AGROTÓXICOS,
O VENENO NOSSO DE CADA DIA
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EDSON RIMONATTO |
Quem
trabalhou na agricultura nas décadas anteriores a 1970 possivelmente jamais
ouviu nomes estranhos como transgênicos, agrotóxicos ou agroquímicos. De
repente o Brasil se “modernizou” a foi invadido por corporações ligadas ao
agronegócio, chanceladas por governos militares que submetem a tradicional
agricultura familiar a um modelo capitalista, exportador. A Revolução Verde
iniciada nas décadas de 1960 em diante foi um plano bem bolado das poderosas
empresas de armamentos do pós-guerra para continuar lucrando mesmo em períodos
de paz.
Em
vez de tanques e outros apetrechos bélicos, essas companhias passaram a produzir
tratores, ceifadeiras e demais implementos agrícolas comercializados massiçamente
nos países da periferia do capitalismo. As fabricantes de venenos a exemplo do
agente laranja aplicado na pulverização das florestas do Vietnã, durante a
guerra contra os Estados Unidos, passaram a se dedicar na produção desse e de
novos agentes químicos para a erradicação de “pragas” que se multiplicam ano
após ano.
O
Brasil dos anos 1970 o regime militar intensificou propaganda para convencer a
sociedade que a expansão da fronteira agrícola tornaria o Brasil num dos
principais celeiros agrícolas do mundo. Era o modelo perverso do agronegócio
que estava se enraizando no Brasil, com passivos ambientais e sociais sem
precedentes aos frágeis biomas como a Amazônia. O Brasil pós-militarismo se
redemocratizou, foi restabelecido o pluripartidarismo, eleições diretas e uma
nova constituição mais progressista. No entanto, os novos velhos detentores do
poder permaneceram, com novas roupagens, ainda mais fortalecidos à frente das
instituições de comando.
A
expectativa de ruptura deste secular modelo agrícola segregacionista rondou o
cenário institucional dos governos populares no começo do século XXI. Nos quase
vinte anos governando o Brasil, houve sim alguns avanços sociais, porém, pecou
muito quanto ao item agricultura e meio ambiente. A expectativa de uma grande
reforma agrária não vingou. Os governos populares, infelizmente se renderam a
pressão da poderosa engrenagem do agronegócio, alojada nos interstícios do
congresso nacional e do executivo, utilizando-se de artifícios e artimanhas
para barganhar vantagens.
A
liberação de sementes transgênicas e por conseqüência de inúmeros agrotóxicos
até então proibidos pelas agências reguladoras, foi o estopim de um problema de
saúde pública que se agravaria anos vindouros. Atolado em denúncias de
corrupção, integrantes da tradicional elite brasileira, esperançosa em
barganhar mais benesses como foi durante os governos populares, articulara um
bem sucedido golpe político, recuperando as rédeas de um poder predatório, tanto
social como ambiental.
Beneficiada
por uma avalanche de propaganda enganosa, a elite agora teria que formalizar
sua efetivação no principal posto de comando federal, a presidência da
república. Como um vírus contagioso e letal, milhões de pessoas, depois de longa
noite despertaram acreditando que um messias estava por vir para salvá-los do
apocalipse. Entretanto, não foram suficientes os apelos para alertá-los do
vírus cujo sintoma inicial foi a cegueira.
Não
havia mais retorno, o tempo revelou o que muitos já sabiam um governo sem a
mínima capacidade para o cargo, um sujeito forjado pela mesma elite financeira,
empresarial e agrícola, que sempre se beneficiaram dos pomposos subsídios
fiscais dos governos anteriores. No governo Temer foi necessário dois anos para
que o cenário econômico e institucional do país se revelasse insustentável.
A
bancada do agronegócio nunca foi beneficiada por barganhas políticas em tão
pouco tempo de governo Temer. Somente com agrotóxicos, em 2018 foram batidos
recordes em liberação de novos princípios ativos. Quem acreditava que governo
anterior entraria para a história como o de maior concessão novas marcas de
agrotóxicos, se equivocou. O pior
estaria por vir. Em seis meses de governo Bolsonaro, já foram liberados para
uso 239 tipos de agrotóxicos.
