quarta-feira, 4 de março de 2026

 

CAMINHOS PARA REVERTER A CRISE DA PITAYA NO SUL DE SANTA CATARINA

 

Foto - Jairo

Há pouco mais de duas semanas um vídeo foi publicado nas redes sociais de um produtor de pitaya no sul do estado despejando, com pá, sua safra para o gado, e que alcançou níveis absurdos de audiência. A ação do produtor foi por ele justificada como protesto às promessas feitas pelas autoridades de que cultivando a fruta haveria mercado garantido e preços compensadores. De fato, não foi o que ocorreu, pois a safra 2025/2026 vem se caracterizando até o momento como uma das maiores desde que a pitaya surgiu no sul do estado há menos de vinte anos. Afirmou o produtor que entrou no cultivo da pitaya há cerca de 10 anos, e que por várias vezes ameaçou desistir alegando dificuldades de mercado.

Quero aqui ressaltar que minha abordagem sobre a pitaya e da atitude do cidadão de descartá-la aos bois, não se fundamenta de uma visão distanciada, de mera especulação acerca do tema, como da maioria dos que postaram comentários no post, criminalizando-o  ou concordando com o que fez o cidadão.  Afirmo que também sou plantador de pitaya, talvez tendo iniciado um pouco antes do cidadão em tela.

Durante esses mais de 10 anos que estou na atividade vivenciei situações até piores que o respectivo produtor. Na época ainda eram discretos os que aventuraram no ramo dessa fruta, muitos dos quais advindos da atividade do tabaco. Acontece que em pouco tempo, estimulados pelos preços compensadores pagos pelo kg da fruta, houve um crescimento vertiginoso de áreas destinadas a essa atividade, sem, portanto, um planejamento adequado para escoar a grande oferta de frutas que teríamos no futuro.

Os mercados, supermercados, fruteiras da região sul passaram a comercializar a fruta mantendo preços relativamente elevados em comparação ao que estava sendo pago ao produtor. Uma ou duas cooperativas entraram nesse ramo dando suporte aos produtores filiados. Os demais não assistidos por esse segmento, tiveram que ir à luta ou tornaram-se presa fácil de atravessadores espertalhões.  Diante desse novo cenário agrícola no sul do estado, o consumidor ainda tinha um certo estranhamento acerca dessa fruta, originária da américa central, e cujo Vietnam e a China são hoje grandes produtores. Por que estranhamento? Primeiro pelo valor pago ser ainda elevado, e pelo sabor, um tanto azeda e ácida, isso pelo fato de a fruta ter sido colhida sem que o processo de maturação estivesse concluído.

Foto - Jairo


Há cinco ou seis anos, a fruta lentamente começou a ser popularizada, não somente devido ao aumento da oferta, mas pelas campanhas publicitárias e educacionais, que fizeram com que a população compreendesse que a pitaya não era apenas uma fruta qualquer, mas algo único, singular, carregado de propriedades nutricionais, indicada por médicos e especialistas no tratamento de comorbidades. Essas campanhas aqueceram um pouco a demanda pela fruta, mas ainda era insuficiente, pois milhares de pessoas ainda não tinham e não tem experimentado a fruta, a exemplo da banana, da maçã,  da uva etc., onde 100% da população conhece e tem experimentado.

A profissionalização no manejo da fruta dragão, como é conhecida, passou a ser compreendida como estratégia para galgar mais mercados, mais e mais consumidores. Por ser uma fruta sazonal e que deve ser colhida no ponto exato para consumo, ou seja, bem madura, produtores passaram a buscar outras formas de como produzi-la e comercializá-la. O que acontece atualmente é de estar fruta disseminada em muitas propriedades, pequenos pomares, mediante o manejo convencional, ou seja, com a aplicação de insumos químicos e até mesmo agrotóxicos.

Com o aumento vertiginoso da oferta da fruta de manejo convencionai nos mercados, cuja demanda de consumo não crescia na mesma proporção, muitos produtores desistiram do cultivo. Os que permaneceram, alguns migraram para o manejo orgânico. Foi exatamente o que fiz a partir de 2023 quando completei a transição obrigatória do manejo convencional para o orgânico. Entretanto, diante dessa nova modalidade, precisava agora trabalhar e muito para conquistar um novo nicho de consumidores, sem elevar o preço pago pela fruta por ser orgânica.

Foto - Jairo


Era preciso convencer o público em geral que a pitaya era tão saborosa, tão nutritiva, que valeria a pena comê-la, e que ela deveria estar acessível a todos/as. Tinha clareza que pitaya não era banana, não era maçã, não era uva, onde toda a população conhecia e já havia provado pelo menos uma vez. Era fruta “dragão” era algo muito novo e que precisaríamos de um tempo longo para que a população conhecesse e passasse a consumir também. A fruta, portanto, teria de chegar ao público infantil, nas creches, nas escolas, nas unidades de atendimento de crianças em condições vulneráveis etc., etc. Porém, para esse público, era imprescindível selecionar frutas saborosas, bem doces, porque tínhamos em nossa frente um público exigente onde a primeira impressão é que ficaria.


Foto - Viviane

Foto - Viviane




Casa da Fraternidade - Araranguá

Foto - Viviane

Foto - Viviane




Desde que obtive a certificação, venho fazendo esse trabalho de sensibilização ao consumo saudável da fruta. O que me surpreende a cada encontro, é o número de crianças e adolescentes que passaram a apreciar a fruta, e recomendando aos pais para adquiri-las. Penso que o caminho é esse, educação alimentar, e que todos os produtores de pitaya deveriam estar se ocupando fortemente nos seus municípios. Em vez de estar gravando vídeos despejando a fruta para os animais, que as leve à todas as creches e escolas e faça o mesmo trabalho que venho fazendo, converse com as crianças, explique para elas, os seus pais, devem comer pitaya, o que de bom a fruta traz para a saúde. A certeza é que em pouco tempo teremos um publico cativo de consumidores de pitaya.

Prof. Jairo Cesa                  

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