AS
CINZAS DA DITADURA AINDA ASSOMBRAM O IMAGINÁRIO SOCIAL
A
década de 1980 foi o divisor de águas de dois momentos importantes da história
recente do Brasil, o fim do regime militar que assombrou por longos vinte anos
e o processo de redemocratização política. Não há dúvida que o complexo caldo
de instabilidade sócio política recente teve na ditadura os ingredientes
motivadores. As transformações estruturais no mundo, da internet ao sistema 5G,
não foram suficientes para suprimir comportamentais opressivos manifestados nas
redes sociais e no dia a dia das ruas.
O
que acalenta os corações dos que acreditam na dialética dos regimes sociais é
que mesmo sob rígido controle institucional, jamais permanecerá sufocada,
calada por longos anos, recolhida à “caverna” escura de Platão. A verdade às
vezes amedronta, apavora, ofusca os olhos desatentos de uma platéia que
acompanha atônita o extraordinário espetáculo da vida cujo palco representativo
é a rua.
Ocupá-la
para protestar, gritar o grito sufocado, serve de catarse, mecanismo poderoso,
que rompe o casulo existencial que se repete e se recicla desde a antiguidade.
Com o tempo a rua, metáfora do coletivo, do público, do pertencimento, vai
gradativamente encolhendo. O que resta são fragmentos dispersos, ritos
cadenciados, vigiados por olhos mecânicos, atentos e disciplinadores.
Das
carruagens puxadas por cavalos aos intermináveis congestionamentos gigantes,
que tornam ruas e avenidas intransitáveis, testando a paciência, a tolerância dos
transeuntes, dia após dia. Hoje as ruas são
termômetros, medidoras do grau de temperatura do estresse social, que produz convulsão,
repressão, revolução. Sob a égide da pseuda republica pseuda democracia,
espaços os corpos sociais viram massas, objetos vigiados, guiados como manadas ao
matadouro.
O
estranhamento ao outro, ao público já privado, domesticado, se intensifica. As
massas se resumem a meros expectadores, consumidores de imagens líquidas, diluídas,
sem futuro, sem sonhos. O medo se manifesta em todos os quadrantes como um
vírus mortal. Cercamo-nos entre muros, fortalezas, na expectativa do salvador, do
messias, que se traveste de sagrado, com promessas vãs, ilusórias.
Tentam
a todo custo silenciar as vozes das ruas, que audíveis aos ouvidos das massas,
brotam esperança aos instintos dos travestidos abutres que se alimentam da
miséria social. Por séculos a sociedade se
concebeu como corpo mecânico, relógio que pulsava o ritmo cadenciado do tempo, tempo
que se encurta frente ao ritmo frenético das máquinas, onde tudo vira
mercadoria, descartáveis como se a vida tivesse apenas sentido de utilidade
para ter sentido.
Tempo
e espaço fundem-se quando lidado com inteligências artificiais. Num piscar de olhos,
o novo vira velho, descartável, como o próprio pensamento funcional, mecânico. Sem
tempo para pensar o próprio tempo, que se esvai acelerado, restam às redes, as linguagens
codificadas, grifadas, última fronteira de um infinito território, que insiste conectar
o humano ao cosmo, por meio de complexas redes sistêmicas. As ruas sintetizam as redes neuronais do
cérebro, cargas de fluidos químicos que pulsa vida e esperança.
Prof.
Jairo Cezar
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