A INFLUÊNCIA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO SUPER
EL NIÑO: OS IMPACTOS NO SUL DE SANTA CATARINA
| https://ndmais.com.br/tempo/super-el-nino-como-vai-atingir-cada-regiao-do-brasil/ |
As
previsões de um Super El Niño vêm se confirmando, e os seus efeitos estão sendo
observados nos estados do sul, com precipitações acima da média para a época. O
fato é que o fenômeno climático está no começo, com previsões alarmantes para o
mês de outubro, com índices pluviométricos que podem superar os 600 mm em
alguns pontos dos três estados. Mais uma vez, como já é quase regra, frágeis
são as iniciativas dos governantes na busca de soluções ou medidas paliativas
para minimizar os impactos. Quem acompanhou as enxurradas no RS em 2024
percebeu que a tragédia não é conveniente credenciá-la a fatores naturais.
A interferência humana nos vários ecossistemas, encostas de morros,
margens de rios, é vista como vetor ao agravamento da tragédia.
| https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/05/29/fotos-cheias-no-rio-grande-do-sul.ghtml |
Desde
o momento em que os meteorologistas do mundo inteiro começaram a alertar
governantes e autoridades de que as águas da costa oceânica do Pacífico
equatorial estavam aquecendo em níveis anormais, no Brasil, por exemplo, ainda
predominam posturas negacionistas, com críticas contra cientistas do tempo, por
estarem sendo alarmistas ao extremo, cuja afirmação de aquecimento global é
coisa de lunático, esquerdista. A primeira ação concreta adotada pelo
presidente dos Estados Unidos, após vitória eleitoral, foi oficializar saída
definitiva do país do acordo de Paris, em 2015. Nessa COP foram assinados
protocolos de intenções, incluindo o Brasil, cujo propósito era executar ações
que limitam as emissões de gases do efeito estufa.
Entre os países que terão maiores impactos significativos diante das mudanças climáticas em curso está o Brasil, que poderá sofrer forte revés na sua atividade agrícola, em decorrência da redução das chuvas provenientes da floresta amazônica. A pressão do agronegócio sobre o Cerrado e o bioma amazônico transformou e ainda transforma milhões de hectares de vegetação em áreas de cultivo, com destaque para a soja. Sem contar a ação do garimpo ilegal sobre áreas indígenas, contaminando a água e o solo com mercúrio e outros aditivos extremamente tóxicos.
Durante
os El Niños, as regiões norte, nordeste e parte do centro-oeste são afetadas
por períodos longos de estiagens. O Sul recebe correntes de umidade da
Amazônia, provocando enxurradas e outros episódios extremos, como ventanias,
tornados, chuvas de granizo etc. Frente a esses episódios cíclicos do tempo,
agora agravados pela emergência climática em curso, o mínimo que os governos
deveriam estar fazendo é a adoção de políticas de adaptação climática, que não
acontece de fato. Todos os municípios brasileiros deveriam estar ajustando os
seus planos diretores, inserindo prerrogativas que minimizassem ao máximo os
efeitos negativos do tempo. É possível contar nos dedos aqueles que tomaram
atitudes preventivas; o mínimo que fizeram foi limpar canais, bocas de lobo,
com pouca ou nenhuma ação educativa, a partir das escolas públicas e
particulares.
O
estado de Santa Catarina já está sofrendo os efeitos do Super El Niño, sendo o
mês de setembro marcado por vários episódios extremos, com impactos diretos na
vida de milhares de catarinenses. E o sul do estado, que tem a sua economia
baseada quase que exclusivamente na rizicultura, como estão reagindo os
gestores municipais e o próprio governo do estado para que os efeitos do tempo
sejam o menor possível?
| https://www.4oito.com.br/noticia/r-36-8-milhoes-em-perdas-chuva-castiga-lavouras-e-estruturas-rurais-em-sc-89160 |
Infelizmente,
o elemento político-partidário ainda tem enorme peso nas decisões tomadas pelos
gestores. Quase a totalidade das prefeituras são administradas por prefeitos
que comungam concepções pouco fundamentadas na ciência, na razão. A
meteorologia, no entanto, é uma dessas ciências “amaldiçoadas”, considerada
descompensada com as doutrinas “reveladoras”.
