segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

TRAGÉDIA CLIMÁTICA NO NEPAL SERVE PARA REFLETIR SOBRE A EFETIVIDADE DOS PLANOS DE CONTINGÊNCIAS A DESASTRES AMBIENTAIS EM SANTA CATARINA

https://tadeusantos.blogspot.com/2011/12/furacao-catarina-e-o.html


Quando assisti as impressionantes cenas das avalanches que devastaram territórios inteiros no Nepal, provocando centenas de mortes, desaparecidos, e prejuízos bilionários à infraestrutura, na hora veio ao pensamento o episódio climático semelhante ocorrido no Timbé do Sul/SC, em dezembro de 1995. Claro que aqui foi em menor proporção, porém, o fato ocorrido no país do Himalaia, deve, necessariamente, servir de alerta às autoridades locais, porque nos trinta anos pós avalanche no Timbé, a temperatura média do planeta vem tendo elevação progressiva, com recordes sucessivos de calor a cada verão. Nos vários sites disponíveis na internet que reportaram o ocorrido no Nepal, é quase unânime os relatos, que a avalanche, composta de gelo derretido, rochas e lama, tenha relação com o aquecimento global.

É possível também que o Super El Nino também tenha contribuído com o desastre, com o aumento das precipitações, ainda mais porque aquela região está atualmente sob a influência das monções. As enxurradas históricas no Rio Grande do Sul em 2024, que insiste em repetir, em menor proporção no estado gaúcho catarinense desde então, não podem ser interpretadas como eventos climáticos isolados ao aumento da temperatura do planeta. É possível que foram inexpressivas as ações tomadas pelas autoridades do RS, com vistas a ações preventivas a desastres climáticos futuros. Uma das ações seria estimular os municípios a reelaborarem os seus planos diretores, inserindo dispositivos direcionados a adaptação climática local.    

Penso que o negacionismo climático ainda perpetua nas mentes de inúmeros gestores públicos, que devem compartilhar com o mesmo pensamento do candidato extremista a presidente, onde afirma que os episódios climáticos extremos, são ciclos naturais, que não tem relação com o que os cientistas apregoam, que o planeta passa por uma emergência climática. Com base nessa opinião, de negar o que afirma a ciência acerca do aquecimento global, e de não constar no seu plano de governo demandas relativas as adaptações climáticas, o candidato a presidente pelo PL, se eleito for, poderá estar colocando de vez o povo brasileiro em um terrível abismo climático, em especial os estados do sul, os mais impactados pelos atuais episódios climáticos extremos.

Se o sul do Brasil, cujos estados são os mais afetados por tragédias climáticas, onde parte da população comunga com o que pensam políticos negacionistas, é previsível que, em um cenário trágico de derrota da democracia, as legislações que asseguram o mínimo de proteção aos ecossistemas, como a lei da mata atlântica, serão violentamente atacadas.  Graças ao uso de imagens de satélite, os percentuais de desmatamentos em 2025 tiveram ligeira redução, segundo relatório apresentado pelo MapaBiomas.

Derrotar o candidato da extrema direita nas eleições de outubro próximo é uma questão de prioridade das prioridades à segurança ambiental nacional, sem contar outros demandas que poderão sofrer retrocessos irreversíveis. Por que dou destaque a seguridade ambiental nacional? A resposta parece óbvia para aqueles que acompanharam a entrevista do candidato Flávio Bolsonaro, no Jornal Nacional, quando afirmou não acreditar nas mudanças climáticas em curso. Sua postura negacionista, se assemelha a do ex-presidente Bolsonaro, seu pai, hoje prisioneiro, que governou o Brasil de 2019 a 2023.

Olha o absurdo dos absurdos, respondeu durante a entrevista, ou por desconhecimento ou por atitude de deboche aos entrevistadores, que para solucionar o problema do aquecimento global, dará maior atenção ao saneamento básico, com a expansão das redes de esgotamento sanitário. Resposta essa que não tem relação direta com o que determina o Acordo de Páris. É, sim, desmontar completamente todo o arcabouço ambiental já existente no Brasil, seguindo o caminho do presidente dos Estados Unidos, que decidiu abandonar os acordos assinados sobre o combate ao aquecimento global.

Quando afirmamos que os desastres climáticos no sul do Brasil têm se intensificado, o aumento dos desmatamentos de 2019 até 2022, durante os governos Temer e Bolsonaro, deve ser visto como um dos inúmeros gatilhos às enxurradas que devastaram cidades inteiras e a infraestrutura do estado. Como não lembrar a fala criminosa do ex-ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, quem em 2020, no governo de Bolsonaro, afirmou em reunião de ministros, que era necessário passar a boiada, ou seja, destruir ou fragilizar as legislações de proteção às florestas.

