terça-feira, 5 de maio de 2026

 

SUPER EL NINO E AS FRÁGEIS ´POLÍTICAS MUNICIPAIS DE ADAPTAÇÃO CLIMÁTICA

https://www.instagram.com/p/DVYpP52Dp_b/


Os meteorologistas vêm alertando acerca do gradual aquecimento das águas do oceano pacífico na linha do equador, dando a entender que teremos outra vez o retorno do fenômeno el nino influenciando o clima no mundo inteiro a partir do segundo semestre, mais especificamente na parte sul da América do Sul. O que chama atenção é que dessa vez o fenômeno climático poderá ser mais intenso que os últimos, em especial o de 2023, cujo epicentro foi o estado do Rio Grande do Sul, com quase dois terços do território destruído pelas enxurradas.   

Na época, a tragédia se tornou maior pelo fato de os governos terem minimizado as previsões, não propondo ações preventivas como sirenes e comunicados às populações das áreas de riscos para que procurassem locais mais seguros. O exemplo foi o município de Muçum, totalmente devastado. É muito provável que passados dois anos da tragédia no estado gauche e parte expressiva do estado catarinense, pouca coisa foi feita para pelos governos para minimizar impactos durante o retorno do fenômeno El nino.

Meteorologistas renomados com grande assertividade nas previsões do tempo vem alertando insistentemente que no segundo semestre de 2026 teremos o retorno do El nino. Essa insistência se deve ao fato de o fenômeno estar se configurando como   um dos mais poderosos das últimas décadas. Acontece que nos últimos anos segmentos da sociedade e da política procuraram construir discursos criminalizando a ciência, as instituições de pesquisa, a ponto de querer negar verdades inquestionáveis como a própria esfericidade da terra.

Em uma sociedade como a brasileira majoritariamente carente de educação formal tende a construir suas opiniões a partir desses discursos negacionistas, onde a fé se sobrepõe a ciência. O que afirmo é bem real, basta ler os comentários de alguns posts publicados recentemente no estado catarinense alertando a população e as autoridades para se precaverem acerca do super el nino que está se formando no oceano pacífico, próximo ao Equador, e que trará impactos catastróficos ao sul do Brasil.  São poucos os comentários que não intercedem a ajuda divina para evitar ou mitigar as tragédias. O que é mais grave é que muitos tentam minimizar o problema, subestimando informações postadas por meteorologistas com extraordinária respeitabilidade entre os seus pares.  

O que é real mesmo é que o Brasil está diretamente inserido nesse imbróglio climático global, tanto como um dos maiores emissores de gases do efeito estufa, como também principal alvo dos seus efeitos. Mesmo com dados que comprovam redução dos desmatamentos na Amazônia, o planeta continua recebendo toneladas e mais toneladas de CO2 diariamente, decorrente da queima de combustíveis fósseis. O aumento médio da temperatura do planeta de 1.5 graus célsius previstos para o final do século já é uma realidade. Há fortes indícios que antes de 2050 a temperatura média do planeta estará beirando os 2.0 graus, e o resultado disso será o colapso definitivo da vida no planeta.

O que preocupa é saber que raros são os municípios brasileiros que tem a demanda climática como prioridade das prioridades nos seus planos diretores. As cidades ainda são hoje pensadas, planejadas, desconsiderando políticas como adaptações climáticas, ou seja, como torná-la resilientes às enxurradas, a episódios extremos como furações, tornados. Araranguá e demais municípios atingidos pelo Furacão Catarina em 2004, nesses 21 anos pós ocorrência do fenômeno não há informação de ter havido algum treinamento com a população de como deve agir na hipótese de vir a ocorrer outro furação.

É possível também que não temos hoje dados meteorológicos confiáveis da região sul do estado, tanto pela escassez de estações meteorológicas instaladas, como pela fragilidade funcional de muitas delas. Devemos considerar que existe atualmente um processo de fragmentação institucional no qual impede respostas integradas de políticas ambientais no campo da gestão hídrica, planejamento urbano e proteção territorial. Esses sistemas operam como ilhas desconectadas do conjunto institucional dos municípios brasileiros.

Prof. Jairo Cesa

            

terça-feira, 28 de abril de 2026

 

O MAPA DO FIMINICÍDIO NO ESTADO DE SANTA CATARINA E ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES


https://www.mpsc.mp.br/w/noticia/mpsc-lanca-mapa-do-feminicidio


A notícia da morte da cidadã Jadna, de Araranguá/SC, depois de ser atacada por um sujeito que lhe desferiu inúmeras facadas, não pode ser compreendida como sendo mais um número, uma vítima, entre as dezenas, centenas de mulheres catarinenses acometidas de feminicídio. É preciso ações emergenciais dos poderes constituídos e da sociedade, entender que esse fenômeno não pode ser relativizado, como algo isolado de um processo construído historicamente de geração pós geração. No entanto, o caso brasileiro, com especificidade o estado de Santa Catarina, fatores como o sistema de produção capitalista e o regime patriarcal devem ser considerados acerca do crescimento da violência contra as mulheres.

Na obra na qual escrevi que discorre sobre a história política de Araranguá, de 1880 a 2000, tem um capítulo, o 5 que disserta sobre as mulheres que atuaram na política do município nos 146 anos de história. Na abertura do capítulo, tem o relato da entrevista concedida pela Professora Doutora Maria Joana Pedro, do Departamento de História da UFSC. A fala dela é muito reveladora, pois procura elucidar o porquê de a mulher ocupar pouco espaço na política no passado e ainda hoje, bem como em demais espaços de comando.  Geralmente, quando ocupam, é pela ausência do homem, exercendo o espaço de forma interina, provisória. Tal condição de subjugação ao agente masculino não é recente, segundo a professora Joana, na obra Ilíada e Odisseia, de Homero, é narrada a longa jornada de Odisseu (Ulisses) de volta para casa.  

