quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

PARÓQUIA SÃO BOM JESUS DO SOCORRO - PESCARIA BRAVA: O QUE UM TEMPLO SECULAR PODE NOS REVELAR DA HISTÓRIA DO SUL DE SANTA CATARINA

Foto - Jairo


No imaginário coletivo catarinense quando o assunto igrejas centenárias com arquitetura barroca e outros estilos requintados são comentados, de imediato o que vem a mente são as edificações famosas, em Minas Gerais e Bahia, não é mesmo? Acredite, Santa Catarina, não perde em nada para estados do sudeste e nordeste em igrejas antigas, de estilos arrojados, erguidas também com mão de obra escrava, das quais refletem estreitos laços políticos entre famílias abastadas e o clero católico. As mais conhecidas, pela sua antiguidade, estão situadas na faixa costeira do estado, com destaque a igreja de nossa senhora da graça, no município de São Francisco do Sul, datada de 1655.

Embora esses magníficos templos católicos tenham forte representatividade religiosa e simbólica à fé dos praticantes, o que caracteriza essas construções são os baixos níveis de conservação, tanto da estrutura física, quanto dos equipamentos internos, altares, estantes, estatuas de santos, sinos, entre outros. Para os historiadores apaixonados por igrejas antigas, casarios centenários, o município de Laguna oferece o que tem de mais requintado nesse campo, realçando um cenário de modernidade, forjado por uma forte atividade agrícola e comercial, que teve o porto como maior difusor dessas atividades.

Por ter Laguna surgido a partir da Capitania de SantAna, depois Santo Antônio dos Anjos de Laguna. Sua expansão territorial alcançou os limites com o atual Rio grande do Sul, tanto ao sul quanto ao oeste. Nessas extensas áreas, integradas ao município de Laguna, alguns povoados tornaram-se mais tarde importantes municípios, como Araranguá, Tubarão, Criciúma, esse último, emancipado de Araranguá. Todos, sem exceção, tiveram a sua existência forjadas a partir da instalação de uma igreja/paróquia, com atribuições que ultrapassavam os serviços eclesiásticos, assumindo funções civis:  recenciamentos, registros civis, tabelionatos, etc.    

Araranguá, o município se constituiu com a instalação da Paroquia Nossa Senhora Mãe dos Homens, em 04 de maio de 1848. A primeira igreja, edificada com madeira e com formato arquitetônico simples, deu lugar mais tarde uma mais imponente, de alvenaria, que foi inaugurada em 1902. Na década de 1950, nova igreja foi erguida, pois a anterior não comportava mais o aumento de fiéis que havia crescido exponencialmente. O projeto da nova edificação, constou uma imponente torre, traduzindo em símbolo de fé e representatividade histórica à memória da população do Sul de Santa Catarina.




Atualmente a paróquia/santuário passa por um impasse.  Por necessitar de reparos emergenciais em sua estrutura, principalmente na fachada, o clérigo apresentou projeto que gerou um certo estranhamento/revolta por parte expressiva da população, que é a substituição da torre principal, por duas menores, que descaracterizaria por completo toda a estética original.  Essa postura um tanto inusitada do clero de querer descaracterizar um dos principais símbolos do sul catarinense, fez com que um grupo contrário as mudanças da fachada da igreja, protocolasse no MPSC, ação civil, impedindo o clérigo de cometer crime patrimonial.



O que aguçou mais a revolta do grupo defensor da memória religiosa, foi saber que levas de cidadãos comungam com a ideia do alto clero, com argumentos espúrios, como acreditar que uma “igreja nova”, com traços modernos, engrandecerá os munícipes. Enquanto isso, a paróquia/santuário, quase centenária, sofre as investidas do tempo, com riscos óbvios de a fachada vir a colapsar.