É quase certo que a fala do ministro teve influência direta no crescimento vertiginoso dos desmatamentos no estado de Santa Catarina, pois, de 2019 para 2020, houve perda de cobertura vegetal superior a 200%, passando de 508,1 hectares, registrado em 2019, para 1.755,62, em 2020. A ação dos desmatadores continuou nos dois anos subsequentes, em 2021, foi de 1.467,16 hectares, e em 2022, acredito que deve ter sido o ano mais devastador da história de Santa Catarina, com 2.309,56 ha. Essa tragédia só não teve continuidade porque o presidente que protagonizou esse cenário devastador foi contido na eleição de 2022, com a eleição do candidato Lula, do PT.  

O cenário de desmatamento no estado do RS, seguiu o mesmo ritmo ao de Santa Catarina, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.  É claro que seguem a lógica geral do restante do Brasil, porém, no Sul, teve um ingrediente a mais, grande concentração de simpatizantes, apoiadores das políticas extremistas do antigo governo, Jair Bolsonaro, que tem agora como candidato à presidente no pleito de outubro próximo, o seu filho, Flávio Bolsonaro.  

Votar no candidato que afirma não ter os episódios climáticos extremos qualquer relação com as mudanças climáticas globais, é como cavar mais sepulturas aos mortos advindos das futuras tragédias climáticas que tenderão a se intensificar com o retorno dos desmatamentos criminosos. Vale destacar que sendo maior a homogeneidade da cobertura florestal de um território menor serão seus impactos nos rios, em decorrência dos assoreamentos. Nos últimos 38 anos, o território brasileiro teve a sua floresta nativa fragmentada de 2.7 milhões de hectares, para 7.1 milhões de hectares, ou seja, um aumento de 163%.  Em 1986, o tamanho de um fragmento de floresta que era de 241 há, estava reduzido para 77 ha em 2023. Fragmentos de florestas ocorre quando, por exemplo, uma área de 100 ha, fracionada em 10 pedações, ou 100, de 1ha cada.

Já que o código florestal determina a manutenção de 20% da reserva legal no bioma da mata atlântica, a cultura de arroz que esteve em franca ascensão, somada a baixa fiscalização, permitiu que áreas de mata nativa no extremo sul fosse fragmentada. Imagem de satélite do extremo sul de Santa Catarina, revela cenário quase completamente descoberto por florestas. O mais impactante é os afluentes e subafluentes do rio Araranguá, cuja mata ciliar não atende as medidas mínimas de proteção estabelecidas pelo Código Florestal. Menor cobertura florestal e redução da mata ciliar, são dois vetores às incidências de enchentes na área que congrega a bacia do rio Araranguá.

Outra reflexão necessária, há possibilidades de evento climático extremo semelhante ao que devastou comunidades no município de Timbé do Sul e Jacinto Machado? Lembro que algumas semanas depois da avalanche no Timbé do Sul, tivemos a visita de um professor de uma universidade da Inglaterra, onde realizou um tour nos locais afetados pelo desastre climático. Ficou impressionado com o que viu e alertou que toda a encosta da serra geral no extremo sul se apresentava suscetível a ocorrência de episódios extremos e de elevado risco a população que habita as encostas.

Durante as várias audiências e reuniões para discutir a construção da polêmica barragem no Rio do Salto, no Timbé do Sul, cuja alegação é fornecer água à população e para a irrigação agrícola, o professor de UFSC, Luiz Fernando Sheibe, fez algumas reflexões sobre os riscos de barragens em locais suscetíveis a cabeças d’água, enxurradas, como no trecho sul das encostas da serra geral. Na hipótese de uma obra de tamanha complexidade, se faz necessário a elaboração de planos de contingências rigorosos.

É o caso da barragem do rio São Bento, em Siderópolis, que abastece municípios da região, havendo uma enxurrada na mesma proporção a de Timbé do Sul, teria algum risco de vir a colapsar? Penso que governos como o atual em Santa Catarina, que comunga com o que acredita o seu candidato a presidente, Flávio Bolsonaro, de negar o aquecimento global, é possível que as políticas de contingências às tragédias climáticas no estado estão aquém do recomendado pelas autoridades do assunto.

Prof. Jairo Cesa        

 

 https://datastudio.google.com/reporting/578d1b52-c77b-450e-bb0f-c5c8b72f7bbf/page/p_imumkip73d     

https://brasil.mapbiomas.org/fragmentacao-da-vegetacao-nativa-no-brasil-cresceu-260-em-38-anos/

https://plataforma.alerta.mapbiomas.org/mapa?monthRange[0]=2019-01&monthRange[1]=2026-06&sources[0]=All&territoryType=all&authorization=all&embargoed=all&embargoedAlerta=all&embargoedRuralProperty=all&locationType=alert_code&activeBaseMap=1&map=-14.288794%2C-54.289764%2C4

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário