sexta-feira, 20 de março de 2026

 

 

DESPREZAR A HISTÓRIA, A ARTE, A MEMÓRIA ARQUITETÔNICA, FAZ COM QUE SEJAMOS GOVERNADOS POR POLÍTICOS INCOMPETENTES

Agora é possível compreender melhor por que as autoridades tanto desprezam nossa história, nosso rico patrimônio cultural material e imaterial. O fato é que o comportamento dos políticos é reflexo direto da própria sociedade, que foi forjada sob o prisma do descartável, de valorizar a estética do "novo", do "moderno". Muitos buscam até ridicularizar afirmando categoricamente que quem quer ver coisa velha que vá ao museu. Claro que discursos como esse foi e é resultado da inserção contínua no nosso subconsciente de um projeto político que privilegia castas sociais, que trabalham incessantemente para desvalorizar a ciência, a história, as universidades públicas, os professores, os artistas etc.

Em uma reunião que participei para eleição do novo Conselho Municipal de Cultura aqui em Araranguá, uma cena ratificou o que expressei acima, reafirmando que somos também culpados pela fragilização da nossa memória histórica. Cada um que entrou no recinto onde haveria a eleição do conselho recebeu uma ficha para escolher um dos departamentos da cultura que tivesse interesse em atuar. Como sendo eu um apaixonado pela literatura e a cultura patrimonial, sem titubear assinalei com um X nesse tema. Quando foi solicitado a todos/as que estavam no recinto, a partir dos temas assinalados, que se reunissem nas mesas para indicar um titular e um suplente para integrar o conselho, imaginei que teria ao meu lado várias pessoas, isso pelo fato de ser o tema muito relevante, porém, tão desprestigiado pelas autoridades.

Fiquei perplexo quando percebi que todas as mesas, exceto a minha, possuíam boa representação. Comigo estava um jovem ligado ao direito e as artes manuais. Aquela cena no Centro Multiuso, me fez lembrar da Conferência Municipal de Cultura ocorrida quatro ou cinco anos atrás, quando eu e outras três ou quatro pessoas estavam também reunidas em uma sala no atual prédio da UFSC, também para discutir políticas relacionadas ao patrimônio cultural e arqueológico em âmbito local, estadual e federal.

Vi que os demais temas vinculados ao escopo da conferência municipal, havia uma relevante participação de delegados/as. As elites sabem e não é de hoje que quanto menos acesso o povo tiver as diferentes artes, à história, à literatura, à memória patrimonial, mais suscetível estará para ser manipulado, explorado, a ponto de eleger seus próprios algozes, aqueles/as que vão governar ou legislar para beneficiar a si próprio e os seus pares.

Depois de passar um terço do meu tempo pesquisando e escrevendo, finalmente em 2025 lancei o livro que discorre sobre a história política de Araranguá: Tramas, Intrigas e Tensas Disputas Eleitorais - História Política de Araranguá de 1880 a 2000. Portanto, são 120 anos de trajetória histórica, que foi costurada garimpando em arquivos, bibliotecas, museus e livros, informações que me ajudassem a elucidar fatos políticos de um conturbado cenário social, onde uma elite econômica já se mostrava madura o suficiente para assumir as rédeas do poder do ainda distrito Araranguá. Portanto, o processo de emancipação político administrativa do distrito se deu em 03 de abril de 1880, data em que Araranguá foi oficialmente desvinculada do histórico município de Laguna.

Alimentava até a ilusão que após o lançamento da obra, em poucos dias ou semanas estariam esgotados os duzentos livros que foram editados. Mas, para um município que despreza a literatura, a arte, a história, o patrimônio arquitetônico em geral, foi ingênuo da minha ter alimentado tal expectativa. O que se percebe de fato é o silenciamento proposital por parte de certas mídias diante do desprezo dos gestores públicos e órgãos ambientais ao nosso rico patrimônio arqueológico, suscetível ao vandalismo. Esse silenciamento também se nota aos inúmeros casarios urbanos quase seculares, bem como igrejas, a exemplo da Matriz Nossa Senhora Mãe dos Homens, explicitamente ameaçada de apagamento da memória coletiva decorrente de comportamentos  truculentos de setores do alto, baixo clero e de uma elite tosca no campo da cultura.   

