AVES
MIGRATÓRIAS NA COSTA OCEÂNICA DE ARARANGUÁ
Duas
vezes por ano, no outono e na primavera, a costa oceânica de Araranguá recebe
centenas de pequenos pássaros que fazem o longo e obrigatório percurso entre o
sul da Argentina a região norte do Brasil. Há relatos até que esses pássaros viajam
até a costa mexicana e norte americana. As
aves que me refiro são as batuíras, que impressionam pela rapidez do seu
movimento na areia procurando o alimento necessário que lhes garantam energia
suficiente para concluir a longa jornada de sobrevivência da espécie.
É
importante saber que nossa costa oceânica não é passagem obrigatória somente
dessa espécie de aves e mamíferos marinhos, também temos a visita anual das
baleias francas, e em menor proporção de lobos marinhos, pinguins, entre
outros/as. Os pinguins, por exemplo, dependendo do ano e das correntes marítimas
vindas da Antártida, geralmente são chegam já sem vida nas nossas costas,
acometidos por desnutrição e doenças.
Por
ser a costa atlântica do Brasil e em especial a sul catarinense, habitat e rota
obrigatória de aves e mamíferos marinhos, a existência de legislações visando a
regulação de ocupações habitacionais e do trânsito de veículos automotores na
faixa costeira se fez e faz necessária para assegurar que esses espetáculos da
natureza sejam desfrutados pelas futuras gerações. A faixa costeira do extremo
sul catarinense, pelas suas características geomorfológicas, extensa faixa de
praia com o mínimo de obstáculo, se torna ambiente imprescindível às aves
migratórias.
É
nesse intervalo espacial um tanto longo que permite as batuíras munir-se de
energia suficiente para alçar voos distantes até encontrarem outros locais que
ofereçam alimentos em quantidade e saudáveis. A incessante a atuação de órgãos
ambientais como o MPF, insistindo que os municípios costeiros estabeleçam
regras de controle do trânsito de veículos na orla, permitindo que as aves se alimentem
sem que sejam molestadas.
A
criação de APAS como a da Baleia Franca, abrangendo uma extensa área entre a
costa sul de Florianópolis ao Balneário Rincão, são importantes recursos que
garantem a sobrevivência dessa espécie de baleia. Se observarmos os laudos semanais
da balneabilidade apresentado pelo IMA, a região que compreende a APA da baleia
franca é a que apresenta menores índices de praias impedidas para o banho,
devido a contaminação por clorofórmios fecais. Claro que tem exceção, a exemplo
de municípios como o Balneário Rincão, que deve receber maior atenção das
autoridades em relação aos esgotos que são lançados na orla.
Isso,
de fato, é o grande problema enfrentado pelas espécies migratórias, interferindo
também em toda a complexa biótica marinha. O que minimiza os impactos ao ciclo
das batuíras é saber que sua passagem pela costa catarinense ocorre entre o
final do mês de março e começo de abril, já fora da temporada de verão, cuja água
e a área das praias estão mais contaminadas.
Creditar
ao esgoto como principal vilão da contaminação de nossas praias é querer omitir
outros fatores tão graves e até mesmo mais abrangentes e impactantes. Rios que
desaguam na faixa costeira do sul do Estado catarinense, o Araranguá, o
Urussanga e o Tubarão, despejam toneladas de resíduos sólidos no oceano todos
os dias. O caso de Araranguá é bem representativo, uma bacia de tamanho médio
que inclui 21 municípios, é uma das que mais despeja agrotóxicos, partículas de
carvão mineral, esgoto doméstico, industrial e outros tantos tipos de resíduos no
oceano atlântico.
Uma
pequena precipitação no montante da bacia já é suficiente para o acúmulo de
lixo na foz e em toda a orla do município. Já repeti em outros textos por mim
publicado que esse passivo ambiental não deve ser creditado exclusivamente ao município
de Araranguá. Todos que integram a bacia deveriam contribuir para mitigar os
impactos, ou por meio de programas ambientais em seus territórios, ou por políticas
conjuntas chanceladas pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Araranguá. Fora isso, não resolve o município de
Araranguá, todos os anos insistir em executar o projeto arco ires, de coletar
lixo nas imediações da foz da respectiva bacia. É o mesmo que enxugar gelo, de
querer mitigar um problema que não terá fim se não for atacado na raiz.
Prof.
Jairo Cesa
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