O INTEGRALISMO/FASCISMO GESTADO NO
GRANDE ARARANGUÁ, A ELEIÇÃO QUE REVELOU O LADO SOMBRIO DO ULTRACONSERVADORISMO SULISTA
Foto - Livro, De Olho no Poder, João Henrique Zanelatto. p.86
Há 90 anos, o Estado brasileiro se
viu assombrado pelo espectro do fascismo, com o surgimento da Ação Integralista
Brasileira – AIB, tendo como principal líder Plínio Salgado. A Europa, no
entanto, estava às portas da Segunda Guerra Mundial, e duas nações importantes,
Itália e Alemanha, entraram no cenário continental e global com duas propostas
de regimes de governos, nazismo e fascismo, os quais arregimentaram milhões de
apoiadores. A resposta dessa insanidade reservada a líderes mentalmente
doentes, todos/as conhecemos, milhões de mortes, dentre os quais mais de seis
milhões de judeus, comunistas, em campos de concentrações.
O Brasil, porém, vivia a ditadura de Vargas,
que, no início, lançou apoio incondicional aos regimes totalitários da Alemanha
e Itália. Durante 15 anos, período em que Vargas esteve à frente do poder, a
única exceção à eleição livre no Brasil, ocorreu em 1936, quando eleições municipais
foram realizadas para escolher prefeitos e vereadores. Em âmbito nacional, havia
previsões para eleições gerais em 03/01/1938, porém, não se concretizou, porque
em 10/11/1937, Vargas instituiu o Estado novo, alegando haver manobras comunistas
para instaurar golpe de estado.
A Aliança Integralista Brasileira, já
consolidado como partido político, prestou apoio ao golpe de Vargas acreditando
que seriam agraciados no governo. Entretanto, Vargas quando assumiu o governo, uma
das primeiras atitudes tomadas foi extinção dos partidos políticos, incluindo a
Aliança Integralista Brasileira.
Cabe aqui destacar que a AIB, sua gestação
como movimento e partido, se deu motivado por um cenário social e político
conturbado no qual atravessava o Brasil. Embora tendo ganhado força e notoriedade
em todo o território nacional, o integralismo adquiriu algumas peculiaridades
no sul do Brasil, principalmente nos redutos com presença expressiva de
imigrantes alemães, italianos, poloneses. Sobre o Integralismo, poucas são as
fontes disponíveis que discorrem com certa fidelidade o movimento em terras
brasileiras. Porém, nesse campo diminuto
de fontes, devemos prestar nossa gratidão e respeito ao pesquisador João
Henrique Zanelatto, com a sua magnifica obra De olho no Poder: o integralismo
e as disputas políticas em Santa Catarina na era Vargas.
Nesse livro, o pesquisador consegue demover
um denso nevoeiro que pairava sobre um passado, atravessado por disputas
envolvendo grupos políticos, vinculados as oligarquias tradicionais, e as ascendentes
elites de imigrantes europeus, que viam na ação integralista a oportunidade de
ascender politicamente. O período no qual a obra procura descortinar são as
décadas de 1920 e 1930, quando o fascismo e o nazismo estão sendo gestados na Europa
e já com forte influência nos discursos e opinião pública dos cidadãos e
cidadãs catarinenses.
É claro que como historiador temos
que ter o máximo de cautela quando nos debruçamos sobre fontes historiográficas,
livros, periódicos, documentos em geral. O risco é de estarmos lançando opiniões,
muitas vezes tomadas por sentimentos que podem contaminar os fatos
investigados. Acredito que esse foi um dos principais cuidados tomados pelo
pesquisado Zanelatto, na construção de sua magnifica obra. Em nenhum momento
deu prova cabal de que tanto o nazismo quanto fascismo estavam evidenciados no
programa da AIB. Entretanto, a partir de um olhar mais crítico e comparativo,
não podemos negar que o Integralismo, dissimuladamente, suscitava um projeto
ideológico de cunho autoritário, fundamentado na ordem institucional, na moral
cristã e na família.
Era bem provável que se as eleições
presidenciais de janeiro de 1938 ocorressem, o Integralismo teria chances
claras de vencer as eleições, levando ao poder seu principal líder, Plínio
Salgado. Isso, falando dois anos para o início do conflito mundial. O que nos faz
pensar é como se comportaria um presidente com viés fascista aos países do eixo,
Alemanha e Itália, por exemplo. Não podemos esquecer que Getúlio Vagas também
dedicou apoio aos líderes do eixo.
