PARÓQUIA
SÃO BOM JESUS DO SOCORRO - PESCARIA BRAVA: O QUE UM TEMPLO SECULAR PODE NOS
REVELAR DA HISTÓRIA DO SUL DE SANTA CATARINA
No
imaginário coletivo catarinense quando o assunto igrejas centenárias com
arquitetura barroca e outros estilos requintados são comentados, de imediato o
que vem a mente são as edificações famosas, em Minas Gerais e Bahia, não é
mesmo? Acredite, Santa Catarina, não perde em nada para estados do sudeste e
nordeste em igrejas antigas, de estilos arrojados, erguidas também com mão de
obra escrava, das quais refletem estreitos laços políticos entre famílias
abastadas e o clero católico. As mais conhecidas, pela sua antiguidade, estão
situadas na faixa costeira do estado, com destaque a igreja de nossa senhora da
graça, no município de São Francisco do Sul, datada de 1655.
Embora
esses magníficos templos católicos tenham forte representatividade religiosa e
simbólica à fé dos praticantes, o que caracteriza essas construções são os baixos
níveis de conservação, tanto da estrutura física, quanto dos equipamentos
internos, altares, estantes, estatuas de santos, sinos, entre outros. Para os
historiadores apaixonados por igrejas antigas, casarios centenários, o
município de Laguna oferece o que tem de mais requintado nesse campo, realçando
um cenário de modernidade, forjado por uma forte atividade agrícola e
comercial, que teve o porto como maior difusor dessas atividades.
Por
ter Laguna surgido a partir da Capitania de SantAna, depois Santo Antônio dos
Anjos de Laguna. Sua expansão territorial alcançou os limites com o atual Rio
grande do Sul, tanto ao sul quanto ao oeste. Nessas extensas áreas, integradas
ao município de Laguna, alguns povoados tornaram-se mais tarde importantes
municípios, como Araranguá, Tubarão, Criciúma, esse último, emancipado de
Araranguá. Todos, sem exceção, tiveram a sua existência forjadas a partir da
instalação de uma igreja/paróquia, com atribuições que ultrapassavam os
serviços eclesiásticos, assumindo funções civis: recenciamentos, registros civis, tabelionatos,
etc.
Araranguá,
o município se constituiu com a instalação da Paroquia Nossa Senhora Mãe dos Homens,
em 04 de maio de 1848. A primeira igreja, edificada com madeira e com formato
arquitetônico simples, deu lugar mais tarde uma mais imponente, de alvenaria, que
foi inaugurada em 1902. Na década de 1950, nova igreja foi erguida, pois a
anterior não comportava mais o aumento de fiéis que havia crescido
exponencialmente. O projeto da nova edificação, constou uma imponente torre,
traduzindo em símbolo de fé e representatividade histórica à memória da
população do Sul de Santa Catarina.
Atualmente
a paróquia/santuário passa por um impasse. Por necessitar de reparos emergenciais em sua
estrutura, principalmente na fachada, o clérigo apresentou projeto que gerou um
certo estranhamento/revolta por parte expressiva da população, que é a substituição
da torre principal, por duas menores, que descaracterizaria por completo toda a
estética original. Essa postura um tanto
inusitada do clero de querer descaracterizar um dos principais símbolos do sul
catarinense, fez com que um grupo contrário as mudanças da fachada da igreja,
protocolasse no MPSC, ação civil, impedindo o clérigo de cometer crime
patrimonial.
O
que aguçou mais a revolta do grupo defensor da memória religiosa, foi saber que
levas de cidadãos comungam com a ideia do alto clero, com argumentos espúrios,
como acreditar que uma “igreja nova”, com traços modernos, engrandecerá os
munícipes. Enquanto isso, a paróquia/santuário, quase centenária, sofre as
investidas do tempo, com riscos óbvios de a fachada vir a colapsar.