Prof. Jairo Cesa  


https://draft.blogger.com/blog/post/edit/8334622275182680372/7891756470979714405   

 QUARTA CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE CULTURA, EM ARARANGUÁ/SC, REVELA O FORTE DESINTERESSE SOCIAL E DAS AUTORIDADES NESSE SETOR         

segunda-feira, 16 de março de 2026

 

POR QUE LUTAR PELA PROTEÇÃO DE GRUPOS TRADICIONAIS QUE POVOAM TERRAS DO EXTREMO SUL DE SANTA CATARINA?

Foto - Jairo


Com a ocupação colonial portuguesa no território brasileiro a partir do século XVI, a população original foi submetida à escravidão, sendo que parte expressiva dela foi dizimada pelas doenças trazidas pelo invasor europeu. Mais tarde o rendoso comércio de negros africanos fez substituir o trabalho indígena pelo africano, sendo utilizados na atividade da cana de açúcar, mineração, café, farinha de mandioca, entre outras atividades como o trabalho doméstico na “casa grande”.

Com o fim oficial da escravidão, que se deu por meio da assinatura da Lei Aurea em 1888, milhares de negros libertos foram jogados literalmente para fora das fazendas, aqueles que tiveram mais sorte foram absorvidos como trabalhadores meeiros, assalariados e tendo que se virar para sobreviver as agruras do preconceito impregnado no imaginário coletivo brasileiro. As produções historiográficas que tiveram como objeto de investigação a escravidão no Brasil apresentavam até pouco tempo frágeis menções do trabalho cativo no sul do Brasil.

O que se sabe é que a região sul recebeu levas significativas de imigrantes europeus, italianos, alemães, poloneses, que ocuparam áreas cuja presença de indígenas e de caboclos não era tão desprezível. Existem vastas fontes historiográficas que comprovam o processo de limpeza étnica no Sul, a partir da captura de originários ou até mesmo da execução em massa. Outras fontes revelam a presença de aglomerados luso africanos no interior, sul de Santa Catarina, terras das quais os ocupantes “caboclos” não possuíam títulos de posse.

A visibilidade/invisibilidade da presença africana no sul de Santa Catarina, hoje densamente constituída por descendentes europeus, foi revelada a partir da pesquisa realizada pelo professor Antônio Cesar Spricigo, cujo título é Sujeitos Esquecidos Sujeitos Lembrados. A investigação trouxe a luz um cenário impressionante do sul do estado, no qual o trabalho cativo foi instrumento imprescindível na formatação econômica e política de todo o território fronteiriço com o estado rio grandense.  A obra desconstrói alguns conceitos ainda impregnados no imaginário coletivo de que a escravidão se deu seguindo preceitos um tanto homogêneos como a existência quase obrigatória da casa grande e da senzala.

O que se observou foi, sim, o uso do escravo negro nas médias glebas de terras no manejo do solo, no plantio e beneficiamento da mandioca e da cana de açúcar, atividades pelas quais projetou a região do Araranguá no cenário estadual e nacional, até mesmo internacional. É claro que o contingente de cativos no grande Araranguá era relativamente inferior às das demais regiões do país, sudeste e nordeste, por exemplo, porém, havia exceções, por ter existido alguns senhores com planteis significativos de escravos, contendo mais de 30 escravos.

As relações entre senhores e escravos no sul seguiram critérios um tanto atípicos daqueles presentes em muitas obras escritas sobre o tema. Não se percebia uma relação hierárquica um tanto refratária entre o cativo e o senhor, ambos até mesmo compartilhavam o mesmo cômodo ou vivendo nu puxadinho anexo a casa do senhor. A carência de recursos também obrigava o proprietário a construir rudimentares engenhos cobertos com palha, e que tal realidade se replicava nas várias residências dos senhores, cujas residência, geralmente, o assoalho, era de terra batida e o telhado de palha.

