tenha vindo de homens e mulheres de baixa renda, que talvez não
soubessem que essa mesma deputada havia votado dias antes contra eles,
especificamente contra a redução da jornada de trabalho de 6x1 para 5x2.
O uso do relho ou chicote durante sua
caminhada, batendo no chão, traz uma representação simbólica profunda,
remetendo a uma cultura supremacista, branca, que durante mais de três séculos
se apropriou do corpo de africanos, escravizando-os para gerar riqueza e poder.
Essa mesma deputada, que portava o relho, talvez inconscientemente carregue o
peso da dor transgeracional de seus antepassados europeus, que também foram
oprimidos por regimes sanguinários dos quais foram vítimas.
É ainda mais alarmante perceber que a
história, como ciência dos acontecimentos, que deveria ser um instrumento para
enterrar tragédias passadas a fim de que nunca mais se repetissem, não tem
alcançado esse objetivo, pois basta observar o cenário atual para ver que
comportamentos e fatos se assemelham ao final do século XIX, quando regimes
sanguinários estavam sendo formados na Europa.
Por que, de repente, comportamentos
de ódio e xenofobia são tão fortemente evidenciados? O que os poetas diziam
sobre o Brasil como um país ordeiro, pacífico e cordial revela-se como uma
antítese, uma sociedade moldada pelo ódio geracional. Mesmo após o fim da
escravidão, o Senhor da Casa Grande, hoje o “moderno sinhozinho”, continuou com
seu “chicote” ao alcance, arrancando do trabalhador/as seu sangue, suor e
dignidade.
É oportuno mencionar o filósofo
educador Paulo Freire, que afirma que o opressor é, na verdade, um sujeito
oprimido, e que para libertá-lo dessa condição, precisamos libertar a própria
humanidade. Em tempos difíceis como os atuais, considero que a história,
enquanto disciplina escolar e acadêmica, não dispõe de todos os instrumentos
teóricos e filosóficos necessários para explicar o que ocorre no Brasil e no
restante do mundo ocidental. É claro que as ciências sociais, particularmente a
sociologia, representam um campo de conhecimento relevante, mas ainda não são
suficientes para trazer explicações adequadas. Uma resposta viável para todo
esse turbilhão de tensões demanda a colaboração de diversas ciências: história,
sociologia, antropologia e, especialmente, psicanálise.
Sim, a psicanálise, a partir de
Freud, Carl Jung e seus discípulos, ao abordar os instintos de morte e
arquétipos, que são representações simbólicas do bem e do mal, sugere que os
indivíduos carregam inconscientemente o peso opressor de gerações. O laço/chicote
utilizado pela deputada catarinense se configura como um arquétipo que
simboliza o mal, respaldado por mais de 560 mil catarinenses que votaram nela,
indicando que, portanto, também são opressores e oprimidos. Cada um dos/as
eleitores/as tende a amenizar sua dor através de seu álter ego, que, nesse
caso, é a deputada.
No que tange aos instintos de morte,
essa representação arquetípica se manifesta por meio da exibição de armas ou
gestos manuais, como o ex-presidente Jair Bolsonaro costumava fazer ao defender
a liberação do porte de armas. Um vídeo que mostrava uma criança segurando uma
arma de fogo e dançando sobre um carro durante as comemorações dos resultados
eleitorais, possivelmente ligado ao partido do candidato a presidente, do PL,
também constitui uma representação arquetípica de poder, da virilidade masculina
e de um rito de passagem. O uso dessas representações, de forma inconsciente,
revela o lado obscuro da masculinidade, os recalques emocionais e a indefinição
da própria sexualidade.
Outro exemplo que traz essa
representação arquetípica negativa é de uma candidata eleita para a Assembleia
Legislativa de São Paulo, também do PL, que obteve cerca de 2 milhões de votos.
O que marcou sua campanha foram demandas polêmicas que não condizem com as
pautas convencionais de uma mulher brasileira, ainda mais sendo uma
parlamentar, que deveria primar pela ampliação dos direitos de igualdade e
empoderamento social do campo feminino. Uma mulher que é eleita defendendo
pautas antifeministas em um país onde a cada seis minutos ocorre um feminicídio
é uma clara demonstração de que mulheres também são vítimas passivas da
opressão. Portanto, oposição às demandas libertárias contribui para alimentar
vícios de domínio, arquétipos do mal, que vão se amalgamando no inconsciente
coletivo feminino.
Até então desconhecida, a candidata
que recebeu o maior número de votos em São Paulo rapidamente conseguiu angariar
uma infinidade de inimigos, especialmente mulheres, por suas posições
controversas em relação ao campo feminino. Um dos absurdos defendidos por ela é
a negação da própria existência do feminicídio como uma categoria específica de
crime. Observem o que essa pessoa acredita! Até pode, uma vez que se diz
seguidora do filósofo e escritor Olavo de Carvalho. Sim, ele mesmo, o guru do
conservadorismo e o guia intelectual de Jair Bolsonaro.
E não parou por aí a série de ações
da jovem deputada paulista que refletem suas opiniões e defesas, enaltecendo o
lema integralista/fascista de Deus, Pátria, Família e Liberdade. Para mostrar
que a sua mentalidade também está repleta de ódio, similar ao da deputada
catarinense, da tiara de flores e do chicote, fez, em maio de 2026, um
comentário em seu podcast Red/Cast, exaltando Deus por ter catequizado os
indígenas brasileiros. Além disso, associou os indígenas a práticas de
sacrifícios e canibalismo.
Não há como não incluir essa figura
na longa lista de danos causados por uma família e seus acéfalos, que se
espalharam como um vírus letal entre milhões de mentes vazias, fazendo-as
acreditar que a terra era plana. São essas pessoas que desejam governar o
Brasil!! Quatro anos de governo
Bolsonaro foram suficientes para evidenciar a incapacidade desse grupo de
administrar nossa querida e amada pátria brasileira. Precisamos lutar até o fim
para que esse mal não se repita.
Prof. Jairo Cesa