sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 

MULHERES NA POLÍTICA: O QUE LEVAM "ELAS" ALIAR-SE ÀQUELES QUE HISTORICAMENTE AS TORTURAM

 

https://www.brasildefato.com.br/colunista/gleide-andrade/2026/01/14/a-violencia-politica-de-genero-como-estrategia-de-silenciamento-das-mulheres/#google_vignette

Transitando pelas ruas e avenidas de Criciúma me deparei com um cenário visualmente perturbador, dezenas, centenas de bandeiras de candidatos/as espalhadas nos canteiros, rótulas, onde o que mais refletia era poluição visual e mais nada. Prestando atenção nas bandeiras, números e siglas partidárias, o que chamou a atenção foi constatar que embora existissem diversidade de bandeiras, dois ou três candidatos/as de um mesmo partido ou do arco de alianças, dominavam o cenário. Claro que os destaques, são candidatos do campo conservador, vinculados ao mesmo partido do governador, que busca a reeleição no estado e do Flavio Bolsonaro, que busca à para presidente da república.

O que pouca gente sabe é que todo esse material de campanha, bandeiras, por exemplo, são financiadas com dinheiro público, recursos do fundo partidário. O PL, por exemplo, partido do governador do estado e do candidato a presidente da república, é o que recebe maior fatia do fundo, 881 milhões de reais, de um total de 4,9 bilhões de reais. É obvio que nem todos/as os candidatos/as dessa sigla recebem valores equivalentes, sempre privilegiando os/as que apresentam chances claras de vitória no pleito. Paradoxalmente, esses mesmos candidatos/as que se travestem de bons mocinhos/as, defensores da moral cristã, da família e de um Brasil melhor, nas assembleias legislativas ou no congresso nacional, sempre votam em projetos favoráveis aqueles/as que dominam, que exploram.

O que é mais horripilante é acompanhar a propaganda eleitoral na TV, assistindo mulheres candidatadas de partidos conservadores, com discursos defendendo demandas que tendem a torná-las mais submissas, mais violadas das suas condições de sujeitos da história. Mais bizarro ainda é a atitude de uma deputada, do PL, candidata à reeleição, que se traveste de “boa mocinha”, com discurso antifeminista, enaltecendo a família tradicional. Acreditem, essa mesma deputada, apresentou projeto de lei no qual assegura medida protetiva da lei Maria da Penha também aos homens que sofrem violência doméstica.

O mínimo que as mulheres que ascendem a política deveriam se incumbir, primeiro, jamais se filiar em partidos de vertentes conservadores, segundo, atuar no parlamento, nas três instâncias de poder, lutando incessantemente por mais direitos, como equidade salarial a dos homens. Defender pautas conservadoras, a família tradicional, por exemplo, é manter-se subordinada ao gênero masculino, pois o modelo da família brasileira, foi forjada sob o prisma do patriarcalismo, sendo a mulher, reduzida a condição de mera reprodutora, cuidadora dos filhos, do marido etc.  Atuar na política, nos negócios, até mesmo na universidade, era uma exceção no universo feminino.

O que dizer dessas mulheres que integram partidos, onde seus representantes máximos, homens, cometem uma série de atos agressivas contra o sexo feminino, a exemplo da misoginia. Quem lembra do ex-presidente da república, Jair Bolsonaro, quando ainda era deputado federal, agredindo uma deputada, afirmando que não a estupraria porque ela não merece. O caso mais recente, foi do atual governador do estado catarinense, Jorginho Melo, onde agrediu com palavrões uma representante indígena: “vai para a puta que pariu, e a senhora não quer ir à merda?

Autoridades que deveriam dar o exemplo de educação e civilidade, são os que mais infringem regras protocolares. O que é insano é perceber que são as mulheres os alvos prediletos dessas figuras escrotas. Não tem como explicar racionalmente o que motivam   mulheres a ingressarem na política, optando por partidos, que jamais proporcionarão condições para se libertar desse longo processo histórico de silenciamento. Incrível que as conquistas que asseguram as mulheres graus de liberdade e equidade, se deram recentemente, claro que com o apoio dos movimentos feministas, que, sem hesitar, enfrentaram a fúria repressiva de governos.

Se a explicação não é racional de as mulheres se aventurarem na política filiando-se a partidos conservadores, como explicar então? Claro que devemos buscar respostas no campo psicanalítico, transgeracional, sendo um processo que tem as suas raízes nas sociedades clássicas, a exemplo da Grécia antiga. Desde a antiguidade clássica, a mulher assumia um papel secundário no processo familiar. Portanto, se o esposo fosse para guerra, a esposa era que cuidava da casa, dos filhos. No instante que o filho homem saísse da adolescência, teria a incumbência de assumir as responsabilidades do lar, ficando a mãe sob sua tutela.

Na idade média, a Santa Inquisição, por exemplo, condenou à fogueira milhares de mulheres, sentenciadas por práticas de adultério ou outros crimes, como bruxaria e heresia, vistos como ameaças à ordem social, religiosa e patriarcal. Admitiam os clérigos e governantes na época, que atitudes desviantes às mulheres, ocorriam por estarem elas dominadas por forças demoníacas, sendo, portanto, a fogueira, o instrumento necessário para a “purificação” das suas almas.

Na idade moderna e contemporânea, em maior ou em menor grau, dependendo do nível de evolução de cada país ou região, era negada a mulher direitos elementares, como de votar e ser votada. Em sociedades escravocratas como a brasileira, o papel da mulher se resumia a objeto de procriação e afazes domésticos, exceto aquelas que se rebelavam, que eram taxadas pelas famílias e a sociedade como sujeitos com desvios de personalidade.

Chegar ao século XXI, carregando nos ombros enorme carga de culpa dos males da civilização ocidental, entrar na política seria o caminho estratégico para a redenção da mulher, a supressão dos muros, das barreiras sociais impostas pela sociedade patriarcal, machista, que as impede de empoderar-se como sujeito histórico. O que vemos, portanto, são mulheres realizando um brutal desserviço ao gênero feminino, talvez, impulsionadas, inconscientemente, pela sua própria história familiar, forjada em um ambiente de repressão e subjugação ao masculino.

