domingo, 1 de março de 2026

 

OS NOVOS/VELHOS DESAFIOS DO NÚCLEO SERRAMAR/REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA DO SUL DO ESTADO DE SANTA CATARINA.

https://www.facebook.com/serramar.ecovida/


No país onde o agronegócio se destaca navegando em águas calmas subsidiado por fartos recursos públicos, a exemplo do Plano Safra, que destinou mais de 600 bilhões a esse segmento em 2025/2026, na contramão, em águas turvas, está a agricultura familiar que tenta se virar nos trinta mantendo-se viva no cenário produtivo com parcos 90 bilhões de reais também do Plano Safra. Não é segredo para ninguém que parte significativa dos hortifrutigrangeiros disponíveis em pequenos, médios e grandes supermercados, são produzidos por famílias de agricultores, que resistem no campo as agruras de um sistema que tenta suprimi-los do mapa.

Nesse complexo conjunto produtivo agrícola nacional, tem um terceiro segmento quase apagado e que insiste em se manter presente no cenário agrícola, ocupando uma discreta franja do disputado mercado de alimentos oriundos do campo. Me refiro aqui aos heróis da resistência dos orgânicos e da agroecologia. Afinal quem são esses ainda anônimos que resistem como soldados de uma batalha de trincheira inglória ocupando pequenos nichos do mercado de hortaliças, frutas entre outros gêneros?

São famílias que decidiram fugir da bolha dos convencionais e se arriscar em produzir alimentos sem agrotóxicos e outros insumos químicos. São substâncias que fragilizar os ecossistemas inteiros levando a morte de microorganismos essenciais e pessoas, vítimas de doenças degenerativas entre outras patologias afins. Poucos sabem que o Brasil compete internacionalmente na área da soja, do suco de laranja, da cana de açúcar, porque tem subsídio público, que também atinge a área da pesquisa, por meio da EMBRAPA. Se não fosse os fartos bilhões públicos, não teríamos um agronegócio tão potente, que infelizmente os lucros obtidos não são compartilhados socialmente. Bem diferente da agricultura familiar, que mesmo com subsídios comparativamente inferiores, o grau de compartilhamento social é assustadoramente superior ao do agronegócio.  

É muito difícil ainda encontrar nas casas especializadas, como agropecuárias, produtos destinados aos orgânicos e agroecológico. Bem distinto de um glifosato que geralmente não necessita de receituário de um profissional habilitado. O que se vê hoje são regras ainda muito rígidas àqueles que se arriscam se aventurar nos não convencionais/orgânicos, tendo que seguir protocolos complexos, como cumprir etapas de transição até a certificação. Muitas vezes o período transição entre o manejo convencional e não convencional pode levar de dois a três anos, etapa recomendada pelo Ministério da Agricultura e Produção Animal - MAPA, para credenciá-los aptos à atividade.

No Brasil existem formas distintas para o credenciamento orgânico e agroecológico, um deles é por auditoria, onde empresas credenciadas realizam todo o trabalho de acompanhamento das etapas até a emissão de certificação. Outro formato é o participativo, a exemplo da REDE ECOVIDA, de produtores, consumidores e simpatizantes, dos quais são disponibilizados em grupos, núcleos, que compartilham regras comuns, desde o manejo do solo, do cultivo das plantas, até a comercialização. Cada membro se apresenta como um fiscal, atuando de tal modo que a complexa rede se mantenha integra, compacta, levando credibilidade àqueles que consomem o que é produzido por essas famílias.

Foto - Jairo


Uma das grandes dificuldades que ainda enfrentam os que adotam o manejo não convencional, o orgânico, é o baixo consumo e a concorrência do sistema produtivo predador. Muitos dos que empregam o delicado manejo produtivo orgânico, são forçados, para sobreviver, a comercializar o que produzem a preços irrisórios pagos por atravessadores. Um bom exemplo para ilustrar é o mercado de pitaya. Quem conhece o manejo da fruta sabe da dificuldade que é colher frutas saudáveis sem o uso de agrotóxicos e insumos químicos. Quem vai ao mercado hoje pode constatar que há pitayas com preços inferiores a 5 reais ao kg. É bem provável que o produtor da fruta deve ter recebido menos da metade desse valor na entrega do produto. E quem trabalha com certificação, como fica?

O fato é que pouca gente está preocupada com a procedência daquilo que consome, dos insumos utilizados, pessoas envolvidas no manejo. O que mais consideram é preço a ser pago não a procedência, não é mesmo?  Diante desse sistema injusto e predador, algumas políticas públicas federais estaduais e municipais garantem um certo respiro a essas milhares de famílias que ainda atuam no campo, em especial o produtor agroecológico. O Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE, o Programa de Aquisição de Alimentos - PAA, são alguns programas que dão sobrevida às famílias, permitindo que escolas e outras tantas entidades assistenciais adquiram dessas famílias 30% do que consomem, assegurando-lhes um preço de até 30% maior do que o convencional.