Afinal,
será por qual motivo faço esses relatos acerca da igreja de Araranguá, edificação
que está no centro de um imbróglio político/jurídico, em decorrência de
interesses do clero de querer alterar sua estética original. A resposta se deve
a um passeio nesse último final de semana, 23/08, ao município de Pescaria Brava,
onde existe uma singular igreja, cujo padroeiro é Bom Jesus do Socorro. O que
chamou a atenção foi data de edificação, 1857, muito próxima a data de
instalação da paróquia em Araranguá.
O
que diferencia uma da outra, é a estrutura arquitetônica, pois lá, Pescaria
Brava, foi erguida com pedra, areia e óleo de baleia; sendo aqui, com modestas
tábuas. A impressão deixada pela opulência da edificação, acredita-se que que
possa ser da existência de famílias com elevado poder aquisitivo naquele
povoado na metade do século XIX. Lendo algumas reportagens sobre a igreja, sua
construção teve a participação de escravos, que retiraram pedras de uma pedreira,
de uma ilha localizada na Lagoa Imaruí, e as transportavam em canoas até onde seria
construída a igreja.
É
possível que a obra tenha exigido expressivo número de trabalhadores, levando
alguns anos para ser concluída. Nas várias investidas que fiz a internet, não
encontrei pesquisa, TCC, dissertação etc., das quais pudessem revelar fatos
sobre a construção da igreja. Respondeu um integrante do grupo de WhatsApp,
História de Sta. Catarina, que: “essa região é muito pobre em trabalhos de
credibilidade”. Como sugestão, recomendaram que fosse pesquisada obras escritas
por sacerdotes, como o Pe. Auricélio, Imaruí do Senhor dos Passos; o Padre José
Artulino Bezen, História de Nossa Sra. do Desterro; Walter Piazza, A Igreja em
Santa Catarina; Mons. Frederico Hobold, “Anuário Eclesiástico da Arquidiocese
de Florianópolis – 1951; Pe. Claudino Biff, “Crônicas da Diocese de Tubarão.
Parece
unanimidade, o que temos de fontes disponíveis de fontes que dissertam sobre a
história de muitos municípios antigos do estado foram escritas por padres. São
verdadeiros compêndios, recheados de datas e fatos, carentes de aprofundamento
historiográfico. Segundo relatos de quem postou a lista com nomes de autores de
obras escritas, é possível que seja encontrado nessas obras informações
relativas a igreja erguida em Pescaria Brava.
De
certo modo, sim. Um recorte tirado do livro Crônicas da Diocese de Tubarão,
escrito por Claudino Biff, com o tema Pescaria Brava, Padroeiro Senhor Bom Jesus
do Socorro – Fundação 15/05/1857 p. 188 e 189, traz algumas curiosidades
relativas a essa igreja que vale a pena destacar. De fato, a paróquia foi
criada por Decreto provincial n. 437, de 15/05/1857, tendo como primeiro
vigário Pe. João Mattos da Cunha. Escreveu Biff, que o padre era político e
revolucionário, que seus inimigos políticos armaram emboscada para matá-lo, que
se salvou fugindo do povoado a cavalo.
Além
da imagem do Senhor do Bom Jesus do Socorro, Biff descreve que há outras
imagens de santos, como do Senhor do Bom Fim, e de N. Senhora das Dores, que
são obras de valor inestimável. Na igreja, “há um cristo crucificado em tamanho
real, de perfeita anatomia, um dos mais belos e perfeitos que se tem notícia em
Santa Catarina”.
No
livro de Biff, também está registrado que o Pe. Dr. Itamar Luiz da Costa, que
era vigário de Imaruí, fundou uma biblioteca em Pescaria Brava, casa canônica e
um riquíssimo museu. No museu guardava preciosos objetos sacros de toda a zona
da lagoa do Imaruí. Os objetos eram inúmeros oratórios, correntes e medalhas de
ouro pertencentes à Virgem das Dores. Relatou Biff, que o Pe. de Souza Ávila,
com a pretensão de restaurar a casa paroquial, vendeu o que de melhor havia no
museu.
