terça-feira, 22 de setembro de 2026

 

O INTEGRALISMO/FASCISMO GESTADO NO GRANDE ARARANGUÁ, A ELEIÇÃO QUE REVELOU O LADO SOMBRIO DO ULTRACONSERVADORISMO SULISTA

Foto - Livro, De Olho no Poder, João Henrique Zanelatto. p.86


Há 90 anos, o Estado brasileiro se viu assombrado pelo espectro do fascismo, com o surgimento da Ação Integralista Brasileira – AIB, tendo como principal líder Plínio Salgado. A Europa, no entanto, estava às portas da Segunda Guerra Mundial, e duas nações importantes, Itália e Alemanha, entraram no cenário continental e global com duas propostas de regimes de governos, nazismo e fascismo, os quais arregimentaram milhões de apoiadores. A resposta dessa insanidade reservada a líderes mentalmente doentes, todos/as conhecemos, milhões de mortes, dentre os quais mais de seis milhões de judeus, comunistas, em campos de concentrações.

O Brasil, porém, vivia a ditadura de Vargas, que, no início, lançou apoio incondicional aos regimes totalitários da Alemanha e Itália. Durante 15 anos, período em que Vargas esteve à frente do poder, a única exceção à eleição livre no Brasil, ocorreu em 1936, quando eleições municipais foram realizadas para escolher prefeitos e vereadores. Em âmbito nacional, havia previsões para eleições gerais em 03/01/1938, porém, não se concretizou, porque em 10/11/1937, Vargas instituiu o Estado novo, alegando haver manobras comunistas para instaurar golpe de estado.

A Aliança Integralista Brasileira, já consolidado como partido político, prestou apoio ao golpe de Vargas acreditando que seriam agraciados no governo. Entretanto, Vargas quando assumiu o governo, uma das primeiras atitudes tomadas foi extinção dos partidos políticos, incluindo a Aliança Integralista Brasileira.  

Cabe aqui destacar que a AIB, sua gestação como movimento e partido, se deu motivado por um cenário social e político conturbado no qual atravessava o Brasil. Embora tendo ganhado força e notoriedade em todo o território nacional, o integralismo adquiriu algumas peculiaridades no sul do Brasil, principalmente nos redutos com presença expressiva de imigrantes alemães, italianos, poloneses. Sobre o Integralismo, poucas são as fontes disponíveis que discorrem com certa fidelidade o movimento em terras brasileiras.  Porém, nesse campo diminuto de fontes, devemos prestar nossa gratidão e respeito ao pesquisador João Henrique Zanelatto, com a sua magnifica obra De olho no Poder: o integralismo e as disputas políticas em Santa Catarina na era Vargas.   

Nesse livro, o pesquisador consegue demover um denso nevoeiro que pairava sobre um passado, atravessado por disputas envolvendo grupos políticos, vinculados as oligarquias tradicionais, e as ascendentes elites de imigrantes europeus, que viam na ação integralista a oportunidade de ascender politicamente. O período no qual a obra procura descortinar são as décadas de 1920 e 1930, quando o fascismo e o nazismo estão sendo gestados na Europa e já com forte influência nos discursos e opinião pública dos cidadãos e cidadãs catarinenses.

É claro que como historiador temos que ter o máximo de cautela quando nos debruçamos sobre fontes historiográficas, livros, periódicos, documentos em geral. O risco é de estarmos lançando opiniões, muitas vezes tomadas por sentimentos que podem contaminar os fatos investigados. Acredito que esse foi um dos principais cuidados tomados pelo pesquisado Zanelatto, na construção de sua magnifica obra. Em nenhum momento deu prova cabal de que tanto o nazismo quanto fascismo estavam evidenciados no programa da AIB. Entretanto, a partir de um olhar mais crítico e comparativo, não podemos negar que o Integralismo, dissimuladamente, suscitava um projeto ideológico de cunho autoritário, fundamentado na ordem institucional, na moral cristã e na família.  

Era bem provável que se as eleições presidenciais de janeiro de 1938 ocorressem, o Integralismo teria chances claras de vencer as eleições, levando ao poder seu principal líder, Plínio Salgado. Isso, falando dois anos para o início do conflito mundial. O que nos faz pensar é como se comportaria um presidente com viés fascista aos países do eixo, Alemanha e Itália, por exemplo. Não podemos esquecer que Getúlio Vagas também dedicou apoio aos líderes do eixo. 

