terça-feira, 3 de novembro de 2026

 

UMA NAÇÃO FORJADA PELA ESCRAVIDÃO, PORÉM, OFUSCADA NOS VERSOS ROMÂNTICOS DE BRASIL, PÁTRIA AMADA, IDOLATRADA

https://www.dw.com/pt-br/a-escravid%C3%A3o-explica-o-nascimento-do-sistema-financeiro-brasileiro/a-66999703


 Após a eleição que resultou na vitória do presidente Lula para seu quarto mandato, o que não se esperava era o profundo ódio de alguns apoiadores do candidato derrotado e fugitivo, Flavio Bolsonaro, que disseminaram uma lista contendo nomes e negócios de eleitores petistas para que fossem boicotados. A atitude de criar essa lista é um exemplo de violência extrema, um comportamento odioso, semelhante ao regime nazista da Alemanha, que marcava lojas de comerciantes judeus com uma estrela, um símbolo religioso judaico, para promover boicotes.

Aqueles que conhecem fragmentos da história sabem que regimes dessa magnitude sempre surgem gradualmente. Entretanto, quando a população finalmente se dá conta da situação criada, já é tarde; o nazismo, o fascismo e outras denominações hediondas já estão estabelecidos, espalhando terror entre os cidadãos. Como mencionei anteriormente, o espectro do fascismo no Brasil começou a ser fomentado no início do século XX, com a criação da Ação Integralista Brasileira - AIB, um partido político inspirado pelo fascismo italiano de Benito Mussolini. Contudo, mesmo após a AIB ser cassada em 1937 por um decreto assinado por Getúlio Vargas, seus princípios e valores extremistas e moralistas sobreviveram, aguardando um momento propício para eclodir novamente.

As crises cíclicas do capitalismo globalizado resultaram em convulsões sociais, entretanto, em contrapartida, partidos e governos ultraconservadores tendem a emergir prometendo reformas estruturais que seguem a lógica de beneficiar o grande capital. O ultraconservadorismo pode se manifestar por meio de ditaduras ou regimes de exceção, quando as regras constitucionais perdem sua eficácia jurídica. A continuidade dos conflitos, como as tensões entre Ucrânia e Rússia, legitima ações governamentais que agem à revelia de suas constituições.

O Brasil, como toda a América Latina, embora suas influências se mostrem um tanto discretas em relação às tensões na Europa e no Oriente Médio, é visto pelo mundo como um grande reservatório de riquezas naturais de imensa relevância econômica. A China, que se destaca como uma das protagonistas da nova geopolítica em formação, gera apreensão nas tradicionais potências imperialistas em decadência. A atual revolução tecnológica, ou quarta revolução industrial – 4.0, manifesta-se na fabricação de sofisticados chips e condutores elétricos, utilizados na indústria automobilística e de computadores, entre outros segmentos industriais importantes, elevando as tensões entre a China e seu vizinho Taiwan, além de outras potências europeias e os Estados Unidos, nas disputas pelo controle desse promissor mercado bilionário do futuro. A crescente perda de importantes mercados na Europa e na Ásia, influenciada pelos conflitos e pela forte ascensão da China através da Rota da Seda, levou os Estados Unidos a redirecionar sua bússola geoeconômica, agora focando a atenção na América Latina, nas vastas reservas de minerais.

A atuação direta e indireta no processo de gestão política das nações latino-americanas tem se mostrado decisiva para a consolidação do domínio estadunidense na região. Entre os países que passaram por processos eleitorais nos últimos meses, apenas três não se alinharam ao regime de Donald Trump: Uruguai, México e Brasil. Naturalmente, o Brasil, devido à sua extensão continental, sempre despertou mais interesse nas pretensões geopolíticas do império do norte. Entretanto, as eleições de 25 de outubro, que resultaram na derrota do candidato entreguista pró-Estados Unidos, Flavio Bolsonaro, não representaram apenas uma derrota para os interesses norte-americanos, mas também uma derrota da extrema direita internacional, dado o significado da vitória de Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores.

O estrago causado à referida “nação ordeira” tupiniquim pela ascensão de forças políticas extremistas fez emergir feridas ainda não curadas de uma nação construída sobre três séculos de escravidão. Como mencionei anteriormente, a derrota, seguida da fuga do candidato do PL Flavio Bolsonaro, expôs um cenário social delinquente, que até então estava encoberto por algumas obras literárias e pelo próprio hino nacional, o qual sugere a imagem de uma nação romantizada, uma pátria amada idolatrada com um povo heroicizado.

Entretanto, nada disso; as rusgas históricas resultantes de contradições sociais rapidamente emergiram das sombras, invadindo as mentes medíocres de cidadãos brasileiros, levando ao surgimento de figuras públicas que se identificam como um alter ego, ou seja, representações arquetípicas de um mal transgeracional. A literatura e a historiografia têm registrado dezenas de líderes políticos psicóticos e fanáticos, que manipulavam multidões com discursos de reprovação e ódio àqueles que expressavam ideias divergentes das suas. “Deus, Pátria e Família”, “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” são exemplos de distopias que evidenciam uma clara disfunção cognitiva, até mesmo psicanalítica, de quem as defende.

No estado de Santa Catarina, encontramos exemplos de pessoas, como políticos, que demonstram um certo desvio de comportamento diante de atitudes estranhas em suas práticas. Caminhar pelas ruas estalando um chicote no chão, ato realizado por uma candidata a deputada federal pelo PL, é um evidente sintoma de desvio comportamental patológico. Não bastando esse horror originado de uma deputada, inconscientemente configurado no desejo de subjugação, servidão e resignação do outro, temos outro exemplo de aberração, agora de um deputado estadual eleito no pleito eleitoral de 25 de outubro, que propõe um plebiscito visando separar o Sul do Brasil do restante do território nacional.

Essa proposta separatista insana não é nova, tendo sempre reaparecido em pleitos eleitorais, como o que garantiu a vitória de Lula ao cargo de presidente do Brasil. Na verdade, esse deputado, que pertence ao PL, o mesmo partido do candidato derrotado e fugitivo Flavio Bolsonaro, foi eleito com mais de 40 mil votos, cujo lema de campanha era exatamente esse: o plebiscito. De acordo com a opinião do deputado na rede X, “o sul merece ser livre”. É evidente que a atitude insensata apresentada pelo deputado não seria bem-vista por um estado que tem sido alvo de críticas no exterior por ser um reduto de nazistas que cultuam regimes sanguinários responsáveis pelo assassinato de milhões de judeus, comunistas, negros, ciganos, deficientes físicos, entre outros.

O que é surpreendente na proposta do deputado é a realização do plebiscito apenas nos três estados do Sul, infringindo violentamente os princípios constitucionais de indivisibilidade federativa. Essa atitude expõe de maneira explícita a xenofobia desse deputado e de seus milhares de eleitores. Em um país sério, um deputado xenófobo nunca teria a permissão para assumir um cargo parlamentar e deveria ser cassado antes de tomar posse. Como acreditar em seu juramento sobre a constituição brasileira no dia de sua posse? Precisamos prestar atenção no comportamento, nas atitudes daqueles que expressam piadas contra negros, índios, pobres, pois é assim que regimes extremistas, xenófobos, são formados.

Prof. Jairo Cesa

 

        

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