sexta-feira, 21 de agosto de 2026

 

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL VERSUS PLATAFORMIZAÇÃO DA EDUAÇÃO: PROFESSORES/AS COMO  EXECUTORES/AS DE METAS PADRONIZADAS

 

https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/1908

Em tempos de transformações tecnológicas, onde a inteligência artificial se torna cada vez mais presente no cotidiano das salas de aula e na vida de bilhões de pessoas, o programa Roda Vida, da TV Cultura, trouxe para o centro do debate, o educador, pesquisador e professor da Universidade da Columbia, EUA, Paulo Blikstein. As questões e reflexões abordadas sobre o tema, exibiu um abismo abissal, estrutural, teórico metodológico, envolvendo as escolas, públicas, em especial, acerca das ferramentas disponíveis.

Há um discurso consensual advindo do setor empresarial vinculado ao mercado da tecnologia, que tenta creditar à educação brasileira como sendo uma estrutura falida. Claro que é um erro absurdo pensar assim, porque diariamente mais de 2 milhões de professores transitam em 180 mil escolas espalhadas por todos os cantos, que embora envolvidas em problemas estruturais e pedagógicas, esses profissionais conseguem arrancar resultados satisfatórios no campo   da aprendizagem. De fato, é um discurso carregado de preconceitos, com propósitos de culpar o/a professor/a pelas falhas no ensino, e que para consertar é necessário suprir as escolas com tecnologias.

É claro que os problemas do ensino não serão solucionados inundando as escolas com tablets, computadores de última geração, se o/a professor/a não sabe ou não consegue usá-los por ter uma sobrecarga de atividades a serem cumpridas. A tecnologia, portanto, deve ser concebida como ferramenta de suporte nas escolas, auxiliar os/as estudantes no desenvolvimento de projetos, aguçando-o/a a criatividade.

Não é exatamente o que acontece nas escolas, porque existe um distanciamento, ou melhor, um estranhamento entre a realidade da escola pública e o mundo real. Temos unidades de ensino com currículos embasados em teorias de caráter funcional/positivista, contrapondo com estudantes cujos campos de visão são forjados por redes digitais. Já era tempo da inserção das tecnologias nos currículos, algo intrínseco ao processo de aprendizagem, onde todos tivessem fluência, criando coisas novas, úteis à melhoria das condições de vida na qual os estudantes estão inseridos.

É exatamente aqui que entra Paulo Freire, o grande herói da educação, tão desprestigiado, até mesmo demonizado pelas acéfalas elites entreguistas brasileiras. Sim, o educador Paulo Freire, autor de memoráveis obras, a exemplo do livro, Pedagogia do Oprimido. Acredite, Paulo Freire é considerado o terceiro indivíduo mais influente do planeta, estando atrás de Karl Marx e Michael Foucault.  Quando desenvolveu a experiência de alfabetizar 300 indivíduos em 40 horas, na cidade Angicos, Rio Grande do Norte, na década de 60, o Jornal New York Times, publicou artigo divulgando tal proeza, que se tornaria um modelo para a educação no mundo todo.[1]

Ao mesmo tempo em que as elites brasileiras demonizam Freire, alegando que sua proposta de ensino busca ideologizar as crianças, ou seja, transformá-las em comunistas, as escolas das quais estudam os filhos das elites paulistas e de outras partes do Brasil, adotam o método Paulo Freire no processo de aprendizagem. Como assim? Que contrassenso é esse? Na medida que as escolas públicas se mantem reféns em métodos e programas ainda tradicionais de ensino, como a memorização, a reprodução de conhecimentos, as escolas das quais estudam os filhos das elites, aprendem por meio de projetos. Nessas instituições existem os espaços makers (faça você mesmo) que são oficinas de artes, de música, laboratórios de ciências etc., onde os estudantes podem realizar suas paixões.             

É óbvio que as elites sabem do quanto é eficiente o método de ensino criado por Paulo freire. Isso explica o motivo pelo qual as reformas educacionais ocorridas no Brasil, especialmente do ensino médio, em momento algum são esboçadas menções ao método freiriano na educação. De fato, o método Paulo freire, é evidenciado nas tradicionais feiras de ciências, atividades ainda vistas como exceções nas escolas públicas, porém, inseridas nos programas curriculares dos particulares, cujos projetos apresentados norteiam todo o arcabouço pedagógico dessas instituições.

Com a inteligência artificial fazendo parte do cotidiano da sociedade, o que se vê nas instituições públicas, as municipais, por exemplo, são processos de plataformização dos instrumentos de ensino. Empresas, as chamadas Big techs oferecem, “gratuitamente”, programas/plataformas às redes de ensino, com promessas de elevar os índices das avaliações, como o IDEB.

O Paraná, por exemplo, vem adotando essas ferramentas, submetendo o Estado, os municípios, as políticas dessas empresas, que é maximizar os lucros no comércio milionário dessas novas tecnologias. Quando contratos são rompidos com tais empresas, todo o lineamento de informações contidos nesses programas, ficam com as empresas. Outro detalhe importante, não há disponível instrumentos de monitoramento permanente do Estado sobre a eficácia dessas plataformas.

A ideia era obter parâmetros sobre a eficácia delas no conjunto da escola.[2] A plataformização da educação pública no Paraná é um exemplo de como a Inteligência Artificial vem se sucedendo diariamente na vida de milhares de trabalhadores/as da educação. Em vez de ser um suporte, que auxiliasse a criatividade dos/as professores e estudantes, a IA, transforma-os/as em cativos, escravos de metas, da farsa por trás da meritocracia.

