JOGOS
DE INTERESSES ENVONVENDO A ABERTURA DO CAMINHO DOS CONVENTOS EM 1729
Ainda
permeia no imaginário coletivo de que o sul de Santa Catarina a partir do
Laguna era um território totalmente abandonado lá pelos anos de 1700, 1800. O
que se tinha de informação era que a ocupação desse território se deu com a
criação do conhecido caminho dos tropeiros, trilha essa construída pelo militar
português Francisco de Souza Faria em 1729. Nas produções historiográficas,
como a do professor historiador Wanderlei Gomes, a obra descortina um cenário
muito mais complexo no extremo sul do território catarinense e brasileiro e que
merece atenção especial de quem pesquisa e gosta da história.
O
Fato é que Araranguá é muito mais antigo do que se imaginava, sua existência
data do início do século XVII com a presença dos primeiros
viajantes/desbravadores, que ousaram em retratar o território, rios, lagos,
morros, por meio de mapas que estão hoje disponíveis nos arquivos para
pesquisa. Essa foi uma região com expressiva presença de indígenas, povos Guaranis
e Xoklengs, transformados em escravos e até mesmo dizimados a partir da
inserção do imigrante europeu.
É
importante destacar que as terras ao sul de Laguna pertenciam a coroa espanhola,
que por muito tempo foi motivo de disputas entre ela e Portugal. Fatos como os
conflitos entre essas duas metrópoles devem sempre estar inseridos nos debates
sobre a construção do território ao sul, em especial o grande município de
Araranguá. Como sabemos, Laguna aparece no cenário a partir do tratado de Tordesilhas,
linha divisória imaginaria que dividiu as terras “descobertas” entre as duas
metrópoles europeias.
No
Brasil essa linha divisória passou exatamente onde hoje é Laguna, cujo nome
dado na época foi de capitania de Santa Ana. Toda a região ao sul sempre foi
passiva de disputas, ficando o território desocupado por longo tempo. O desinteresse
da coroa espanhola em ocupá-la pode ter como explicação as descobertas das
minas de ouro e prata no peru, Bolívia etc. Assegurar proteção a foz do rio da
prata fez com que a coroa espanhola disponibilizasse grande contingente de soldados
naquelas imediações. Com a criação do município de Laguna em 1676, Portugal
mantinha forte interesse em ocupar as terras ao sul, estabelecendo um domínio
militar sobre o território, principalmente com levas de imigrantes luso açorianos.
Ao
mesmo tempo em que se dava a ocupação do território ao sul do Brasil, a região
da Minas Gerais estava vivendo o auge da mineração, atividade essa que teve influência
direta e indireta na modelagem territorial e social de boa parte dos municípios
do litoral e planalto gaúcho e catarinense. A atividade mineradora no Sudeste
precisava agora de força braçal e alimentos. Portanto, erra necessário transportar
o gado, muares, dos pampas do sul para as Minas Gerais. Caminhos alternativos,
mais curtos e rápidos, deveriam ser criados, substituindo o da faixa costeira,
muito instável e distante dos centros consumidores.
Para
tal investida, o capitão general, comandante geral das províncias do sul, com
sede em São Paulo, Caldeira Pimentel, convidou o militar português Francisco de
Souza Faria para executar esse complexo serviço para a coroa portuguesa. Antes da
viagem para Laguna, o capitão general elaborou documento contendo informações
sobre o serviço que havia designado a Francisco Faria, na qual o administrador
de Laguna, Francisco de Brito Peixoto, deveria garantir todas as facilidades
possíveis ao seu designado. Em Laguna, Souza Faria ficou retido por alguns
meses, pois, embora fosse um povoado ainda pequeno, não havia ainda conseguido
manter contado com o administrador.
O
que de fato motivou a rendição de Souza Faria por longo tempo em Laguna, foi porque
o administrador Domingos de Brito Peixoto o boicotou, dificultando ao máximo
que realizasse o trabalho de abertura de um caminho alternativo para o
transporte das tropas à região das minas. O administrador de Laguna acreditava que
abrindo um caminho ao sul de Laguna poderia trazer prejuízos significativos ao
seu município, isso porque até aquele momento quem se deslocasse do Norte para
o sul ou vice-versa obrigatoriamente teria que passar por Laguna.
Devido
as pressões, Brito Peixoto concordou que Souza Faria seguisse a viagem ao sul,
porém, sugeriu que chegando a foz do rio Araranguá, seguisse rio acima pela
margem esquerda, contendo muitos obstáculos para serem superados. Souza Faria
chegou a foz do rio Araranguá em 1729, tendo o acompanhamento de mais de 200
homens recrutados, grande parte de mal feitores, criminosos, dos quais
receberam a promessa de ficarem livres das penas quando concluíssem a
empreitada. Mesmo com as promessas, muitos recrutados ousaram fugir na primeira
oportunidade.
Cristóvão pereira de Abreu, tropeiro que
comercializava gado da região da Colônia de Sacramento para o sudeste
brasileiro, sabendo do feito do seu colega Souza Faria, reuniu 800 cavalgaduras
onde chegou a barra do rio Araranguá em outubro de 1731, aproveitando o caminho
aberto para levar os seus animais em direção a Curitiba. Convém salientar que
outra trilha foi aberta por Cristóvão Pereira de Abreu, a partir de Viamão, seguindo
os campos de cima da serra, sem tantos obstáculos como o caminho dos Conventos.
De fato, era essa trilha aberta por Pereira de Abreu que Francisco de Souza
Faria abriria se não fosse persuadido por Domingos de Brito Peixoto a abrir o
caminho dos Conventos.
O
Caminho dos Conventos foi por pouco tempo utilizado pelos tropeiros,
transformando-se mais tarde em trilha dos missionários das missões que
comercializavam gado e outros produtos com Laguna. Também essa trilha teve
papel importante no deslocamento de tropas durante os conflitos envolvendo a
coroa espanhola e portuguesa. Creditar nessa trilha a única resposta para o
início do povoamento de Araranguá demonstra não ser uma explicação muito
confiável.
O
primeiro núcleo populacional da região surgiu na Barra Velha, com famílias ou indivíduos
oriundos de Laguna. Mais tarde, essas famílias foram se deslocando em direção
ao Rio dos Porcos, Cangica. Outro agrupamento ocorreu nas imediações da Itoupava,
de pessoas que aproveitavam as trilhas abertas na serra geral, ambas convergindo
no povoado da Itoupava. É preciso deixar claro que por longo tempo a Trilha dos
Conventos não era mais utilizada como caminho para o transporte do gado, sendo-a
substituída pela Trilha de Via Mão. Em alguns aspectos pode ser que a
respectiva trilha teve algum reflexo no surgimento do povoado de Campinas/Araranguá.
Foi de fato a farinha de mandioca, a cana de açúcar e o trabalho escravo os
fatores preponderantes na formatação do que viria a ser no final do século XIX
uma das regiões mais prósperas do estado de Santa Catarina.
Prof.
Jairo Cesa
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