Parece
que essa visão pouco racional também contamina o raciocínio dos cidadãos e
cidadãs catarinenses, quiçá, dos administradores públicos e de seu corpo
técnico, secretários, por exemplo, cegados pela pressão vinda das elites,
principalmente do agronegócio. NO extremo sul de Santa Catarina, as respostas
às mudanças climáticas são quase tênues. Se agora está ocorrendo de maneira
ainda discreta, é devido à saraivada de alertas de que um super El Niño estava
se formando e cujos impactos na região seriam avassaladores.
Para
comprovar que o atual governo do estado tratava os alertas climáticos com
desdém, basta observar o quanto foi investido no Plano Plurianual de Gestão de
Programa de Risco, entre 2024 e 2027. Dos 2,7 bilhões previstos, até agora
foram aplicados de fato 275 milhões de reais, ou seja, 10% do total. Até o
final, será aplicado pouco mais de 20%. O que são vistos pela sociedade
catarinense são avalanches de imagens, vídeos bem-produzidos, exibindo um
estado preocupado com o que poderá vir com o super El Niño.
O
sul do estado recentemente teve as primeiras manifestações extremas do tempo,
com impactos violentos à infraestrutura e à atividade agrícola. O município com
maior precipitação pluviométrica foi Timbé do Sul, o mesmo que em 1995 sofreu
uma das maiores catástrofes climáticas de sua história, com inúmeras pessoas
mortas e prejuízos milionários. Enquanto que na época havia chovido
aproximadamente 200 mm em poucas horas, o que provocou uma avalanche de madeira
e pedra sobre a comunidade do Rio Figueira, dessa vez, o volume pluviométrico
foi quase igual ao de 1995, porém, esse volume ocorreu em um tempo mais
prolongado.
| https://ndmais.com.br/meio-ambiente/enxurrada-em-timbe-do-sul-que-matou-16-completa-30-anos/ |
Vendo
as imagens da destruição nos vários municípios do extremo sul de Santa
Catarina, o que chama a atenção é a redução significativa de cobertura vegetal,
em especial das APPS das margens dos afluentes e subafluentes do rio Araranguá.
Sem a presença dessa cobertura protetiva, durante as enxurradas, volume absurdo
de sedimentos é transportado para o leito dos rios. O que espanta é a
quantidade de lixo, plástico, por exemplo, levado pelas águas em direção à foz
da bacia do rio Araranguá. São toneladas que se depositam em toda a extensão
norte e sul da orla marítima do município de Araranguá. É claro que outras
tantas toneladas são sugadas pelo oceano, impactando toda a biótica marinha.
| Foto -. Jairo |
É
de conhecimento de todos/as que a bacia hidrográfica do rio Araranguá é uma das
mais degradadas de SC. Além de resíduos de carvão, o agrotóxico se desponta
como o segundo item contaminante da bacia. O motivo é a atividade do arroz, que
absorve toneladas de aditivos químicos durante o seu ciclo produtivo. Há
legislações que impõem ao produtor a realização da tríplice lavagem; guarda
temporária das embalagens vazias; devolução dos frascos vazios no
estabelecimento onde o produto foi comprado e a logística reversa, entre outras
ações mitigatórias.
| Foto - Jairo |
Quem
transita pelo entorno da foz do rio Araranguá, o cenário lá confere o não
cumprimento das regras relativas às embalagens de agrotóxicos, talvez por
muitos agricultores. São inúmeras as embalagens de agrotóxicos espalhadas,
algumas contendo líquido no seu interior. O fato de estarmos às portas de um
super El Niño, em nenhum momento o governo, bem como a imprensa corporativa,
cita a ocorrência da retirada criminosa de seixos rolados do leito dos rios,
bem como o descumprimento no que tange à proteção da APP ciliar, como determina
a legislação em vigor. Se não atacar na raiz essas e outras demandas, os
efeitos desse super El Niño terão impactos severos na vida de milhares de
indivíduos que habitam o sul de Santa Catarina.
Prof. Jairo Cesa
https://www.dw.com/pt-br/risco-de-desastre-aumenta-mas-santa-catarina-economiza-em-preven%C3%A7%C3%A3o/a-77905295
https://www.cnnbrasil.com.br/agro/sete-agrotoxicos-mais-usados-no-brasil-sao-proibidos-na-ue-diz-pesquisa/
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