Afinal, será por qual motivo faço esses relatos acerca da igreja de Araranguá, edificação que está no centro de um imbróglio político/jurídico, em decorrência de interesses do clero de querer alterar sua estética original. A resposta se deve a um passeio nesse último final de semana, 23/08, ao município de Pescaria Brava, onde existe uma singular igreja, cujo padroeiro é Bom Jesus do Socorro. O que chamou a atenção foi data de edificação, 1857, muito próxima a data de instalação da paróquia em Araranguá. 

O que diferencia uma da outra, é a estrutura arquitetônica, pois lá, Pescaria Brava, foi erguida com pedra, areia e óleo de baleia; sendo aqui, com modestas tábuas. A impressão deixada pela opulência da edificação, acredita-se que que possa ser da existência de famílias com elevado poder aquisitivo naquele povoado na metade do século XIX. Lendo algumas reportagens sobre a igreja, sua construção teve a participação de escravos, que retiraram pedras de uma pedreira, de uma ilha localizada na Lagoa Imaruí, e as transportavam em canoas até onde seria construída a igreja.

É possível que a obra tenha exigido expressivo número de trabalhadores, levando alguns anos para ser concluída. Nas várias investidas que fiz a internet, não encontrei pesquisa, TCC, dissertação etc., das quais pudessem revelar fatos sobre a construção da igreja. Respondeu um integrante do grupo de WhatsApp, História de Sta. Catarina, que: “essa região é muito pobre em trabalhos de credibilidade”. Como sugestão, recomendaram que fosse pesquisada obras escritas por sacerdotes, como o Pe. Auricélio, Imaruí do Senhor dos Passos; o Padre José Artulino Bezen, História de Nossa Sra. do Desterro; Walter Piazza, A Igreja em Santa Catarina; Mons. Frederico Hobold, “Anuário Eclesiástico da Arquidiocese de Florianópolis – 1951; Pe. Claudino Biff, “Crônicas da Diocese de Tubarão.

Parece unanimidade, o que temos de fontes disponíveis de fontes que dissertam sobre a história de muitos municípios antigos do estado foram escritas por padres. São verdadeiros compêndios, recheados de datas e fatos, carentes de aprofundamento historiográfico. Segundo relatos de quem postou a lista com nomes de autores de obras escritas, é possível que seja encontrado nessas obras informações relativas a igreja erguida em Pescaria Brava.

De certo modo, sim. Um recorte tirado do livro Crônicas da Diocese de Tubarão, escrito por Claudino Biff, com o tema Pescaria Brava, Padroeiro Senhor Bom Jesus do Socorro – Fundação 15/05/1857 p. 188 e 189, traz algumas curiosidades relativas a essa igreja que vale a pena destacar. De fato, a paróquia foi criada por Decreto provincial n. 437, de 15/05/1857, tendo como primeiro vigário Pe. João Mattos da Cunha. Escreveu Biff, que o padre era político e revolucionário, que seus inimigos políticos armaram emboscada para matá-lo, que se salvou fugindo do povoado a cavalo.

Além da imagem do Senhor do Bom Jesus do Socorro, Biff descreve que há outras imagens de santos, como do Senhor do Bom Fim, e de N. Senhora das Dores, que são obras de valor inestimável. Na igreja, “há um cristo crucificado em tamanho real, de perfeita anatomia, um dos mais belos e perfeitos que se tem notícia em Santa Catarina”.

Foto - Jairo

Foto - Jairo




No livro de Biff, também está registrado que o Pe. Dr. Itamar Luiz da Costa, que era vigário de Imaruí, fundou uma biblioteca em Pescaria Brava, casa canônica e um riquíssimo museu. No museu guardava preciosos objetos sacros de toda a zona da lagoa do Imaruí. Os objetos eram inúmeros oratórios, correntes e medalhas de ouro pertencentes à Virgem das Dores. Relatou Biff, que o Pe. de Souza Ávila, com a pretensão de restaurar a casa paroquial, vendeu o que de melhor havia no museu.

