quarta-feira, 23 de julho de 2025

 

O QUE SE ESCONDE POR TRÁS DAS TAXAÇÕES DE PRODUTOS BRASILEIROS IMPORTADO PELOS ESTADOS UNIDOS

Acredito que para compreender o que está acontecendo atualmente no mundo acerca das guerras tarifárias, principalmente entre os EUA e a China, se mostra necessário retornar um ou dois séculos na história, refletindo a partir de algumas obras importantes, como a Riqueza das Nações escrita pelo escocês Adam Smith. Lembro que nas minhas aulas de história quando o assunto era o liberalismo econômico, procurava trazia para o debate o “século das luzes”, momento pelo qual a razão, a ciência, se sobrepuseram aos desígnios metafísicos, sobrenaturais.

Agora, o foco era o “deus mercado”, a oferta e a demanda, vistos pelos seus fiéis defensores, como um mecanismo de base cartesiana, capaz de ordenar, regular o funcionamento das sociedades em conformidade com as leis da natureza, a fisiocracia, ou seja, o governo da natureza.  Entretanto, não havia como o mercado se autorregular, era necessário um agente mediador, algo ou alguém que representasse o “deus mercado”, uma superestrutura, que construísse um complexo arcabouço de regras, que fosse capaz de disciplinar o funcionamento da engrenagem socioeconômica. Esse instrumento regulador passou a se chamar Estado, uma entidade político-jurídica com autoridade sobre o território e a população, cujo comando seria entregue a um líder, eleito ou não pelo voto popular ou indicado pelo parlamento. Em muitos casos, esse líder, era conduzido ao poder mediante golpe militar, patrocinado por poderosos grupos econômicos.

O argumento de que os mercados se autorregulariam, de modo que as crises econômicas e sociais seriam evitadas, como acreditavam os seus representantes, não se confirmaram com o transcorrer do tempo. Muito pelo contrário, o modelo econômico instituído, moldado na exploração do trabalho e dos recursos naturais, fez desencadear crises permanentes, algumas das quais resultando em conflitos generalizados com milhões de perdas humanas e destruição da infraestrutura. Os dois grandes conflitos mundiais, o de 1914-1918 e o de 1939-1945, foram exemplos claros de que o capitalismo, durante o seu desdobramento, mostrou que a ideia da autorregulação, de autossuperação de crises não se confirmou.

A Revolução Russa em 1917 foi um acontecimento importante para que o sistema capitalista reavaliasse suas práticas, que a existência de um Estado capaz de mediar negociações com os trabalhadores, melhorando os salários e garantindo benefícios sociais, ajudaria na redução das tensões entre o mercado e o trabalho. O modelo keynesianismo de produção implantado pelos Estados Unidos nos pós crise de 1929 se caracterizou como um programa econômico e social que levou o salvamento da economia norte americana seriamente afetada pela quebradeira dos mercados. O fato é que Keynes, um cidadão britânico, era forte defensor de ideias liberais, porém, sua teoria ajudou governos a implantarem a socialdemocracia, uma mistura de capitalismo com benefícios sociais.

O New Deal (Novo Acordo ou Novo Pacto) do presidente Franklin D.  Roosevelt nos pós segundo guerra foi o golpe perfeito para a reconstrução das estruturas produtivas dilapidadas pela crise do capitalismo. O Estado, portanto, entra no cenário econômico como um agente de salvação de grandes corporações devastas pela crise. Outras estruturas com finalidades estratégicas na economia, como as petrolíferas, comunicação, eletrificação, transportes etc., o Estado assume a gestão. O modelo fordismo de produção, como se caracterizou nesse momento da história do capitalismo, começou a apresentar fissuras a partir do final do século XX, motivado por transformações no campo da produção. O próprio Estado, como sustentáculo das crises do capitalismo, de repente se mostra como vilão das novas crises por ele protagonizadas.

Em vez de “Estado máximo” no qual garantiu a recuperação das estruturas do sistema produtivo pós crise de 1929, o que passa a ser apregoado agora nos quatro cantos em que o capitalismo alcança, é a refutação do próprio Estado, tornando-o pequeno, mínimo. Esse Estado Mínimo, foi idealizado pelos novos ideólogos do mercado, os neoliberais. Como um rastilho de pólvora, os anos 1990, esse projeto de sociedade que apregoava a desestatização, bem como a flexibilização de direitos sociais, se espalhou rapidamente pelo mundo, afetando principalmente as nações economicamente mais fragilizadas.

