INTELIGÊNCIA
ARTIFICIAL VERSUS PLATAFORMIZAÇÃO DA EDUAÇÃO: PROFESSORES/AS COMO EXECUTORES/AS DE METAS PADRONIZADAS
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Em
tempos de transformações tecnológicas, onde a inteligência artificial se torna
cada vez mais presente no cotidiano das salas de aula e na vida de bilhões de
pessoas, o programa Roda Vida, da TV Cultura, trouxe para o centro do debate, o
educador, pesquisador e professor da Universidade da Columbia, EUA, Paulo
Blikstein. As questões e reflexões abordadas sobre o tema, exibiu um abismo
abissal, estrutural, teórico metodológico, envolvendo as escolas, públicas, em
especial, acerca das ferramentas disponíveis.
Há
um discurso consensual advindo do setor empresarial vinculado ao mercado da
tecnologia, que tenta creditar à educação brasileira como sendo uma estrutura
falida. Claro que é um erro absurdo pensar assim, porque diariamente mais de 2
milhões de professores transitam em 180 mil escolas espalhadas por todos os
cantos, que embora envolvidas em problemas estruturais e pedagógicas, esses
profissionais conseguem arrancar resultados satisfatórios no campo da aprendizagem. De fato, é um discurso
carregado de preconceitos, com propósitos de culpar o/a professor/a pelas
falhas no ensino, e que para consertar é necessário suprir as escolas com
tecnologias.
É
claro que os problemas do ensino não serão solucionados inundando as escolas com
tablets, computadores de última geração, se o/a professor/a não sabe ou não
consegue usá-los por ter uma sobrecarga de atividades a serem cumpridas. A
tecnologia, portanto, deve ser concebida como ferramenta de suporte nas
escolas, auxiliar os/as estudantes no desenvolvimento de projetos, aguçando-o/a
a criatividade.
Não
é exatamente o que acontece nas escolas, porque existe um distanciamento, ou
melhor, um estranhamento entre a realidade da escola pública e o mundo real.
Temos unidades de ensino com currículos embasados em teorias de caráter
funcional/positivista, contrapondo com estudantes cujos campos de visão são forjados
por redes digitais. Já era tempo da inserção das tecnologias nos currículos,
algo intrínseco ao processo de aprendizagem, onde todos tivessem fluência,
criando coisas novas, úteis à melhoria das condições de vida na qual os
estudantes estão inseridos.
É
exatamente aqui que entra Paulo Freire, o grande herói da educação, tão
desprestigiado, até mesmo demonizado pelas acéfalas elites entreguistas
brasileiras. Sim, o educador Paulo Freire, autor de memoráveis obras, a exemplo
do livro, Pedagogia do Oprimido. Acredite, Paulo Freire é considerado o
terceiro indivíduo mais influente do planeta, estando atrás de Karl Marx e
Michael Foucault. Quando desenvolveu a
experiência de alfabetizar 300 indivíduos em 40 horas, na cidade Angicos, Rio
Grande do Norte, na década de 60, o Jornal New York Times, publicou artigo
divulgando tal proeza, que se tornaria um modelo para a educação no mundo todo.[1]
Ao
mesmo tempo em que as elites brasileiras demonizam Freire, alegando que sua proposta
de ensino busca ideologizar as crianças, ou seja, transformá-las em comunistas,
as escolas das quais estudam os filhos das elites paulistas e de outras partes
do Brasil, adotam o método Paulo Freire no processo de aprendizagem. Como
assim? Que contrassenso é esse? Na medida que as escolas públicas se mantem reféns
em métodos e programas ainda tradicionais de ensino, como a memorização, a reprodução
de conhecimentos, as escolas das quais estudam os filhos das elites, aprendem
por meio de projetos. Nessas instituições existem os espaços makers (faça você
mesmo) que são oficinas de artes, de música, laboratórios de ciências etc.,
onde os estudantes podem realizar suas paixões.
É
óbvio que as elites sabem do quanto é eficiente o método de ensino criado por
Paulo freire. Isso explica o motivo pelo qual as reformas educacionais
ocorridas no Brasil, especialmente do ensino médio, em momento algum são
esboçadas menções ao método freiriano na educação. De fato, o método Paulo
freire, é evidenciado nas tradicionais feiras de ciências, atividades ainda
vistas como exceções nas escolas públicas, porém, inseridas nos programas
curriculares dos particulares, cujos projetos apresentados norteiam todo o
arcabouço pedagógico dessas instituições.
Com
a inteligência artificial fazendo parte do cotidiano da sociedade, o que se vê
nas instituições públicas, as municipais, por exemplo, são processos de
plataformização dos instrumentos de ensino. Empresas, as chamadas Big techs
oferecem, “gratuitamente”, programas/plataformas às redes de ensino, com
promessas de elevar os índices das avaliações, como o IDEB.
O
Paraná, por exemplo, vem adotando essas ferramentas, submetendo o Estado, os
municípios, as políticas dessas empresas, que é maximizar os lucros no comércio
milionário dessas novas tecnologias. Quando contratos são rompidos com tais
empresas, todo o lineamento de informações contidos nesses programas, ficam com
as empresas. Outro detalhe importante, não há disponível instrumentos de
monitoramento permanente do Estado sobre a eficácia dessas plataformas.
