sábado, 18 de abril de 2026

 

POPULAÇÃO INDÍGENA EM ARARANGUÁ, DO EXTERMÍNIO AO SILENCIAMENTO

https://cimi.org.br/2023/06/as-atrocidades-que-viabilizaram-a-apropriacao-das-terras-indigenas-no-brasil/



Outro tema brilhantemente abordado pelo historiador Wanderlei Gomes na obra História do Vale do Araranguá: o rio, a terra, o povo (1842-1883), foi sobre a presença indígena ou povos originários na extensa área territorial de Laguna a margem esquerda do rio Mampituba, onde situava o grande Araranguá. É sabido por todos que o extenso território do sul de Santa Catarina era habitado pelos Guarani e os Xokleng/botocudos/bugres, esse último do tronco linguístico Jê. A presença deles aqui data de décadas, séculos anteriores a chegada dos colonizadores portugueses. A introdução do sistema de produção mercantilista exportador, fez com que no Brasil, começo do século XVI, fosse adotada a mão de obra indígena, sendo substituída mais tarde pela africana, mais rentável ao traficante e a coroa portuguesa.

De fato, no território do extremo sul catarinense, a a presença dos povos originais é constatada a partir de achados de artefatos cerâmicos, urnas fúnebres, pontas de flechas e acúmulos de conchas/crustáceos dos grupos sambaquianos, considerados mais antigos que os primeiros. Outras formas de comprovação da presença deles aqui são os nomes recebidos por alguns povoados, municípios e locais de relevância turística ou paisagística. Destacamos nomes como Itoupava, Araranguá, Itaimbezinho, Timbé, Mampituba, etc.

O extermínio progressivo dos povos originários se deu primeiro com o aprisionamento para o trabalho escravo e, mais tarde, com as políticas de colonização, ou seja, distribuição das terras do sul do estado às companhias de colonização encarregadas de comercializá-las com as famílias de imigrantes europeus, italianos, alemães, poloneses etc. O que mais contribuiu para a concretização dessas políticas mercantilistas do solo foi a aprovação da Lei de Terra em 1850, conhecida como a primeira reforma agrária do Brasil.

De certo modo, deve ter sido esse um dos importantes instrumentos utilizados pelo Estado para “limpar” definitivamente o território da presença dos povos originários, como também de sertanejos posseiros, caboclos, que ocupavam terras devolutas anterior a chegada dos imigrantes. Não é possível afirmar categoricamente que os indígenas de início impuseram forte resistência aos colonos que chegavam à região. As primeiras investidas ou enfrentamentos, porém, foram se sucedendo quando os Guarani, Xakleng, passaram a se sentir encurralados, tendo os seus espaços de deslocamentos cerceados, limitando ainda mais as áreas de florestas e rios para subsistirem.

No discurso oficial, os indígenas sempre foram vistos como agressores, que atacavam residências e propriedades dos colonos para furtar objetos pessoais, como roupas e ferramentas de trabalho. Esse discurso que se tornou consenso durante o século XIX, motivou o governo da província de Santa Catarina a sancionar a lei n. 70 de 28 de abril de 1837. A lei teve como objetivo isentar o serviço da guarda nacional aos moradores das localidades situadas no sertão catarinense, a exemplo de Araranguá, que estavam expostos aos ataques de indígenas. Isentar significa que os jovens das freguesias e povoados em idade de alistamento estavam livres desse compromisso, podendo permanecer na propriedade dos pais para protegê-las dos “agressores” indígenas.

Quanto aos furtos praticados nas propriedades, nos testemunhos de colonos ou reportagens jornalísticas da época, não há relatos de ter havido agressões ou mortes de colonos durante os primeiros contatos com o homem branco. Sobre os furtos cometidos por indígenas em algumas propriedades, como foi descrito acima, afirmou uma das vítimas que quando retornou a sua casa encontrou no seu interior um arco, cinco flechas e dois porretes. Os respectivos instrumentos deixados na residência, devem ser interpretados não como presentes, mas como escambos/trocas, intrínseco a cultura dos originários.