Quando Ulisses vai para a guerra, Penélope, sua esposa, fica cuidando da casa e do filho adolescente, Talêmaco. Alcançando a maioridade, o filho de Ulisses assumiu o comando da família e da pólis, ficando Penélope, sua mãe, submetida ao seu comando, ou seja, grau de inferioridade em relação ao homem. Na idade média, as mulheres continuaram restritas de direitos, aquelas que infringissem as regras estabelecidas pela igreja, por exemplo, a prática de adultério, eram condenadas à morte na fogueira. Foi construída a crença de que tais comportamentos “anormais” da mulher era porque estivessem dominadas por forças do “mal”, “demoníacas”, e que queimando-as sua alma seria “purificada”.

Esses atributos discriminatórios às mulheres foram se sucedendo ao longo do tempo, persistindo na idade moderna por meio de legislações que as imputavam o direito de votar e até mesmo estudar. Essa herança de subjugação das mulheres brasileiras tem a sua raiz na colonização portuguesa, sistema esse moldado no patriarcalismo, do qual atribuía ao sexo feminino o papel de reprodutora, parir filhos e cuidados com a casa. São raras as mulheres que arriscaram romper com esse refratário modelo de família, porém, quem ousou, teve que pagar um preço alto socialmente, que foi a reprovação social.

Embora tenham conquistado o direito de votar no Brasil somente em 1932, durante o governo Vargas, essa condição não foi suficiente para alcançar níveis de paridade com o homem, permanecendo rechaçada de muitos direitos, principalmente igualdade salarial. A carga de subjugação ao homem como constatamos atualmente tem um caráter transgeracional, ou seja, tanto homens quanto mulheres carregam em seus subconscientes elementos subjetivos de domínio, de propriedade, de aprisionamento.

Diante da triste realidade vivida pelas mulheres do estado de Santa Catarina, estado que possui elevados índices de feminicídio, o MPSC apresentou Mapa do Feminicídio durante encontro realizado na sede da instituição em Florianópolis. O mapa é um documento importante porque revela em detalhes nítida radiografia do problema no estado, destacando as regiões com maiores incidências, bem como fatores sociais, econômicos e culturais, que motivaram e motivam o acometimento dos crimes.

Na apresentação dos relatórios, entre as inúmeras autoridades presentes e que falaram, a deputada Luciane Carminatti (PT), que integra a bancada feminina na ALESC, relatou com indignação, que depois de quatro anos tramitando na casa legislativa, foi enfim aprovado o projeto de lei, PL 0014/2022 que estabelece princípios e diretrizes para a criação de programas reflexivos e de responsabilização para autores de violência doméstica e familiar contra mulheres. A intenção: “é prevenir e erradicar as condutas violentas previstas na lei Maria da Penha, pois, serão encaminhados os agressores a esses grupos quando estiverem em cumprimento de medida protetiva.   

Sobre a lei aprovada de grupos reflexivos, n. 19.788 de 01/04/2026, o que chamou a atenção durante a votação foi o voto contrário do deputado do Partido Liberal (PL) Jessé Lopes. O argumento do deputado pelo voto contrário é segundo ele:  porque sem sentença definitiva ao acusado pelo crime fere garantias individuais e pode gerar indenizações pelo Estado caso o acusado seja absolvido. Durante a fala, a deputada Carminatti (PT) informou que nos grupos reflexivos realizados, que tem duração de seis meses a um ano, há depoimentos de acusados afirmando que seu modo de ver a mulher mudou radicalmente e que querem continuar participando mesmo após finalizado o prazo dos encontros.

Analisando as informações contidas no mapa, as respostas dos infratores que querem continuar participando do grupo, têm relação direta com um elemento verificado entre os agressores, a baixa escolaridade. Dos investigados, 67,3% não haviam finalizado a educação básica, e 38,4%, o fundamental. Estando fora da sala de aula, o indivíduo está sujeito a não compreensão básica da complexidade da sociedade, além, é claro, terá dificuldades de galgar condições melhores de trabalho e renda. Esse aspecto pode se confirmar observando os níveis de renda dos agressores, onde 83,7% apresentam extratos inferiores de rendimento. Parte expressiva também, ou seja, 71,1%, não possuíam ocupação formal de trabalho, portanto, exerciam funções precarizadas, piorando ainda mais sua condição de subsistência.

Vale ressaltar também que dos que cometeram feminicídio no estado catarinense, o mapa mostrou que 72,6% possuíam antecedentes criminais, e que 44,5% tinham registros prévios de violência, especialmente em contextos de violência doméstica contra mulheres. O mapa também apresenta os corredores regionais com maiores incidências de feminicídio no estado, destacando os corredores do oeste, de Concórdia a São Miguel do Oeste; do planalto serrano, de Lages e Curitibanos.

O mapa também destacou que os dias da semana com maior consumação de crimes de feminicídio são os finais de semana, noite de sexta feira e madrugada de segunda, sendo que 76% dos casos ocorreram na própria residência da vítima. Os instrumentos mais usados nos crimes foram:  armas brancas, com 47,7%, arma de fogo, 22,9%.  Embora a lei estadual que estabelece diretrizes sobre a criação de grupos reflexivos par homens autores de violência contra mulheres tenham sido aprovada e sancionada em abril de 2026, o município de Araranguá foi um dos primeiros do estado a criação de um projeto piloto de reflexão, idealizado pela Juíza Thânia Mara Luz, da 1ª vara criminal de Araranguá.

