O
JEITO ERRADO DE CONSUMIR ÁGUA E ENERGIA ELÉTRICA NAS ESCOLAS DA REDE PÚBLICA
ESTADUAL DE SANTA CATARINA
Há
cerca de um ano o governo do estado de Santa Catarina em parceria com a ACAERT
(Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão) e outras entidades
como a própria FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina)
lançaram programa Jeito Catarinense de Fazer as Coisas Certas, cujo objetivo
era “motivar a sociedade a tomar
atitudes que visassem o bem coletiva no dia a dia, estimulando ações positivas
e desencorajando ações negativas”. Toda vez que um governo ou entidade se
lançarem a promover programas desse nível é importante a população, antes de
tudo, refletir sobre os tipos de serviços oferecidos, se realmente os dirigentes
públicos estão isentos de vícios administrativos que possam desmoralizá-los.
O
programa envolveu 892 escolas estaduais totalizando 120 mil estudantes
matriculados com idades de 8 a 12 anos. É bem provável que metade ou mais da
metade dessas escolas sofram alguma carência tanto estrutural quanto pedagógica
da qual dificulta a promoção de uma educação no mínimo decente. É um tanto difícil
até mesmo desmoralizante para essas crianças saírem à rua, munidas de cartões
vermelho e apresentarem a alguém que tenha cometido algum ato negativo, quando
sabem que na sua escola pouca coisa funciona por negligência do próprio
governo.
Dentre
os temas abordados nas cartilhas distribuídas às respectivas escolas estão: o tratamento às pessoas, a natureza, no
trânsito e o cuidado com a saúde. Poderia aqui destacar todos os temas
correlacionados acima, mostrando o farto repertório do jeito errado como o governo catarinense vem tratando à saúde,
educação, segurança, mobilidade, meio ambiente, etc. Vamos focar nossa reflexão na temática ambiental no estado e verificar
no final qual dos dois cartões o governo estadual deveria merecer.
Em
2016 a EEBA de Araranguá/SC iniciou projeto ambiental tendo por objetivo
despertar a sensibilidade da comunidade escolar acerca dos cuidados com a
escola, chamando a atenção para o não desperdício de água e energia elétrica na
instituição de ensino. No primeiro ano do projeto, o empenho foi mobilizá-los,
instruindo-os à necessidade de mudar posturas quanto ao uso dos equipamentos
elétricos e hidráulicos da unidade de ensino. A idéia também era fazer com que
as ações executadas na escola pudessem refletir no cotidiano doméstico dos
estudantes, prestando mais atenção aos erros cometidos diariamente em suas
casas (desperdícios de água e energia) que corroem parte significativa a renda
familiar.
Sem
qualquer apoio financeiro do estado, o projeto foi levado a diante com o esforço da equipe coordenadora e de
pequena subvenção financeira do governo federal. Esse valor proporcionou
algumas atividades extraclasses como visita a uma das nascentes da bacia
hidrográfica do rio Araranguá, a comunidade tradicional de ilhas onde desemboca
a água da bacia e as principais estações de tratamento de água que abastece o
município.
Se
o projeto em questão era para a contenção de desperdícios de água e energia
elétrica na EEBA, o grupo necessitava ter acesso aos estratos dos valores para
poder saber e comparar o quanto de água e energia se consumiu e o montante
desperdiçado. O primeiro erro detectado pelo grupo foi perceber que a equipe
gestora da escola não recebe mensalmente os estratos de ambas as contas,
portanto, não tem conhecimento do consumo e dos possíveis problemas que afetam
os sistemas. Para ter acesso a tais informações foi necessário ir à ADR
(Agência de Desenvolvimento Regional de Araranguá) e solicitá-las. Os números
apresentados nos extratos comprovavam que cerca de 40 ou 50% da água e energia
da EEBA eram desperdiçadas. A troca de lâmpadas convencionais por econômicas,
limpezas dos ar- condicionados e intensa campanha de conscientização nas salas
contribuiu para reduzir significativamente os desperdícios. Em cinco ou seis
meses de intensa campanha o valor financeiro economizado alcançou os 5 mil
reais.