Ter um escravo era a garantia de acumular expressivo patrimônio, cuja venda assegurava recursos relativamente suficientes para a aquisição de mais glebas de terras, equipamentos de trabalho, e certa visibilidade no cenário social e político. Convém destacar que nos inventários Pós-Mortem, destacados na obra do professor Spricigo, entre os anos de 1841 a 1890, o período de maior incidência de trabalho escravo no grande Araranguá, foi no decênio de 1861/1870. Dez anos mais tarde, 1880, possivelmente decorrente desse boom econômico regional, impulsionou essa nova elite agrária em ascensão em lutar pela emancipação política administrativa do distrito.  

Outro aspecto um tanto curioso visto na obra do professor Sprícigo sobre a escravidão em Araranguá foram os casos de cativos de terem obtidos cartas de alforrias por meio da compra, ou seja, acumulavam certa soma financeira, suficiente para indenizar o proprietário. Essas prerrogativas a favor do escravo se deram por meio de normativas, legislações, que se sucediam ao longo do tempo. A Lei do Ventre Livre, de 1871, assegurou “liberdade” ao cativo a partir do seu nascimento. Devido a fragilidade das estruturas jurídicas em âmbito distrital/municipal/estadual, os distritos/comunidades distantes das sedes administrativas, Araranguá em especial, a presença do Estado como agente regulador/fiscalizar das novas normatizações se mostrava inexistente. Entretanto, demorou muito tempo para que fosse aqui estabelecido um satisfatório arcabouço institucional que desse algum suporte ao cidadão negro/escravo/liberto.

A visibilidade/invisibilidade do negro africano no sul de Santa Catarina se mostrou relevante com a homologação de terras quilombolas, ou seja, territórios dos quais no passado foram ocupados por escravos fugitivos e libertos. Aqui na região sul de Santa Catarina temos dois quilombos da Pedra Afiada, comunidade de São Roque, no município de Praia Grande, e o da Maria Rosalina, no perímetro urbano do centro do município de Araranguá. Conhecer os dois territórios permite entender suas histórias e suas permanentes lutas de resistência e existência. Visitar o quilombo da Pedra Afiada nos faz refletir sobre preconceitos que ainda povoam nosso imaginário acerca do dia a dia dessas comunidades. Geralmente fazemos confusões acerca das suas organizações, como disposição das residências, como sendo de uma aldeia indígena ou na própria hierarquia de gestão.

Outro aspecto revelador no quilombo de Praia Grande é que ele se fez junto as bordas de uma das importantes trilhas de tropeiros que ligou as fazendas do topo da serra ao litoral entre os séculos XVIII, XIX e início do XX. Além do trabalho escravo no cultivo da mandioca e da cana de açúcar no litoral, na parte serrana, fronteira com o estado catarinense, houve o emprego cativo no manejo do gado das fazendas de cima da serra. As características observadas da trilha na qual fizemos até o topo da serra, comprovou a quantidade de vezes que aquele caminho foi usado pelos tropeiros e posteriormente pelos pés de escravos.

As obras escritas até então sobre redutos de negros fugitivos no extremo sul do estado catarinense eram bem discretas até pouco tempo. O livro do professor Sprícigo procuro discorrer o caso do quilombo São Roque, trazendo trecho escrito pelo historiador Gilberto Ronsinim. Nas palavras de Sprícito, Pedra Branca merece especial atenção pois, conforme o autor Ronsinim, esse local era um antigo refúgio de escravos e que a falta de registros sobre o local deveu-se à necessidade dos escravos foragidos manterem-se bem escondidos. Afirma que o primeiro morador da região Pedro de Souza Fagundes, nasceu em 1824, falecendo em 1916.