A
ideia era obter parâmetros sobre a eficácia delas no conjunto da escola.[2] A plataformização da
educação pública no Paraná é um exemplo de como a Inteligência Artificial vem se
sucedendo diariamente na vida de milhares de trabalhadores/as da educação. Em
vez de ser um suporte, que auxiliasse a criatividade dos/as professores e
estudantes, a IA, transforma-os/as em cativos, escravos de metas, da farsa por trás
da meritocracia.
O
uso do IDEB como parâmetro para avaliar a educação brasileira não exibe de fato
suas distorções. O currículo das escolas é constituído por mais de 10
disciplinas, agora, um IDEB ter como parâmetro somente matemática e português,
joga na latrina as demais importantes áreas do saber, como ciência, arte,
geografia, história, educação física etc. O fato é que nem todos/as gostam de
matemática, língua portuguesa, e usá-las como únicas ancoras para avaliar a
educação no seu todo é um equívoco.
Se
o processo avaliativo ocorresse de forma processual, ou seja, não pautado em
notas, mas no conjunto do ensino, claro que com escolas públicas bem
estruturadas, com profissionais estimulados com boas remunerados, teríamos uma
educação de excelência, igualando até aos países que lideram o ranque da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômica - OCDE.
Os
avanças das novas tecnologias nas escolas geralmente são empacadas pelo
despreparo involuntário dos/as profissionais, que não conseguem executá-las
devido a um conjunto de fatores que ultrapassa os limites das escolas. Como já
repeti em outros textos, o/a professor/a permanece sendo um executor de
tarefas, com mais tempo envolvido em funções burocráticas, em vez de estar pesquisando,
aprendendo. O entrevistado Paulo Blikstain trouxe também para o debate o
exemplo de Sobral, município do Ceará, onde o Estado criou a disciplina do Redesenhador
Pedagógico, profissional esse encarregado de dar suporte aos professores em
redesenhar o currículo, pensar novas formas de organizar a escola no seu todo.
O
que se questiona é até que ponto esse modelo de ensino adotado pela rede
pública do Ceará pode ser interpretado como referência a uma educação vista
como transformadora. Claro que por trás desse modelo de educação plataformizada
tem um projeto de sociedade articulada pelo grande capital neoliberal, cuja
intenção é mercantilizar a educação, reduzindo professores/as em meros/as
reprodutores/as de funções padronizadas.
A
escola pública como instituição humanizadora, emancipadora, se modula em
aparelho do Estado/capital, reproduzindo ideias e valores da classe que detém
os meios de produção, a burguesia capitalista. De fato, o modelo de educação
adotada em qualquer sociedade, reflete os interesses de uma classe social,
portanto, em momento algum ela deve ser concebida como sendo neutra.
O
que está ocorrendo na educação pública brasileira, é o reflexo explícito de
políticas neoliberais adotadas durante os governos Temer e Bolsonaro. Quem
lembra da Emenda Constitucional 95 que congelou gastos públicos por vinte ano? A partir dessa emenda, saúde e educação,
ficaram submetidas as regras do mercado, limitando investimentos para melhorias
estruturais e de concursos públicos. Essa
emenda inviabilizou também a concretização da meta 20 do Plano Nacional de Educação,
que seria a ampliação progressiva dos investimentos públicos em até 10% do PIB.
Desde então, salários dos/as professores/as e demais servidores públicos
permanecem congelados, sem contar o grau de pressão que estão submetidos/as ao cumprimento
de metas.
Não
esquecer que esse conjunto de reformas estruturais ainda em curso, em especial
na educação, seguem as diretrizes impostas pelos organismos financeiros
internacionais aos países periféricos do capitalismo, com vistas a priorizar o
pagamento de dívidas em detrimento de políticas públicas. Para a educação, já que os investimentos são
escassos, é necessário priorizar as escolas mais eficientes por meio de testes avaliativos
realizados pelo Estado.
Se
os recursos são oriundos de fundos internacionais, é obvio que tais organismos exigirão
dos Estados a apresentação de relatórios exibindo se as metas acordadas nos
contratos alcançaram ou não os resultados almejados. Por isso, professores/as
deixaram de ser construtores de conhecimentos tornando-se executores de metas
padronizadas, com contratos flexíveis de trabalho e forte insegurança
profissional. Diante da sobrecarga de trabalho e das fragilidades estruturais
das escolas, o/a professor/a sobre violenta pressão, tanto no ambiente de
trabalho, quanto da sociedade, culpando/a pelo fracasso da educação.
Não
bastasse todas as dificuldades no exercício do trabalho docente, a inserção do
extremismo/fascismo, na política, vem impactando os/as docentes das escolas
públicas, forjando-os/as de estereótipos, como de doutrinadores, comunistas. Frente
a isso, o congresso brasileiro, majoritariamente constituído por partidos ultraconservadoras,
tentaram inserir nas escolas brasileiras um sistema de controle e vigilância,
conhecido como Escola Sem Partido. Essa Lei foi derrubada pelo STF com a
alegação que ela violava a liberdade de cátedra e expressão.
E os ataques a educação pública básica não cessaram nos governos Temer e Bolsonaro. Era necessário mexer no currículo das escolas, claro que nas públicas de ensino médio. A ordem eram abri-las para o mercado, atuando como agentes influenciadores na modelagem de um currículo que garantisse as parcerias público privadas, chamadas PPPs. As portas das escolas se abrem definitivamente para inserção das plataformas digitais, cujos interesses são lucrar com as vendas de equipamentos para modelar sujeitos dóceis disponíveis para o atual sistema predatório de produção.
Prof. Jairo Cesa
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