sexta-feira, 19 de junho de 2026

 

O DESPREZO DAS AUTORIDADES COM OS NOSSOS RICOS TESOUROS ARQUEOLÓGICOS

 

Foto - Jairo

Quem viaja pela Europa, Ásia ou até mesmo pela América Andina e Central, nos pacotes turísticos sempre estão inclusas visitas a monumentos importantes como cemitérios e sítios arqueológicos. Incrível que no Brasil esses hábitos de cuidar e visitar esses locais ainda não são culturais. O fato é que temos um extraordinário potencial paisagístico e arqueológico, porém não são devidamente aproveitados. Se perguntarmos para as pessoas sobre locais importantes relacionados a história antiga certamente vão responder as pirâmides do Egito ou as ruinas das antigas cidades gregas e romanas.

Raros serão os que responderão a Serra da Capivara, no Piauí, onde estão um dos maiores e mais antigos acervos de inscrições rupestres das américas e quiçá do mundo. Lembro do grande empenho da arqueóloga Niède Gidon, já falecida, em convencer a população e as autoridades da região em fazer acreditar que aquelas pinturas eram tesouros singulares a céu aberto, que poderia atrair muitas divisas para a região e o estado. Além dos sítios da Serra da Capivara, o Brasil está recheado de outros tesouros, tão emblemáticos e relevantes em temos de representatividade natural e cultural, como o Geoparque Caminho dos Cânions, no extremo sul de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul.

Embora já reconhecido pela Unesco, a população que vive no seu entorno pouco sabe sobre sua representatividade e importância para o desenvolvimento da região. Desconhecem ainda a existência de paleotocas, que são enormes túneis escavados nas rochas por grandes mamíferos pré-históricos como tatu gigante e bicho preguiça. Esses labirintos gigantes têm nas suas paredes inscrições ou marcas que mostram a presença de grupos humanos até mesmo pré-coloniais que ocuparam esses locais como habitação ou para se proteger há centenas ou milhares de anos. Está aqui bem pertinho da gente, em uma hora, no máximo, podemos estar contemplando a magnitude desses tesouros encravados nos paredões da nossa majestosa serra geral.

Se temos as paleotocas que comprovam a presença de animais gigantes pré-históricos aqui, nossa costa Oceania sul catarinense é também recheada de histórias, tão ou mais antiga até que as pirâmides do Egito com quase cinco mil anos de existência. Claro que mesmo com todas as peculiaridades envolvendo as pirâmides e as ruinas gregas, por exemplo, a nossa arqueologia não perde em relevância e representatividade simbólica. O que acontece é que aqui nossa arqueologia é tratada com desprezo pela sociedade e autoridades, mesmo havendo um enorme cabedal de legislações disponíveis para protegê-las.

Foto - Jairo


Um bom exemplo para elucidar o descaso das autoridades com os sítios arqueológicos é o município de Araranguá. Em 2014 pesquisa de doutorado confirmou a existência de inúmeros sítios sambaquianos, bem como de um abrigo sobre rocha. Desde então nenhuma providência foi tomada para preservá-los, estando até o momento sujeito a vandalismos como se vem observando com o trânsito veículos automotores, motocicletas e cavalgadas. É importante ressaltar que práticas de vandalismo não são exclusividades nos sítios de Araranguá, a região de Laguna e Jaguaruna, onde estão os maiores sítios sambaquianos do planeta, vem sendo paulatinamente destruídos sem que as autoridades tomem providências para conter os atos criminosos.https://globoplay.globo.com/v/14712951/

Foto - Jairo


Não há dúvida que os problemas envolvendo nossos sítios, nossos monumentos históricos, tem relação direta com a fragilidade das escolas em pôr em pratica o que determina a legislação que é a educação patrimonial, cujo intuito é fortalecer a cultura da valorização dos objetos materiais e imateriais construídos coletivamente. É possível que muita gente não saiba que há milhões de anos transitaram por essas terras animais pré-históricos como bichos preguiça, tatus gigantes, entre outros. Para comprovar essa certeza basta ir ao município de Morro Grande ou Timbé do Sul e visitar as famosas paleotocas. La estão registradas nas paredes marcas das potentes garras desses animais para abrirem os tuneis e se abrigarem, se protegerem de predadores.

Com a homologação pela UNESCO do geoparque caminho dos cânions temos, portanto, um potencial turístico que pode render enormes dividendos para a região, se igualando até a destinos turísticos semelhantes no mundo que atrai milhões de pessoas todos os anos. Mas, porém, temos que evoluir anos luz nesse quesito educação patrimonial, porque, acredito, que somente as futuras gerações terão compreensão clara que proteger sítios arqueológicos, monumentos culturais/paisagísticos, casarios, igrejas com suas fachadas exuberantes são excelentes tesouros para o desenvolvimento pleno de uma sociedade.   

Jairo Cesa    

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