Conhecer as peculiaridades relativas a ocupação indígena e africana que moldaram junto com outros povos o complexo cenário social e econômico do sul de Santa Catarina pode contribuir para desmistificar preconceitos que ainda permeiam nosso imaginário. A leitura, a pesquisa, bem como visitas em comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas, revelam realidades desconhecidas para a maioria da população. Saberes em relação ao modo de cultivo da terra, dos animais, os ritos tradicionais, a culinária, a arte, são aspectos que nos faz pensar que é possível sim viver sem destruir nossos ecossistemas.

Foto - Jairo


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Foto - Jairo


Foto - Jairo

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Foto - Jairo

Foto - Jairo
















Prof. Jairo Cesa

   

                       

quarta-feira, 4 de março de 2026

 

CAMINHOS PARA REVERTER A CRISE DA PITAYA NO SUL DE SANTA CATARINA

 

Foto - Jairo


Há pouco mais de duas semanas um vídeo foi publicado nas redes sociais de um produtor de pitaya no sul do estado despejando, com pá, sua safra para o gado, e que alcançou níveis absurdos de audiência. A ação do produtor foi por ele justificada como protesto às promessas feitas pelas autoridades de que cultivando a fruta haveria mercado garantido e preços compensadores. De fato, não foi o que ocorreu, pois a safra 2025/2026 vem se caracterizando até o momento como uma das maiores desde que a pitaya surgiu no sul do estado há menos de vinte anos. Afirmou o produtor que entrou no cultivo da pitaya há cerca de 10 anos, e que por várias vezes ameaçou desistir alegando dificuldades de mercado.

Quero aqui ressaltar que minha abordagem sobre a pitaya e da atitude do cidadão de descartá-la aos bois, não se fundamenta de uma visão distanciada, de mera especulação acerca do tema, como da maioria dos que postaram comentários no post, criminalizando-o  ou concordando com o que fez o cidadão.  Afirmo que também sou plantador de pitaya, talvez tendo iniciado um pouco antes do cidadão em tela.

Durante esses mais de 10 anos que estou na atividade vivenciei situações até piores que o respectivo produtor. Na época ainda eram discretos os que aventuraram no ramo dessa fruta, muitos dos quais advindos da atividade do tabaco. Acontece que em pouco tempo, estimulados pelos preços compensadores pagos pelo kg da fruta, houve um crescimento vertiginoso de áreas destinadas a essa atividade, sem, portanto, um planejamento adequado para escoar a grande oferta de frutas que teríamos no futuro.

Os mercados, supermercados, fruteiras da região sul passaram a comercializar a fruta mantendo preços relativamente elevados em comparação ao que estava sendo pago ao produtor. Uma ou duas cooperativas entraram nesse ramo dando suporte aos produtores filiados. Os demais não assistidos por esse segmento, tiveram que ir à luta ou tornaram-se presa fácil de atravessadores espertalhões.  Diante desse novo cenário agrícola no sul do estado, o consumidor ainda tinha um certo estranhamento acerca dessa fruta, originária da américa central, e cujo Vietnam e a China são hoje grandes produtores. Por que estranhamento? Primeiro pelo valor pago ser ainda elevado, e pelo sabor, um tanto azeda e ácida, isso pelo fato de a fruta ter sido colhida sem que o processo de maturação estivesse concluído.

Foto - Jairo


Há cinco ou seis anos, a fruta lentamente começou a ser popularizada, não somente devido ao aumento da oferta, mas pelas campanhas publicitárias e educacionais, que fizeram com que a população compreendesse que a pitaya não era apenas uma fruta qualquer, mas algo único, singular, carregado de propriedades nutricionais, indicada por médicos e especialistas no tratamento de comorbidades. Essas campanhas aqueceram um pouco a demanda pela fruta, mas ainda era insuficiente, pois milhares de pessoas ainda não tinham e não tem experimentado a fruta, a exemplo da banana, da maçã,  da uva etc., onde 100% da população conhece e tem experimentado.

