terça-feira, 20 de janeiro de 2026

 

DOUTRINA “DONROE” E A NEOCOLONIZAÇÃO NORTE-AMERICANA SOBRE A AMÉRICA LATINA

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O ataque militar norte americano a capital venezuelana, Caracas, no qual resultou no sequestro e a remoção para Nova York o presidente Maduro e sua esposa, pode ser compreendida coma a concretização de uma nova doutrina na América Latina, que pode ser batizada como de “Doutrina Donroe”. Até o final do século XIX, a Inglaterra era a principal potência econômica global. A américa latina era um dos principais mercados da indústria britânica, porém, os EUA, vindo a se despontar como potência em ascensão, tinha como concorrente direto a Inglaterra. Na época, o presidente dos Estados Unidos James Monroe, para frear o furor comercial da ilha britânica sobre o continente americano, criou a Doutrina Monroe, plano no qual fechava as portas do continente ao comércio inglês.

Por décadas os EUA influenciaram direta e indiretamente o processo político eleitoral de quase todas as nações latino-americanas, sempre com a intenção de eleger lideranças alinhadas as suas políticas de dominação. Na   hipótese de haver alguma sublevação social nos países latinos compreendidos como sendo seus quintais de interesse, a força da espionagem e do terror generalizado sempre entraram em ação, destituindo regimes democráticos e impondo ditadoras sanguinárias alinhadas as suas políticas.

Argentina, Chile, Uruguai, Brasil, Bolívia, e agora Venezuela, são alguns exemplos de como os EUA se comportam no cenário regional e global. A destituição do regime de madura teve como pano de fundo sua relação como narcotráfico. O que realmente motivou a ação do exército estadunidense sobre a Venezuela são as grandes reservas de petróleo no subsolo, a segunda maior do mundo. O que se esperava a partir da investida norte americana sobre Caracas era uma forte reação da população bem como dos países latinos, vendo que a partir de agora todos aqueles não alinhados ao trumpismo são alvos diretos do Tio Sun.

E, para se ter ideia do poderio bélico norte americano, o país possui aproximadamente 800 bases militares espalhadas em todo o mundo, que lhe credencia como o principal xerife planetário. Todos os conflitos globais atualmente sempre têm o dedo dos estados unidos, como na Ucrânia, Faixa de Gaza e no Irã. A tática dos EUA sempre foi fragilizar lentamente as bases econômicas dos regimes que lhe fizeram e fazem oposição, é o caso da Venezuela, Irã, Cuba, entre outras. Todos viveram e vivem um embargo econômico homicida por décadas. É claro que com embargo a população fica restrita a produtos essenciais a sua subsistência. O resultado, portanto, é a sublevação social, a exemplo do Irã, que culpa o regime dos Aiatolás como responsáveis por todos os males sofridos.

Também o que se desenha no horizonte geopolítico global é uma nova guerra fria cada vez mais evidenciada nas guerras tarifárias entre os Estados Unidos e a China. Depois de décadas de grandes investimentos em educação e tecnologia, a China se desponta como potência econômica a ponto de desafiar a supremacia norte americana em âmbito planetário. A china é hoje um dos principais produtores de chips utilizados na fabricação de veículos elétricos, mercado altamente aquecido a ponto de ameaçar as tradicionais indústrias automobilísticas do ocidente.

De fato, o que a China mais precisa nesse momento é de energia, o petróleo, como fonte energética essencial para manter aquecida sua indústria. Terras raras, gálio, germânio, nióbio, entre outros minerais, como lítio, cobre, prata, níquel, cobalto, grafite, estão no escopo dessas potências, tendo a América Latina, Venezuela, Colômbia, Chile, Brasil, as grandes reservas mundiais.