Prof. Jairo Cesa      

           

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

A "INTERVENÇÃO DIVINA NO STF", O GOLPE DA TOGA

https://www.facebook.com/reel/1609198277524002


A poucos dias do primeiro turno do pleito eleitoral que deverá, a priori, levar para o segundo turno os candidatos Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL, o STF protagonizou um episódio inédito na história da República, interpretado como um golpe da alta corte. O caso se deu com a decisão do ministro, “terrivelmente evangélico”, André Mendonça, que tomou a decisão pelo afastamento preventivo do diretor geral da PF, cuja alegação foi ter produzido relatórios sigilosos, da atuação do magistrado e a do advogado-geral da União (AGU). O episódio que levou a dispensa do chefe da PF, que foi reintegrado ao cargo mais tarde, se caracterizou como um golpe, porque tal atitude deve partir de decisão da plenária do judiciário e não ato individualizado de um juiz.

De certo modo, a postura do ministro em criar o emblemático fato, que também envolveu o seu colega de toga, Alexandre de Moraes, tem a finalidade clara de produzir clima de confusão social e revolta a poucos dias da eleição. É preciso deixar bem claro que esse ministro foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que além de jurista é pastor evangélico. É nítido que, tomada a decisão que tomou o ministro Mendonça, o ato insólito reverberaria positivamente junto a militância e aos milhares de evangélicos que denotam apoio ao candidato da extrema direita.

É claro que ninguém impede que integrantes de órgão de tamanha relevância como o STF pratique uma religião, até mesmo ocupando o cargo de pastor ou quem sabe outra função litúrgica, porém, isso jamais deveria se mesclar com decisões tomadas frente ao cargo de ministro da Alta Corte. Uma sociedade como a brasileira, onde a religião perpassa os limites da própria constituição, que define a laicidade como regra pátria, ter um ministro terrivelmente evangélico, que nos cultos que ministra, admite ser o Messias, o enviado de Deus, é, sim, uma estratégia de induzir a população evangélica a votar no candidato da extrema direita.

Atitude como essa de um ministro, de se classificar como um escolhido dos céus, foi explorado no passado pelo ex-candidato e depois presidente, Jair Bolsonaro, que sempre usava como slogan de campanha a expressão:  “Brasil acima de tudo, deus acima de todos”. Não há dúvida que há um projeto “evangelistão” sendo incubado, basta prestar atenção na quantidade de igrejas neopentecostais instaladas nas cidades brasileiras. É assustador o número de fiéis que essas igrejas conseguem atrair durante os seus cultos, grande maioria impregnando aos seus fiéis, valores morais conservadores, fundamentados no slogan fascista, Deus, Pátria e Família.    

O que é verdadeiro no caso do STF, é que o circo está montado, com objetivo explícito de distrair a população. Fazer acreditar que o órgão está contaminado, que todos/as estão envolvidos/as, que é preciso suprimir o órgão, prender, impeachment, ou até mesmo uma intervenção golpista, a exemplo de 08 de janeiro de 2023. E isso jamais podermos admitir, não queremos retroceder décadas na nossa história, porque eleger Flavio Bolsonaro, é perder direitos sociais e humanos, é voltar a censura, a fome, a violência, o negacionismo, as fobias de gênero, o empobrecimento. Acredite, será o retorno da barbárie.

Fatos recentes e muitos que estão em evidência, mostram que o “ovo” do fascismo está prestes a descascar, isso se não enfrentarmos o monstro fascista, com todo o afinco no pleito do dia 04 de outubro. O 07 de setembro comemorado em Içara/SC, quando grupos de pessoas ligadas a uma igreja evangélica, desfilaram, transportando faixas com mensagens de cunho moralista, como, por exemplo, “casamento é monogâmico e Heterossexual”, infringe princípios constitucionais de liberdade de gênero. Outro caso que merece atenção redobrada foi a agressão contra a candidata a suplente de senadora, pelo PT, por parte da polícia militar do estado em Jaraguá do Sul/SC. Tanto o insólito ato do desfile no dia 07/09, quanto a agressão recebida pela candidata a suplente de senado, em Jaraguá do Sul, ambos refletem o comportamento da sociedade brasileira, forjada pela barbárie de um patriarcalismo escravista ainda latente no imaginário coletivo.  

Se a credibilidade da população brasileira em relação a política já era pífia, agora com esses escândalos envolvendo integrantes da Alta Corte, o cenário ficou pior ainda. Quem ganha com isso são os políticos oportunistas, ditos “não tradicionais”, que apostam as fichas na aquisição desses votos e na vitória. É sabido que a extrema direita também aposta as fichas na eleição do máximo possível de congressistas, dos quais proporcionarão a uma revisão ou construção de uma nova constitucional, com a supressão de direitos aos trabalhadores.

O momento que seria para debater demandas importantes para a sociedade, como saúde, segurança, educação, meio ambiente, os/as candidatos/as e a própria sociedade, estão envoltos ao que está orbitando no STF, atolado por denúncias de corrupção e desvio de conduta de alguns dos seus membros. Enquanto a população concentra o foco das atenções sobre o supremo tribunal federal, que se transformou num ringue político, a crise ambiental deixa de ser discutida, bem como a educação. É tão sério esse desinteresse em discutir temas tão relevantes, como educação pública, que pouca gente sabe que permaneceremos nas últimas posições no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA).

Dos 91 países avaliados e que integram a OCDA, o Brasil ficou na 67ª posição geral. Porém, os resultados foram mais decepcionantes em matemática, alcançando a 71ª posição. Já em literatura, obteve a 52ª posição; e ciências, a 67ª, atrás de países como o Uruguai, Chile, México, Costa Rica, Peru, Colômbia. Esses números explicam por que elegemos candidatos que, na câmara, na assembleia e no congresso, procuram esfolar os trabalhadores.  Portanto, temos que ter lucidez, mesmo aqueles que não gostam do candidato Lula, devem ter clareza que o que está em jogo é a civilização, e que votar na extrema direita é optar pela barbárie.   

Prof. Jairo Cesa                             

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 

A REPÚBLICA BRASILEIRA MAIS UMA VEZ AMEAÇADA PELOS TIRANOS FASCISTAS DE PLANTÃO

https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/ato-da-direita-na-av-paulista-tem-boneco-gigante-de-trump-levantando-lula/


Mais do que nunca, a história que deveria ser uma das ciências mais respeitadas, com profissionais altamente habilitados e críticos nas escolas brasileiras ainda é renegada a disciplina de segundo plano. Se fosse considerada como área de conhecimento estratégica, com se busca com a matemática e língua portuguesa, talvez não repetiríamos erros absurdos como a ascensão de regimes tiranos e pessoas sem qualquer histórico público, verdadeiros paraquedistas, oportunistas, erroneamente apelidados como salvadores da pátria. Olha que foram muitos que passaram por nós desde a redemocratização, começando com Collor de Mello, eleito e suprimido do cargo de presidente em 1992, a Augusto Cury, que tenta galgar o cargo máximo da República, apostando na fragilidade das instituições e na ignorância funcional de milhões de brasileiros.