Um ano depois, 2025, os municípios de Maravilha e Araranguá foram escolhidos para sediar curso para formação de facilitadores de grupos reflexivos. As pessoas envolvidas nas ações serão preparadas para atuar nos grupos de homens com medidas protetivas, sensibilizando-os sobre aspectos relacionados a cultura machista, entre outros fatores que os impulsionam práticas violentas. O Observatório de Desenvolvimento Socioeconômico e inovação da UNESC, em setembro de 2024 apresentou relatório sobre a violência contra mulheres na AMESC. De acordo com o relatório, o município de Araranguá liderava os casos de violência, com 955 em 2023, um aumento de 43,48% em relação ao ano anterior. Abaixo de Araranguá estava São João do Sul, com o aumento de +78,79%, e turvo, com +56,02%.

Prof. Jairo Cesa

     

https://www.youtube.com/user/ministeriopublicos

https://www.youtube.com/watch?v=NIxsQ6-mOmU&t=3134s

https://leis.alesc.sc.gov.br/ato-normativo/53982

https://www.pm.sc.gov.br/noticias/pmsc-lanca-rrrede-catarina-de-protecao-a-mulherrr

https://www.tjsc.jus.br/web/imprensa/-/comarca-de-ararangua-inicia-primeiro-grupo-reflexivo-para-homens-autores-de-violencia

https://www.tjsc.jus.br/web/academia-judicial/-/cursos-para-facilitadores-de-grupos-reflexivos-para-homens-autores-de-violencia-tem-parte-pratica-nas-comarcas-de-maravilha-e-ararangua

https://www.unesc.net/observatorio/postagem/violencia-domestica-cresce-em-municipios-da-amesc-ararangua-lidera-em-casos

https://radioararangua.com.br/violencia-contra-a-mulher-cresce-18-em-ararangua-em-2025-novo-conselho-municipal-dos-direitos-da-mulher-entra-em-acao/

 

 

 

       

sábado, 18 de abril de 2026

 

POPULAÇÃO INDÍGENA EM ARARANGUÁ, DO EXTERMÍNIO AO SILENCIAMENTO

https://cimi.org.br/2023/06/as-atrocidades-que-viabilizaram-a-apropriacao-das-terras-indigenas-no-brasil/



Outro tema brilhantemente abordado pelo historiador Wanderlei Gomes na obra História do Vale do Araranguá: o rio, a terra, o povo (1842-1883), foi sobre a presença indígena ou povos originários na extensa área territorial de Laguna a margem esquerda do rio Mampituba, onde situava o grande Araranguá. É sabido por todos que o extenso território do sul de Santa Catarina era habitado pelos Guarani e os Xokleng/botocudos/bugres, esse último do tronco linguístico Jê. A presença deles aqui data de décadas, séculos anteriores a chegada dos colonizadores portugueses. A introdução do sistema de produção mercantilista exportador, fez com que no Brasil, começo do século XVI, fosse adotada a mão de obra indígena, sendo substituída mais tarde pela africana, mais rentável ao traficante e a coroa portuguesa.

De fato, no território do extremo sul catarinense, a a presença dos povos originais é constatada a partir de achados de artefatos cerâmicos, urnas fúnebres, pontas de flechas e acúmulos de conchas/crustáceos dos grupos sambaquianos, considerados mais antigos que os primeiros. Outras formas de comprovação da presença deles aqui são os nomes recebidos por alguns povoados, municípios e locais de relevância turística ou paisagística. Destacamos nomes como Itoupava, Araranguá, Itaimbezinho, Timbé, Mampituba, etc.

O extermínio progressivo dos povos originários se deu primeiro com o aprisionamento para o trabalho escravo e, mais tarde, com as políticas de colonização, ou seja, distribuição das terras do sul do estado às companhias de colonização encarregadas de comercializá-las com as famílias de imigrantes europeus, italianos, alemães, poloneses etc. O que mais contribuiu para a concretização dessas políticas mercantilistas do solo foi a aprovação da Lei de Terra em 1850, conhecida como a primeira reforma agrária do Brasil.

De certo modo, deve ter sido esse um dos importantes instrumentos utilizados pelo Estado para “limpar” definitivamente o território da presença dos povos originários, como também de sertanejos posseiros, caboclos, que ocupavam terras devolutas anterior a chegada dos imigrantes. Não é possível afirmar categoricamente que os indígenas de início impuseram forte resistência aos colonos que chegavam à região. As primeiras investidas ou enfrentamentos, porém, foram se sucedendo quando os Guarani, Xakleng, passaram a se sentir encurralados, tendo os seus espaços de deslocamentos cerceados, limitando ainda mais as áreas de florestas e rios para subsistirem.

No discurso oficial, os indígenas sempre foram vistos como agressores, que atacavam residências e propriedades dos colonos para furtar objetos pessoais, como roupas e ferramentas de trabalho. Esse discurso que se tornou consenso durante o século XIX, motivou o governo da província de Santa Catarina a sancionar a lei n. 70 de 28 de abril de 1837. A lei teve como objetivo isentar o serviço da guarda nacional aos moradores das localidades situadas no sertão catarinense, a exemplo de Araranguá, que estavam expostos aos ataques de indígenas. Isentar significa que os jovens das freguesias e povoados em idade de alistamento estavam livres desse compromisso, podendo permanecer na propriedade dos pais para protegê-las dos “agressores” indígenas.