 A perda gradativa da soberania norte americana em âmbito global vem se dando devido a substituição do lastro dólar por outras moedas, como o Yuan chinês, nas transações comerciais. Esse plano de substituição se intensificou mais quando os Estados Unidos elevaram as tarifas de importação de países como a China. Essa postura norte americana fez com que os BRICs ensaiassem a criação de uma moeda própria, na qual abalaria ainda mais o poderio do dólar.  Em relação aos BRICS tem um aspecto importante que poderia ter dado outro direcionamento nos desdobramentos na deposição de Maduro do cargo de presidente cujo Brasil protagonizaria. Me refiro a não aceitação por parte do governo brasileiro da inserção da Venezuela do BRICS. Portanto, o governo brasileiro tem um pouco de culpa no episódio do país que faz fronteira com o nosso território ao norte.

A inserção do dólar como moeda de lastro internacional está hoje relacionada com o comércio de petróleo, o chamado petrodólar. O comércio desse produto entre o Irã, Venezuela, China etc., passou o dólar a perder força como moeda global, que consequentemente influenciou negativamente na economia dos EUA. Como agora resolver esse imbróglio envolvendo o dólar? O caminho seria atacar os países considerados grandes produtores de petróleo, exceto a Arábia Saudita, cuja moeda transacional deixou de ser o dólar, sendo agora, por exemplo, yuan, moeda chinesa. O domínio sobre a Venezuela pelos EUA, não significa que agora o país deixará de vender petróleo para a China, o comércio poderá ter continuidade, com o seguinte critério, o pagamento deverá ser obrigatoriamente em dólar. E o Irã, o que está ocorrendo naquele país muito se assemelha a realidade venezuelana atualmente.

Como havia dito, os articulares do embargo econômico a Venezuela, Cuba e o Irã, coordenado pelos EUA, tinham como estratégia asfixiar suas economias, fazendo com que a população não resistisse a crise e promova os levantes. Na Venezuela foi dado o primeiro passo com o sequestro do presidente, e o Irã, segue na mesma direção, com milhares de pessoas nas ruas pedindo o fim do regime dos Aiatolás. Existindo a queda do regime, é possível que se instale um governo alinhado ao ocidente, beneficiando diretamente os EUA, que terá em suas mãos reservas exorbitantes de petróleo.

É aqui que está a encrenca, e a mídia conservadora entreguista ocidental faz o seu trabalho de propaganda pró ocidente, que o problema no irá é fruto do governo dos Aiatolás, que a sua dissolução é o caminho necessário para o reestabelecimento da “normalidade”. Mais uma vez insisto em ressaltar o episódio ocorrido no Iraque quando a mídia conservadora procurou construir narrativa falsa de que o líder daquele país, Saddam Hussein, possuía armas químicas de destruição em massa escondidas. O país, portanto, foi ocupado por soldados norte-americanos, Saddam foi preso e executado sumariamente sem ter sido descoberto qualquer tipo de esconderijo de armas químicas. O que de fato queriam os americanos era ocupar o país e se apropriar do petróleo.

Nas inúmeras reportagens exibidas pelos principais canais de TV e mídias digitais ocidentais, todas, com raras exceções, trazem imagens de confrontos violentos envolvendo apoiadores do regime dos Aiatolás e opositores, muitos dos quais defendendo o retorno da monarquia. Antes da Revolução de 1979 no Irã, o país foi controlado pelo líder e capacho norte-americano Reza Pahlavi. Claro que o regime dos aiatolás não está isento de críticas, principalmente quando se trata das políticas relacionadas as mulheres, principalmente no campo dos costumes, a exemplo do véu que cobre a cabeça.

Durante os ataques israelenses ao Irã, em julho de 2025, o regime iraniano aboliu provisoriamente as mulheres de usarem o respectivo véu. Até quando não se sabe. Fora as questões relacionadas aos costumes, no Irã mais de 60% das matrículas nas universidades são ocupadas por mulheres. E isso acontece também no parlamento, tendo mais mulheres ocupando os assentos no legislativa que no Brasil.