Deixar claro que a ignorância funcional é uma ferida social ainda não cicatrizada da nossa triste história, forjada por um projeto de sociedade pensada a partir da exploração dos recursos naturais por meio da força de trabalho cativa. Até hoje é discurso quase consensual, como um país tão grande e tão rico em recursos naturais, consegue ser tão atrasado culturalmente, a ponto de eleger tantos algozes, verdadeiros tiranos, mal caráter, sanguessugas do dinheiro público.   Mais uma vez, repito, a história tenta explicar essas contradições sociais, porém, infelizmente, essa ferida social insiste em não cicatrizar, como de muitos erros recorrentes na condução da nossa política.

Às vésperas de mais um pleito, que parece será decidido entre dois candidatos de correntes ideológicas distintas, fatos polêmicos vem a público mostrando membros do STF beneficiados em esquema de corrupção do Banco Master. Claro que gera preocupação, até mesmo dúvidas acerca do modo como essa instituição atuou e vem atuando no arbitramento de casos polêmicos, onde, quem julga ou julgou, não está ou esteve isento de imparcialidade. Entretanto, não me sinto surpreso ouvindo notícias do envolvimento de membros da alta corte do judiciário em tramas políticos, ferindo frontalmente a constituição. fato é que no consciente coletivo o que sobressai é a certeza que tudo é permitido em terras onde o dinheiro e o poder são verdadeiros mediadores dos limites daqueles que mandam e obedecem.

O que temos desenhado no nosso imaginário coletivo é o conceito de uma sociedade primada pelos princípios do republicanismo positivista, calcada na Liberdade, na fraternidade e na igualdade. São esses os arquétipos que norteiam as regras do jogo do processo político de todas as repúblicas ocidentais burguesas, porém, muitas delas, a exemplo do Brasil, mesmo com esses lemas emoldurando as constituições, elas se revelam para expressiva parcela da população como letras mortas, validadas somente para ritos solenes. A separação dos poderes em executivo, legislativo e judiciário, é o que de mais avançado alcançaram as repúblicas pós-revolução francesa, uma forma de ordenamento institucional, cujo Estado, presidencialista ou parlamentarista, são os agentes condutores legais reconhecidos.

Porém, mesmo com todo o ordenamento jurídico esboçado em suas cartas constitucionais, no dia a dia das sociedades dos países que transitaram tardiamente da monarquia escravista para a república, a exemplo do Brasil, o que prevaleceu mesmo foi o tradicional mandonismo das elites, forjado por trocas de favores, protegidas pelas togas do judiciário e a bênção sagrada de membros da santa igreja católica. Não precisamos buscar em bibliografias de historiadores renomados, fatos que reúnem combinações espúrias, de um republicanismo às avessas, tangenciado por disputas eleitorais fraticidas, onde o que menos interessava era o respeito tácito aos ritos regimentais, constitucionais. Para a época em destaque ou qualquer época, o que valia ou vale mesmo era ou é o dito popular: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Todo esse jogo de cena, de um republicanismo contagiado pelo manto da toga, pela batina do clérigo, pelo "curral", pela eleição bico de pena, tudo isso acontecia aqui mesmo, em Araranguá, que ainda hoje, em maior ou menor proporção, vem se repetindo nos pleitos eleitorais. Tanto Araranguá, como o Brasil num todo, a população começava respirar ares de liberdade, igualdade e fraternidade, princípios esses esboçados na bandeira nacional, com o lema Ordem e Progresso. Jamais o republicanismo assegurou a toda a sociedade o que fora esboçado nos inúmeros artigos, parágrafos e incisos, tanto da primeira constituição de 1891, quanto nas demais, redigidas por "representantes" do povo, eleitos “democraticamente”.

Não garantiu e jamais garantirá o que apregoa, pelo fato de a constituição, embora alguns de seus artigos afirmam de modo explícito que somos iguais perante a lei, porém, quando nos confrontamos com a realidade, nos convencemos que alguns são mais iguais que outros. São esses paradoxos que mantem intactos os sistemas de classes, de um lado, a elite, que manda, que controla as leis e as demais estruturas do estado, do outro lado, o grosso da sociedade, que é manipulada, que pensa com a cabeça daqueles que a exploram, a elite burguesa.

O que a república propunha à sociedade quando da sua proclamação em 1889 jamais se confirmou até o momento. Nem mesmo houve o amadurecimento tácito da sua estrutura organizacional, ou seja, a separação dos poderes como forma de assegurar o mínimo de imparcialidade e legitimidade institucional. O sistema político, portanto, se mantém tão frágil que o próprio conceito de Estado laico ainda confunde legisladores, acreditando ser natural existir crucifixos fixados nas paredes das casas legislativas.

Nas sociedades latino-americanas, de colonização europeia, cuja economia foi forjada com mão de obra escrava, foram poucas que com a independência, e posteriormente, com a república, impediram ações golpistas, ou seja, ataques contra a república e que fez ascender regimes autoritários.  O Brasil viveu essa experiência golpista por vinte anos, de 1964 a 1984. Entretanto, com a nova república, viveu um golpe branco em 2016, com o impeachment de Presidente Dilma Rousseff; e a tentativa de golpe em 08 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram a sede dos três poderes em Brasília, para impedir a posse do presidente eleito, Lula.

As vésperas de mais uma eleição, em outubro de 2026, o cenário político se mostra um tanto conturbado, porque diante da possibilidade de vitória do presidente Lula, a quarta, no seu currículo, a extrema direita e seus milhares de apoiadores, buscam articular um ambiente de instabilidade institucional envolvendo o STF. O imbróglio agora coloca no centro das atenções integrantes do STF, suspeitos de ligação com o proprietário do banco Master. Isso tudo a menos de 30 dias do primeiro turno da eleição, criando possibilidades de termos um pleito eleitoral conturbado, elevando o risco de, hipoteticamente Lula vencer as eleições, atos golpistas virem a se repetir como em 2023.

As denúncias de suspeitas de envolvimento do ministro Moraes com o esquema do banco Master, com pedidos até de impeachment por parlamentares de extrema direita, se mostra como sendo uma armadilha para golpear a possível eleição de Lula. Sendo Alexandre de Moraes uma personalidade chave na preservação dos preceitos republicanos nas eleições de 2022, sendo agora um dos pivôs do imbróglio no judiciário, pode confundir os eleitores, a ponto de acreditarem de estar Lula no centro dessa maracutaia.

