terça-feira, 28 de abril de 2026

 

O MAPA DO FIMINICÍDIO NO ESTADO DE SANTA CATARINA E ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES


https://www.mpsc.mp.br/w/noticia/mpsc-lanca-mapa-do-feminicidio


A notícia da morte da cidadã Jadna, de Araranguá/SC, depois de ser atacada por um sujeito que lhe desferiu inúmeras facadas, não pode ser compreendida como sendo mais um número, uma vítima, entre as dezenas, centenas de mulheres catarinenses acometidas de feminicídio. É preciso ações emergenciais dos poderes constituídos e da sociedade, entender que esse fenômeno não pode ser relativizado, como algo isolado de um processo construído historicamente de geração pós geração. No entanto, o caso brasileiro, com especificidade o estado de Santa Catarina, fatores como o sistema de produção capitalista e o regime patriarcal devem ser considerados acerca do crescimento da violência contra as mulheres.

Na obra na qual escrevi que discorre sobre a história política de Araranguá, de 1880 a 2000, tem um capítulo, o 5 que disserta sobre as mulheres que atuaram na política do município nos 146 anos de história. Na abertura do capítulo, tem o relato da entrevista concedida pela Professora Doutora Maria Joana Pedro, do Departamento de História da UFSC. A fala dela é muito reveladora, pois procura elucidar o porquê de a mulher ocupar pouco espaço na política no passado e ainda hoje, bem como em demais espaços de comando.  Geralmente, quando ocupam, é pela ausência do homem, exercendo o espaço de forma interina, provisória. Tal condição de subjugação ao agente masculino não é recente, segundo a professora Joana, na obra Ilíada e Odisseia, de Homero, é narrada a longa jornada de Odisseu (Ulisses) de volta para casa.  

Quando Ulisses vai para a guerra, Penélope, sua esposa, fica cuidando da casa e do filho adolescente, Talêmaco. Alcançando a maioridade, o filho de Ulisses assumiu o comando da família e da pólis, ficando Penélope, sua mãe, submetida ao seu comando, ou seja, grau de inferioridade em relação ao homem. Na idade média, as mulheres continuaram restritas de direitos, aquelas que infringissem as regras estabelecidas pela igreja, por exemplo, a prática de adultério, eram condenadas à morte na fogueira. Foi construída a crença de que tais comportamentos “anormais” da mulher era porque estivessem dominadas por forças do “mal”, “demoníacas”, e que queimando-as sua alma seria “purificada”.

Esses atributos discriminatórios às mulheres foram se sucedendo ao longo do tempo, persistindo na idade moderna por meio de legislações que as imputavam o direito de votar e até mesmo estudar. Essa herança de subjugação das mulheres brasileiras tem a sua raiz na colonização portuguesa, sistema esse moldado no patriarcalismo, do qual atribuía ao sexo feminino o papel de reprodutora, parir filhos e cuidados com a casa. São raras as mulheres que arriscaram romper com esse refratário modelo de família, porém, quem ousou, teve que pagar um preço alto socialmente, que foi a reprovação social.

Embora tenham conquistado o direito de votar no Brasil somente em 1932, durante o governo Vargas, essa condição não foi suficiente para alcançar níveis de paridade com o homem, permanecendo rechaçada de muitos direitos, principalmente igualdade salarial. A carga de subjugação ao homem como constatamos atualmente tem um caráter transgeracional, ou seja, tanto homens quanto mulheres carregam em seus subconscientes elementos subjetivos de domínio, de propriedade, de aprisionamento.

Diante da triste realidade vivida pelas mulheres do estado de Santa Catarina, estado que possui elevados índices de feminicídio, o MPSC apresentou Mapa do Feminicídio durante encontro realizado na sede da instituição em Florianópolis. O mapa é um documento importante porque revela em detalhes nítida radiografia do problema no estado, destacando as regiões com maiores incidências, bem como fatores sociais, econômicos e culturais, que motivaram e motivam o acometimento dos crimes.

Na apresentação dos relatórios, entre as inúmeras autoridades presentes e que falaram, a deputada Luciane Carminatti (PT), que integra a bancada feminina na ALESC, relatou com indignação, que depois de quatro anos tramitando na casa legislativa, foi enfim aprovado o projeto de lei, PL 0014/2022 que estabelece princípios e diretrizes para a criação de programas reflexivos e de responsabilização para autores de violência doméstica e familiar contra mulheres. A intenção: “é prevenir e erradicar as condutas violentas previstas na lei Maria da Penha, pois, serão encaminhados os agressores a esses grupos quando estiverem em cumprimento de medida protetiva.   