A profissionalização no manejo da fruta dragão, como é conhecida, passou a ser compreendida como estratégia para galgar mais mercados, mais e mais consumidores. Por ser uma fruta sazonal e que deve ser colhida no ponto exato para consumo, ou seja, bem madura, produtores passaram a buscar outras formas de como produzi-la e comercializá-la. O que acontece atualmente é de estar fruta disseminada em muitas propriedades, pequenos pomares, mediante o manejo convencional, ou seja, com a aplicação de insumos químicos e até mesmo agrotóxicos.

Com o aumento vertiginoso da oferta da fruta de manejo convencionai nos mercados, cuja demanda de consumo não crescia na mesma proporção, muitos produtores desistiram do cultivo. Os que permaneceram, alguns migraram para o manejo orgânico. Foi exatamente o que fiz a partir de 2023 quando completei a transição obrigatória do manejo convencional para o orgânico. Entretanto, diante dessa nova modalidade, precisava agora trabalhar e muito para conquistar um novo nicho de consumidores, sem elevar o preço pago pela fruta por ser orgânica.

Foto - Jairo


Era preciso convencer o público em geral que a pitaya era tão saborosa, tão nutritiva, que valeria a pena comê-la, e que ela deveria estar acessível a todos/as. Tinha clareza que pitaya não era banana, não era maçã, não era uva, onde toda a população conhecia e já havia provado pelo menos uma vez. Era fruta “dragão” era algo muito novo e que precisaríamos de um tempo longo para que a população conhecesse e passasse a consumir também. A fruta, portanto, teria de chegar ao público infantil, nas creches, nas escolas, nas unidades de atendimento de crianças em condições vulneráveis etc., etc. Porém, para esse público, era imprescindível selecionar frutas saborosas, bem doces, porque tínhamos em nossa frente um público exigente onde a primeira impressão é que ficaria.


Foto - Viviane

Foto - Viviane




Casa da Fraternidade - Araranguá

Foto - Viviane

Foto - Viviane




Desde que obtive a certificação, venho fazendo esse trabalho de sensibilização ao consumo saudável da fruta. O que me surpreende a cada encontro, é o número de crianças e adolescentes que passaram a apreciar a fruta, e recomendando aos pais para adquiri-las. Penso que o caminho é esse, educação alimentar, e que todos os produtores de pitaya deveriam estar se ocupando fortemente nos seus municípios. Em vez de estar gravando vídeos despejando a fruta para os animais, que as leve à todas as creches e escolas e faça o mesmo trabalho que venho fazendo, converse com as crianças, explique para elas, os seus pais, devem comer pitaya, o que de bom a fruta traz para a saúde. A certeza é que em pouco tempo teremos um publico cativo de consumidores de pitaya.

Prof. Jairo Cesa                  

domingo, 1 de março de 2026

 

OS NOVOS/VELHOS DESAFIOS DO NÚCLEO SERRAMAR/REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA DO SUL DO ESTADO DE SANTA CATARINA.

https://www.facebook.com/serramar.ecovida/


No país onde o agronegócio se destaca navegando em águas calmas subsidiado por fartos recursos públicos, a exemplo do Plano Safra, que destinou mais de 600 bilhões a esse segmento em 2025/2026, na contramão, em águas turvas, está a agricultura familiar que tenta se virar nos trinta mantendo-se viva no cenário produtivo com parcos 90 bilhões de reais também do Plano Safra. Não é segredo para ninguém que parte significativa dos hortifrutigrangeiros disponíveis em pequenos, médios e grandes supermercados, são produzidos por famílias de agricultores, que resistem no campo as agruras de um sistema que tenta suprimi-los do mapa.

Nesse complexo conjunto produtivo agrícola nacional, tem um terceiro segmento quase apagado e que insiste em se manter presente no cenário agrícola, ocupando uma discreta franja do disputado mercado de alimentos oriundos do campo. Me refiro aqui aos heróis da resistência dos orgânicos e da agroecologia. Afinal quem são esses ainda anônimos que resistem como soldados de uma batalha de trincheira inglória ocupando pequenos nichos do mercado de hortaliças, frutas entre outros gêneros?