É importante aqui deixar bem claro, quem está mais interessado com o fim do regime dos aiatolás são os Estados Unidos, cuja intenção é implantar um governo pró interesses ocidentais. O filho do ex-ditador Reza Pahlavi vem articulando fora do Irã movimentos para desestabilizar o atual regime e reestabelecer a monarquia, no qual tem pretensões de ocupá-la como líder máximo. Fica aqui registrado que o Irã é a última fronteira de resistência no oriente à ofensiva ocidental. A destituição do líder supremo Ali Komeney trará fortes impactos na economia da China e da Rússia, principais aliados do Irã.  Outro importante impacto será com a luta dos palestinos, que sempre tiveram o Irã como um guardião às suas políticas de criação de um estado autônomo.

A questão é, por que os Estados Unidos já não decidiram de imediato o destino do Irã, usando a mesma estratégia adotada na Venezuela, o sequestro do presidente? É resposta é simples, o líder supremo do Irã, sua representação no islamismo é similar ao papa para os cristãos católicos, visto como uma liderança sagrada. Sequestrá-lo ou até mesmo assassiná-lo poderia gerar uma convulsão gigantesca contra os Estados Unidos, minando qualquer possibilidade de projeção sobre o oriente. Portanto, o governo americano está atuando por meio de narrativas distorcidas, até mesmo forjando imagens das manifestações de ruas, procurando convencer a opinião pública global de que o regime dos aiatolás é extremamente autoritário, violento, sanguinário.

Cada vez fica mais evidenciado que não há como ser defensor dos direitos humanos sem a derrocada definitiva do imperialismo norte-americano. O que se sabe é que mais cedo ou mais tarde, ele irá se sucumbir, do mesmo modo como outros impérios no passado. Pense bem, no momento que temos um governo que se posiciona como o “xerife” do mundo, qualquer possibilidade de um projeto autônomo de sociedade, independente se é comunismo, socialismo ou outros ismos, é imediatamente sucumbido por meio de retaliações com o propósito de asfixiar o povo.

Vale reiterar que depondo o regime dos aiatolás e instalar no lugar uma monarquia, é correr o risco de retornar os anos de chumbo anterior a 1979, quando mais de 60 mil iranianos foram mortos e mais de 200 mil presos. Antes desse período tenso na política iraniana, o governo de Pahlavi II, iniciado em 1953, executou algumas reformas liberais, trazendo contra si os clérigos islâmicos. Em 1963 o Xá promove a chamada Revolução Branca, que foi a ocidentalização do Irã, ou seja, o país se assemelhou ao ocidente, no comportamento, no consumo etc. Em 1964 o líder supremo do Irã, Khomeini abandonou o país devido as pressões no país.

Como forma de fragilizar ainda mais o poder dos clérigos iranianos, o Xá promove a reformas de base, como a reforma agrária. Essa postura foi vista pelos clérigos como um ato violento ao seu poder, pois era a classe que detinha grandes áreas de terras, considerados verdadeiros senhores feudais. O petróleo, no entanto, era o produto que salvaguardava a estabilidade dos regimes no Irã, acontecendo também com o governo do Xá.  A crise do petróleo de 1973 afetaria o regime de Pahlavi II no Irã, devido ao aumento dos preços e o crescimento da inflação, resultando em mobilizações sociais gigantes como greves dos trabalhadores ligados a extração de petróleo.

A situação no país nesse momento ficou insustentável pelo fato do Xá tentar conter as manifestações usando a violência, medida que revoltava ainda mais a população. Não tendo mais como resistir ao furor social, Pahlevi II renuncia ao posto de presidente e foge do país, pondo fim a 26 anos de monarquia. Khomeini retorna ao Irã em 1979 e assume o governo iniciando o processo que ficou conhecido como Revolução Islâmica. Um fato curioso no regime islâmico foi que durante o regime do Xá as mesquitas serviram como resistência religiosa islâmica, comparada a o que foi a teologia da libertação, movimento religioso/político instaurado na América Latina como instrumento de resistência social às inserções dos governos ditatoriais.

Prof. Jairo Cesa  

 

            

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