A
FRONTEIRA ENTRE A VIDA E A MORTE SOB O OLHAR DA FILOSOFIA
Um
momento ímpar e inusitado da área de filosofia foi vivenciado por um grupo de
estudantes da EEBA quando decidiram visitar o principal e mais antigo cemitério
da cidade. O que tem de importante essa estranha visita a um lugar “funesto”, “triste
e frio” com a disciplina? No imaginário coletivo o cemitério é lugar de fim de
uma trajetória, onde tudo acaba até mesmo os sólidos túmulos. Para a filosofia
o cemitério é um extraordinário acervo de informações reveladoras da existência
humana, lugar para desconstruir mitos e tabus sobre o sentido da vida e da
morte.
Na
cultura cristã o rito do sepultamento é um arquétipo repleto de significados,
necessários para dar acalento à vida dos ficaram. Quantas e quantas vezes somos
invadidos por pensamentos confusos e angustiantes desse inusitado e fatídico momento
que chegará para todos, a morte. De imediato desviamos tais pensamentos para
não penetrarmos no abismo existencial que nos remete a sentimentos de profunda
introspecção. É exatamente esse o papel da filosofia, pensar o quão pequeno e
frágil somos, que podemos num piscar de olhas deixar de existir, fincando
apenas nossa memória, que também é efêmera, passageira, como a própria vida.
Esse
é, portanto, o fascínio da vida, viver sabendo que partiremos a qualquer
momento. Tanto na antiguidade clássica quanto em culturas diversas modernas, vida
e morte são celebradas de distintas maneiras. Algumas sepultam seus mortos
junto às plantações acreditando na presença dos espíritos na proteção,
fertilidade e colheitas fartas. Outros como os hindus, cremam os corpos, já os
cristãos enterram os corpos em urnas na expectativa da ressurreição e vida
eterna. Em fim são os cemitérios os ambientes repletos de saberemos e
arquétipos da nossa existência primordial.
Claro
que nesses espaços somos invadidos por uma atmosfera de melancolia, saudosismo,
pois na nossa cultura aprendemos que a morte é um instante terrível, dolorido, mesmo
consciente que não poderemos relutar a sua presença. A filosofia ajuda a pensar
e a desconstruir conceitos equivocados acerca desse tema, tornar esse momento
mais leve, sublime, de autoconhecimento. No entanto, embora tantas
justificativas e explicações racionais é impossível se esquivar de reações
químicas involuntárias como o choro no momento que perdemos alguém que muito
amamos.
O
que conforta os corações dos crédulos é acreditar que morrendo se estará diante
dos que já partiram. Os incrédulos têm a morte como um processo natural. Não
existe nada fora desse mundo, tudo o que fazemos tem o seu fim aqui mesmo. O que vale é o aqui e agora. Fora isso, o que
fica são os nossos legados, os bons exemplos para que outros possam se inspirar
a aplicar em suas vidas.
No
cemitério, portanto, aprendemos sobre arte, história, política, religião,
sociologia, filosofia, geografia, etc. O cemitério é de certo modo um vasto
acervo historiográfico a céu aberto. As primeiras famílias, os extratos
sociais, a geografia e a arquitetura dos túmulos, a forma das escritas e
objetos decorativos, entre outros, podem servir de documento explicativo da
nossa sociedade, sua evolução, contradições, ao longo do tempo.
Prof.
Jairo Cezar
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