quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

 O POUCO DO QUE RESTOU DOS CASARIOS ANTIGOS DO SUL CATARINENSE SOFREM COM AS INTEMPERIES DO TEMPO E A NEGLIGÊNCIA DAS AUTORIDADES 

Foto - Jairo


Como relatei em textos publicados nesse blog, o sul de Santa Catarina não fica atrás de outras regiões do estado e do Brasil em potencialidades turísticas e culturais. O que é relevante é a versatilidade de culturas, cada uma delas expressando suas particularidades, na arquitetura, na culinária, nas danças, nos rituais religiosos etc. É verdadeiro também que nos igualamos aos demais territórios no quesito falta de preservação, valorização do que representa identidade e pertencimento. A depreciação também se dá sobre os ricos acervos arqueológicos, com destaque os povos sambaquianos, datados de quatro, cinco mil anos de história, que enfrentam descaracterizações, sem que as autoridades competentes tomem medidas para protegê-los.

Nossa arquitetura também é muito rica e complexa, destacando estilos coloniais luso-açorianos e aqueles herdados dos imigrantes europeus: alemães, italianos, poloneses, entre outros. Em se tratando de linhas arquitetônicas coloniais, é claro que são as igrejas que esboçam esses traços, com destaque para aquelas erguidas no litoral catarinense, cujas mais antigas datam do século XVII.   Em texto que publiquei há pouco tempo, discorri acerca do abandono da igreja matriz do município de Pescaria Brava, edificada em 1887 por força de trabalho escrava. Alertei sobre a urgente necessidade de fazer reparos, principalmente o setor elétrico. Embora existam algumas manifestações no sentido de restaurá-la, o fato é que não há um cronograma nem recurso orçado para esse fim.

Se nos municípios costeiros sul-catarinenses temos traços culturais e artísticos que remontam aos grupos coloniais luso-açorianos, indo em direção ao interior, deparamo-nos com outra realidade, esboçada no estilo arquitetônico, das igrejas e das habitações erguidas pelos imigrantes italianos. Uma dica de bom roteiro para compreender melhor o modo de vida das primeiras famílias italianas instaladas no Sul é visitar o museu ao ar livre Princesa Isabel, no município de Orleans. 

A região do alto e médio vale do rio Tubarão está integrada a um complexo conjunto de rotas e destinos, que oportuniza aos turistas que queiram visitar a região conhecer fragmentos do modo de vida, do trabalho, da culinária, das crenças, das habitações, das primeiras famílias de imigrantes que lá se fixaram. Por ser a região, e com destaque o município de Pedras Grandes, o berço da imigração italiana, e por estarem lá edificações que evidenciam essa cultura, fui estimulado a conhecê-la.

Claro que, antes de nos deslocarmos, procuramos sites que pudessem dar subsídios acerca dessas edificações, a exemplo da famosa Casa dos Arcos. Fiquei entusiasmado com o que li, pois descobri que a residência, datada de 1900, havia sido tombada como Patrimônio Cultural em 21/11/2002, por meio do n. 5.919, pela Fundação Catarinense de Cultura. Presumi que, por estar a residência tombada, ela estivesse em bom estado de conservação.

Chegando ao local, conhecido também como Parque Casa dos Arcos, o primeiro objeto que nos chamou a atenção e certamente dos visitantes foi de um avião, isso mesmo, um caça AMX-1, construído pela Embraer e ali instalado. Além do Caça, ao lado estava a réplica do 14-Bis, primeiro avião, construído por Santos Dumont.  Um lago artificial, contendo uma gôndola, uma mini tirolesa e uma réplica de carretão com uma junta de bois, completara o cenário, tudo junto e misturado. Então, e a casa centenária, objeto principal da nossa ida a Pedras Grandes, onde estava? Sim, estava lá, claro que desfocada diante de tantas coisas juntas.

Para acessá-la, tivemos que atravessar uma pequena ponte para pedestres sobre o lado. Próximo à casa, havia um banco de concreto, no qual estava fixado um adesivo com QR CODE, provavelmente contendo informações sobre a residência. Chegamos mais perto e notamos que as paredes estavam bem depreciadas pelo tempo, incluindo as aberturas, elementos que dão a denominação estética, Casa dos Arcos. Ficamos atônitos com o que estava à frente dos nossos olhos, não convergindo as informações divulgadas pelos sites, noticiando um cenário contemplador, mais espetacular ainda quando o campo de girações fica florido.

Observando o cenário caótico do lado externo da casa centenária, imaginávamos que o acesso ao seu interior estivesse impedido ao público, isso para conter o máximo possível o processo depreciativo do imóvel. De repente, um pouco mais à frente, vimos uma porta escancarada.  Deduzimos que alguém da administração do parque havia esquecido de mantê-la fechada ou teria sido arrombada por vândalos. Nem uma coisa, nem outra; a casa estava literalmente aberta, permitindo que todos acessassem os frágeis cômodos.