Se o judiciário expôs suas fissuras históricas, que não é exceção desse poder, alcançando o legislativo e o executivo, o modo como foi escancarado, envolvendo dois magistrados de vertentes políticas distintas, fatos como esse devem ser interpretados com certa precaução, pois há nítidos interesses eleitorais implícitos no caso. Se a postura do ministro Alexandre de Moraes, foi decisiva na prisão dos inúmeros envolvidos na tentativa de golpe de 08 de janeiro de 2023, inseri-lo agora nesse abacaxi do banco Master, é fomentar no imaginário coletivo o sentimento de um judiciário completamente falido, sem qualquer legitimidade, portanto, passa a visão de uma república sem legitimidade, prestes a ser golpeada pelos tiranos fascistas de plantão.

Prof. Jairo Cesa

           

                                      

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

TRAGÉDIA CLIMÁTICA NO NEPAL SERVE PARA REFLETIR SOBRE A EFETIVIDADE DOS PLANOS DE CONTINGÊNCIAS A DESASTRES AMBIENTAIS EM SANTA CATARINA

https://tadeusantos.blogspot.com/2011/12/furacao-catarina-e-o.html


Quando assisti as impressionantes cenas das avalanches que devastaram territórios inteiros no Nepal, provocando centenas de mortes, desaparecidos, e prejuízos bilionários à infraestrutura, na hora veio ao pensamento o episódio climático semelhante ocorrido no Timbé do Sul/SC, em dezembro de 1995. Claro que aqui foi em menor proporção, porém, o fato ocorrido no país do Himalaia, deve, necessariamente, servir de alerta às autoridades locais, porque nos trinta anos pós avalanche no Timbé, a temperatura média do planeta vem tendo elevação progressiva, com recordes sucessivos de calor a cada verão. Nos vários sites disponíveis na internet que reportaram o ocorrido no Nepal, é quase unânime os relatos, que a avalanche, composta de gelo derretido, rochas e lama, tenha relação com o aquecimento global.

É possível também que o Super El Nino também tenha contribuído com o desastre, com o aumento das precipitações, ainda mais porque aquela região está atualmente sob a influência das monções. As enxurradas históricas no Rio Grande do Sul em 2024, que insiste em repetir, em menor proporção no estado gaúcho catarinense desde então, não podem ser interpretadas como eventos climáticos isolados ao aumento da temperatura do planeta. É possível que foram inexpressivas as ações tomadas pelas autoridades do RS, com vistas a ações preventivas a desastres climáticos futuros. Uma das ações seria estimular os municípios a reelaborarem os seus planos diretores, inserindo dispositivos direcionados a adaptação climática local.    

Penso que o negacionismo climático ainda perpetua nas mentes de inúmeros gestores públicos, que devem compartilhar com o mesmo pensamento do candidato extremista a presidente, onde afirma que os episódios climáticos extremos, são ciclos naturais, que não tem relação com o que os cientistas apregoam, que o planeta passa por uma emergência climática. Com base nessa opinião, de negar o que afirma a ciência acerca do aquecimento global, e de não constar no seu plano de governo demandas relativas as adaptações climáticas, o candidato a presidente pelo PL, se eleito for, poderá estar colocando de vez o povo brasileiro em um terrível abismo climático, em especial os estados do sul, os mais impactados pelos atuais episódios climáticos extremos.

Se o sul do Brasil, cujos estados são os mais afetados por tragédias climáticas, onde parte da população comunga com o que pensam políticos negacionistas, é previsível que, em um cenário trágico de derrota da democracia, as legislações que asseguram o mínimo de proteção aos ecossistemas, como a lei da mata atlântica, serão violentamente atacadas.  Graças ao uso de imagens de satélite, os percentuais de desmatamentos em 2025 tiveram ligeira redução, segundo relatório apresentado pelo MapaBiomas.

Derrotar o candidato da extrema direita nas eleições de outubro próximo é uma questão de prioridade das prioridades à segurança ambiental nacional, sem contar outros demandas que poderão sofrer retrocessos irreversíveis. Por que dou destaque a seguridade ambiental nacional? A resposta parece óbvia para aqueles que acompanharam a entrevista do candidato Flávio Bolsonaro, no Jornal Nacional, quando afirmou não acreditar nas mudanças climáticas em curso. Sua postura negacionista, se assemelha a do ex-presidente Bolsonaro, seu pai, hoje prisioneiro, que governou o Brasil de 2019 a 2023.

Olha o absurdo dos absurdos, respondeu durante a entrevista, ou por desconhecimento ou por atitude de deboche aos entrevistadores, que para solucionar o problema do aquecimento global, dará maior atenção ao saneamento básico, com a expansão das redes de esgotamento sanitário. Resposta essa que não tem relação direta com o que determina o Acordo de Páris. É, sim, desmontar completamente todo o arcabouço ambiental já existente no Brasil, seguindo o caminho do presidente dos Estados Unidos, que decidiu abandonar os acordos assinados sobre o combate ao aquecimento global.

Quando afirmamos que os desastres climáticos no sul do Brasil têm se intensificado, o aumento dos desmatamentos de 2019 até 2022, durante os governos Temer e Bolsonaro, deve ser visto como um dos inúmeros gatilhos às enxurradas que devastaram cidades inteiras e a infraestrutura do estado. Como não lembrar a fala criminosa do ex-ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, quem em 2020, no governo de Bolsonaro, afirmou em reunião de ministros, que era necessário passar a boiada, ou seja, destruir ou fragilizar as legislações de proteção às florestas.

É quase certo que a fala do ministro teve influência direta no crescimento vertiginoso dos desmatamentos no estado de Santa Catarina, pois, de 2019 para 2020, houve perda de cobertura vegetal superior a 200%, passando de 508,1 hectares, registrado em 2019, para 1.755,62, em 2020. A ação dos desmatadores continuou nos dois anos subsequentes, em 2021, foi de 1.467,16 hectares, e em 2022, acredito que deve ter sido o ano mais devastador da história de Santa Catarina, com 2.309,56 ha. Essa tragédia só não teve continuidade porque o presidente que protagonizou esse cenário devastador foi contido na eleição de 2022, com a eleição do candidato Lula, do PT.  

O cenário de desmatamento no estado do RS, seguiu o mesmo ritmo ao de Santa Catarina, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.  É claro que seguem a lógica geral do restante do Brasil, porém, no Sul, teve um ingrediente a mais, grande concentração de simpatizantes, apoiadores das políticas extremistas do antigo governo, Jair Bolsonaro, que tem agora como candidato à presidente no pleito de outubro próximo, o seu filho, Flávio Bolsonaro.  