Quanto aos furtos praticados nas propriedades, nos testemunhos de colonos ou reportagens jornalísticas da época, não há relatos de ter havido agressões ou mortes de colonos durante os primeiros contatos com o homem branco. Sobre os furtos cometidos por indígenas em algumas propriedades, como foi descrito acima, afirmou uma das vítimas que quando retornou a sua casa encontrou no seu interior um arco, cinco flechas e dois porretes. Os respectivos instrumentos deixados na residência, devem ser interpretados não como presentes, mas como escambos/trocas, intrínseco a cultura dos originários.

É importante ressaltar que o colono europeu pode sobreviver as adversidades da geografia do sul de Santa Catarina se apropriando do conhecimento herdado pelos povos originários. A canoa, as frutas comestíveis, os tubérculos, as ervas e raízes medicinais, entre outras, deram sustentação aos colonos no início da ocupação. Furtar equipamentos de trabalho e vestimentas dos colonos imigrantes, como enxadas, pás, roupas, era porque viam como muito úteis para o seu manejo diário.

Com a expansão das propriedades direção ao interior, os indígenas têm a suas áreas de deslocamentos reduzidas de tal maneira que os impossibilita à sobrevivência. Numa situação extrema como se evidenciou, é muito provável que os originários impuseram alguma resistência aos imigrantes invasores. É claro que os enfrentamentos entre os locais e os colonos mostravam ser desproporcionais em termos de armamentos, de um lado o arco e flecha, e do outro, espingardas, facões, foices, machados.

Em 13 de janeiro de 1884, o Jornal a Verdade, de Laguna, publicou manifesto afirmando que o governo adotava políticas pouco efetivas contra os selvagens, canibais. Antes da criação dos bugreiros, se instituiu nos grupos de “pedestres”, corpo militar cuja função era responder a possíveis ataques indígenas e abrir caminho na mata. A ação dos “pedestres” não se tornou tão eficiente como se pretendia, e como saída se pensou em agilizar o processo de catequização, porém, também foi pouco efetivo.

Os batedores do mato ou bugreiros foram criados com a missão de caçar os indígenas e “limpar” definitivamente o território. O fato é que a imprensa na época exerceu papel importante no extermínio dos povos originários. Frequentemente notícias eram publicados reportando ataques de indígenas as propriedades e residências de colonos, resultando em membros das famílias mortas e objetos furtados. Essas notícias deixavam a população pavorosa, talvez, muitas vezes as informações veiculadas não correspondiam a realidade, sendo elas distorcidas propositalmente. Se de fato as incursões dos indígenas eram violentas, jamais os jornais se prestavam em esclarecer os reais motivos de adotavam tais comportamentos violentos.

Não explicavam que as terras que habitavam, as florestas, os rios, estavam ficando mais e mais reduzidos à sobrevivência. Talvez, no começo, se os imigrantes europeus tivessem tentado formalizar contato com os indígenas, poderíamos estar hoje narrando outro cenário, não o que se sucedeu posteriormente.  Mas não foi o que aconteceu, pois a estratégia dos governos que se sucederam foi mesmo de “limpar a terra”, destinando-as aos “destemidos” e “laboriosos” colonos europeus.

Resgatar urnas funerárias enterradas, pontas de flechas e outros artefatos, é a maneira que temos de trazer a luz a realidade silenciada por décadas, séculos. O museu de Araranguá, por exemplo, abriga várias urnas fúnebres dos povos guaranis encontradas em vários pontos do território araranguaense. Também o que chama a atenção é a enorme quantidade de sítios sambaquianos identificados, que tornam explícito uma intensa ocupação humana anterior aos guaranis e os colonos luso/açorianos/imigrantes. Atualmente, como forma de se proteger, os remanescentes Xoklengs, Kaigang e guarani, vivem hoje em reduzidas reservas/aldeias administradas pela FUNAI. De Florianópolis até o extremo sul do estado, existem apenas dois agrupamentos guarani, a do Morro dos Cavalos e em Imaruí.

Embora transcorridos mais de cinco séculos da invasão portuguesa, os povos originários continuam lutando, resistindo para conservar o pouco de áreas territoriais que lhes convém. O Marco Temporal, por exemplo, é outro instrumento utilizado pelo grande capital agroexportador para tomar o pouco do restam dos territórios indígenas, bem como tornar nulo processos demarcatórios ainda não homologados pelo Estado Brasileiro. Sendo assim, segue o contínuo e interminável genocídio dos povos originários, alimentado pela cobiça de uma elite agrária, que tem os seus representantes instalados nas estruturas dos poderes constituídos, sendo o mais recorrente, o congresso nacional.

Prof. Jairo Cesa      

   https://agora.emnuvens.com.br/ra/article/view/238

quarta-feira, 15 de abril de 2026

 

A VOZ DE HIND RAJAB, FILME QUE RETRATA O TERROR VIVIDO PELOS PALESTINOS NA FAIXA DE GAZA

https://www.estadao.com.br/cultura/cinema/indicado-ao-oscar-a-voz-de-hind-rajab-transforma-tragedia-palestina-em-urgencia-cinematografica/?srsltid=AfmBOorosfFddHvreenuPQZU7Ns5udhbd9Q9ypHQ21qqDlO4GtXmt3rS


Quem acompanha os desdobramentos dos conflitos no oriente médio pelas mídias tradicionais, em especifico o genocídio praticado por Israel em Gaza, nem tem noção do tamanho da brutalidade que o povo palestino vem sofrendo frente ao sionismo israelense. Na premiação de o melhor filme estrangeiro pela academia de Hollywood de 2026, junto com o filme brasileiro, participaram outros quatro, todos considerados magníficos. O escolhido, porém, foi o Norueguês, Valor Sentimental. Quem ainda não assistiu, recomendo todos, em particular, o tunisino, A Voz de Hind Rajab, na qual narra a fala de uma menina, Hind Rajab, única sobrevivente a um ataque do exército israelense ao automóvel na qual ela estava junto com a sua família.

