sexta-feira, 12 de junho de 2026

 

NEOLIBERALISMO VERSOS PULSÃO DE MORTE DO FASCISMO CONTEMPORÂNEO.

https://neomondo.org.br/cultura/a-atualidade-do-fascismo


A leitura de duas importantes obras sobre o fascismo, me fez refletir a atual situação social e política do Brasil no contexto regional, visivelmente intoxicadas por elites conservadoras, forjadas há séculos por regimes coloniais escravistas. A primeira obra, Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, o autor Álvaro Bianchi, construiu sua narrativa crítica investigando documentos, livros, revistas, entre outras fontes relevantes da Itália, anterior e durante o regime fascista de Benito Mussolini.

O fato é que o fascismo, sua concretização como doutrina política ultraconservadora, aplicada na Itália, não se deu de forma aleatória, foi um projeto pensado com bases filosóficas e metodológicas, tendo como antítese o comunismo, com forte ascensão na Europa no começo do século XX. Um dos arquitetos teóricos dessa corrente política supremacista foi o filósofo italiano Giovanni Gentili. A relevância da obra de Bianchi é porque é possível compreender o pós-fascismo, sua transformação histórica, agora sob uma casca liberal, comprometida com princípios “democráticos”, porém, contrário a Estados intervencionistas.  Isso na teoria, porque o que defendem mesmo são concepções ultranacionalistas, anticomunistas.   

É importante ressaltar que o fascismo italiano se moldou convergindo correntes políticas de ex militares, artistas, sindicalistas revolucionários, que se mostravam decepcionados com a condição estrutural decadente da Itália do pós-primeira guerra. No início da construção do regime fascista, o processo se mostrou confuso, pois reuniu republicanos, monarquistas, católicos, ateus etc. Era necessário definir uma linha, um programa político, que ajustasse as aspirações de toda essa diversidade de pessoas e tendências ideológicas.  Foi, de fato, em 1925, que o regime finalmente definiu sua ideologia, caminho trilhado por dois importantes intelectuais, o jurista Alfredo Rocco, que se dizia antiliberal, e o filósofo Giovanni Gentili, que admitia ser um liberal.  Sete anos depois, em 1932, quando foi definida a corrente ideológica do fascismo, Mussolini assinou o documento doutrinário do fascismo.

Quando deparamos com conceitos como liberalismo econômico clássico, sabemos que a função do Estado é assegurar condições estruturais para que o mercado exerça seu papel livremente na economia, sem interferência de agentes estranhos que o dificulte. O fascismo em ascensão na Itália foi sim um movimento articulado pela burguesia, os liberais, com vistas a combater forças opostas, como os socialistas. Os fascistas se intitulavam como redentores do renascimento  do ultranacionalismo.    

De fato, atualmente o que faz ascender discursos ultranacionalistas em países europeus, com mais evidência na Itália, são os fluxos de imigrantes, fugitivos das guerras civis permanentes na África, por exemplo, que cruzam o mediterrâneo em busca da terra prometida. Aqueles/as que tem a sorte de atravessar são detidos nas fronteiras e aprisionados em centros de detenções para refugiados. Esse cenário de instabilidade social mesclado com racismo, xenofobia, tem como origem o próprio capitalismo, desprovido de humanismo nas relações. Na realidade, o fascismo é sinônimo de dessensibilização, que é o endurecimento espiritual dos sujeitos.  A ascensão de partidos de extrema direita, conquistando cadeiras relevantes no legislativo e postos de presidentes e primeiros-ministros, como na Itália, está fazendo as esquerdas ocidentais manter-se em estado de alerta permanente.

Quem acreditava  no fim do fascismo com a morte do seu principal líder, Benito Mussolini, se equivocou. Seus ideais permanecem atualizados, incorporando-se a partidos tradicionais. Essa integração, hoje denominada de pós-fascismo, suas atitudes  se dirigem em  atacar direitos constitucionais, criando  barreiras legais para o acesso de imigrantes na Europa. No Brasil, o fascismo teve a sua ascensão no começo do século XX, com a Aliança Integralista Brasileira – AIB, que se tornou o segundo país com maiores adeptos a essa ideologia depois da Itália. Mesclando conceitos patrióticos, religiosos e morais, tanto o fascismo na Itália quanto no Brasil, reúne ultraliberais, conservadores cristãos autoritários, militares.

Agora é importante compreender o fascismo em outra perspectiva, nem política, nem econômica, mas no campo comportamental, psicanalítico. Não há como descolar fatores comportamentais dos materiais, por estarem intrinsecamente entrelaçados. Para dar visibilidade a essa perspectiva psicanalítica, que é pouco comum para explicar o fascismo, é importante recorrer ao filósofo Vladimir Safatle, na sua obra Psicanálise dos Novos Fascismos Globais: A Ameaça Interna. Segundo o autor, o fascismo sempre esteve presente nas sociedades liberais, sendo que a base laboratorial desse programa de perseguição e ódio, foram as colônias, a exemplo das inglesas.

Enquanto que nas metrópoles se cumpria à risca os preceitos constitucionais vigentes, nas colônias, predominava o massacre, a espoliação, vistos pelos colonizadores e a sociedade como atitudes aceitáveis.  A violência, a indiferença, os massacres, que ocorriam e ocorrem nas democracias já consolidadas, são heranças das colônias de outrora. É possível admitir que ascensão do regime repressivo contra populações marginais, negras, indígenas, por exemplo, tem como pano de fundo, o receio, o medo das elites em perder os seus privilégios. O fenômeno social, caracterizado como fascismo moderno, tende a se manifestar amplamente em períodos de crises estruturais, como econômicas, sociais, ambientais e psicológicas.

As políticas neoliberais de Estado mínimo se moldaram como instrumentos segregadores de grupos sociais, aceitos como desnecessários na atual realidade econômica. Se não há trabalho suficiente para todos, é preciso escolher quem permanece e quem será descartado no conjunto da sociedade. As mídias conservadoras, diariamente ocupam seus espaços jornalísticos com informações com vistas a tornar racional a ideia de que não há mais sociedade para todo mundo. Ver a polícia subir os morros do Rio de Janeiro chacinando mais de 120 pessoas; o exército israelense bombardeando Gaza ininterruptamente, matando mais de 50 mil civis desde 8 de outubro de 2023, ambos os episódios que se caracterizam, na ótica fascista, como normais, não causando mais comoções,  e nem reações generalizadas de repúdio.

As guerras, portanto, não são vistas mais como exceções, algo eventual, mas como regra no sistema fascista. É com os conflitos que governos aproveitam para  empregar políticas de exceção, como bombardear escolas, hospitais, afirmando serem esconderijos de terroristas.  A invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, a declaração de guerra contra o Irã pelos EUA e Israel, em 2026, com a alegação de enriquecimento de urânio para produção de armas nucleares fazem parte desse novo sistema fascista de guerra permanente.

No Brasil, o ressurgimento de uma direita radical, reflete exatamente a pulsão de morte ainda presente no inconsciente coletivo de milhares de latifundiários, grandes impérios industriais, cujos descendentes nutriram-se do sangue de negros e índios escravizados. O ódio latente dessa gente violenta necessitava de um gatilho que pudesse despertar a ira contra possíveis insurgências sociais. Nesse cenário turbulento aparece a figura do mito, um “messias”, que incorporou perfeitamente o espírito maligno de figuras políticas escrotas do passado, incorporando também símbolos e lemas paradoxais, como deus pátria e família, Brasil acima de todos e deus acima de tudo.   

Prof. Jairo Cesa   

 

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