terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

A INFLUÊNCIA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO SUPER EL NIÑO: OS IMPACTOS NO SUL DE SANTA CATARINA

https://ndmais.com.br/tempo/super-el-nino-como-vai-atingir-cada-regiao-do-brasil/


As previsões de um Super El Niño vêm se confirmando, e os seus efeitos estão sendo observados nos estados do sul, com precipitações acima da média para a época. O fato é que o fenômeno climático está no começo, com previsões alarmantes para o mês de outubro, com índices pluviométricos que podem superar os 600 mm em alguns pontos dos três estados. Mais uma vez, como já é quase regra, frágeis são as iniciativas dos governantes na busca de soluções ou medidas paliativas para minimizar os impactos. Quem acompanhou as enxurradas no RS em 2024 percebeu que a tragédia não é conveniente credenciá-la a fatores naturais.   A interferência humana nos vários ecossistemas, encostas de morros, margens de rios, é vista como vetor ao agravamento da tragédia.

https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/05/29/fotos-cheias-no-rio-grande-do-sul.ghtml


Desde o momento em que os meteorologistas do mundo inteiro começaram a alertar governantes e autoridades de que as águas da costa oceânica do Pacífico equatorial estavam aquecendo em níveis anormais, no Brasil, por exemplo, ainda predominam posturas negacionistas, com críticas contra cientistas do tempo, por estarem sendo alarmistas ao extremo, cuja afirmação de aquecimento global é coisa de lunático, esquerdista. A primeira ação concreta adotada pelo presidente dos Estados Unidos, após vitória eleitoral, foi oficializar saída definitiva do país do acordo de Paris, em 2015.  Nessa COP foram assinados protocolos de intenções, incluindo o Brasil, cujo propósito era executar ações que limitam as emissões de gases do efeito estufa.

Entre os países que terão maiores impactos significativos diante das mudanças climáticas em curso está o Brasil, que poderá sofrer forte revés na sua atividade agrícola, em decorrência da redução das chuvas provenientes da floresta amazônica.   A pressão do agronegócio sobre o Cerrado e o bioma amazônico transformou e ainda transforma milhões de hectares de vegetação em áreas de cultivo, com destaque para a soja.  Sem contar a ação do garimpo ilegal sobre áreas indígenas, contaminando a água e o solo com mercúrio e outros aditivos extremamente tóxicos.

Durante os El Niños, as regiões norte, nordeste e parte do centro-oeste são afetadas por períodos longos de estiagens. O Sul recebe correntes de umidade da Amazônia, provocando enxurradas e outros episódios extremos, como ventanias, tornados, chuvas de granizo etc. Frente a esses episódios cíclicos do tempo, agora agravados pela emergência climática em curso, o mínimo que os governos deveriam estar fazendo é a adoção de políticas de adaptação climática, que não acontece de fato. Todos os municípios brasileiros deveriam estar ajustando os seus planos diretores, inserindo prerrogativas que minimizassem ao máximo os efeitos negativos do tempo. É possível contar nos dedos aqueles que tomaram atitudes preventivas; o mínimo que fizeram foi limpar canais, bocas de lobo, com pouca ou nenhuma ação educativa, a partir das escolas públicas e particulares.

O estado de Santa Catarina já está sofrendo os efeitos do Super El Niño, sendo o mês de setembro marcado por vários episódios extremos, com impactos diretos na vida de milhares de catarinenses. E o sul do estado, que tem a sua economia baseada quase que exclusivamente na rizicultura, como estão reagindo os gestores municipais e o próprio governo do estado para que os efeitos do tempo sejam o menor possível?

https://www.4oito.com.br/noticia/r-36-8-milhoes-em-perdas-chuva-castiga-lavouras-e-estruturas-rurais-em-sc-89160


Infelizmente, o elemento político-partidário ainda tem enorme peso nas decisões tomadas pelos gestores. Quase a totalidade das prefeituras são administradas por prefeitos que comungam concepções pouco fundamentadas na ciência, na razão. A meteorologia, no entanto, é uma dessas ciências “amaldiçoadas”, considerada descompensada com as doutrinas “reveladoras”.