O filme, de curta duração, mostra o cotidiano tenso das equipes de socorristas no interior de uma sala, recebendo chamadas e coordenando equipes externas para o salvamento de vítimas de bombardeios. Talvez, para nós, e outros milhões de cidadãos espalhados pelo mundo, não temos noção do pânico, do horror diário vivido por milhares, milhões de pessoas na Palestina, no Líbano, no Irã, e em menor proporção em Israel, com a expectativa de que a qualquer momento um míssil possa atingir sua residência, as escolas de seus filhos e mutilar a todos/as.

As guerras, particularmente as que estão em curso atualmente, como no oriente médio, tem como protagonistas dois malucos lunáticos. O primeiro, Donald Trump, do Partido Republicano dos Estados Unidos, acometido por um narcisismo doentio, acusado de crimes como de pedofilia, que acredita ser “o messias”, a representação divina de jesus cristo na terra. Ou outro, tão lunático quanto o primeiro, integra a falange dos sionistas fundamentalistas judeus, que atuam de modo insano em extirpar todos/as que ocupam as terras, das quais acreditam ter sido elas pertencidos aos seus antepassados.

Nessa loucura patológica o que sobra são escombros e mais escombros, corpos soterrados, mutilados, famílias inteiras destruídas e um cenário de incertezas, medo, traumas que conduzirão as vidas dos que sobreviverem por décadas. O que causa mais revolta é saber que outras potências econômicas ocidentais e até mesmo orientais, vem acompanhando as chacinas diárias nesses territórios, sem manifestar qualquer repulsa ou pedido de punição contra os dois líderes por infringirem resoluções internacionais, classificadas como crime de guerra. Vamos imaginar se os ataques desferidos contra a escola iraniana, por forças israelenses e norte americanas, fossem em bairro nobre em Nova York e tivesse matado a mesma quantidade de crianças da escola iraniana. Teria tido a mesma repercussão discreta como foi com a escola do país persa? Penso que haveria uma comoção sem precedente nos quatro cantos do planeta.

Qualquer individuo com o mínimo de capacidade compreensiva, tem clareza que o conflito no Oriente Médio tem dois atores principais, onde buscam a todo custo impor seus domínios sobre a região. O que não imaginavam era de o Irã impor tamanha resistência as investidas bélicas estadunidenses e israelenses, talvez pelo fato de os dois líderes subestimarem o poderio de respostas do país persa, com mais de cinco mil anos de história. Embora o Irã e os EUA estejam nesse momento sob um discreto cessar fogo, o exército israelense permanece bombardeando o sul do Líbano, bem como a Faixa de Gaza, cujo argumento é neutralizar os “terroristas” do Hezbollah e do Hamas.

Quando grupos armados do Hamas romperam o muro que separa Gaza dos territórios palestinos ocupados, invadindo uma festa, matando dezenas de pessoas e sequestrando outras tantas, a violenta gerou comoção e revolta aos ocidentais, imputando aos autores, os “terroristas” do Hamas, todo o ódio e indignação possível. O assassinato de mais de cem crianças em uma escola iraniana, as outras centenas mortas no sul do Líbano em um ataque desferido por Israel durante a decretação do cessar fogo, não teve a mesma comoção, a mesma revolta dos ocidentais contra os autores, as duas nações “democráticas” e “livres”, EUA e Israel.   A cena final do filme, envolvendo os socorristas encarregados pela salvação da menina, tenho certeza que fará muita gente refletir que temos que lutar ao máximo para impedir que pessoas com comportamentos similares a Trump e Netanyahu jamais ocupem a presidência da república.

Prof. Jairo Cesa

 

     

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

 

FRAGMENTOS DA INSTRUÇÃO PÚBLICA EM ARARANGUÁ A PARTIR DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

O que muitos sabem de Araranguá no século XIX é de ter sido um território extenso que se desincompatibilizou de Laguna e se integrou ao recém-criado município de Tubarão em 1871.  Faltando três meses para a emancipação político-administrativa, a freguesia de Araranguá rompeu administrativamente com Tubarão se reintegrando à Laguna. É importante elucidar que a criação da freguesia de Araranguá ocorreu em 04 de maio de 1848 e tendo como padroeira Nossa Senhora Mãe dos Homens. A cultura da mandioca, da cana de açúcar tendo como força motriz o trabalho escravo, foram atividades imprescindíveis à formação de uma elite política agrária já em condições de se autogerir-se sem a tutelada de Laguna.

Afinal, se na metade do século XIX a freguesia de Araranguá apresentava uma população que se aproximava os três mil indivíduos, tanto em relação ao império como na província de Santa Catarina, a educação das primeiras letras já era algo institucionalizada, havendo uma discreta legislação que disciplinava a abertura de escolas, a contratação de professores, a definição de proventos e o esboço de currículo escolar. Mesmo estando a província autorizada em pôr no orçamento proventos para a instrução pública, a presença de escolas e, por sua vez, estudantes, era quase que imperceptível.

Uma população cuja maioria habitava os arraiais, áreas rurais, ir para a escola estudar, no imaginário coletiva da época era ainda interpretado como desnecessário. Para termos noção do tamanho do desinteresse da população pela instrução, na metade do século XIX, menos 20% da população da província de Santa Catarina sabia ler e escrever.