Infelizmente ainda há um grande silêncio das mídias convencionais às lutas diárias das famílias do campo, as dificuldades de manter-se no campo e subsistir com aquilo que produzem com tanto sacrifício. Agora, imaginemos aqueles que produzem o feijão, o milho, a aipim, a batata, a laranja, a pitaya,  por meio do manejo orgânico e agroecológico. Muitos ainda estão na labuta diária no campo porque atuam de forma relativamente organizada, coletiva. O núcleo SERRAMAR, se orgânicos e agroecológicos, que integra a rede ECOVIDA, vem exercitando essa habilidade participativa há muito tempo. São dezenas de famílias, espalhadas pelos municípios do sul do estado catarinense, que se reúnem quase mensalmente para discutir e deliberar demandas que posteriormente são debatidas no grande encontro do núcleo.


Foto - Jairo



É bom saber que sem a participação atuante dos poderes executivo e do legislativo nas instâncias federais, estaduais e municipais, o agricultor familiar não teria como subsistir. Infelizmente, ainda são poucos os prefeitos, vereadores, deputados, que cumprem o que prometem em tempos de campanha eleitoral, como o apoio ao pequeno agricultor. Em alguns casos as cores partidárias, direita e esquerde, se confundem no trato de demandas de interesses coletivos, porém, são exceções, nesse campo contaminado por ideologias extremistas.

No último dia 26 de fevereiro de 2026, integrantes dos vários grupos pertencentes ao núcleo SERRAMAR estiveram participando de importante evento no município de Rio Fortuna, junto a sede da Cooperativa Agroecológica Família. No encontro além da posse da nova coordenação da entidade, outros assuntos foram tratados como a entrega de trituradores e mudas de citros aos vários grupos que integram o núcleo agroecológico. Os equipamentos e mudas foram obtidos por meio de emenda participativa do deputado federal Pedro Uczai – PT.


Foto - Jairo





Foto - Jairo



A presença do prefeito de Rio Fortuna, Lindomar Ballmann – PSD, e da prefeita de Santa Rosa de Lima, Suzete Vandresen Baumann – PT, ambos deram um demonstrativo do quanto são importantes para a sobrevivência das famílias do campo, dando suporte com políticas de incentivo financeiro e governamental. A entrega dos trituradores ajudará o agricultor na reciclagem das sobras do seu sítio, tanto para a compostagem como para a alimentação dos animais. Os citros, cerca de 5 mil pés, serão distribuídas as famílias que adotam o manejo agroflorestal, oportunizando-as a diversificarem seu arcabouço produtivo no campo.

Além dos dois/as prefeitos/as, do deputado federal, de membros da Cooperativa Nacional de Abastecimento - CONAB, do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, o legislativo estadual de Santa Catarina estava representado pelo deputado estadual Padre Pedro Baldissera – PT, que na ALESC foca suas ações na agroecologia e alimentação saudável, agricultura familiar, agua e meio ambiente, práticas integrativas e complementares em saúde, cannabis medicinal, energias renováveis e a cadeia produtiva do mel.  A fala do deputado foi contundente, atacou em cheio o modelo produtivo atual que se contrapõe ao agroecológico, que em vez de estar protegido, tem de se proteger para não desaparecer. Falou sobre as doenças que são consequências diretas do alimento, da água, contaminadas por agrotóxicos, da importância do apicultor, uma das profissões mais importantes do planeta, porque sem as abelhas a vida vai desaparecer.

Foto - Jairo


    Destaco aqui outro momento importante do encontro que foi a presença de duas membros do Departamento de Nutrição da Secretaria da Educação de Florianópolis, para tratar o tema a Importância da Alimentação Agroecológica na Alimentação Escolar e Seus Impactos. Ambas apresentaram dados relevantes relativos a quantidade de gêneros orgânicos adquiridos da Cooperativa Família das quais são servidos a milhares de crianças e adolescentes nas escolas de Florianópolis.  Outro trabalho importante apresentado foi sobre educação alimentar saudável nas escolas do município da capital. Em reunião do núcleo SERRAMAR ocorrida há pouco tempo, foi delibado da realização de encontros com as nutricionistas dos municípios onde o núcleo tem abrangência. A proposta é convencer as profissionais da necessidade de ampliar a oferta de alimentos orgânicos nas escolas dos municípios.

Foto - Jairo



Jairo Cesa      

Nenhum comentário:

Postar um comentário