Votar no candidato que afirma não ter os episódios climáticos extremos qualquer relação com as mudanças climáticas globais, é como cavar mais sepulturas aos mortos advindos das futuras tragédias climáticas que tenderão a se intensificar com o retorno dos desmatamentos criminosos. Vale destacar que sendo maior a homogeneidade da cobertura florestal de um território menor serão seus impactos nos rios, em decorrência dos assoreamentos. Nos últimos 38 anos, o território brasileiro teve a sua floresta nativa fragmentada de 2.7 milhões de hectares, para 7.1 milhões de hectares, ou seja, um aumento de 163%.  Em 1986, o tamanho de um fragmento de floresta que era de 241 há, estava reduzido para 77 ha em 2023. Fragmentos de florestas ocorre quando, por exemplo, uma área de 100 ha, fracionada em 10 pedações, ou 100, de 1ha cada.

Já que o código florestal determina a manutenção de 20% da reserva legal no bioma da mata atlântica, a cultura de arroz que esteve em franca ascensão, somada a baixa fiscalização, permitiu que áreas de mata nativa no extremo sul fosse fragmentada. Imagem de satélite do extremo sul de Santa Catarina, revela cenário quase completamente descoberto por florestas. O mais impactante é os afluentes e subafluentes do rio Araranguá, cuja mata ciliar não atende as medidas mínimas de proteção estabelecidas pelo Código Florestal. Menor cobertura florestal e redução da mata ciliar, são dois vetores às incidências de enchentes na área que congrega a bacia do rio Araranguá.

Outra reflexão necessária, há possibilidades de evento climático extremo semelhante ao que devastou comunidades no município de Timbé do Sul e Jacinto Machado? Lembro que algumas semanas depois da avalanche no Timbé do Sul, tivemos a visita de um professor de uma universidade da Inglaterra, onde realizou um tour nos locais afetados pelo desastre climático. Ficou impressionado com o que viu e alertou que toda a encosta da serra geral no extremo sul se apresentava suscetível a ocorrência de episódios extremos e de elevado risco a população que habita as encostas.

Durante as várias audiências e reuniões para discutir a construção da polêmica barragem no Rio do Salto, no Timbé do Sul, cuja alegação é fornecer água à população e para a irrigação agrícola, o professor de UFSC, Luiz Fernando Sheibe, fez algumas reflexões sobre os riscos de barragens em locais suscetíveis a cabeças d’água, enxurradas, como no trecho sul das encostas da serra geral. Na hipótese de uma obra de tamanha complexidade, se faz necessário a elaboração de planos de contingências rigorosos.

É o caso da barragem do rio São Bento, em Siderópolis, que abastece municípios da região, havendo uma enxurrada na mesma proporção a de Timbé do Sul, teria algum risco de vir a colapsar? Penso que governos como o atual em Santa Catarina, que comunga com o que acredita o seu candidato a presidente, Flávio Bolsonaro, de negar o aquecimento global, é possível que as políticas de contingências às tragédias climáticas no estado estão aquém do recomendado pelas autoridades do assunto.

Prof. Jairo Cesa        

 

 https://datastudio.google.com/reporting/578d1b52-c77b-450e-bb0f-c5c8b72f7bbf/page/p_imumkip73d     

https://brasil.mapbiomas.org/fragmentacao-da-vegetacao-nativa-no-brasil-cresceu-260-em-38-anos/

https://plataforma.alerta.mapbiomas.org/mapa?monthRange[0]=2019-01&monthRange[1]=2026-06&sources[0]=All&territoryType=all&authorization=all&embargoed=all&embargoedAlerta=all&embargoedRuralProperty=all&locationType=alert_code&activeBaseMap=1&map=-14.288794%2C-54.289764%2C4

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

PARÓQUIA SÃO BOM JESUS DO SOCORRO - PESCARIA BRAVA: O QUE UM TEMPLO SECULAR PODE NOS REVELAR DA HISTÓRIA DO SUL DE SANTA CATARINA

Foto - Jairo


No imaginário coletivo catarinense quando o assunto igrejas centenárias com arquitetura barroca e outros estilos requintados são comentados, de imediato o que vem a mente são as edificações famosas, em Minas Gerais e Bahia, não é mesmo? Acredite, Santa Catarina, não perde em nada para estados do sudeste e nordeste em igrejas antigas, de estilos arrojados, erguidas também com mão de obra escrava, das quais refletem estreitos laços políticos entre famílias abastadas e o clero católico. As mais conhecidas, pela sua antiguidade, estão situadas na faixa costeira do estado, com destaque a igreja de nossa senhora da graça, no município de São Francisco do Sul, datada de 1655.

Embora esses magníficos templos católicos tenham forte representatividade religiosa e simbólica à fé dos praticantes, o que caracteriza essas construções são os baixos níveis de conservação, tanto da estrutura física, quanto dos equipamentos internos, altares, estantes, estatuas de santos, sinos, entre outros. Para os historiadores apaixonados por igrejas antigas, casarios centenários, o município de Laguna oferece o que tem de mais requintado nesse campo, realçando um cenário de modernidade, forjado por uma forte atividade agrícola e comercial, que teve o porto como maior difusor dessas atividades.

Por ter Laguna surgido a partir da Capitania de SantAna, depois Santo Antônio dos Anjos de Laguna. Sua expansão territorial alcançou os limites com o atual Rio grande do Sul, tanto ao sul quanto ao oeste. Nessas extensas áreas, integradas ao município de Laguna, alguns povoados tornaram-se mais tarde importantes municípios, como Araranguá, Tubarão, Criciúma, esse último, emancipado de Araranguá. Todos, sem exceção, tiveram a sua existência forjadas a partir da instalação de uma igreja/paróquia, com atribuições que ultrapassavam os serviços eclesiásticos, assumindo funções civis:  recenciamentos, registros civis, tabelionatos, etc.    

Araranguá, o município se constituiu com a instalação da Paroquia Nossa Senhora Mãe dos Homens, em 04 de maio de 1848. A primeira igreja, edificada com madeira e com formato arquitetônico simples, deu lugar mais tarde uma mais imponente, de alvenaria, que foi inaugurada em 1902. Na década de 1950, nova igreja foi erguida, pois a anterior não comportava mais o aumento de fiéis que havia crescido exponencialmente. O projeto da nova edificação, constou uma imponente torre, traduzindo em símbolo de fé e representatividade histórica à memória da população do Sul de Santa Catarina.




