OS NOVOS/VELHOS DESAFIOS DO NÚCLEO SERRAMAR/REDE ECOVIDA DE AGROECOLOGIA DO SUL DO ESTADO DE SANTA CATARINA.
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No
país onde o agronegócio se destaca navegando em águas calmas subsidiado por
fartos recursos públicos, a exemplo do Plano Safra, que destinou mais de 600 bilhões
a esse segmento em 2025/2026, na contramão, em águas turvas, está a agricultura
familiar que tenta se virar nos trinta mantendo-se viva no cenário produtivo
com parcos 90 bilhões de reais também do Plano Safra. Não é segredo para
ninguém que parte significativa dos hortifrutigrangeiros disponíveis em
pequenos, médios e grandes supermercados, são produzidos por famílias de
agricultores, que resistem no campo as agruras de um sistema que tenta suprimi-los
do mapa.
Nesse
complexo conjunto produtivo agrícola nacional, tem um terceiro segmento quase
apagado e que insiste em se manter presente no cenário agrícola, ocupando uma
discreta franja do disputado mercado de alimentos oriundos do campo. Me refiro
aqui aos heróis da resistência dos orgânicos e da agroecologia. Afinal quem são
esses ainda anônimos que resistem como soldados de uma batalha de trincheira inglória
ocupando pequenos nichos do mercado de hortaliças, frutas entre outros gêneros?
São
famílias que decidiram fugir da bolha dos convencionais e se arriscar em
produzir alimentos sem agrotóxicos e outros insumos químicos. São substâncias que
fragilizar os ecossistemas inteiros levando a morte de microorganismos essenciais
e pessoas, vítimas de doenças degenerativas entre outras patologias afins. Poucos
sabem que o Brasil compete internacionalmente na área da soja, do suco de laranja,
da cana de açúcar, porque tem subsídio público, que também atinge a área da
pesquisa, por meio da EMBRAPA. Se não fosse os fartos bilhões públicos, não teríamos
um agronegócio tão potente, que infelizmente os lucros obtidos não são
compartilhados socialmente. Bem diferente da agricultura familiar, que mesmo
com subsídios comparativamente inferiores, o grau de compartilhamento social é
assustadoramente superior ao do agronegócio.
É
muito difícil ainda encontrar nas casas especializadas, como agropecuárias,
produtos destinados aos orgânicos e agroecológico. Bem distinto de um glifosato
que geralmente não necessita de receituário de um profissional habilitado. O que
se vê hoje são regras ainda muito rígidas àqueles que se arriscam se aventurar
nos não convencionais/orgânicos, tendo que seguir protocolos complexos, como cumprir
etapas de transição até a certificação. Muitas vezes o período transição entre
o manejo convencional e não convencional pode levar de dois a três anos, etapa recomendada
pelo Ministério da Agricultura e Produção Animal - MAPA, para credenciá-los aptos
à atividade.
No
Brasil existem formas distintas para o credenciamento orgânico e agroecológico,
um deles é por auditoria, onde empresas credenciadas realizam todo o trabalho
de acompanhamento das etapas até a emissão de certificação. Outro formato é o
participativo, a exemplo da REDE ECOVIDA, de produtores, consumidores e
simpatizantes, dos quais são disponibilizados em grupos, núcleos, que compartilham
regras comuns, desde o manejo do solo, do cultivo das plantas, até a
comercialização. Cada membro se apresenta como um fiscal, atuando de tal modo
que a complexa rede se mantenha integra, compacta, levando credibilidade
àqueles que consomem o que é produzido por essas famílias.
| Foto - Jairo |
Uma
das grandes dificuldades que ainda enfrentam os que adotam o manejo não
convencional, o orgânico, é o baixo consumo e a concorrência do sistema
produtivo predador. Muitos dos que empregam o delicado manejo produtivo orgânico,
são forçados, para sobreviver, a comercializar o que produzem a preços
irrisórios pagos por atravessadores. Um bom exemplo para ilustrar é o mercado
de pitaya. Quem conhece o manejo da fruta sabe da dificuldade que é colher
frutas saudáveis sem o uso de agrotóxicos e insumos químicos. Quem vai ao
mercado hoje pode constatar que há pitayas com preços inferiores a 5 reais ao kg.
É bem provável que o produtor da fruta deve ter recebido menos da metade desse
valor na entrega do produto. E quem trabalha com certificação, como fica?
O
fato é que pouca gente está preocupada com a procedência daquilo que consome, dos
insumos utilizados, pessoas envolvidas no manejo. O que mais consideram é preço
a ser pago não a procedência, não é mesmo? Diante desse sistema injusto e predador,
algumas políticas públicas federais estaduais e municipais garantem um certo
respiro a essas milhares de famílias que ainda atuam no campo, em especial o
produtor agroecológico. O Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE, o Programa
de Aquisição de Alimentos - PAA, são alguns programas que dão sobrevida às famílias,
permitindo que escolas e outras tantas entidades assistenciais adquiram dessas
famílias 30% do que consomem, assegurando-lhes um preço de até 30% maior do que
o convencional.