Como já havia relatado acima, afirmando que no povoado de Pescaria Brava residiam famílias abastadas, e cuja igreja construída, de requintada arquitetura barroca, era a representatividade simbólica dessa condição, os fatos descritos por Biff, sobre a igreja do respectivo povoado, corrobora com tal certeza. O que é preocupante é que mesmo com todas as peculiaridades atribuídas a uma edificação de imensurável riqueza histórica e simbólica, quem adentra as suas dependências ou caminha ao seu redor, vai perceber o imenso abandono, pois há nítidas mostras de depreciação, que tentarei aqui destacá-las.

Foto - Jairo


O telhado, há grande acúmulo de mato, onde revela que faz anos que não passou por faxina. A própria tinta, da parede externa, está completamente desgastada pelo tempo. Já na parte interno, talvez os desatentos não identifiquem os defeitos de imediato, pelo fato de os olhos fitarem de imediato o altar com as várias imagens de santos. Imagino que todas foram esculpidas em madeira, principalmente, a imagem da padroeira do município, Senhor Bom Jesus do Socorro. Mas, é no segundo piso da igreja que esconde os graves problemas, alguns exigindo reparos imediatos, como das infiltrações que estão comprometendo as paredes, havendo ali um enorme acúmulo de fungo.

Foto - Jairo


Foto - Jairo




Quem fez questão me guiar para conhecer e conferir os problemas foi um cidadão da comunidade que estava visitando a igreja. Notei no seu semblante certa angústia, como se estivesse pedindo socorro para que fosse salva aquela edificação. Me confessou que quando criança havia sido coroinha naquela igreja. Me mostrou, com orgulho, os três sinos instalados, que foram fundidos em Portugal, na cidade de Braga, em 1878. Notei que a estrutura dos sinos estava em processo avançado de corrosão. Acima dos sinos, estava uma das cúpulas, construída com tijolos maciços sobrepostos. É possível haver problemas sérios em toda a fiação, com riscos evidentes ocorrência de curto-circuito.

Foto - Jairo


Foto - Jairo


Foto- Jairo


Acreditando já ter finalizado o tour pelas dependências da igreja, o cidadão, que me guiava, fez questão que eu fosse conhecer os bastidores do altar, onde geralmente os sacerdotes e sua equipe se preparam para os ritos ou guardam equipamentos litúrgicos. O que vi foram estantes e apetrechos amontoados, mostrando completo abandono. Entretanto, meu olhar foi direcionado a parede que sustenta o altar, construída com madeiras, possivelmente ainda originais. A ação dos cupins é notada nesse ambiente como em outros compartimentos da igreja.

Foto - Jairo


Nas buscas que fiz a internet para saber mais acerca da paróquia de Pescaria Brava, encontrei alguns sites que informava haver projeto para a restauração da igreja, datado em 2025. O que me deixou mais aliviado foi saber que essa edificação foi tombada pelo patrimônio na década de 1990. Isso significa dizer que os reparos devem seguir critérios protocolares da instituição que tem poderes sobre a edificação.  Em reportagem publicada em janeiro de 2025, no site HC notícias, lá consta que a prefeitura de Pescaria Brava busca apoio para restaurar o templo. Consta também na reportagem que a prefeitura se reuniu com integrantes da Fundação Catarinense de Cultura – FCC, cuja intenção era viabilizar apoio ao projeto de restauração. Em resposta, a FCC indicou que o Edital Elisabete Anderle, de Estímulo à Cultura 2025, é a alternativa mais viável para auxiliar no custeio do projeto.

Prof. Jairo Cesa                            

https://ndmais.com.br/turismo/igreja-mais-300-anos-restauracao-sul-sc/

https://agorapescaria.com.br/2026/08/pescaria-brava-tem-uma-das-igrejas-mais-antigas-de-sc/

http://www.pescariabrava.com.br/igreja.htm

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