Atualmente a paróquia/santuário passa por um impasse.  Por necessitar de reparos emergenciais em sua estrutura, principalmente na fachada, o clérigo apresentou projeto que gerou um certo estranhamento/revolta por parte expressiva da população, que é a substituição da torre principal, por duas menores, que descaracterizaria por completo toda a estética original.  Essa postura um tanto inusitada do clero de querer descaracterizar um dos principais símbolos do sul catarinense, fez com que um grupo contrário as mudanças da fachada da igreja, protocolasse no MPSC, ação civil, impedindo o clérigo de cometer crime patrimonial.



O que aguçou mais a revolta do grupo defensor da memória religiosa, foi saber que levas de cidadãos comungam com a ideia do alto clero, com argumentos espúrios, como acreditar que uma “igreja nova”, com traços modernos, engrandecerá os munícipes. Enquanto isso, a paróquia/santuário, quase centenária, sofre as investidas do tempo, com riscos óbvios de a fachada vir a colapsar.

Afinal, será por qual motivo faço esses relatos acerca da igreja de Araranguá, edificação que está no centro de um imbróglio político/jurídico, em decorrência de interesses do clero de querer alterar sua estética original. A resposta se deve a um passeio nesse último final de semana, 23/08, ao município de Pescaria Brava, onde existe uma singular igreja, cujo padroeiro é Bom Jesus do Socorro. O que chamou a atenção foi data de edificação, 1857, muito próxima a data de instalação da paróquia em Araranguá. 

O que diferencia uma da outra, é a estrutura arquitetônica, pois lá, Pescaria Brava, foi erguida com pedra, areia e óleo de baleia; sendo aqui, com modestas tábuas. A impressão deixada pela opulência da edificação, acredita-se que que possa ser da existência de famílias com elevado poder aquisitivo naquele povoado na metade do século XIX. Lendo algumas reportagens sobre a igreja, sua construção teve a participação de escravos, que retiraram pedras de uma pedreira, de uma ilha localizada na Lagoa Imaruí, e as transportavam em canoas até onde seria construída a igreja.

É possível que a obra tenha exigido expressivo número de trabalhadores, levando alguns anos para ser concluída. Nas várias investidas que fiz a internet, não encontrei pesquisa, TCC, dissertação etc., das quais pudessem revelar fatos sobre a construção da igreja. Respondeu um integrante do grupo de WhatsApp, História de Sta. Catarina, que: “essa região é muito pobre em trabalhos de credibilidade”. Como sugestão, recomendaram que fosse pesquisada obras escritas por sacerdotes, como o Pe. Auricélio, Imaruí do Senhor dos Passos; o Padre José Artulino Bezen, História de Nossa Sra. do Desterro; Walter Piazza, A Igreja em Santa Catarina; Mons. Frederico Hobold, “Anuário Eclesiástico da Arquidiocese de Florianópolis – 1951; Pe. Claudino Biff, “Crônicas da Diocese de Tubarão.

Parece unanimidade, o que temos de fontes disponíveis de fontes que dissertam sobre a história de muitos municípios antigos do estado foram escritas por padres. São verdadeiros compêndios, recheados de datas e fatos, carentes de aprofundamento historiográfico. Segundo relatos de quem postou a lista com nomes de autores de obras escritas, é possível que seja encontrado nessas obras informações relativas a igreja erguida em Pescaria Brava.

De certo modo, sim. Um recorte tirado do livro Crônicas da Diocese de Tubarão, escrito por Claudino Biff, com o tema Pescaria Brava, Padroeiro Senhor Bom Jesus do Socorro – Fundação 15/05/1857 p. 188 e 189, traz algumas curiosidades relativas a essa igreja que vale a pena destacar. De fato, a paróquia foi criada por Decreto provincial n. 437, de 15/05/1857, tendo como primeiro vigário Pe. João Mattos da Cunha. Escreveu Biff, que o padre era político e revolucionário, que seus inimigos políticos armaram emboscada para matá-lo, que se salvou fugindo do povoado a cavalo.

Além da imagem do Senhor do Bom Jesus do Socorro, Biff descreve que há outras imagens de santos, como do Senhor do Bom Fim, e de N. Senhora das Dores, que são obras de valor inestimável. Na igreja, “há um cristo crucificado em tamanho real, de perfeita anatomia, um dos mais belos e perfeitos que se tem notícia em Santa Catarina”.

Foto - Jairo

Foto - Jairo




No livro de Biff, também está registrado que o Pe. Dr. Itamar Luiz da Costa, que era vigário de Imaruí, fundou uma biblioteca em Pescaria Brava, casa canônica e um riquíssimo museu. No museu guardava preciosos objetos sacros de toda a zona da lagoa do Imaruí. Os objetos eram inúmeros oratórios, correntes e medalhas de ouro pertencentes à Virgem das Dores. Relatou Biff, que o Pe. de Souza Ávila, com a pretensão de restaurar a casa paroquial, vendeu o que de melhor havia no museu.

Como já havia relatado acima, afirmando que no povoado de Pescaria Brava residiam famílias abastadas, e cuja igreja construída, de requintada arquitetura barroca, era a representatividade simbólica dessa condição, os fatos descritos por Biff, sobre a igreja do respectivo povoado, corrobora com tal certeza. O que é preocupante é que mesmo com todas as peculiaridades atribuídas a uma edificação de imensurável riqueza histórica e simbólica, quem adentra as suas dependências ou caminha ao seu redor, vai perceber o imenso abandono, pois há nítidas mostras de depreciação, que tentarei aqui destacá-las.

Foto - Jairo


O telhado, há grande acúmulo de mato, onde revela que faz anos que não passou por faxina. A própria tinta, da parede externa, está completamente desgastada pelo tempo. Já na parte interno, talvez os desatentos não identifiquem os defeitos de imediato, pelo fato de os olhos fitarem de imediato o altar com as várias imagens de santos. Imagino que todas foram esculpidas em madeira, principalmente, a imagem da padroeira do município, Senhor Bom Jesus do Socorro. Mas, é no segundo piso da igreja que esconde os graves problemas, alguns exigindo reparos imediatos, como das infiltrações que estão comprometendo as paredes, havendo ali um enorme acúmulo de fungo.

Foto - Jairo


Foto - Jairo




Quem fez questão me guiar para conhecer e conferir os problemas foi um cidadão da comunidade que estava visitando a igreja. Notei no seu semblante certa angústia, como se estivesse pedindo socorro para que fosse salva aquela edificação. Me confessou que quando criança havia sido coroinha naquela igreja. Me mostrou, com orgulho, os três sinos instalados, que foram fundidos em Portugal, na cidade de Braga, em 1878. Notei que a estrutura dos sinos estava em processo avançado de corrosão. Acima dos sinos, estava uma das cúpulas, construída com tijolos maciços sobrepostos. É possível haver problemas sérios em toda a fiação, com riscos evidentes ocorrência de curto-circuito.

