sexta-feira, 3 de abril de 2026

 

JOGOS DE INTERESSES ENVONVENDO A ABERTURA DO CAMINHO DOS CONVENTOS EM 1729

Ainda permeia no imaginário coletivo de que o sul de Santa Catarina a partir do Laguna era um território totalmente abandonado lá pelos anos de 1700, 1800. O que se tinha de informação era que a ocupação desse território se deu com a criação do conhecido caminho dos tropeiros, trilha essa construída pelo militar português Francisco de Souza Faria em 1729. Nas produções historiográficas, como a do professor historiador Wanderlei Gomes, a obra descortina um cenário muito mais complexo no extremo sul do território catarinense e brasileiro e que merece atenção especial de quem pesquisa e gosta da história.

O Fato é que Araranguá é muito mais antigo do que se imaginava, sua existência data do início do século XVII com a presença dos primeiros viajantes/desbravadores, que ousaram em retratar o território, rios, lagos, morros, por meio de mapas que estão hoje disponíveis nos arquivos para pesquisa. Essa foi uma região com expressiva presença de indígenas, povos Guaranis e Xoklengs, transformados em escravos e até mesmo dizimados a partir da inserção do imigrante europeu.

É importante destacar que as terras ao sul de Laguna pertenciam a coroa espanhola, que por muito tempo foi motivo de disputas entre ela e Portugal. Fatos como os conflitos entre essas duas metrópoles devem sempre estar inseridos nos debates sobre a construção do território ao sul, em especial o grande município de Araranguá. Como sabemos, Laguna aparece no cenário a partir do tratado de Tordesilhas, linha divisória imaginaria que dividiu as terras “descobertas” entre as duas metrópoles europeias.

No Brasil essa linha divisória passou exatamente onde hoje é Laguna, cujo nome dado na época foi de capitania de Santa Ana. Toda a região ao sul sempre foi passiva de disputas, ficando o território desocupado por longo tempo. O desinteresse da coroa espanhola em ocupá-la pode ter como explicação as descobertas das minas de ouro e prata no peru, Bolívia etc. Assegurar proteção a foz do rio da prata fez com que a coroa espanhola disponibilizasse grande contingente de soldados naquelas imediações. Com a criação do município de Laguna em 1676, Portugal mantinha forte interesse em ocupar as terras ao sul, estabelecendo um domínio militar sobre o território, principalmente com levas de imigrantes luso açorianos.

Ao mesmo tempo em que se dava a ocupação do território ao sul do Brasil, a região da Minas Gerais estava vivendo o auge da mineração, atividade essa que teve influência direta e indireta na modelagem territorial e social de boa parte dos municípios do litoral e planalto gaúcho e catarinense. A atividade mineradora no Sudeste precisava agora de força braçal e alimentos. Portanto, erra necessário transportar o gado, muares, dos pampas do sul para as Minas Gerais. Caminhos alternativos, mais curtos e rápidos, deveriam ser criados, substituindo o da faixa costeira, muito instável e distante dos centros consumidores.

Para tal investida, o capitão general, comandante geral das províncias do sul, com sede em São Paulo, Caldeira Pimentel, convidou o militar português Francisco de Souza Faria para executar esse complexo serviço para a coroa portuguesa. Antes da viagem para Laguna, o capitão general elaborou documento contendo informações sobre o serviço que havia designado a Francisco Faria, na qual o administrador de Laguna, Francisco de Brito Peixoto, deveria garantir todas as facilidades possíveis ao seu designado. Em Laguna, Souza Faria ficou retido por alguns meses, pois, embora fosse um povoado ainda pequeno, não havia ainda conseguido manter contado com o administrador.

O que de fato motivou a rendição de Souza Faria por longo tempo em Laguna, foi porque o administrador Domingos de Brito Peixoto o boicotou, dificultando ao máximo que realizasse o trabalho de abertura de um caminho alternativo para o transporte das tropas à região das minas.  O administrador de Laguna acreditava que abrindo um caminho ao sul de Laguna poderia trazer prejuízos significativos ao seu município, isso porque até aquele momento quem se deslocasse do Norte para o sul ou vice-versa obrigatoriamente teria que passar por Laguna.

Devido as pressões, Brito Peixoto concordou que Souza Faria seguisse a viagem ao sul, porém, sugeriu que chegando a foz do rio Araranguá, seguisse rio acima pela margem esquerda, contendo muitos obstáculos para serem superados. Souza Faria chegou a foz do rio Araranguá em 1729, tendo o acompanhamento de mais de 200 homens recrutados, grande parte de mal feitores, criminosos, dos quais receberam a promessa de ficarem livres das penas quando concluíssem a empreitada. Mesmo com as promessas, muitos recrutados ousaram fugir na primeira oportunidade.

 Cristóvão pereira de Abreu, tropeiro que comercializava gado da região da Colônia de Sacramento para o sudeste brasileiro, sabendo do feito do seu colega Souza Faria, reuniu 800 cavalgaduras onde chegou a barra do rio Araranguá em outubro de 1731, aproveitando o caminho aberto para levar os seus animais em direção a Curitiba. Convém salientar que outra trilha foi aberta por Cristóvão Pereira de Abreu, a partir de Viamão, seguindo os campos de cima da serra, sem tantos obstáculos como o caminho dos Conventos. De fato, era essa trilha aberta por Pereira de Abreu que Francisco de Souza Faria abriria se não fosse persuadido por Domingos de Brito Peixoto a abrir o caminho dos Conventos.  

O Caminho dos Conventos foi por pouco tempo utilizado pelos tropeiros, transformando-se mais tarde em trilha dos missionários das missões que comercializavam gado e outros produtos com Laguna. Também essa trilha teve papel importante no deslocamento de tropas durante os conflitos envolvendo a coroa espanhola e portuguesa. Creditar nessa trilha a única resposta para o início do povoamento de Araranguá demonstra não ser uma explicação muito confiável.

O primeiro núcleo populacional da região surgiu na Barra Velha, com famílias ou indivíduos oriundos de Laguna. Mais tarde, essas famílias foram se deslocando em direção ao Rio dos Porcos, Cangica. Outro agrupamento ocorreu nas imediações da Itoupava, de pessoas que aproveitavam as trilhas abertas na serra geral, ambas convergindo no povoado da Itoupava. É preciso deixar claro que por longo tempo a Trilha dos Conventos não era mais utilizada como caminho para o transporte do gado, sendo-a substituída pela Trilha de Via Mão. Em alguns aspectos pode ser que a respectiva trilha teve algum reflexo no surgimento do povoado de Campinas/Araranguá. Foi de fato a farinha de mandioca, a cana de açúcar e o trabalho escravo os fatores preponderantes na formatação do que viria a ser no final do século XIX uma das regiões mais prósperas do estado de Santa Catarina.

Prof. Jairo Cesa

   

 

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