UM
PRESIDENTE QUE ESTÁ PAVIMENTANDO O CAMINHA DE SUA POSSÍVEL QUEDA
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Talvez
sem querer querendo, o presidente Bolsonaro, nitidamente cegado pelo poder,
reacendeu a memória de um dos momentos mais conturbados da história recente do
Brasil, a ditadura. Irritado quando interpelado pelo presidente da OAB, Felipe
Santa Cruz, respondeu em tom agressivo que daria explicações sobre o modo como
o seu pai desapareceu durante o regime militar. Bolsonaro quer provar que o pai
de Felipe foi morto por dissidentes do movimento que integrava e não como
alegam que foram por militares sim que o mataram.
Conforme
atestado de óbito apresentado à família de Felipe, o documento confirma que
Fernando foi morto de forma não natural, ou seja, de modo violente e pelo
Estado. Ainda há versões contrárias acerca do local onde foi assassinado. Uma das
versões confirma que foi morto nos fornos de uma usina de açúcar no município de
Campos dos Goitacás, no norte do estado do Rio de Janeiro. A outra versão
ressalta que a morte ocorreu na cidade de São Paulo e seu corpo enterrado no
cemitério de Perus.
Se
há provas comprobatórias da morte do pai do presidente da OAB por integrantes
da ditadura, como um presidente da república ousa se opor a tal prova que
também é referendada pelo próprio ministério dos direitos humanos. Toda essa
celeuma criada pelo presidente reabriu as feridas de um período trágico na
nossa história não cicatrizada que insiste e querer se repetir.
Se
o presidente afirma que sabe como morreu o pai de Felipe, por que não falou
quando foi criada a comissão da verdade para esclarecer os fatos. Não há
dívida que o presidente deve ter muita informação para repassar sobre os
desaparecidos nos porões da ditadura, cujas famílias reivindicam os corpos para
um sepultamento digno.
Todos
devem ter na memória o fatídico discurso proferido por Bolsonaro quando
deputado federal durante a votação do impeachment de Dilma, enaltecendo o
coronel Carlos Brilhante Ustra, responsabilizado por torturas, dente as vítimas
a própria ex-presidente Dilma Rousseff. Quem
possuía dúvidas sobre como seria o governo Bolsonaro, seis meses no cargo foram
suficientes para acreditar que estamos sim sob o domínio de um déspota
desqualificado e desequilibrado, que toda vez que abre a boca para expressar
algo, deixa a população atônita com suas frases sínicas e ameaçadoras.
Três
décadas foi o tempo necessário para começar no Brasil a reconstrução dos
princípios do republicanismo solapados pela ditadura. Não há dúvidas que nos
governos Sarney, Itamar, Collor, Lula, Dilma e até mesmo Temer, pouco avançamos
em termos sociais e econômicos. Entretanto, nenhuma desses governos fez
qualquer apologia ao regime militar. Contrário aos governos anteriores, Bolsonaro,
tendo oportunidade, não se sente retraído em enaltecer figuras polêmicas como
de torturadores que atuaram nos porões do DOE CODE.
É
de ficar estupefato alguém que se diz religioso, acreditar em deus, cometer
tanta perversidade em tão pouco tempo ao meio ambiente, aos indígenas, à
educação e a própria soberania nacional. O modo como o governo Bolonaro vem
agindo não deixa o mínimo de dúvida que estamos às portas de uma ditadura
acobertada pelo manto da fictícia democracia, pois o presidente foi eleito “democraticamente”.
Os jovens e outros milhares de brasileiros que votaram em Bolsonaro talvez não
tiveram oportunidade de saber o que foi realmente o regime militar.
Nem
mesmo uma guerra se mostra tão perversa e avassaladora quanto uma ditadura. Num
conflito mundial existem códigos ou tratados que os países beligerantes devem
respeitar. Torturar e matar prisioneiros são classificados como crimes de
guerra. Os envolvidos são julgados e sentenciados em um tribunal especial. Já numa
ditadura nada disso ocorre. O torturador comete todos os absurdos e humilhações
possíveis ao oponente. Depois de torturados, muitos são mortos e enterrados sem
qualquer identificação.
Voltando
a proposta asquerosa de Bolsonaro de abrir as porteiras da Amazônia para a exploração
mineral, a manobra de tentar indicar seu filho, Eduardo Bolsonaro, para assumir
a embaixada brasileira nos EUA é uma estratégia com o governo Trump para
concretizar essa idéia. O que é estapafúrdio é saber que a proposta tem o apoio
irrestrito de parcela significativa do senado federal, que vislumbram para a
região uma espécie de corrida ao ouro, ou seja, um novo eldorado a exemplo do
ocorrido no oeste dos Estados Unidos, onde milhares de indígenas foram
dizimados pelos invasores financiados pelo Estado.
Sem
oficializar a entrega dessa rica região às poderosas corporações transnacionais
do setor, o garimpo irregular já ocorre sem limites em áreas protegidas e
reservas indígenas. Além de índios, lideres de movimentos que lutam em defesa
das florestas e culturas tradicionais são assassinados quase todos os dias. O
que é pior é que o Estado brasileiro é conivente com tudo isso. A tendência,
portanto, se não houver ações mais contundentes de organismos nacionais e
internacionais é o agravamento da barbárie que levará ao genocídio do pouco do
que restou de indígenas da invasão européia do século XVI.
PROF.
JAIRO CEZAR
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