Quando pus os pés no interior da residência, deparei-me com uma escada que levava ao sótão. Continuei a caminhar, com um sentimento de pavor, angústia, por estar transitando sobre tábuas, paredes, carregadas de memória, porém, em condições deprimentes. Forros caindo, janelas protegidas com sarrafos improvisados, fiações soltas, enfim, um cenário de horror.   

 

Foto - Jairo


Foto - Jairo


O que talvez minimizasse o cenário de tristeza exaltada pela encantadora residência, é o jardim dos girassóis, que, quando floridos, transmitiria uma tonalidade alegre, ofuscando um problema em que as autoridades locais e do estado insistem em empurrar com a barriga.  Notei que as gramíneas, junto aos girassóis, estavam ressecadas devido à pulverização por agrotóxicos.  Mesma cena impactante era perceptível nas margens do lago, cuja vegetação estava também ressecada pelo veneno. Entretanto, há um monte de incongruências junto ao parque Casa dos Arcos, que deveriam ser reavaliadas pelo gestor público, com o seu corpo técnico competente.  

Foto - Jairo

Foto - Jairo



 Gerou certa estranheza a atitude de uma cidadã que me fez críticas em um grupo no qual participo, só pelo fato de eu ter emitido opinião acerca das condições deploráveis da Casa dos Arcos.  Respondeu ela: “Por que abandonado? Ela não está abandonada, pelo contrário”.  “Sou de Pedras Grandes, que a casa dos arcos era de propriedade particular, que a prefeitura adquiriu e cuida”. Continuou a cidadã: “Essa casa, a Casa dos Arcos, era de propriedade particular; a prefeitura a adquiriu e cuida. Criou um parque no entorno e o campo de girassóis, que já está sendo cuidado, que atrai muitos turistas e visitantes. A casa não está restaurada porque precisa de muito dinheiro pra isso. Mas está sendo cuidada, sim”. 

Diante da fala da cidadã de Pedras Grandes, respondi que ela não tinha qualquer noção sobre patrimônio arquitetônico, entre outras afirmações. Respondeu que possuía compreensão sobre a temática patrimônio e que eu deveria acionar os órgãos, como o IPHAN, por exemplo, e ver uma forma do município conseguir dinheiro para restaurar; o discurso na prática é bem diferente. Outro integrante do grupo, fez a seguinte proposição para a cidadã de Pedras Grandes: “iniciem com um contato com o IPHAN. “Façam registros fotográficos. Busquem registros anteriores. Informações sobre a época da edificação. Tudo o que puderem. O IPHAN vai orientar a respeito dos procedimentos necessários”.

Respondeu a cidadã que “o IPHAN tem catalogado as casas aqui... mas não funcionou. Tanto que a casa de pau a pique o IPHAN tinha catalogado, inclusive visitaram e não adiantou”. Sobre a casa de pau a pique, respondeu outro cidadão do grupo: a referida casa, edificada no século XIX, foi demolida em 2024. Mais um do grupo propôs que o município buscasse recursos por meio de editais, que aproveitasse as leis de incentivo à cultura. Perguntou se a réplica da Torre de Pisa, que está sendo erguida na comunidade de Azambuja, que pertence a Pedras Grandes, é por meio de recursos próprios? Respondeu a cidadã que uma coisa é a construção, outra coisa é o restauro.

Contra-argumentou o cidadão que um exemplo de edital é a Lei Aldir Blanc, cujo valor destinado é de 40 mil reais. Outro do grupo emitiu mais informações sobre a respectiva lei, que prevê recursos para o patrimônio material e imaterial. Informou a cidadã de Pedras Grandes que “pra nós é 40 mil difíceis de aplicar pelas regras inclusive”. “Porque a lei ou o minc falam que podem ser assim ou assado, mas não mandam toda fundamentação de como fazer porq nós os coitados dos servidores públicos tem que se virar pra por isso em sistema e enviar pra tribunal de contas”.

Durante as falas envolvendo a cidadã e integrantes do grupo, que discorriam sobre o futuro incerto da Casa dos Arcos, imagens e um vídeo foram postados por outra cidadã, também criticando o estado crítico da residência. Informou ela que ficou surpresa por estar a residência com as portas abertas, que pessoas acessavam o seu interior e corriam sobre tábuas fragilizadas. Que era necessário tomar providências para preservar uma edificação tão espetacular.

 Frente a todo esse imbróglio envolvendo a Casa dos Arcos, o que de fato esperamos é que as autoridades do município de Pedras Grandes tomem medidas urgentes para evitar o que não desejamos que aconteça: a destruição completa de um rico patrimônio arquitetônico centenário, repleto de memória de gerações que tiveram as suas existências forjadas a partir desses referenciais simbólicos. A perda de referenciais históricos por parte de uma sociedade fragiliza a condição de sujeitos integrados, resistentes a qualquer tipo de imposição verticalizada.

Prof. Jairo Cesa                     

Um comentário:

  1. Capital não interessa preservar história,é menos a cultura professor Jairo; povos que desconheçem sua história são mais fáceis de "domesticar"; regra importante dos que dominam o "panorama político"

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