Quem
achou que os abomináveis e insaciáveis donos do agronegócio já estariam
satisfeitos com toda essa avalanche de pesticidas liberados, também caiu do
cavalo. Outros 539 componentes químicos estão na lista de espera para
liberação. Esses números dão mostras que a população brasileira está se
contaminando num ritmo assustador. O número de pessoas intoxicadas com
agrotóxicos e que estão contraindo doenças degenerativas, neurológicas, entre
outras, está gerando enorme colapso nas unidades de saúde em todo o Brasil. O pior
é que esse desarranjo produzido pelo governo e seus comandados têm o respaldo
técnico de laboratórios e agencias reguladoras que avalizam os pesticidas como
não prejudiciais à saúde.
Um
dos agrotóxicos mais temidos e já proibidos em muitos países da Europa e
estados nos Estados Unidos, que possivelmente
não será renovada licença na União européia em 2020 é o CLOPIRIFÓS. Por que
tanta preocupação com esse princípio ativo químico. Em primeiro lugar esse
agrotóxico veio substituir o tradicional DDT, muito utilizado na agricultura no
passado. Em segundo lugar, o Clopirfós, de acordo com inúmeros estudos
concluídos, o último em março de 2019 na Universidade de Colúmbia, EUA, testes
comprovaram que a ingestão do produto é responsável pelo autismo e lesões
cerebrais em crianças.
Outros
estudos confirmam que o mesmo agrotóxico provoca a desregulação hormonal que
ativa a tireoide. Esses hormônios, nas mulheres grávidas, são fundamentais para
o desenvolvimento do cérebro do feto. As pesquisas foram mais além, descobrindo
que crianças em contato com esse princípio ativo apresentam uma redução de até
2,5 pontos de QI (Quociente de Inteligência). No Brasil, em 2009 foram
comercializados 3 toneladas de agrotóxico. Nove anos mais tarde, em 2017, esse
volume ultrapassou o dobro de 2009, chegando a 6,4 toneladas.
O que está ocorrendo no Brasil com os
alimentos consumidos pela população é algo insano, passivo de medidas
intervencionistas de organismos internacionais como a FAO/ONU contra o governo
brasileiro. Já é provado que o alimento que chega à mesa de milhões de
brasileiros vem de produtores familiares, que pouco apoio recebe dos governos
em forma de subsídios. O grosso dos recursos ou subsídios públicos é destinado
ao agronegócio, que atua no cultivo de poucas culturas como a soja, cana de
açúcar, algodão, milho, para exportação.
O
maior importador de soja subsidiada com dinheiro público no Brasil é a China,
que transforma essa commoditie em ração para alimentar o gado. A cana, grande
parcela é para produção do etanol como combustível para a indústria
automobilística. Portanto, o discurso apresentado pelo agronegócio reafirmando
que esse seguimento é a alavanca para o progresso do Brasil, não condiz com a
realidade. Os preços pagos pelos insumos agrícolas, fertilizantes, sementes e
químicos comercializados no Brasil são convidativos ao produtor, não pelo fato
de haver concorrência, mas pelos benefícios fiscais recebidos pelas grandes
corporações do setor instaladas no Brasil.
A
agroecologia que é um sistema milenar de cultivo e adotado por quase todas as
civilizações tende a reverter o futuro sombrio da alimentação no planeta. Antes
da Revolução Verde expressiva parcela da população estava concentrada no campo
adotando práticas agroecológicas de baixo impacto ambiental. Cada agricultor
produzia grande diversidade de culturas, parte dessa demanda colhida era
comercializada na própria comunidade ou municípios vizinhos.
Na
época se produzia arroz, feijão, milho, amendoim, batata, cebola, mandioca,
etc, sem o uso de ferramentas modernas e insumos químicos como agrotóxicos para
o combate de pragas. No entanto, o mapa da fome no mundo e no Brasil era muito
menor que os registrados atualmente. A revolução verde abocanhou pequenas
propriedades rurais ampliando desse modo a concentração de terras no Brasil.