Como
já havia relatado acima, afirmando que no povoado de Pescaria Brava residiam
famílias abastadas, e cuja igreja construída, de requintada arquitetura
barroca, era a representatividade simbólica dessa condição, os fatos descritos
por Biff, sobre a igreja do respectivo povoado, corrobora com tal certeza. O
que é preocupante é que mesmo com todas as peculiaridades atribuídas a uma
edificação de imensurável riqueza histórica e simbólica, quem adentra as suas
dependências ou caminha ao seu redor, vai perceber o imenso abandono, pois há
nítidas mostras de depreciação, que tentarei aqui destacá-las.
O
telhado, há grande acúmulo de mato, onde revela que faz anos que não passou por
faxina. A própria tinta, da parede externa, está completamente desgastada pelo
tempo. Já na parte interno, talvez os desatentos não identifiquem os defeitos
de imediato, pelo fato de os olhos fitarem de imediato o altar com as várias
imagens de santos. Imagino que todas foram esculpidas em madeira, principalmente,
a imagem da padroeira do município, Senhor Bom Jesus do Socorro. Mas, é no
segundo piso da igreja que esconde os graves problemas, alguns exigindo reparos
imediatos, como das infiltrações que estão comprometendo as paredes, havendo
ali um enorme acúmulo de fungo.
Quem
fez questão me guiar para conhecer e conferir os problemas foi um cidadão da
comunidade que estava visitando a igreja. Notei no seu semblante certa angústia,
como se estivesse pedindo socorro para que fosse salva aquela edificação. Me
confessou que quando criança havia sido coroinha naquela igreja. Me mostrou,
com orgulho, os três sinos instalados, que foram fundidos em Portugal, na
cidade de Braga, em 1878. Notei que a estrutura dos sinos estava em processo avançado
de corrosão. Acima dos sinos, estava uma das cúpulas, construída com tijolos
maciços sobrepostos. É possível haver problemas sérios em toda a fiação, com
riscos evidentes ocorrência de curto-circuito.
Acreditando
já ter finalizado o tour pelas dependências da igreja, o cidadão, que me
guiava, fez questão que eu fosse conhecer os bastidores do altar, onde
geralmente os sacerdotes e sua equipe se preparam para os ritos ou guardam
equipamentos litúrgicos. O que vi foram estantes e apetrechos amontoados,
mostrando completo abandono. Entretanto, meu olhar foi direcionado a parede que
sustenta o altar, construída com madeiras, possivelmente ainda originais. A
ação dos cupins é notada nesse ambiente como em outros compartimentos da
igreja.
Nas
buscas que fiz a internet para saber mais acerca da paróquia de Pescaria Brava,
encontrei alguns sites que informava haver projeto para a restauração da
igreja, datado em 2025. O que me deixou mais aliviado foi saber que essa
edificação foi tombada pelo patrimônio na década de 1990. Isso significa dizer
que os reparos devem seguir critérios protocolares da instituição que tem
poderes sobre a edificação. Em
reportagem publicada em janeiro de 2025, no site HC notícias, lá consta que a
prefeitura de Pescaria Brava busca apoio para restaurar o templo. Consta também
na reportagem que a prefeitura se reuniu com integrantes da Fundação
Catarinense de Cultura – FCC, cuja intenção era viabilizar apoio ao projeto de
restauração. Em resposta, a FCC indicou que o Edital Elisabete Anderle, de
Estímulo à Cultura 2025, é a alternativa mais viável para auxiliar no custeio
do projeto.
Prof.
Jairo Cesa
https://ndmais.com.br/turismo/igreja-mais-300-anos-restauracao-sul-sc/
https://agorapescaria.com.br/2026/08/pescaria-brava-tem-uma-das-igrejas-mais-antigas-de-sc/
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