A GEOGRAFIA SERVE PARA FAZER A GUERRA
E DOMINAR TERRITÓRIOS
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Quando eu estava na universidade, nas
minhas aulas de geografia, tive a satisfação de ter contato com as magníficas obras do geógrafo marroquino Yves Lacoste, falecido no último mês de junho aos
97 anos de idade. Um dos livros de Lacoste, talvez o mais conhecido do público, cujo título é A Geografia, Isso Serve,
em Primeiro Lugar, Para Fazer a Guerra, mudou completamente o entendimento
dessa ciência, até então compreendida como área dedicada
quase que exclusiva para a descrição cartesiana do espaço geográfico.
Por muito tempo, Lacoste ficou um
tanto esquecido nos debates pedagógicos da geografia, talvez sua maior inserção se desse
nos espaços academias, seminários, congressos de geografia e ciências afins. A geografia, ensinada nas escolas nas décadas de 1970 e
1980, lembro que o maior êxito dos estudantes era poder transcrever mapas e suas legendas, fidedignamente aos originais. Refletir de forma crítica as interações envolvendo o relevo, a hidrografia, fauna/flora, o clima, os recursos
minerais etc., com a dinâmica antrópica, ainda é um dos principais desafios da geografia
Havia também o isolamento das ciências nos currículos das escolas, distribuídos de modo
compartimentados, desconexos da realidade dos ambientes onde os conteúdos eram aplicados. Agora, imagine o/a professor/a de geografia lecionando os fundamentos de cartografia, divisão territorial, população, aspectos
econômicos, recursos minerais, sem qualquer interação com o seu colega de
história, cuja incumbência é trazer à luz os impasses, as contradições
políticas, culturais, bem como as disputas geopolíticas regionais e globais.
São as recentes redefinições do mapeamento
geopolítico global que a obra de Lacoste, escrita na década de 1970, é
recuperada pelos estudiosos da geografia, sendo ferramenta teórica
necessária para entender como se dá a dinâmica dos territórios, sua mediação
com os sujeitos locais e além fronteiras. O conflito
envolvendo Ucrânia e Rússia, ultrapassa as fronteiras regionais, tendo o envolvimento direto e indireto da OTAN e potências imperialistas
interessadas na derrota de um ou de outro para ampliar sua influência
política e econômica sobre a região.
O uso de armas inteligentes como
misseis, drones, sua fabricação só foi possível com a extração e
beneficiamento de minerais raros e, por sua vez, muita pesquisa, muita ciência. A existência desses minerais, associados a outros não menos importantes, geralmente estão disponíveis em
territórios com baixos níveis de desenvolvimento, e governos assediados
a potencias globais. A América Latina é um bom exemplo para entender como a
geografia influenciou a sua dinâmica territorial, desde a ocupação
espanhola/portuguesa, aos nossos dias.
A própria estruturação dos governos
locais, alguns mais outros menos democráticos, ainda hoje sua eleição e permanência no cargo estão condicionados aquilo
que podem oferecer de vantagens ao império. Produção de commodities: petróleo, minérios, produtos
agropecuários, até mesmo água, madeira e outras infinidades de recursos, sempre
estiveram no radar das superpotências, porém, para manter o controle sobre as riquezas, é preciso subjugados, manipulando pleitos eleitorais, com a eleição
de governos vassalos.
O que acontece atualmente no Oriente Médio,
as guerras genocidas praticadas por Israel contra o povo Palestino, sua
necropolítica de decidir quem deve permanecer sobre os territórios são
fundamentadas em discursos equivocados sobre etnicidade. Usar como
justificativa injustificável à expansão das fronteiras do território judeu
os critérios étnicos, que resulta no extermínio deliberado de palestinos, é
compromisso da geografia/história, trazer tais demandas para o âmbito
escolar, e entender, que tais políticas de limpeza étnica fazem parte de um
projeto supremacista/fascista, global, alinhado ao neoliberalismo.
Prof. Jairo Cesa