Infelizmente
ainda há um grande silêncio das mídias convencionais às lutas diárias das famílias
do campo, as dificuldades de manter-se no campo e subsistir com aquilo que
produzem com tanto sacrifício. Agora, imaginemos aqueles que produzem o feijão,
o milho, a aipim, a batata, a laranja, a pitaya, por meio do manejo orgânico e agroecológico. Muitos
ainda estão na labuta diária no campo porque atuam de forma relativamente
organizada, coletiva. O núcleo SERRAMAR, se orgânicos e agroecológicos, que
integra a rede ECOVIDA, vem exercitando essa habilidade participativa há muito
tempo. São dezenas de famílias, espalhadas pelos municípios do sul do estado catarinense,
que se reúnem quase mensalmente para discutir e deliberar demandas que posteriormente
são debatidas no grande encontro do núcleo.
| Foto - Jairo |
É
bom saber que sem a participação atuante dos poderes executivo e do legislativo
nas instâncias federais, estaduais e municipais, o agricultor familiar não
teria como subsistir. Infelizmente, ainda são poucos os prefeitos, vereadores,
deputados, que cumprem o que prometem em tempos de campanha eleitoral, como o
apoio ao pequeno agricultor. Em alguns casos as cores partidárias, direita e
esquerde, se confundem no trato de demandas de interesses coletivos, porém, são
exceções, nesse campo contaminado por ideologias extremistas.
No
último dia 26 de fevereiro de 2026, integrantes dos vários grupos pertencentes
ao núcleo SERRAMAR estiveram participando de importante evento no município de
Rio Fortuna, junto a sede da Cooperativa Agroecológica Família. No encontro além
da posse da nova coordenação da entidade, outros assuntos foram tratados como a
entrega de trituradores e mudas de citros aos vários grupos que integram o núcleo
agroecológico. Os equipamentos e mudas foram obtidos por meio de emenda
participativa do deputado federal Pedro Uczai – PT.
| Foto - Jairo |
| Foto - Jairo |
A
presença do prefeito de Rio Fortuna, Lindomar Ballmann – PSD, e da prefeita de
Santa Rosa de Lima, Suzete Vandresen Baumann – PT, ambos deram um demonstrativo
do quanto são importantes para a sobrevivência das famílias do campo, dando
suporte com políticas de incentivo financeiro e governamental. A entrega dos
trituradores ajudará o agricultor na reciclagem das sobras do seu sítio, tanto
para a compostagem como para a alimentação dos animais. Os citros, cerca de 5
mil pés, serão distribuídas as famílias que adotam o manejo agroflorestal,
oportunizando-as a diversificarem seu arcabouço produtivo no campo.
Além
dos dois/as prefeitos/as, do deputado federal, de membros da Cooperativa Nacional
de Abastecimento - CONAB, do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, o
legislativo estadual de Santa Catarina estava representado pelo deputado
estadual Padre Pedro Baldissera – PT, que na ALESC foca suas ações na
agroecologia e alimentação saudável, agricultura familiar, agua e meio
ambiente, práticas integrativas e complementares em saúde, cannabis medicinal,
energias renováveis e a cadeia produtiva do mel. A fala do deputado foi contundente, atacou em
cheio o modelo produtivo atual que se contrapõe ao agroecológico, que em vez de
estar protegido, tem de se proteger para não desaparecer. Falou sobre as
doenças que são consequências diretas do alimento, da água, contaminadas por agrotóxicos,
da importância do apicultor, uma das profissões mais importantes do planeta,
porque sem as abelhas a vida vai desaparecer.
| Foto - Jairo |
Destaco
aqui outro momento importante do encontro que foi a presença de duas membros do
Departamento de Nutrição da Secretaria da Educação de Florianópolis, para
tratar o tema a Importância da Alimentação Agroecológica na Alimentação Escolar
e Seus Impactos. Ambas apresentaram dados relevantes relativos a quantidade de gêneros
orgânicos adquiridos da Cooperativa Família das quais são servidos a milhares
de crianças e adolescentes nas escolas de Florianópolis. Outro trabalho importante apresentado foi sobre
educação alimentar saudável nas escolas do município da capital. Em reunião do
núcleo SERRAMAR ocorrida há pouco tempo, foi delibado da realização de encontros
com as nutricionistas dos municípios onde o núcleo tem abrangência. A proposta
é convencer as profissionais da necessidade de ampliar a oferta de alimentos orgânicos
nas escolas dos municípios.
| Foto - Jairo |
Jairo
Cesa
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