NEOLIBERALISMO VERSOS PULSÃO DE MORTE DO FASCISMO CONTEMPORÂNEO.
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A
leitura de duas importantes obras sobre o fascismo, me fez
refletir a atual situação social e política do Brasil no contexto regional, visivelmente intoxicadas por elites conservadoras, forjadas há séculos por regimes coloniais escravistas. A primeira obra, Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, o autor Álvaro
Bianchi, construiu sua narrativa crítica investigando documentos, livros,
revistas, entre outras fontes relevantes da Itália, anterior e
durante o regime fascista de Benito Mussolini.
O
fato é que o fascismo, sua concretização como doutrina política ultraconservadora, aplicada na Itália, não se deu de forma aleatória, foi um projeto pensado com bases filosóficas e metodológicas, tendo como
antítese o comunismo, com forte ascensão na Europa
no começo do século XX. Um dos arquitetos teóricos dessa corrente
política supremacista foi o filósofo italiano Giovanni Gentili. A relevância da obra de Bianchi é porque é possível compreender o pós-fascismo, sua transformação histórica, agora sob uma casca liberal, comprometida com princípios “democráticos”, porém, contrário a Estados intervencionistas. Isso na teoria, porque o que defendem mesmo são concepções ultranacionalistas, anticomunistas.
É
importante ressaltar que o fascismo italiano se moldou convergindo correntes políticas
de ex militares, artistas, sindicalistas revolucionários, que se
mostravam decepcionados com a condição estrutural decadente da Itália do pós-primeira
guerra. No início da construção do regime fascista, o processo se mostrou confuso, pois reuniu republicanos, monarquistas, católicos, ateus etc.
Era necessário definir uma linha, um programa político, que ajustasse as aspirações de toda essa diversidade de pessoas e tendências ideológicas. Foi, de fato, em 1925, que o regime finalmente
definiu sua ideologia, caminho trilhado por dois importantes intelectuais,
o jurista Alfredo Rocco, que se dizia antiliberal, e o filósofo Giovanni
Gentili, que admitia ser um liberal. Sete anos depois, em 1932, quando foi definida a corrente ideológica do
fascismo, Mussolini assinou o documento doutrinário do fascismo.
Quando deparamos com conceitos como liberalismo econômico clássico, sabemos que
a função do Estado é assegurar condições estruturais para que o mercado exerça
seu papel livremente na economia, sem interferência de agentes estranhos que o
dificulte. O fascismo em ascensão na Itália foi sim um movimento
articulado pela burguesia, os liberais, com vistas a combater forças
opostas, como os socialistas. Os fascistas se intitulavam como redentores
do renascimento do ultranacionalismo.
De
fato, atualmente o que faz ascender discursos ultranacionalistas
em países europeus, com mais evidência na Itália, são os fluxos de imigrantes, fugitivos das guerras civis permanentes na África, por exemplo, que
cruzam o mediterrâneo em busca da terra prometida. Aqueles/as que tem a sorte de atravessar são detidos nas fronteiras e aprisionados em
centros de detenções para refugiados. Esse cenário de
instabilidade social mesclado com racismo, xenofobia, tem como origem o próprio capitalismo, desprovido de humanismo
nas relações. Na realidade, o fascismo é sinônimo de dessensibilização, que é o endurecimento
espiritual dos sujeitos. A ascensão de
partidos de extrema direita, conquistando cadeiras relevantes no
legislativo e postos de presidentes e primeiros-ministros,
como na Itália, está fazendo as esquerdas ocidentais manter-se em estado de alerta
permanente.
Quem
acreditava no fim do fascismo com a morte do seu principal
líder, Benito Mussolini, se equivocou. Seus ideais permanecem atualizados,
incorporando-se a partidos tradicionais. Essa integração, hoje denominada de
pós-fascismo, suas atitudes se dirigem em atacar direitos constitucionais, criando barreiras legais para o acesso de imigrantes na Europa.
No Brasil, o fascismo teve a sua ascensão no começo do século XX, com a Aliança
Integralista Brasileira – AIB, que se tornou o segundo país com maiores
adeptos a essa ideologia depois da Itália. Mesclando conceitos patrióticos,
religiosos e morais, tanto o fascismo na Itália quanto no Brasil, reúne
ultraliberais, conservadores cristãos autoritários, militares.
Agora
é importante compreender o fascismo em outra perspectiva, nem política, nem
econômica, mas no campo comportamental, psicanalítico. Não
há como descolar fatores comportamentais dos materiais, por estarem intrinsecamente
entrelaçados. Para dar visibilidade a essa perspectiva psicanalítica, que é pouco comum para explicar o fascismo, é importante recorrer ao
filósofo Vladimir Safatle, na sua obra Psicanálise
dos Novos Fascismos Globais: A Ameaça Interna. Segundo o autor, o fascismo
sempre esteve presente nas sociedades liberais, sendo que a base laboratorial
desse programa de perseguição e ódio, foram as colônias, a exemplo das inglesas.
Enquanto que nas metrópoles se cumpria à risca os preceitos constitucionais
vigentes, nas colônias, predominava o massacre, a espoliação, vistos pelos colonizadores e a sociedade como atitudes aceitáveis. A violência, a indiferença, os massacres, que ocorriam e ocorrem nas
democracias já consolidadas, são heranças das colônias de outrora. É possível admitir que ascensão do regime repressivo contra populações marginais, negras, indígenas, por exemplo, tem como pano de fundo, o
receio, o medo das elites em perder os seus privilégios. O fenômeno social,
caracterizado como fascismo moderno, tende a se manifestar amplamente em
períodos de crises estruturais, como econômicas, sociais, ambientais e
psicológicas.
As
políticas neoliberais de Estado mínimo se moldaram como instrumentos segregadores
de grupos sociais, aceitos como desnecessários na
atual realidade econômica. Se não há trabalho suficiente para todos, é preciso
escolher quem permanece e quem será descartado no conjunto da sociedade. As
mídias conservadoras, diariamente ocupam seus espaços jornalísticos com informações com vistas a tornar racional a ideia de que não há mais sociedade para todo mundo. Ver a
polícia subir os morros do Rio de Janeiro chacinando mais de 120 pessoas; o
exército israelense bombardeando Gaza ininterruptamente, matando mais de 50 mil
civis desde 8 de outubro de 2023, ambos os episódios que se caracterizam,
na ótica fascista, como normais, não causando mais comoções, e nem reações
generalizadas de repúdio.
As
guerras, portanto, não são vistas mais como exceções, algo eventual, mas como regra no sistema fascista. É com os conflitos que governos aproveitam para empregar políticas de exceção, como bombardear escolas,
hospitais, afirmando serem esconderijos de terroristas. A invasão do Iraque pelos Estados Unidos em
2003, a declaração de guerra contra o Irã pelos EUA e Israel, em 2026, com a alegação de enriquecimento de urânio para produção de armas
nucleares fazem parte desse novo sistema fascista de guerra permanente.
No
Brasil, o ressurgimento de uma direita radical, reflete exatamente a pulsão de
morte ainda presente no inconsciente coletivo de milhares de latifundiários,
grandes impérios industriais, cujos descendentes nutriram-se do sangue de
negros e índios escravizados. O ódio latente dessa gente violenta necessitava
de um gatilho que pudesse despertar a ira contra possíveis insurgências sociais.
Nesse cenário turbulento aparece a figura do mito, um “messias”, que incorporou
perfeitamente o espírito maligno de figuras políticas escrotas do passado, incorporando
também símbolos e lemas paradoxais, como deus pátria e família, Brasil acima de
todos e deus acima de tudo.
Prof.
Jairo Cesa
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