É importante ressaltar que o colono europeu pode sobreviver as adversidades da geografia do sul de Santa Catarina se apropriando do conhecimento herdado pelos povos originários. A canoa, as frutas comestíveis, os tubérculos, as ervas e raízes medicinais, entre outras, deram sustentação aos colonos no início da ocupação. Furtar equipamentos de trabalho e vestimentas dos colonos imigrantes, como enxadas, pás, roupas, era porque viam como muito úteis para o seu manejo diário.

Com a expansão das propriedades direção ao interior, os indígenas têm a suas áreas de deslocamentos reduzidas de tal maneira que os impossibilita à sobrevivência. Numa situação extrema como se evidenciou, é muito provável que os originários impuseram alguma resistência aos imigrantes invasores. É claro que os enfrentamentos entre os locais e os colonos mostravam ser desproporcionais em termos de armamentos, de um lado o arco e flecha, e do outro, espingardas, facões, foices, machados.

Em 13 de janeiro de 1884, o Jornal a Verdade, de Laguna, publicou manifesto afirmando que o governo adotava políticas pouco efetivas contra os selvagens, canibais. Antes da criação dos bugreiros, se instituiu nos grupos de “pedestres”, corpo militar cuja função era responder a possíveis ataques indígenas e abrir caminho na mata. A ação dos “pedestres” não se tornou tão eficiente como se pretendia, e como saída se pensou em agilizar o processo de catequização, porém, também foi pouco efetivo.

Os batedores do mato ou bugreiros foram criados com a missão de caçar os indígenas e “limpar” definitivamente o território. O fato é que a imprensa na época exerceu papel importante no extermínio dos povos originários. Frequentemente notícias eram publicados reportando ataques de indígenas as propriedades e residências de colonos, resultando em membros das famílias mortas e objetos furtados. Essas notícias deixavam a população pavorosa, talvez, muitas vezes as informações veiculadas não correspondiam a realidade, sendo elas distorcidas propositalmente. Se de fato as incursões dos indígenas eram violentas, jamais os jornais se prestavam em esclarecer os reais motivos de adotavam tais comportamentos violentos.

Não explicavam que as terras que habitavam, as florestas, os rios, estavam ficando mais e mais reduzidos à sobrevivência. Talvez, no começo, se os imigrantes europeus tivessem tentado formalizar contato com os indígenas, poderíamos estar hoje narrando outro cenário, não o que se sucedeu posteriormente.  Mas não foi o que aconteceu, pois a estratégia dos governos que se sucederam foi mesmo de “limpar a terra”, destinando-as aos “destemidos” e “laboriosos” colonos europeus.

Resgatar urnas funerárias enterradas, pontas de flechas e outros artefatos, é a maneira que temos de trazer a luz a realidade silenciada por décadas, séculos. O museu de Araranguá, por exemplo, abriga várias urnas fúnebres dos povos guaranis encontradas em vários pontos do território araranguaense. Também o que chama a atenção é a enorme quantidade de sítios sambaquianos identificados, que tornam explícito uma intensa ocupação humana anterior aos guaranis e os colonos luso/açorianos/imigrantes. Atualmente, como forma de se proteger, os remanescentes Xoklengs, Kaigang e guarani, vivem hoje em reduzidas reservas/aldeias administradas pela FUNAI. De Florianópolis até o extremo sul do estado, existem apenas dois agrupamentos guarani, a do Morro dos Cavalos e em Imaruí.

Embora transcorridos mais de cinco séculos da invasão portuguesa, os povos originários continuam lutando, resistindo para conservar o pouco de áreas territoriais que lhes convém. O Marco Temporal, por exemplo, é outro instrumento utilizado pelo grande capital agroexportador para tomar o pouco do restam dos territórios indígenas, bem como tornar nulo processos demarcatórios ainda não homologados pelo Estado Brasileiro. Sendo assim, segue o contínuo e interminável genocídio dos povos originários, alimentado pela cobiça de uma elite agrária, que tem os seus representantes instalados nas estruturas dos poderes constituídos, sendo o mais recorrente, o congresso nacional.

Prof. Jairo Cesa      

   https://agora.emnuvens.com.br/ra/article/view/238

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