A grande freguesia de Araranguá, na metade do século XIX, também refletia esse cenário de desinteresse pela instrução elementar. A primeira escola para meninos que surgiu na freguesia de Araranguá data 1859, porém, não em prédio próprio, mas sim em sala alugada, cujo professor contratado foi Francisco Xavier de Palma. O fato é que essa prática de alugar espaços para instrução permaneceu como regra por décadas durante a Primeira República.  Os recursos para educação pública ainda eram tão escassos nessa época que o aluguel das salas de aulas era pago pelo próprio professor/a. Geralmente as salas de aulas eram integradas a uma residência familiar, nesse caso, a casa do/a professor/as.

Na região de Araranguá, em 1856, a população total era de 2.188 habitantes, sendo 2.031 livres e 157 escravos. Nesse momento havia um contingente de crianças em idade escolar bem expressivo que superava os 450. Entretanto não havia até aquele momento escola para instrução de meninas. O que impressiona é que esse quadro catastrófico da instrução em Araranguá pouco melhorou com o passar dos anos, bem ao contrário, foi se declinando ano após ano mesmo com o aumento da população. Para elucidar essa triste realidade, em 1864 havia somente uma escola contendo 43 estudantes. Cinco anos depois, em 1869, continuava havendo uma escola, porém, com 18 estudantes.

Em 1872, de acordo com o primeiro censo demográfico do império, duas escolas estavam funcionando na freguesia, uma delas estava situada no povoado Rio dos Porcos, porém, foi fechada meses depois por não estar em conformidade com as regras da província. No final desse mesmo ano, 1872, somente uma escola permanecia funcionando, acredita-se que deva ser  a do Rio dos Porcos, que atendia oito estudantes femininas. Em 1874 embora tivesse uma escola disponível para receber estudantes, o fato é que não havia professor disponível para lecionar.  Parece brincadeira, um ano depois, havia um professor, porém, não havia escola para que lecionasse.

Claro que as distâncias e os inúmeros obstáculos geográficos para acessar as escolas devam ter sido fatores preponderantes a baixa demanda de estudantes frequentando as escolas. Outro agravante era o trabalho, crianças quando completavam 7 ou 8 anos tinham que ajudar seus pais na lida da roça. O horário das aulas também influenciava bastantes na maior ou menor frequência de estudantes às escolas. Até 1876, entre o turno das aulas, meio-dia, as crianças teriam que retornar as suas casas para almoçarem, retornando-as depois.

Frente a essas dificuldades, o governo provincial estabeleceu novo cronograma às escolas rurais da província, determinado apenas um turno corrido de 6 horas, das 8 às 14 horas, no verão e das 9 às 15 horas, inverno. Nesses dois períodos, os estudantes teriam uma hora para descanso na própria escola. Em 1875 houve em Araranguá uma permuta entre dois professores, Guilherme Henrique Wellington, se transferiu para Laguna no lugar de Jorge de Bittencourt, que veio para Araranguá. Já com vinte e cinco anos de trabalho docente, Bittencourt conquistou a sua jubilação/aposentadoria em 9 de dezembro de 1880.

É importante elucidar que um/a professor/a só jubilaria/aposentaria se fosse comprovado/a estar acometido/a pôr moléstia que o/a impossibilitasse continuar trabalhando. O professor que fosse contratado para exercer a docência, cujo contrato teria validade de cinco anos, não teria direito a um ordenado, lhe era auferido uma gratificação para o exercício da função. Em 1879 foi aberta vaga para contratação de uma professora para instrução de meninas na freguesia, porém, não houve interessadas ao preenchimento da vaga. O que se sabe é que por um ou dois anos, até 12 de novembro de 1882, o recém-emancipado município de Araranguá teve a sua primeira professora mulher, cujo nome foi Francisca Romana Ferreira Krtzmar.

O que mais chamou atenção acerca da instrução a partir da primeira metade do século XIX foi a presença quase que majoritária de docentes homens, claro que isso se deve pela separação de escolas para meninos e meninas. O que vai se ver, mais tarde, já na república, é uma relativa inversão de gênero no campo docente, paulatinamente o espaço docente até então dominado pelo homem vai sendo ocupado pela mulher. O que leva a essa inversão, entre outros fatores, é o baixo salário recebido, que impossibilita o homem a contrair família. O próximo texto tratarei sobre a instrução a partir da Proclamação da República, que transformações ocorreram no espaço escolar e na carreira docente?

Prof. Jairo Cesa  

Fonte investigativa

Gomes Junior, Wanderlei de Souza. História do Vale do Araranguá: II. o rio, a terra, o povo (1842-1883) 1ª edição. Araranguá, SC: Editora Via Lateral, 2024.

 

  

        

  

sexta-feira, 10 de abril de 2026

 

O AMEAÇADO CICLO DAS AVES MIGRATÓRIAS NA COSTA OCEÂNICA DE ARARANGUÁ

 

Foto - Jairo

Duas vezes por ano, no outono e na primavera, a costa oceânica de Araranguá recebe centenas de pequenos pássaros que fazem o longo e obrigatório percurso entre o sul da Argentina à região nordeste e norte do Brasil. Há relatos que esses pássaros viajam até a costa mexicana e norte americana.  As aves que me refiro são as batuíras, que impressionam pela rapidez no solo procurando o alimento necessário para concluir a longa jornada de sobrevivência da espécie.  

https://www.wikiaves.com.br/wiki/batuira-de-bando


É importante saber que nossa costa oceânica não é passagem obrigatória somente dessa aves, também temos a visita anual das Baleias Francas, e em menor proporção, de lobos-marinhos, pinguins, entre outros/as. Os pinguins, por exemplo, dependendo do ano e das correntes marítimas vindas da Antártida, geralmente chegam já sem vida nas nossas praias, acometidos por desnutrição e doenças.