A
população do campo se viu pressionada a entregar suas terras aos bancos para o
pagamento de dívidas de empréstimos que se tornaram impagáveis frente aos juros
exorbitantes cobrados pelos bancos. Um enorme exército de pequenos e médios
proprietários rurais se vê despossuídos de suas terras e são empurrados para as
periferias das cidades.
O
campo cada vez mais se moderniza na ótica do capital, se especializando em
culturas específicas e de elevado impacto ambiental. A contradição que se vê
nesse modelo agrícola inspirado na revolução verde é o discurso exortado pelos
seus defensores afirmando que a Revolução Verde poria fim a fome no mundo. Os
relatórios de estudos apresentados por organizações que monitoram a fome no
planeta confirmam que milhões de pessoas estão a mercê de uma hecatombe sem
precedente. No entanto nunca se produziu tanto como atualmente, porém a fome
vem aumentando em escala geométrica. O
fato é que o que se produz são culturas que são definidas pelo mercado que
seguem cotações diárias, como cana, soja, fumo, para produção e ração e
combustíveis.
Hoje
quem decide o que produzir e a quantidade é o mercado, independente se milhões
de pessoas passam fome por falta de alimentos. De tempo em templo o governo
lança números otimistas das safras de grãos no Brasil, sempre afirmando
equivocadamente que o agronegócio é o que dá suporte a balança comercial, pois
sem ele o Brasil quebraria. O próprio
governo federal é o principal garoto propaganda desse perverso modelo agrícola
nada sustentável.
Armar
o campo vem se revelando como meio eficaz para perpetuar a perversidade desse
modelo produtivo agressivo alimentado pela ganância e destruição de biomas e
comunidades tradicionais. Quanto aos subsídios assegurados às companhias que
comercializam agrotóxicos e outros insumo no Brasil, na última quinta feira, 27
de junho de 2019, o MPF de Brasília, realizou audiência pública para tratar do
assunto. Foram inúmeras entidades que participaram do encontro. Um dos
participantes afirmou que em 2018 do governo brasileiro deixou de arrecadar
2,07 bilhões de dólares em impostos relativos aos agrotóxicos. De cada dólar
gasto com agrotóxicos, 1,28 dólares são destinados somente para tratamentos de
desintoxicação de pessoas pela ingestão desses produtos.
No
fórum foram relatadas experiências relevantes que estão sendo adotadas por
países como a Dinamarca, onde 10% das fazendas do país estão adotando o cultivo
de orgânicos. Em 2017, treze por cento das vendas de alimentos na Dinamarca
foram de orgânicos. Para estimular ainda mais esse seguimento os governos vêm
intensificando as políticas de subsídios aos agricultores que desejarem
ingressar nessa atividade.
No
encontro citaram o exemplo da Tributação Verde adotada em Santa Catarina, que é
pioneira no Brasil. O decreto da Tributação entrou em vigor em abril de 2019
onde são taxados fungicidas, herbicidas, pesticidas, entre outros químicos de
uso agrícola em 17% em tributos. É um exemplo que poderia ser copiado por
outros estados da federação, abrindo caminho para a inserção de uma nova
cultura voltada ao cultivo de orgânicos.
Lembraram
os presentes do fórum da ADI n. 5553, que julga a constitucionalidade do
decreto n. 7.660/2011, sobre isenções fiscais ao comércio de agrotóxicos no
Brasil. A ADI tramita no STF desde 2006. O decreto promoveu incentivos fiscais
como o abatimento no pagamento de ICMS e IPI para 24 substâncias ou princípios
ativos. O argumento dos defensores do fim desses benefícios é que não é
razoável beneficiar setores ou produtos que contribuem para a degradação do
meio ambiente, bem como no aumento de doenças oriundas do consumo de água e
alimentos com presença de agrotóxicos.
Prof.
Jairo Cezar
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