Os avanços nas áreas de tecnologia, comunicação e transportes, pôs fim as barreiras entre as nações. Sem dúvida a internet, foi um dos divisores de águas de um mundo analógico para o digital, processo esse que resultou em mudanças radicais no modo como as pessoas interpretarão o mundo a partir desse momento.  É o começo da globalização contemporânea, que parece fazer ressuscitar os princípios clássicos no liberalismo econômico. Porém, nesse mundo agora globalizado é claro que irão se sobressair os países detentores as novas tecnologias em curso, os Estados Unidos, depois o Japão, entre outros.

O protagonismo norte americano no comercio mundial se vê abalado já a partir da primeira década do século XXI, com a investida da China, como potência emergente, a ponto de desafiar o poderio ocidental. Um novo cenário geopolítico se descortina no horizonte, estando agora de lados opostos duas frentes, a ocidental, liderada pelos Estados Unidos, seus aliados europeus, Israel, alguns países árabes e o Japão, e a oriental, protagonizada pela China, seguido pela Rússia, Irã, Índia etc.

Parece que a ideia de mundo globalizado, do livre comércio, passa a enfrentar um revés com a eleição de Donald Trump, que entre as medidas tomadas no seu segundo mandato, uma delas foi a elevação de tarifas para produtos importados da China e de outras tantas nações espalhadas pelos cinco continentes.  Seria o começo de uma guerra comercial que paulatinamente irá minar as bases do livre mercado, vindo à luz o Estado intervencionista no modelo keynesianismo? Penso que quanto ao keynesianismo, isso não vai acontecer, porém, quanto ao estado protecionista, isso sim, claro que do lado dos Estados Unidos, onde o presidente Trump, insiste em executar suas promessas de campanha, uma delas é “making América Grant Again”, ou seja, tornar a américa grande novamente.

Medidas protecionistas num momento em que as economias no planeta estão cindidas como teias, o resultado tenderá a ser o colapso econômico, em especial para os próprios americanos, fortes dependentes de produtos importados, como o café, suco de laranja, madeira, grãos, que são exportados pelo Brasil. Acreditamos que o comportamento aloprado do governo americano com as suas políticas de taxações se devem, sim, ao desespero de ver o seu principal oponente, a China, expandindo seus mercados por todos os cantos, por meio da conhecida “rota da ceda”.

Diante de tal comportamento atabalhoado, o presidente Donald Trump, decidiu taxar em 50% os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos a partir do dia 01 de agosto de 2025. A notícia gerou profunda comoção por parte dos segmentos que tem o mercado americano como principal destino dos seus produtos. A pergunta que até o momento não tem resposta é porque taxar um país cujo importador, os Estados Unidos, tem superávit na balança comercial? Uma das alegações se deve a influência do filho do ex-presidente brasileiro junto ao governo americano para que impusesse tais medidas, para pressionar o presidente do Brasil e o STF, a concederem anistia aos envolvidos na tentativa de golpe em 08 de janeiro de 2023.  

Se realmente for verdade que o filho do ex-presidente está por trás dessas manobras insanas, os prejuízos que terão os segmentos empresariais e do agronegócio serão absurdos. Somente o RS pode perderá 145 mil empregos com as taxações. Pior que são setores majoritariamente bolsonaristas, que tem representações no congresso nacional, cujo comportamento quando souberam das medidas contra o país, aplaudiram de pé, algo que irá arruinar seus representados.

É incrível como um assunto que tem o envolvimento direto da família Bolsonaro na elevação das taxações de produtos brasileiros pelos Estados unidos rendeu tanta cobertura pelos órgãos noticiosos brasileiros, bem como nas mídias digitais. A questão é, tem mesmo sentido o que estão divulgando, de que um deputado, como o filho do inelegível ex-presidente, tem tanta força de influência no governo dos Estados Unidos? Penso que, a figura do filho do Bolsonaro está servindo como uma espécie de cortina de fumaça para encobrir algo mais extraordinário que as taxações.

O encontro dos BRICS no Rio de Janeiro há poucos dias deve ter implicação nas decisões tomadas pelo governo Trump sobre ao Brasil. Mas não é somente isso. Pela primeira vez os Estados Unidos viram o Brasil como Estado que tomou a dianteira em discutir com os demais países do sul global proposta que poderá ameaçar a hegemonia do grande império norte americano, que é possível criação de uma moeda capaz de desafiar o dólar. A participação dos Bolsonaro nesse enredo apocalíptico tem o objetivo claro de desestabilizar, romper o tecido institucional brasileiro. A destruição do Brasil como projeto soberano interessa ao capital, portanto, interessa mais ainda ao grande império do norte.

Prof. Jairo Cesa

      

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