Com muita rapidez o movimento Integralista
conquista adeptos por todos os cantos do estado, a ponto de se credenciar para disputar
postos de prefeitos e vereadores nas eleições de 1936. Em Araranguá, a sigla foi
oficializada no dia 03 de outubro de 1934, na residência do seu principal líder,
Jaime Wendhause. Era necessário, portanto, se estender para o interior, arregimentar
mais adeptos e se tornar uma força política equiparada a Aliança Liberal. Quatro meses após a homologação do partido em
Araranguá, em 10 de fevereiro de 1935, a comunidade do Rio Jundiá, que hoje
integra o município de Turvo, foi criado o subnúcleo da ação integralista.
A ascensão do integralismo em terras
araranguaenses foi tão eloquente e ameaçador para os interesses do partido
liberal, que forçou o deslocamento emergencial do intendente Nereu Ramos para a
região, com explícito propósito de neutralizar o ímpeto do movimento. Se foi ou
não positivo a vinda do intendente, o fato é que nas eleições de 1936, por
poucos votos, o partido liberal, do candidato Caetano Lummertz, não perde o pleito.
No final do pleito, ficaram assim distribuídos os votos: Caetano Lummertz, da
Aliança Liberal, com 1.566 votos; Jaime Wendhause, da Ação Integralista
Brasileira, 1.025 votos.
Tal realidade ameaçadora não foi
exclusividade de Araranguá, outros municípios como Imaruí e Orleans, também
tiveram os candidatos liberais ameaçados de perder os pleitos. No total, a Ação
Integralista Brasileira, elegeu 22 prefeitos e 351 vereadores no território brasileiro.
Em Santa Catarina, foram 8 prefeitos e 72 vereadores e dezenas de juízes de paz.
É importante destacar que no município de Araranguá, embora o integralismo não
tenha tido sucesso no pleito para prefeito, elegeu 3 vereadores. Foi Blumenau/SC,
onde o movimento obteve maior percentual de votos favoráveis, 2.983, contra 1.079,
da União Democrática Blumenauense.
Em
Araranguá, personalidades importantes do campo político expressavam opiniões
positivas ao movimento integralista, e que estão descritas no livro O Grande
Araranguá, o padre Leonir João Dal Alba. Alguns afirmando que o integralismo tinha
pretensão no campo católico, que era o melhorando a situação da população. Presume-se
que tal opinião relativa a pretensão católica, pode ter alguma vinculação ao aspecto
moral da população. Quem ingressasse ao
integralismo teria que seguir alguns ritos protocolares, como o uso de uniforme,
camisas verdes e calças pretas, em celebrações importantes, como ir à missa e
desfiles cívicos. Acreditavam os/as ingressavam no integralismo que uma sociedade
orgânica, cristã, hierarquizada e corporativista, impediria a ascensão do
liberalismo capitalista e do comunismo.
Essa
tríade conjugação de princípios, ditos como morais, tinha como denominação,
Deus, Pátria e Família. Ressaltavam seus simpatizantes que as mulheres quando
ingressassem no integralismo não podiam trair seus maridos, sendo punidas com a
expulsão. Tinham que ser integras, moralmente e civicamente. As igrejas,
católicas ou protestantes, tornaram-se locais onde integralistas se
encontravam, especialmente nas celebrações dominicais. Nos finais das missas ou
cultos, realizavam reuniões, onde discutiam demandas. Em Araranguá, um cidadão
entrevistado por Dal’Alba, afirmou que o padre Antônio Luís Dias não impedia
que os integralistas desfilassem trajados durante as fastas da padroeira.
O primeiro congresso do partido
integralista que ocorreu em Blumenau, em 07 de outubro de 1935, com milhares de
participantes. Outro, tão importante
quanto o congresso de Blumenau, ocorreu em Laguna, exatamente em uma região com
baixo predomínio de imigrantes europeus. A escolha se deu motivado por ser Laguna
um centro metropolitano importante, com um porto e vários jornais que cobririam
o evento.
Mesmo esboçando críticas, o fato é
que muitos liberais vislumbravam aspectos importantes no movimento, como a
possibilidade de um maior controle da sociedade, bem como a forte oposição ao
comunismo. De fato, o integralismo apregoava a militarização do corpo, portanto,
o uso de uniformes, se preconizava como estratégia, velada, de inculcar no/a
cidadão/ã mandamentos de unidade, pertencimento, omitindo, por sua vez, a
existência de conflitos de classes, tão evidenciadas em sociedades capitalistas
como a brasileira.
Prof. Jairo Cesa
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