O uso do IDEB como parâmetro para avaliar a educação brasileira não exibe de fato suas distorções. O currículo das escolas é constituído por mais de 10 disciplinas, agora, um IDEB ter como parâmetro somente matemática e português, joga na latrina as demais importantes áreas do saber, como ciência, arte, geografia, história, educação física etc. O fato é que nem todos/as gostam de matemática, língua portuguesa, e usá-las como únicas ancoras para avaliar a educação no seu todo é um equívoco.

Se o processo avaliativo ocorresse de forma processual, ou seja, não pautado em notas, mas no conjunto do ensino, claro que com escolas públicas bem estruturadas, com profissionais estimulados com boas remunerados, teríamos uma educação de excelência, igualando até aos países que lideram o ranque da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômica - OCDE.

Os avanças das novas tecnologias nas escolas geralmente são empacadas pelo despreparo involuntário dos/as profissionais, que não conseguem executá-las devido a um conjunto de fatores que ultrapassa os limites das escolas. Como já repeti em outros textos, o/a professor/a permanece sendo um executor de tarefas, com mais tempo envolvido em funções burocráticas, em vez de estar pesquisando, aprendendo. O entrevistado Paulo Blikstain trouxe também para o debate o exemplo de Sobral, município do Ceará, onde o Estado criou a disciplina do Redesenhador Pedagógico, profissional esse encarregado de dar suporte aos professores em redesenhar o currículo, pensar novas formas de organizar a escola no seu todo.

O que se questiona é até que ponto esse modelo de ensino adotado pela rede pública do Ceará pode ser interpretado como referência a uma educação vista como transformadora. Claro que por trás desse modelo de educação plataformizada tem um projeto de sociedade articulada pelo grande capital neoliberal, cuja intenção é mercantilizar a educação, reduzindo professores/as em meros/as reprodutores/as de funções padronizadas.

A escola pública como instituição humanizadora, emancipadora, se modula em aparelho do Estado/capital, reproduzindo ideias e valores da classe que detém os meios de produção, a burguesia capitalista. De fato, o modelo de educação adotada em qualquer sociedade, reflete os interesses de uma classe social, portanto, em momento algum ela deve ser concebida como sendo neutra.

O que está ocorrendo na educação pública brasileira, é o reflexo explícito de políticas neoliberais adotadas durante os governos Temer e Bolsonaro. Quem lembra da Emenda Constitucional 95 que congelou gastos públicos por vinte ano?  A partir dessa emenda, saúde e educação, ficaram submetidas as regras do mercado, limitando investimentos para melhorias estruturais e de concursos públicos.  Essa emenda inviabilizou também a concretização da meta 20 do Plano Nacional de Educação, que seria a ampliação progressiva dos investimentos públicos em até 10% do PIB. Desde então, salários dos/as professores/as e demais servidores públicos permanecem congelados, sem contar o grau de pressão que estão submetidos/as ao cumprimento de metas.

Não esquecer que esse conjunto de reformas estruturais ainda em curso, em especial na educação, seguem as diretrizes impostas pelos organismos financeiros internacionais aos países periféricos do capitalismo, com vistas a priorizar o pagamento de dívidas em detrimento de políticas públicas.  Para a educação, já que os investimentos são escassos, é necessário priorizar as escolas mais eficientes por meio de testes avaliativos realizados pelo Estado.

Se os recursos são oriundos de fundos internacionais, é obvio que tais organismos exigirão dos Estados a apresentação de relatórios exibindo se as metas acordadas nos contratos alcançaram ou não os resultados almejados. Por isso, professores/as deixaram de ser construtores de conhecimentos tornando-se executores de metas padronizadas, com contratos flexíveis de trabalho e forte insegurança profissional. Diante da sobrecarga de trabalho e das fragilidades estruturais das escolas, o/a professor/a sobre violenta pressão, tanto no ambiente de trabalho, quanto da sociedade, culpando/a pelo fracasso da educação.

Não bastasse todas as dificuldades no exercício do trabalho docente, a inserção do extremismo/fascismo, na política, vem impactando os/as docentes das escolas públicas, forjando-os/as de estereótipos, como de doutrinadores, comunistas. Frente a isso, o congresso brasileiro, majoritariamente constituído por partidos ultraconservadoras, tentaram inserir nas escolas brasileiras um sistema de controle e vigilância, conhecido como Escola Sem Partido. Essa Lei foi derrubada pelo STF com a alegação que ela violava a liberdade de cátedra e expressão.

E os ataques a educação pública básica não cessaram nos governos Temer e Bolsonaro. Era necessário mexer no currículo das escolas, claro que nas públicas de ensino médio. A ordem eram abri-las para o mercado, atuando como agentes influenciadores na modelagem de um currículo que garantisse as parcerias público privadas, chamadas PPPs. As portas das escolas se abrem definitivamente para inserção das plataformas digitais, cujos interesses são lucrar com as vendas de equipamentos para modelar sujeitos dóceis disponíveis para o atual sistema predatório de produção.    

Prof. Jairo Cesa   

https://www.brasildefato.com.br/colunista/pedro-silva/2020/11/27/mitos-e-verdades-sobre-o-sucesso-da-educacao-cearense/#google_vignette

https://www.brasildefato.com.br/2026/06/22/educacao-basica-publica-e-neoliberalismo-apos-o-golpe-de-2016-austeridade-precarizacao-e-desigualdades-sociais/

 

 

         



[1] https://saibamais.jor.br/2021/08/em-1963-angicos-colocava-paulo-freire-no-new-york-times/

[2] https://www.brasildefato.com.br/2024/08/20/nao-estamos-dando-aulas-apenas-preenchendo-plataformas-afirmam-professores-da-rede-publica-do-parana/

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