Tendo
identificado em uma instituição de ensino vinculada a rede pública estadual de
Santa Catarina desperdícios acentuados no consumo de energia e água, era de
se supor que nas demais 42 escolas que
integram a 22 GERED/Araranguá, também houvesse desperdícios similares ao da
EEBA. O acesso às cópias dos estratos das contas de energia elétrica e água das
42 escolas, de 2013 a dezembro de 2018, gerou apreensão aos integrantes do
projeto escola sustentável da EEBA no instante que depararam com valores de faturas
pagas à CELESC, CASAN e SAMAES.
Eram
números mostrando consumos incompatíveis à real necessidade da escola, que
hipoteticamente teria o elevado consumo relação com problemas na estrutura
elétrica e hidráulica ou, o mais provável, práticas equivocadas no uso dos
equipamentos. Analisando os estratos do consumo de energia elétrica de 2013 a dezembro
de 2018, foi conveniente destacar alguns casos particulares de escolas cujos
valores cobrados pelo consumo em um mês extrapolaram as médias toleráveis. Em
fevereiro de 2013 tivemos o exemplo da EE.B Maria Garcia Pessi, cujo extrato
discriminava valor pago em um único mês de 9.313,65 reais em energia elétrica.
Entre 2014, 2015, 2016, a EEB Castro
Alves, com cerca de 1000 estudantes matriculados, durante seis meses
intercaladas, o total pago a CELESC foi de 63.477 reais.
Também
em 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018, a EE Macário Borba, com cerca de 800
estudantes, em seis meses intercalados, gastou o equivalente a 51.779 reais. A
EE Maria Garcia Pessi, num único mês, em 2016, o extrato totalizou consumo de
14.377 reais em energia elétrica. Admite-se que pelo fato da escola na época
estivesse passando por reformas, o valor elevado presente no demonstrativo tivesse
alguma relação a construção do empreendimento. Porém, os valores excessivos nos
extratos não se limitaram somente a tais unidades. As escolas EEB Timbé do Sul e
João Colodel, do município do Turvo, aparecem também na lista dos desperdícios.
A
do Timbé, os números aparecem nos meses de outubro de 2016, abril de 2017 e
março de 2018, cuja soma totalizou 15.267 reais. Convém destacar que a
respectiva escola foi inaugurada há cerca de três anos, totalizando 500 estudantes matriculados. A segunda escola
da lista com valores abusivos, a João Colodel,
também foi inaugurada no mesmo instante que a EEB Timbé do Sul.
Totalizando 720 estudantes matriculados, os estratos de energia, entre 2016 e
2017, permitiu pensar que falhas no sistema
elétrico ou descuidos estivessem contribuindo para somas tão elevadas. Foram
cinco meses com valores superiores a cinco mil reais na conta de energia, que
totalizaram 26.876 reais.
Algumas
observações são necessárias para que o público compreenda com clareza a
metodologia aplicada e os seus resultados. No aspecto consumo de energia
elétrica foram destacadas as escolas que tiveram nos seus extratos valores
acima de cinco mil reais. Se fossem também acrescentados os valores próximos aos
citados, nessas mesmas escolas, se chegaria a um valor 40 a 50% superior ao
apresentado acima. Quanto às demais unidades ficou nítido que quase todas
apresentaram alguma anormalidade no consumo, resultando até em valores
exorbitantes cobrados no mês de janeiro, período em que as escolas estão em
recesso. Somente isso exigiria uma atenção mais atuante da equipe gestora da
escola e da Gerencia regional.
Não
há dúvida que a elevação do consumo de energia conforme o relatório apresentado
é mais pertinente nos meses com maior incidência de calor, pelo fato dos ar
condicionados estarem em funcionamento. Entretanto, a relação estudantes
matriculados vezes valores elevados pagos por algumas escolas, lançam dúvidas
sobre o funcionamento dos sistemas elétricos, que deveriam ser monitorados e
detectados possíveis falhas.
Isso
também vem ocorrendo em relação ao consumo de água nas 42 escolas da 22 GERED,
muitas das quais apresentando terríveis falhas de abastecimento, com valores assustadoramente
elevados pagos pelo Estado. A distribuição e o consumo da água, nos últimos
anos, vêm se tornando um problema para muitos municípios brasileiros e
catarinenses devido a baixa demanda de chuvas, poluição dos mananciais e
desperdícios.