Foto - Jairo


Foto - Jairo


Foto- Jairo


Acreditando já ter finalizado o tour pelas dependências da igreja, o cidadão, que me guiava, fez questão que eu fosse conhecer os bastidores do altar, onde geralmente os sacerdotes e sua equipe se preparam para os ritos ou guardam equipamentos litúrgicos. O que vi foram estantes e apetrechos amontoados, mostrando completo abandono. Entretanto, meu olhar foi direcionado a parede que sustenta o altar, construída com madeiras, possivelmente ainda originais. A ação dos cupins é notada nesse ambiente como em outros compartimentos da igreja.

Foto - Jairo


Nas buscas que fiz a internet para saber mais acerca da paróquia de Pescaria Brava, encontrei alguns sites que informava haver projeto para a restauração da igreja, datado em 2025. O que me deixou mais aliviado foi saber que essa edificação foi tombada pelo patrimônio na década de 1990. Isso significa dizer que os reparos devem seguir critérios protocolares da instituição que tem poderes sobre a edificação.  Em reportagem publicada em janeiro de 2025, no site HC notícias, lá consta que a prefeitura de Pescaria Brava busca apoio para restaurar o templo. Consta também na reportagem que a prefeitura se reuniu com integrantes da Fundação Catarinense de Cultura – FCC, cuja intenção era viabilizar apoio ao projeto de restauração. Em resposta, a FCC indicou que o Edital Elisabete Anderle, de Estímulo à Cultura 2025, é a alternativa mais viável para auxiliar no custeio do projeto.

Prof. Jairo Cesa                            

https://ndmais.com.br/turismo/igreja-mais-300-anos-restauracao-sul-sc/

https://agorapescaria.com.br/2026/08/pescaria-brava-tem-uma-das-igrejas-mais-antigas-de-sc/

http://www.pescariabrava.com.br/igreja.htm

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

 

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL VERSUS PLATAFORMIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO: PROFESSORES/AS COMO  EXECUTORES/AS DE METAS PADRONIZADAS

 

https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/1908

Em tempos de transformações tecnológicas, onde a inteligência artificial se torna cada vez mais presente no cotidiano das salas de aula e na vida de bilhões de pessoas, o programa Roda Vida, da TV Cultura, trouxe para o centro do debate, o educador, pesquisador e professor da Universidade da Columbia, EUA, Paulo Blikstein. As questões e reflexões abordadas sobre o tema, exibiu um abismo abissal, estrutural, teórico metodológico, envolvendo as escolas, públicas, em especial, acerca das ferramentas disponíveis.

Há um discurso consensual advindo do setor empresarial vinculado ao mercado da tecnologia, que tenta creditar à educação brasileira como sendo uma estrutura falida. Claro que é um erro absurdo pensar assim, porque diariamente mais de 2 milhões de professores transitam em 180 mil escolas espalhadas por todos os cantos, que embora envolvidas em problemas estruturais e pedagógicas, esses profissionais conseguem arrancar resultados satisfatórios no campo   da aprendizagem. De fato, é um discurso carregado de preconceitos, com propósitos de culpar o/a professor/a pelas falhas no ensino, e que para consertar é necessário suprir as escolas com tecnologias.

É claro que os problemas do ensino não serão solucionados inundando as escolas com tablets, computadores de última geração, se o/a professor/a não sabe ou não consegue usá-los por ter uma sobrecarga de atividades a serem cumpridas. A tecnologia, portanto, deve ser concebida como ferramenta de suporte nas escolas, auxiliar os/as estudantes no desenvolvimento de projetos, aguçando-o/a a criatividade.

Não é exatamente o que acontece nas escolas, porque existe um distanciamento, ou melhor, um estranhamento entre a realidade da escola pública e o mundo real. Temos unidades de ensino com currículos embasados em teorias de caráter funcional/positivista, contrapondo com estudantes cujos campos de visão são forjados por redes digitais. Já era tempo da inserção das tecnologias nos currículos, algo intrínseco ao processo de aprendizagem, onde todos tivessem fluência, criando coisas novas, úteis à melhoria das condições de vida na qual os estudantes estão inseridos.

É exatamente aqui que entra Paulo Freire, o grande herói da educação, tão desprestigiado, até mesmo demonizado pelas acéfalas elites entreguistas brasileiras. Sim, o educador Paulo Freire, autor de memoráveis obras, a exemplo do livro, Pedagogia do Oprimido. Acredite, Paulo Freire é considerado o terceiro indivíduo mais influente do planeta, estando atrás de Karl Marx e Michael Foucault.  Quando desenvolveu a experiência de alfabetizar 300 indivíduos em 40 horas, na cidade Angicos, Rio Grande do Norte, na década de 60, o Jornal New York Times, publicou artigo divulgando tal proeza, que se tornaria um modelo para a educação no mundo todo.[1]

Ao mesmo tempo em que as elites brasileiras demonizam Freire, alegando que sua proposta de ensino busca ideologizar as crianças, ou seja, transformá-las em comunistas, as escolas das quais estudam os filhos das elites paulistas e de outras partes do Brasil, adotam o método Paulo Freire no processo de aprendizagem. Como assim? Que contrassenso é esse? Na medida que as escolas públicas se mantem reféns em métodos e programas ainda tradicionais de ensino, como a memorização, a reprodução de conhecimentos, as escolas das quais estudam os filhos das elites, aprendem por meio de projetos. Nessas instituições existem os espaços makers (faça você mesmo) que são oficinas de artes, de música, laboratórios de ciências etc., onde os estudantes podem realizar suas paixões.             

É óbvio que as elites sabem do quanto é eficiente o método de ensino criado por Paulo freire. Isso explica o motivo pelo qual as reformas educacionais ocorridas no Brasil, especialmente do ensino médio, em momento algum são esboçadas menções ao método freiriano na educação. De fato, o método Paulo freire, é evidenciado nas tradicionais feiras de ciências, atividades ainda vistas como exceções nas escolas públicas, porém, inseridas nos programas curriculares dos particulares, cujos projetos apresentados norteiam todo o arcabouço pedagógico dessas instituições.

Com a inteligência artificial fazendo parte do cotidiano da sociedade, o que se vê nas instituições públicas, as municipais, por exemplo, são processos de plataformização dos instrumentos de ensino. Empresas, as chamadas Big techs oferecem, “gratuitamente”, programas/plataformas às redes de ensino, com promessas de elevar os índices das avaliações, como o IDEB.