Por ser a costa atlântica do Brasil e em especial a sul catarinense, habitat e rota obrigatória de aves e mamíferos marinhos, a existência de legislações com vistas a regulação de ocupações habitacionais e do trânsito de veículos na faixa costeira, se fez e faz necessária para assegurar que esses espetáculos da natureza continuem sendo desfrutados pelas futuras gerações. A faixa costeira do extremo sul catarinense, pelas suas características geomorfológicas, extensa faixa de praia com o mínimo de obstáculo, consiste em ambiente imprescindível às aves migratórias.

É nesse intervalo territorial um tanto longo que permite as batuíras acumular energia suficiente para alçar voos até encontrarem outros locais que ofereçam alimentos em quantidade e de boa qualidade. A atuação de órgãos ambientais como o MPF, impondo aos municípios costeiros que  estabeleçam regras de controle do trânsito de veículos na orla e demais ecossistemas costeiros, que garante que  aves como as batuíras se alimentem sem serem molestadas.  

A criação de Áreas de Preservação Ambiental - APA, como a da Baleia Franca, abrangendo uma extensa área territorial entre a costa sul de Florianópolis ao Balneário Rincão, são importantes recursos que garantem a sobrevivência dessa espécie de mamífero. Se observarmos os laudos semanais do  Instituto do Meio Ambiente, IMA,  da balneabilidade das praias catarinenses, a região que compreende a APA da baleia franca é a que apresenta menores índices de praias impróprias para o banho. Claro que existem  exceções, um dos exemplos é o município de Balneário Rincão, que tiveram quase todos os pontos diagnosticados com a presença de substâncias contaminantes na água. São municípios que necessitam receber maior atenção das autoridades, por ser também parada obrigatórias de aves migratórias. 

https://conapabaleiafranca.wordpress.com/sobre/


A contaminação das praias por clorofórmios fecais é ainda o grande gargalo enfrentado pelas espécies migratórias, bem como de toda a complexa biótica marinha. O que minimiza os impactos ao ciclo natural das batuíras é saber que sua passagem pela costa catarinense ocorre entre o final do mês de março e começo de abril, já fora da temporada de verão, cuja água e a área das praias estão menos contaminadas.

Creditar ao esgoto como principal vilão da contaminação de nossas praias é querer omitir outros vetores poluentes, tão graves e até mesmo mais impactantes. Rios que desaguam na faixa costeira do sul do Estado catarinense, o Araranguá, o Urussanga e o Tubarão,  todos despejam toneladas de resíduos sólidos no oceano atlântico todos os dias. O caso do rio Araranguá é bem representativo, que integra uma bacia de tamanho médio, com 21 municípios, é uma das que mais despeja agrotóxicos, resíduos de carvão mineral, esgoto doméstico, industrial e outros tantos tipos de partículas poluentes no oceano atlântico.

Foto - Jairo


Uma pequena precipitação pluviométrica na montante da bacia já é suficiente para acumular lixo na foz e em toda a orla do município de Araranguá. Já repeti em outros textos publicados, que esse passivo ambiental não deve ser creditado exclusivamente ao município de Araranguá. Todos os municípios que integram a bacia deveriam contribuir para mitigar os impactos ambientais, por meio de programas ambientais em seus territórios, ou por políticas conjuntas chanceladas pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Araranguá.  Fora isso, não resolve o município de Araranguá, todos os anos querer insistir no projeto arco ires, de recolher lixo nas imediações da foz da respectiva bacia. É o mesmo que enxugar gelo, de continuar mitigando um problema que não terá fim se não for atacado na sua raiz.

Prof. Jairo Cesa

    

             

sexta-feira, 3 de abril de 2026

 

JOGOS DE INTERESSES ENVOLVENDO A ABERTURA DO CAMINHO DOS CONVENTOS/ARARANGUÁ EM 1729

Ainda permeia no imaginário coletivo de que o sul de Santa Catarina a partir do Laguna era um território totalmente abandonado lá pelos anos de 1700, 1800. O que se tinha de informação era que a ocupação desse território se deu com a criação do conhecido caminho dos tropeiros, trilha essa construída pelo militar português Francisco de Souza Faria em 1729. Nas produções historiográficas, como a do professor historiador Wanderlei Gomes, a obra descortina um cenário muito mais complexo no extremo sul do território catarinense e brasileiro e que merece atenção especial de quem pesquisa e gosta da história.

O Fato é que Araranguá é muito mais antigo do que se imaginava, sua existência data do início do século XVII com a presença dos primeiros viajantes/desbravadores, que ousaram em retratar o território, rios, lagos, morros, por meio de mapas que estão hoje disponíveis nos arquivos para pesquisa. Essa foi uma região com expressiva presença de indígenas, povos Guaranis e Xoklengs, transformados em escravos e até mesmo dizimados a partir da inserção do imigrante europeu.

É importante destacar que as terras ao sul de Laguna pertenciam a coroa espanhola, que por muito tempo foi motivo de disputas entre ela e Portugal. Fatos como os conflitos entre essas duas metrópoles devem sempre estar inseridos nos debates sobre a construção do território ao sul, em especial o grande município de Araranguá. Como sabemos, Laguna aparece no cenário a partir do tratado de Tordesilhas, linha divisória imaginaria que dividiu as terras “descobertas” entre as duas metrópoles europeias.