Cada
vez mais os governos estão concentrando esforços e promovendo campanhas
publicitárias, educativas, para sensibilizar a população sobre práticas
corretas de uso eficiente da água. Ao mesmo tempo em parcerias com entidades e recursos
públicos são disponibilizados para mobilizar a população sobre a necessidade de
evitar desperdícios, escolas públicas e outras repartições do Estado não estão
dando exemplos de como fazer a coisa certa.
Além
do relatório dos extratos de energia elétrica pagos pelo governo, de 2013 a dezembro
de 2018, das 42 escolas da 22 Gered, o grupo que integra o projeto escola
sustentável da EEBA também teve acesso aos relatórios relativos aos pagamentos
das faturas de água dessas mesmas escolas. O que se percebeu avaliando os
números foi que também havia coisa errada no uso da água e que precisavam ser
corrigidas urgentemente.
O
que gerou mais indignação na observação dos relatórios foi que o custo
financeiro da água cobrado por metro cúbico, comparada a da energia elétrica, é
bem inferior. No entanto, durante meses
contínuos ou intercalados, os valores apresentados nos extratos comprovam ter
havido falhas técnicas ou descuidos do corpo gestor ou da ADR, pois se verificou
que é absurdamente impossível uma unidade de ensino com cerca de 300, 400 ou
500 estudantes consumirem num ano água com valores pagos de 22, 24 a 46 mil
reais. É possível num único mês uma escola pública recém inaugurada, com cerca
de 750 estudantes, consumir tamanho volume de água que resultaram em absurdos onze mil e seiscentos reais? Esse debate sobre
tais valores exorbitantes ocorreu numa das reuniões ordinárias da equipe
integrante do projeto escola sustentável.
Em
encontro ocorrido na sede da ADR com os gestores das 42 escolas estaduais da
região de Araranguá, os integrantes do projeto fizeram explanação dos
resultados das investigações e recomendaram que as demais escolas estaduais promovessem
atividades semelhantes para despertar hábitos saudáveis de consumo de água e
energia elétrica. Aproveitando-se do momento em que os gestores das escolas,
secretário da ADR, subsecretário de infraestrutura e a gerente regional de
educação estavam presentes no evento,
foi divulgado os relatórios contendo os extratos do consumo de água e energia das
escolas que apresentavam valores abusivos.
A
reação de todos/as foi de espanto quando souberam dos números. Alguns
responderam não terem conhecimento dos gastos relativos às contas de água e
energia de suas respectivas escolas pelo fato dos extratos ficarem retidos na
ADR. Diante dos fatos, a equipe gestora da ADR se prontificou a remeter mensalmente
cópias dos extratos às escolas para que a comunidade escolar prestasse mais
atenção aos valores cobrados, se os números são compatíveis ao que é realmente
é consumido mensalmente.
Na
EEBA, depois de ter ocorrido substituição de cerca de 30 lâmpadas convencionais
por Led e a mobilizado estudantes e demais trabalhadores para contenção de
desperdícios, o resultado foi uma economia de mais de cinco mil reais com
energia elétrica. o Estado, conforme análise dos números dos extratos, poderia minimizar
desperdícios na ordem de 50% ou mais na conta se projetos desse nível fosse
abraçado por cada unidade de ensino, argumentou um dos coordenadores do
projeto. Somente com o dinheiro economizado, por ano, os valores seriam
suficientes para reparar as demandas estruturais e a aquisição de insumos
necessários ao satisfatório funcionamento das unidades.
Em
todo o estado de Santa Catarina, são cerca de 1100 escolas que integram a rede
pública estadual. Desse total, talvez 80% apresentem alguma deficiência
estrutural no setor elétrico e hidráulico. Supondo que todas sejam envolvidas
num amplo programa de práticas sustentáveis como a EEBA, o recurso financeiro
economizado, talvez cinco ou mais anos,
seria capaz de restaurar e construir novas escolas, dispensando recursos externos que tornam o Estado mais
endividado. Esse é sem dúvida o Jeito Certo de Fazer as Coisas.
Prof. Jairo Cezar
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