 Com muita rapidez o movimento Integralista conquista adeptos por todos os cantos do estado, a ponto de se credenciar para disputar postos de prefeitos e vereadores nas eleições de 1936. Em Araranguá, a sigla foi oficializada no dia 03 de outubro de 1934, na residência do seu principal líder, Jaime Wendhause. Era necessário, portanto, se estender para o interior, arregimentar mais adeptos e se tornar uma força política equiparada a Aliança Liberal.  Quatro meses após a homologação do partido em Araranguá, em 10 de fevereiro de 1935, a comunidade do Rio Jundiá, que hoje integra o município de Turvo, foi criado o subnúcleo da ação integralista.     

A ascensão do integralismo em terras araranguaenses foi tão eloquente e ameaçador para os interesses do partido liberal, que forçou o deslocamento emergencial do intendente Nereu Ramos para a região, com explícito propósito de neutralizar o ímpeto do movimento. Se foi ou não positivo a vinda do intendente, o fato é que nas eleições de 1936, por poucos votos, o partido liberal, do candidato Caetano Lummertz, não perde o pleito. No final do pleito, ficaram assim distribuídos os votos: Caetano Lummertz, da Aliança Liberal, com 1.566 votos; Jaime Wendhause, da Ação Integralista Brasileira, 1.025 votos.

Tal realidade ameaçadora não foi exclusividade de Araranguá, outros municípios como Imaruí e Orleans, também tiveram os candidatos liberais ameaçados de perder os pleitos. No total, a Ação Integralista Brasileira, elegeu 22 prefeitos e 351 vereadores no território brasileiro. Em Santa Catarina, foram 8 prefeitos e 72 vereadores e dezenas de juízes de paz. É importante destacar que no município de Araranguá, embora o integralismo não tenha tido sucesso no pleito para prefeito, elegeu 3 vereadores. Foi Blumenau/SC, onde o movimento obteve maior percentual de votos favoráveis, 2.983, contra 1.079, da União Democrática Blumenauense.

  Em Araranguá, personalidades importantes do campo político expressavam opiniões positivas ao movimento integralista, e que estão descritas no livro O Grande Araranguá, o padre Leonir João Dal Alba.  Alguns afirmando que o integralismo tinha pretensão no campo católico, que era o melhorando a situação da população. Presume-se que tal opinião relativa a pretensão católica, pode ter alguma vinculação ao aspecto moral da população.  Quem ingressasse ao integralismo teria que seguir alguns ritos protocolares, como o uso de uniforme, camisas verdes e calças pretas, em celebrações importantes, como ir à missa e desfiles cívicos. Acreditavam os/as ingressavam no integralismo que uma sociedade orgânica, cristã, hierarquizada e corporativista, impediria a ascensão do liberalismo capitalista e do comunismo.

  Essa tríade conjugação de princípios, ditos como morais, tinha como denominação, Deus, Pátria e Família. Ressaltavam seus simpatizantes que as mulheres quando ingressassem no integralismo não podiam trair seus maridos, sendo punidas com a expulsão. Tinham que ser integras, moralmente e civicamente. As igrejas, católicas ou protestantes, tornaram-se locais onde integralistas se encontravam, especialmente nas celebrações dominicais. Nos finais das missas ou cultos, realizavam reuniões, onde discutiam demandas. Em Araranguá, um cidadão entrevistado por Dal’Alba, afirmou que o padre Antônio Luís Dias não impedia que os integralistas desfilassem trajados durante as fastas da padroeira.

O primeiro congresso do partido integralista que ocorreu em Blumenau, em 07 de outubro de 1935, com milhares de participantes.  Outro, tão importante quanto o congresso de Blumenau, ocorreu em Laguna, exatamente em uma região com baixo predomínio de imigrantes europeus. A escolha se deu motivado por ser Laguna um centro metropolitano importante, com um porto e vários jornais que cobririam o evento.

Mesmo esboçando críticas, o fato é que muitos liberais vislumbravam aspectos importantes no movimento, como a possibilidade de um maior controle da sociedade, bem como a forte oposição ao comunismo. De fato, o integralismo apregoava a militarização do corpo, portanto, o uso de uniformes, se preconizava como estratégia, velada, de inculcar no/a cidadão/ã mandamentos de unidade, pertencimento, omitindo, por sua vez, a existência de conflitos de classes, tão evidenciadas em sociedades capitalistas como a brasileira.

Prof. Jairo Cesa        

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