No Brasil essa linha divisória passou exatamente onde hoje é Laguna, cujo nome dado na época foi de capitania de Santa Ana. Toda a região ao sul sempre foi passiva de disputas, ficando o território desocupado por longo tempo. O desinteresse da coroa espanhola em ocupá-la pode ter como explicação as descobertas das minas de ouro e prata no peru, Bolívia etc. Assegurar proteção a foz do rio da prata fez com que a coroa espanhola disponibilizasse grande contingente de soldados naquelas imediações. Com a criação do município de Laguna em 1676, Portugal mantinha forte interesse em ocupar as terras ao sul, estabelecendo um domínio militar sobre o território, principalmente com levas de imigrantes luso açorianos.

Ao mesmo tempo em que se dava a ocupação do território ao sul do Brasil, a região da Minas Gerais estava vivendo o auge da mineração, atividade essa que teve influência direta e indireta na modelagem territorial e social de boa parte dos municípios do litoral e planalto gaúcho e catarinense. A atividade mineradora no Sudeste precisava agora de força braçal e alimentos. Portanto, erra necessário transportar o gado, muares, dos pampas do sul para as Minas Gerais. Caminhos alternativos, mais curtos e rápidos, deveriam ser criados, substituindo o da faixa costeira, muito instável e distante dos centros consumidores.

Para tal investida, o capitão general, comandante geral das províncias do sul, com sede em São Paulo, Caldeira Pimentel, convidou o militar português Francisco de Souza Faria para executar esse complexo serviço para a coroa portuguesa. Antes da viagem para Laguna, o capitão general elaborou documento contendo informações sobre o serviço que havia designado a Francisco Faria, na qual o administrador de Laguna, Francisco de Brito Peixoto, deveria garantir todas as facilidades possíveis ao seu designado. Em Laguna, Souza Faria ficou retido por alguns meses, pois, embora fosse um povoado ainda pequeno, não havia ainda conseguido manter contado com o administrador.

O que de fato motivou a rendição de Souza Faria por longo tempo em Laguna, foi porque o administrador Domingos de Brito Peixoto o boicotou, dificultando ao máximo que realizasse o trabalho de abertura de um caminho alternativo para o transporte das tropas à região das minas.  O administrador de Laguna acreditava que abrindo um caminho ao sul de Laguna poderia trazer prejuízos significativos ao seu município, isso porque até aquele momento quem se deslocasse do Norte para o sul ou vice-versa obrigatoriamente teria que passar por Laguna.

Devido as pressões, Brito Peixoto concordou que Souza Faria seguisse a viagem ao sul, porém, sugeriu que chegando a foz do rio Araranguá, seguisse rio acima pela margem esquerda, contendo muitos obstáculos para serem superados. Souza Faria chegou a foz do rio Araranguá em 1729, tendo o acompanhamento de mais de 200 homens recrutados, grande parte de mal feitores, criminosos, dos quais receberam a promessa de ficarem livres das penas quando concluíssem a empreitada. Mesmo com as promessas, muitos recrutados ousaram fugir na primeira oportunidade.

 Cristóvão pereira de Abreu, tropeiro que comercializava gado da região da Colônia de Sacramento para o sudeste brasileiro, sabendo do feito do seu colega Souza Faria, reuniu 800 cavalgaduras onde chegou a barra do rio Araranguá em outubro de 1731, aproveitando o caminho aberto para levar os seus animais em direção a Curitiba. Convém salientar que outra trilha foi aberta por Cristóvão Pereira de Abreu, a partir de Viamão, seguindo os campos de cima da serra, sem tantos obstáculos como o caminho dos Conventos. De fato, era essa trilha aberta por Pereira de Abreu que Francisco de Souza Faria abriria se não fosse persuadido por Domingos de Brito Peixoto a abrir o caminho dos Conventos.  

O Caminho dos Conventos foi por pouco tempo utilizado pelos tropeiros, transformando-se mais tarde em trilha dos missionários das missões que comercializavam gado e outros produtos com Laguna. Também essa trilha teve papel importante no deslocamento de tropas durante os conflitos envolvendo a coroa espanhola e portuguesa. Creditar nessa trilha a única resposta para o início do povoamento de Araranguá demonstra não ser uma explicação muito confiável.

O primeiro núcleo populacional da região surgiu na Barra Velha, com famílias ou indivíduos oriundos de Laguna. Mais tarde, essas famílias foram se deslocando em direção ao Rio dos Porcos, Cangica. Outro agrupamento ocorreu nas imediações da Itoupava, de pessoas que aproveitavam as trilhas abertas na serra geral, ambas convergindo no povoado da Itoupava. É preciso deixar claro que por longo tempo a Trilha dos Conventos não era mais utilizada como caminho para o transporte do gado, sendo-a substituída pela Trilha de Viamão. Em alguns aspectos pode ser que a respectiva trilha teve algum reflexo no surgimento do povoado de Campinas/Araranguá. Foi de fato a farinha de mandioca, a cana de açúcar e o trabalho escravo os fatores preponderantes na formatação do que viria a ser no final do século XIX uma das regiões mais prósperas do estado de Santa Catarina.

Prof. Jairo Cesa

 Gomes Jr. Wanderlei de Souza (2024) História do Vale do Araranguá: I. tempos heróicos (1605-1842) - 1ª edição. Araranguá, SC: Editora Via Lateral, 2024.

   Gomes Jr. Wanderlei de Souza (2024) História do Vale do Araranguá: II. o rio, a terra, o povo (1842-1883) - 1ª edição. Araranguá, SC: Editora Via Lateral, 2024.