Sobre a lei aprovada de grupos reflexivos, n. 19.788 de 01/04/2026, o que chamou a atenção durante a votação foi o voto contrário do deputado do Partido Liberal (PL) Jessé Lopes. O argumento do deputado pelo voto contrário é segundo ele:  porque sem sentença definitiva ao acusado pelo crime fere garantias individuais e pode gerar indenizações pelo Estado caso o acusado seja absolvido. Durante a fala, a deputada Carminatti (PT) informou que nos grupos reflexivos realizados, que tem duração de seis meses a um ano, há depoimentos de acusados afirmando que seu modo de ver a mulher mudou radicalmente e que querem continuar participando mesmo após finalizado o prazo dos encontros.

Analisando as informações contidas no mapa, as respostas dos infratores que querem continuar participando do grupo, têm relação direta com um elemento verificado entre os agressores, a baixa escolaridade. Dos investigados, 67,3% não haviam finalizado a educação básica, e 38,4%, o fundamental. Estando fora da sala de aula, o indivíduo está sujeito a não compreensão básica da complexidade da sociedade, além, é claro, terá dificuldades de galgar condições melhores de trabalho e renda. Esse aspecto pode se confirmar observando os níveis de renda dos agressores, onde 83,7% apresentam extratos inferiores de rendimento. Parte expressiva também, ou seja, 71,1%, não possuíam ocupação formal de trabalho, portanto, exerciam funções precarizadas, piorando ainda mais sua condição de subsistência.

Vale ressaltar também que dos que cometeram feminicídio no estado catarinense, o mapa mostrou que 72,6% possuíam antecedentes criminais, e que 44,5% tinham registros prévios de violência, especialmente em contextos de violência doméstica contra mulheres. O mapa também apresenta os corredores regionais com maiores incidências de feminicídio no estado, destacando os corredores do oeste, de Concórdia a São Miguel do Oeste; do planalto serrano, de Lages e Curitibanos.

O mapa também destacou que os dias da semana com maior consumação de crimes de feminicídio são os finais de semana, noite de sexta feira e madrugada de segunda, sendo que 76% dos casos ocorreram na própria residência da vítima. Os instrumentos mais usados nos crimes foram:  armas brancas, com 47,7%, arma de fogo, 22,9%.  Embora a lei estadual que estabelece diretrizes sobre a criação de grupos reflexivos par homens autores de violência contra mulheres tenham sido aprovada e sancionada em abril de 2026, o município de Araranguá foi um dos primeiros do estado a criação de um projeto piloto de reflexão, idealizado pela Juíza Thânia Mara Luz, da 1ª vara criminal de Araranguá.

Um ano depois, 2025, os municípios de Maravilha e Araranguá foram escolhidos para sediar curso para formação de facilitadores de grupos reflexivos. As pessoas envolvidas nas ações serão preparadas para atuar nos grupos de homens com medidas protetivas, sensibilizando-os sobre aspectos relacionados a cultura machista, entre outros fatores que os impulsionam práticas violentas. O Observatório de Desenvolvimento Socioeconômico e inovação da UNESC, em setembro de 2024 apresentou relatório sobre a violência contra mulheres na AMESC. De acordo com o relatório, o município de Araranguá liderava os casos de violência, com 955 em 2023, um aumento de 43,48% em relação ao ano anterior. Abaixo de Araranguá estava São João do Sul, com o aumento de +78,79%, e turvo, com +56,02%.

Prof. Jairo Cesa

     

https://www.youtube.com/user/ministeriopublicos

https://www.youtube.com/watch?v=NIxsQ6-mOmU&t=3134s

https://leis.alesc.sc.gov.br/ato-normativo/53982

https://www.pm.sc.gov.br/noticias/pmsc-lanca-rrrede-catarina-de-protecao-a-mulherrr

https://www.tjsc.jus.br/web/imprensa/-/comarca-de-ararangua-inicia-primeiro-grupo-reflexivo-para-homens-autores-de-violencia

https://www.tjsc.jus.br/web/academia-judicial/-/cursos-para-facilitadores-de-grupos-reflexivos-para-homens-autores-de-violencia-tem-parte-pratica-nas-comarcas-de-maravilha-e-ararangua

https://www.unesc.net/observatorio/postagem/violencia-domestica-cresce-em-municipios-da-amesc-ararangua-lidera-em-casos

https://radioararangua.com.br/violencia-contra-a-mulher-cresce-18-em-ararangua-em-2025-novo-conselho-municipal-dos-direitos-da-mulher-entra-em-acao/

 

 

 

       

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