O Paraná, por exemplo, vem adotando essas ferramentas, submetendo o Estado, os municípios, as políticas dessas empresas, que é maximizar os lucros no comércio milionário dessas novas tecnologias. Quando contratos são rompidos com tais empresas, todo o lineamento de informações contidos nesses programas, ficam com as empresas. Outro detalhe importante, não há disponível instrumentos de monitoramento permanente do Estado sobre a eficácia dessas plataformas.

A ideia era obter parâmetros sobre a eficácia delas no conjunto da escola.[2] A plataformização da educação pública no Paraná é um exemplo de como a Inteligência Artificial vem se sucedendo diariamente na vida de milhares de trabalhadores/as da educação. Em vez de ser um suporte, que auxiliasse a criatividade dos/as professores e estudantes, a IA, transforma-os/as em cativos, escravos de metas, da farsa por trás da meritocracia.

O uso do IDEB como parâmetro para avaliar a educação brasileira não exibe de fato suas distorções. O currículo das escolas é constituído por mais de 10 disciplinas, agora, um IDEB ter como parâmetro somente matemática e português, joga na latrina as demais importantes áreas do saber, como ciência, arte, geografia, história, educação física etc. O fato é que nem todos/as gostam de matemática, língua portuguesa, e usá-las como únicas ancoras para avaliar a educação no seu todo é um equívoco.

Se o processo avaliativo ocorresse de forma processual, ou seja, não pautado em notas, mas no conjunto do ensino, claro que com escolas públicas bem estruturadas, com profissionais estimulados com boas remunerados, teríamos uma educação de excelência, igualando até aos países que lideram o ranque da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômica - OCDE.

Os avanças das novas tecnologias nas escolas geralmente são empacadas pelo despreparo involuntário dos/as profissionais, que não conseguem executá-las devido a um conjunto de fatores que ultrapassa os limites das escolas. Como já repeti em outros textos, o/a professor/a permanece sendo um executor de tarefas, com mais tempo envolvido em funções burocráticas, em vez de estar pesquisando, aprendendo. O entrevistado Paulo Blikstain trouxe também para o debate o exemplo de Sobral, município do Ceará, onde o Estado criou a disciplina do Redesenhador Pedagógico, profissional esse encarregado de dar suporte aos professores em redesenhar o currículo, pensar novas formas de organizar a escola no seu todo.

O que se questiona é até que ponto esse modelo de ensino adotado pela rede pública do Ceará pode ser interpretado como referência a uma educação vista como transformadora. Claro que por trás desse modelo de educação plataformizada tem um projeto de sociedade articulada pelo grande capital neoliberal, cuja intenção é mercantilizar a educação, reduzindo professores/as em meros/as reprodutores/as de funções padronizadas.

A escola pública como instituição humanizadora, emancipadora, se modula em aparelho do Estado/capital, reproduzindo ideias e valores da classe que detém os meios de produção, a burguesia capitalista. De fato, o modelo de educação adotada em qualquer sociedade, reflete os interesses de uma classe social, portanto, em momento algum ela deve ser concebida como sendo neutra.

O que está ocorrendo na educação pública brasileira, é o reflexo explícito de políticas neoliberais adotadas durante os governos Temer e Bolsonaro. Quem lembra da Emenda Constitucional 95 que congelou gastos públicos por vinte ano?  A partir dessa emenda, saúde e educação, ficaram submetidas as regras do mercado, limitando investimentos para melhorias estruturais e de concursos públicos.  Essa emenda inviabilizou também a concretização da meta 20 do Plano Nacional de Educação, que seria a ampliação progressiva dos investimentos públicos em até 10% do PIB. Desde então, salários dos/as professores/as e demais servidores públicos permanecem congelados, sem contar o grau de pressão que estão submetidos/as ao cumprimento de metas.

Não esquecer que esse conjunto de reformas estruturais ainda em curso, em especial na educação, seguem as diretrizes impostas pelos organismos financeiros internacionais aos países periféricos do capitalismo, com vistas a priorizar o pagamento de dívidas em detrimento de políticas públicas.  Para a educação, já que os investimentos são escassos, é necessário priorizar as escolas mais eficientes por meio de testes avaliativos realizados pelo Estado.

Se os recursos são oriundos de fundos internacionais, é obvio que tais organismos exigirão dos Estados a apresentação de relatórios exibindo se as metas acordadas nos contratos alcançaram ou não os resultados almejados. Por isso, professores/as deixaram de ser construtores de conhecimentos tornando-se executores de metas padronizadas, com contratos flexíveis de trabalho e forte insegurança profissional. Diante da sobrecarga de trabalho e das fragilidades estruturais das escolas, o/a professor/a sobre violenta pressão, tanto no ambiente de trabalho, quanto da sociedade, culpando/a pelo fracasso da educação.

Não bastasse todas as dificuldades no exercício do trabalho docente, a inserção do extremismo/fascismo, na política, vem impactando os/as docentes das escolas públicas, forjando-os/as de estereótipos, como de doutrinadores, comunistas. Frente a isso, o congresso brasileiro, majoritariamente constituído por partidos ultraconservadoras, tentaram inserir nas escolas brasileiras um sistema de controle e vigilância, conhecido como Escola Sem Partido. Essa Lei foi derrubada pelo STF com a alegação que ela violava a liberdade de cátedra e expressão.

E os ataques a educação pública básica não cessaram nos governos Temer e Bolsonaro. Era necessário mexer no currículo das escolas, claro que nas públicas de ensino médio. A ordem eram abri-las para o mercado, atuando como agentes influenciadores na modelagem de um currículo que garantisse as parcerias público privadas, chamadas PPPs. As portas das escolas se abrem definitivamente para inserção das plataformas digitais, cujos interesses são lucrar com as vendas de equipamentos para modelar sujeitos dóceis disponíveis para o atual sistema predatório de produção.    

Prof. Jairo Cesa   

https://www.brasildefato.com.br/colunista/pedro-silva/2020/11/27/mitos-e-verdades-sobre-o-sucesso-da-educacao-cearense/#google_vignette

https://www.brasildefato.com.br/2026/06/22/educacao-basica-publica-e-neoliberalismo-apos-o-golpe-de-2016-austeridade-precarizacao-e-desigualdades-sociais/

 

 

         



[1] https://saibamais.jor.br/2021/08/em-1963-angicos-colocava-paulo-freire-no-new-york-times/

[2] https://www.brasildefato.com.br/2024/08/20/nao-estamos-dando-aulas-apenas-preenchendo-plataformas-afirmam-professores-da-rede-publica-do-parana/