São famílias que decidiram fugir da bolha dos convencionais e se arriscar em produzir alimentos sem agrotóxicos e outros insumos químicos. São substâncias que fragilizar os ecossistemas inteiros levando a morte de microorganismos essenciais e pessoas, vítimas de doenças degenerativas entre outras patologias afins. Poucos sabem que o Brasil compete internacionalmente na área da soja, do suco de laranja, da cana de açúcar, porque tem subsídio público, que também atinge a área da pesquisa por meio da EMBRAPA. Se não fosse os fartos bilhões de reais públicos, não teríamos um agronegócio tão potente, que infelizmente os lucros obtidos não são compartilhados coletivamente. Bem diferente da agricultura familiar, que mesmo com subsídios comparativamente inferiores, o grau de compartilhamento social é assustadoramente superior ao do agronegócio.  

É muito difícil ainda encontrar nas casas especializadas, como agropecuárias, produtos destinados aos orgânicos e agroecológico. Bem distinto de um glifosato que geralmente não necessita de receituário de um profissional habilitado. O que se vê hoje são regras ainda muito rígidas àqueles que se arriscam se aventurar nos não convencionais/orgânicos, tendo que seguir protocolos complexos, como cumprir etapas de transição até a certificação. Muitas vezes o período transição entre o manejo convencional e não convencional pode levar de dois a três anos, etapa recomendada pelo Ministério da Agricultura e Produção Animal - MAPA, para credenciá-los aptos à atividade.

No Brasil existem formas distintas para o credenciamento orgânico e agroecológico, um deles é por auditoria, onde empresas credenciadas realizam todo o trabalho de acompanhamento das etapas até a emissão de certificação. Outro formato é o participativo, a exemplo da REDE ECOVIDA, de produtores, consumidores e simpatizantes, dos quais são disponibilizados em grupos, núcleos, que compartilham regras comuns, desde o manejo do solo, do cultivo das plantas, até a comercialização. Cada membro se apresenta como um fiscal, atuando de tal modo que a complexa rede se mantenha integra, compacta, levando credibilidade àqueles que consomem o que é produzido por essas famílias.

Foto - Jairo


Uma das grandes dificuldades que ainda enfrentam os que adotam o manejo não convencional, o orgânico, é o baixo consumo e a concorrência do sistema produtivo predador. Muitos dos que empregam o delicado manejo produtivo orgânico, são forçados, para sobreviver, a comercializar o que produzem a preços irrisórios pagos por atravessadores. Um bom exemplo para ilustrar é o mercado de pitaya. Quem conhece o manejo da fruta sabe da dificuldade que é colher frutas saudáveis sem o uso de agrotóxicos e insumos químicos. Quem vai ao mercado hoje pode constatar que há pitayas com preços inferiores a 5 reais ao kg. É bem provável que o produtor da fruta deve ter recebido menos da metade desse valor na entrega do produto. E quem trabalha com certificação, como fica?

O fato é que pouca gente está preocupada com a procedência daquilo que consome, dos insumos utilizados, pessoas envolvidas no manejo. O que mais consideram é preço a ser pago não a procedência, não é mesmo?  Diante desse sistema injusto e predador, algumas políticas públicas federais estaduais e municipais garantem um certo respiro a essas milhares de famílias que ainda atuam no campo, em especial o produtor agroecológico. O Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE, o Programa de Aquisição de Alimentos - PAA, são alguns programas que dão sobrevida às famílias, permitindo que escolas e outras tantas entidades assistenciais adquiram dessas famílias 30% do que consomem, assegurando-lhes um preço de até 30% maior do que o convencional.