Parece que essa visão pouco racional também contamina o raciocínio dos cidadãos e cidadãs catarinenses, quiçá, dos administradores públicos e de seu corpo técnico, secretários, por exemplo, cegados pela pressão vinda das elites, principalmente do agronegócio. NO extremo sul de Santa Catarina, as respostas às mudanças climáticas são quase tênues. Se agora está ocorrendo de maneira ainda discreta, é devido à saraivada de alertas de que um super El Niño estava se formando e cujos impactos na região seriam avassaladores.

Para comprovar que o atual governo do estado tratava os alertas climáticos com desdém, basta observar o quanto foi investido no Plano Plurianual de Gestão de Programa de Risco, entre 2024 e 2027. Dos 2,7 bilhões previstos, até agora foram aplicados de fato 275 milhões de reais, ou seja, 10% do total. Até o final, será aplicado pouco mais de 20%. O que são vistos pela sociedade catarinense são avalanches de imagens, vídeos bem-produzidos, exibindo um estado preocupado com o que poderá vir com o super El Niño.  

O sul do estado recentemente teve as primeiras manifestações extremas do tempo, com impactos violentos à infraestrutura e à atividade agrícola. O município com maior precipitação pluviométrica foi Timbé do Sul, o mesmo que em 1995 sofreu uma das maiores catástrofes climáticas de sua história, com inúmeras pessoas mortas e prejuízos milionários. Enquanto que na época havia chovido aproximadamente 200 mm em poucas horas, o que provocou uma avalanche de madeira e pedra sobre a comunidade do Rio Figueira, dessa vez, o volume pluviométrico foi quase igual ao de 1995, porém, esse volume ocorreu em um tempo mais prolongado.

https://ndmais.com.br/meio-ambiente/enxurrada-em-timbe-do-sul-que-matou-16-completa-30-anos/


Vendo as imagens da destruição nos vários municípios do extremo sul de Santa Catarina, o que chama a atenção é a redução significativa de cobertura vegetal, em especial das APPS das margens dos afluentes e subafluentes do rio Araranguá. Sem a presença dessa cobertura protetiva, durante as enxurradas, volume absurdo de sedimentos é transportado para o leito dos rios. O que espanta é a quantidade de lixo, plástico, por exemplo, levado pelas águas em direção à foz da bacia do rio Araranguá. São toneladas que se depositam em toda a extensão norte e sul da orla marítima do município de Araranguá. É claro que outras tantas toneladas são sugadas pelo oceano, impactando toda a biótica marinha.

Foto -. Jairo


É de conhecimento de todos/as que a bacia hidrográfica do rio Araranguá é uma das mais degradadas de SC. Além de resíduos de carvão, o agrotóxico se desponta como o segundo item contaminante da bacia. O motivo é a atividade do arroz, que absorve toneladas de aditivos químicos durante o seu ciclo produtivo. Há legislações que impõem ao produtor a realização da tríplice lavagem; guarda temporária das embalagens vazias; devolução dos frascos vazios no estabelecimento onde o produto foi comprado e a logística reversa, entre outras ações mitigatórias.

Foto - Jairo


Quem transita pelo entorno da foz do rio Araranguá, o cenário lá confere o não cumprimento das regras relativas às embalagens de agrotóxicos, talvez por muitos agricultores. São inúmeras as embalagens de agrotóxicos espalhadas, algumas contendo líquido no seu interior. O fato de estarmos às portas de um super El Niño, em nenhum momento o governo, bem como a imprensa corporativa, cita a ocorrência da retirada criminosa de seixos rolados do leito dos rios, bem como o descumprimento no que tange à proteção da APP ciliar, como determina a legislação em vigor. Se não atacar na raiz essas e outras demandas, os efeitos desse super El Niño terão impactos severos na vida de milhares de indivíduos que habitam o sul de Santa Catarina.  

Prof. Jairo Cesa 

https://www.dw.com/pt-br/risco-de-desastre-aumenta-mas-santa-catarina-economiza-em-preven%C3%A7%C3%A3o/a-77905295  

https://www.cnnbrasil.com.br/agro/sete-agrotoxicos-mais-usados-no-brasil-sao-proibidos-na-ue-diz-pesquisa/

            

     

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