CAMINHOS
PARA REVERTER A CRISE DA PITAYA NO SUL DE SANTA CATARINA
Há
pouco mais de duas semanas um vídeo foi publicado nas redes sociais de um produtor
de pitaya no sul do estado despejando, com pá, sua safra para o gado, e que
alcançou níveis absurdos de audiência. A ação do produtor foi por ele justificada
como protesto às promessas feitas pelas autoridades de que cultivando a fruta
haveria mercado garantido e preços compensadores. De fato, não foi o que
ocorreu, pois a safra 2025/2026 vem se caracterizando até o momento como uma
das maiores desde que a pitaya surgiu no sul do estado há menos de vinte anos. Afirmou
o produtor que entrou no cultivo da pitaya há cerca de 10 anos, e que por
várias vezes ameaçou desistir alegando dificuldades de mercado.
Quero
aqui ressaltar que minha abordagem sobre a pitaya e da atitude do cidadão de descartá-la
aos bois, não se fundamenta de uma visão distanciada, de mera especulação
acerca do tema, como da maioria dos que postaram comentários no post, criminalizando-o
ou concordando com o que fez o cidadão. Afirmo que também sou plantador de pitaya,
talvez tendo iniciado um pouco antes do cidadão em tela.
Durante
esses mais de 10 anos que estou na atividade vivenciei situações até piores que
o respectivo produtor. Na época ainda eram discretos os que aventuraram no ramo
dessa fruta, muitos dos quais advindos da atividade do tabaco. Acontece que em
pouco tempo, estimulados pelos preços compensadores pagos pelo kg da fruta,
houve um crescimento vertiginoso de áreas destinadas a essa atividade, sem,
portanto, um planejamento adequado para escoar a grande oferta de frutas que
teríamos no futuro.
Os
mercados, supermercados, fruteiras da região sul passaram a comercializar a
fruta mantendo preços relativamente elevados em comparação ao que estava sendo
pago ao produtor. Uma ou duas cooperativas entraram nesse ramo dando suporte aos
produtores filiados. Os demais não assistidos por esse segmento, tiveram que ir
à luta ou tornaram-se presa fácil de atravessadores espertalhões. Diante desse novo cenário agrícola no sul do
estado, o consumidor ainda tinha um certo estranhamento acerca dessa fruta, originária
da américa central, e cujo Vietnam e a China são hoje grandes produtores. Por que
estranhamento? Primeiro pelo valor pago ser ainda elevado, e pelo sabor, um
tanto azeda e ácida, isso pelo fato de a fruta ter sido colhida sem que o
processo de maturação estivesse concluído.
Há
cinco ou seis anos, a fruta lentamente começou a ser popularizada, não somente devido
ao aumento da oferta, mas pelas campanhas publicitárias e educacionais, que fizeram
com que a população compreendesse que a pitaya não era apenas uma fruta
qualquer, mas algo único, singular, carregado de propriedades nutricionais,
indicada por médicos e especialistas no tratamento de comorbidades. Essas
campanhas aqueceram um pouco a demanda pela fruta, mas ainda era insuficiente,
pois milhares de pessoas ainda não tinham e não tem experimentado a fruta, a
exemplo da banana, da maçã, da uva etc.,
onde 100% da população conhece e tem experimentado.
A profissionalização no manejo da fruta dragão, como é conhecida, passou a ser compreendida como estratégia para galgar mais mercados, mais e mais consumidores. Por ser uma fruta sazonal e que deve ser colhida no ponto exato para consumo, ou seja, bem madura, produtores passaram a buscar outras formas de como produzi-la e comercializá-la. O que acontece atualmente é de estar fruta disseminada em muitas propriedades, pequenos pomares, mediante o manejo convencional, ou seja, com a aplicação de insumos químicos e até mesmo agrotóxicos.
Com
o aumento vertiginoso da oferta da fruta de manejo convencionai nos mercados,
cuja demanda de consumo não crescia na mesma proporção, muitos produtores desistiram
do cultivo. Os que permaneceram, alguns migraram para o manejo orgânico. Foi
exatamente o que fiz a partir de 2023 quando completei a transição obrigatória do
manejo convencional para o orgânico. Entretanto, diante dessa nova modalidade, precisava
agora trabalhar e muito para conquistar um novo nicho de consumidores, sem elevar
o preço pago pela fruta por ser orgânica.
Era
preciso convencer o público em geral que a pitaya era tão saborosa, tão
nutritiva, que valeria a pena comê-la, e que ela deveria estar acessível a
todos/as. Tinha clareza que pitaya não era banana, não era maçã, não era uva, onde
toda a população conhecia e já havia provado pelo menos uma vez. Era fruta “dragão”
era algo muito novo e que precisaríamos de um tempo longo para que a população conhecesse
e passasse a consumir também. A fruta, portanto, teria de chegar ao público
infantil, nas creches, nas escolas, nas unidades de atendimento de crianças em
condições vulneráveis etc., etc. Porém, para esse público, era imprescindível
selecionar frutas saborosas, bem doces, porque tínhamos em nossa frente um
público exigente onde a primeira impressão é que ficaria.
| Foto - Viviane |
| Foto - Viviane |
Desde
que obtive a certificação, venho fazendo esse trabalho de sensibilização ao
consumo saudável da fruta. O que me surpreende a cada encontro, é o número de
crianças e adolescentes que passaram a apreciar a fruta, e recomendando aos
pais para adquiri-las. Penso que o caminho é esse, educação alimentar, e que
todos os produtores de pitaya deveriam estar se ocupando fortemente nos seus municípios.
Em vez de estar gravando vídeos despejando a fruta para os animais, que as leve
à todas as creches e escolas e faça o mesmo trabalho que venho fazendo,
converse com as crianças, explique para elas, os seus pais, devem comer pitaya,
o que de bom a fruta traz para a saúde. A certeza é que em pouco tempo teremos
um publico cativo de consumidores de pitaya.
Prof.
Jairo Cesa
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