Infelizmente ainda há um grande silêncio das mídias convencionais às lutas diárias das famílias do campo, as dificuldades de manter-se no campo e subsistir com aquilo que produzem com tanto sacrifício. Agora, imaginemos aqueles que produzem o feijão, o milho, a aipim, a batata, a laranja, a pitaya,  por meio do manejo orgânico e agroecológico. Muitos ainda estão na labuta diária no campo porque atuam de forma relativamente organizada, coletiva. O núcleo SERRAMAR, se orgânicos e agroecológicos, que integra a rede ECOVIDA, vem exercitando essa habilidade participativa há muito tempo. São dezenas de famílias espalhadas pelos municípios do sul do estado catarinense, que se reúnem quase mensalmente para discutir e deliberar demandas que posteriormente são debatidas no grande encontro do núcleo.


Foto - Jairo



É bom saber que sem a participação atuante dos poderes executivo e do legislativo nas instâncias federais, estaduais e municipais, o agricultor familiar não teria como subsistir. Infelizmente, ainda são poucos os prefeitos, vereadores, deputados, que cumprem o que prometem em tempos de campanha eleitoral, como o apoio ao pequeno agricultor. Em alguns casos as cores partidárias, direita e esquerde, se confundem no trato de demandas de interesses coletivos, porém, são exceções nesse campo contaminado por ideologias extremistas.

No último dia 26 de fevereiro de 2026, integrantes dos vários grupos pertencentes ao núcleo SERRAMAR estiveram participando de importante evento no município de Rio Fortuna, junto a sede da Cooperativa Agroecológica Família. No encontro além da posse da nova coordenação da entidade, outros assuntos foram tratados como a entrega de trituradores e mudas de citros aos vários grupos que integram o núcleo agroecológico. Os equipamentos e mudas foram obtidos por meio de emenda participativa do deputado federal Pedro Uczai – PT.


Foto - Jairo





Foto - Jairo



A presença do prefeito de Rio Fortuna, Lindomar Ballmann – PSD, e da prefeita de Santa Rosa de Lima, Suzete Vandresen Baumann – PT, ambos deram um demonstrativo do quanto são importantes para a sobrevivência das famílias do campo, dando suporte com políticas de incentivo financeiro e governamental. A entrega dos trituradores ajudará o agricultor na reciclagem das sobras do seu sítio, tanto para a compostagem como para a alimentação dos animais. Os citros, cerca de 5 mil pés, serão distribuídas as famílias que adotam o manejo agroflorestal, oportunizando-as a diversificarem seu arcabouço produtivo no campo.

Além dos dois/as prefeitos/as, do deputado federal, de membros da Cooperativa Nacional de Abastecimento - CONAB, do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, o legislativo estadual de Santa Catarina estava representado pelo deputado estadual Padre Pedro Baldissera – PT, que na ALESC foca suas ações na agroecologia e alimentação saudável, agricultura familiar, agua e meio ambiente, práticas integrativas e complementares em saúde, cannabis medicinal, energias renováveis e a cadeia produtiva do mel.  A fala do deputado foi contundente, atacou em cheio o modelo produtivo atual que se contrapõe ao agroecológico, que em vez de estar protegido, tem de se proteger para não desaparecer. Falou sobre as doenças que são consequências diretas do alimento, da água, contaminadas por agrotóxicos, da importância do apicultor, uma das profissões mais importantes do planeta, porque sem as abelhas a vida vai desaparecer.

Foto - Jairo


    Destaco aqui outro momento importante do encontro que foi a presença de duas membros do Departamento de Nutrição da Secretaria da Educação de Florianópolis, para tratar o tema a Importância da Alimentação Agroecológica na Alimentação Escolar e Seus Impactos. Ambas apresentaram dados relevantes relativos a quantidade de gêneros orgânicos adquiridos da Cooperativa Família das quais são servidos a milhares de crianças e adolescentes nas escolas de Florianópolis.  Outro trabalho importante apresentado foi sobre educação alimentar saudável nas escolas do município da capital. Em reunião do núcleo SERRAMAR ocorrida há pouco tempo, foi delibado da realização de encontros com as nutricionistas dos municípios onde o núcleo tem abrangência. A proposta é convencer as profissionais da necessidade de ampliar a oferta de alimentos orgânicos nas escolas dos municípios.

Foto - Jairo



Jairo Cesa