O
DESPREZO DAS AUTORIDADES COM OS NOSSOS RICOS TESOUROS ARQUEOLÓGICOS
Quem
viaja pela Europa, Ásia ou até mesmo pela América Andina e Central, nos pacotes
turísticos sempre estão inclusas visitas a monumentos importantes como
cemitérios e sítios arqueológicos. Incrível que no Brasil esses hábitos de
cuidar e visitar esses locais ainda não são culturais. O fato é que temos um
extraordinário potencial paisagístico e arqueológico, porém não são devidamente
aproveitados. Se perguntarmos para as pessoas sobre locais importantes
relacionados a história antiga certamente vão responder as pirâmides do Egito
ou as ruinas das antigas cidades gregas e romanas.
Raros
serão os que responderão a Serra da Capivara, no Piauí, onde estão um dos
maiores e mais antigos acervos de inscrições rupestres das américas e quiçá do
mundo. Lembro do grande empenho da arqueóloga Niède Gidon, já falecida, em
convencer a população e as autoridades da região em fazer acreditar que aquelas
pinturas eram tesouros singulares a céu aberto, que poderia atrair muitas
divisas para a região e o estado. Além dos sítios da Serra da Capivara, o Brasil
está recheado de outros tesouros, tão emblemáticos e relevantes em temos de
representatividade natural e cultural, como o Geoparque Caminho dos Cânions, no
extremo sul de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul.
Embora
já reconhecido pela Unesco, a população que vive no seu entorno pouco sabe
sobre sua representatividade e importância para o desenvolvimento da região. Desconhecem
ainda a existência de paleotocas, que são enormes túneis escavados nas rochas
por grandes mamíferos pré-históricos como tatu gigante e bicho preguiça. Esses
labirintos gigantes têm nas suas paredes inscrições ou marcas que mostram a
presença de grupos humanos até mesmo pré-coloniais que ocuparam esses locais
como habitação ou para se proteger há centenas ou milhares de anos. Está aqui
bem pertinho da gente, em uma hora, no máximo, podemos estar contemplando a
magnitude desses tesouros encravados nos paredões da nossa majestosa serra
geral.
Se
temos as paleotocas que comprovam a presença de animais gigantes pré-históricos
aqui, nossa costa Oceania sul catarinense é também recheada de histórias, tão
ou mais antiga até que as pirâmides do Egito com quase cinco mil anos de
existência. Claro que mesmo com todas as peculiaridades envolvendo as pirâmides
e as ruinas gregas, por exemplo, a nossa arqueologia não perde em relevância e
representatividade simbólica. O que acontece é que aqui nossa arqueologia é
tratada com desprezo pela sociedade e autoridades, mesmo havendo um enorme cabedal
de legislações disponíveis para protegê-las.
Um bom exemplo para elucidar o descaso das autoridades com os sítios arqueológicos é o município de Araranguá. Em 2014 pesquisa de doutorado confirmou a existência de inúmeros sítios sambaquianos, bem como de um abrigo sobre rocha. Desde então nenhuma providência foi tomada para preservá-los, estando até o momento sujeito a vandalismos como se vem observando com o trânsito veículos automotores, motocicletas e cavalgadas. É importante ressaltar que práticas de vandalismo não são exclusividades nos sítios de Araranguá, a região de Laguna e Jaguaruna, onde estão os maiores sítios sambaquianos do planeta, vem sendo paulatinamente destruídos sem que as autoridades tomem providências para conter os atos criminosos.https://globoplay.globo.com/v/14712951/
Não
há dúvida que os problemas envolvendo nossos sítios, nossos monumentos
históricos, tem relação direta com a fragilidade das escolas em pôr em pratica
o que determina a legislação que é a educação patrimonial, cujo intuito é fortalecer
a cultura da valorização dos objetos materiais e imateriais construídos
coletivamente. É possível que muita gente não saiba que há milhões de anos
transitaram por essas terras animais pré-históricos como bichos preguiça, tatus
gigantes, entre outros. Para comprovar essa certeza basta ir ao município de
Morro Grande ou Timbé do Sul e visitar as famosas paleotocas. La estão
registradas nas paredes marcas das potentes garras desses animais para abrirem
os tuneis e se abrigarem, se protegerem de predadores.
Com
a homologação pela UNESCO do geoparque caminho dos cânions temos, portanto, um
potencial turístico que pode render enormes dividendos para a região, se igualando
até a destinos turísticos semelhantes no mundo que atrai milhões de pessoas
todos os anos. Mas, porém, temos que evoluir anos luz nesse quesito educação
patrimonial, porque, acredito, que somente as futuras gerações terão
compreensão clara que proteger sítios arqueológicos, monumentos culturais/paisagísticos,
casarios, igrejas com suas fachadas exuberantes são excelentes tesouros para o
desenvolvimento pleno de uma sociedade.
Jairo
Cesa
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