A
ARQUEOLOGIA DO LIXO NA FAIXA COSTEIRA DE ARARANGUÁ
A
arqueologia é uma ciência que procura reconstruir cenários por meio de
fragmentos, objetos, de culturas antigas desaparecidas há milênios. Um exemplo
concreto são as culturas sambaquianas que ocuparam a faixa costeira do estado
de Santa Catarina há quatro, cinco mil anos. Por que então relaciono o temo
lixo à arqueologia? A resposta vem da inúmeras caminhadas que faço semanalmente
até a atual barra aberta mais ao sul do posto de salva vidas central no Morro
dos Conventos.
Durante
a incidência de ventos fortes e ressacas parte da areia das dunas frontais são
removidas revelando no seu interior um cenário assustador. Garrafas pets, long
neck, sacolas plásticas, copos e mais uma infinidade de objetos estão ali
cobertos e de repente vem a luz gerando estarrecimento. Claro que se continuar escavando
é possível identificar mais lixo, de épocas mais antigas, pois fragmentos como
vidros, plásticos tem o seu ciclo de vida extremante longo.
O
lixo enterrado não é exclusividade apenas no nosso município, é um fenômeno que
domina todo o litoral catarinense e brasileiro, no qual revela o nível de
cultura que ainda hoje impera por aqui. No caso de Araranguá, além do lixo
trazido pelo rio, principalmente durante as enxurradas, o acúmulo dele na praia
e nas dunas tem a contribuição direta de sujeitos que integram a espécie
humana, desprovidos de qualquer reflexão, sensibilização acerca dos seus
impactos aos ecossistemas.
Já que estamos sob a iminência de um novo El Nino
e com previsões de ser muito forte, a tendência é o acúmulo de novas camadas
lixo em nossa faixa costeira. O que intriga é saber que muitos governos sempre procuram
dispor recursos para mitigar os efeitos climáticos extremos, porém, nenhum
centavo a mais para a execução de programas de recolhimento e reciclagem de plásticos,
entre outros resíduos, que tomam nossas praias, nossos oceanos, no grau absurdo
de formarem extensas ilhas de lixo, das quais influenciam na dinâmica da
biótica marinha global.
A
pergunta que todos gostariam de resposta é o que fazer para que nossas praias,
nossos oceanos não sejam mais impactados, colocando em nível de extinção
centenas de espécies marinhas? A resposta, portanto, é política, ou seja,
enquanto tivermos governos que negam a ciência, que não priorizam a educação,
que concebem rios, córregos, mares, como depositários de tudo que é descartado,
permaneceremos reféns as intempéries climáticas. É claro que mudar o cenário
dramático do lixo que domina nossas praias depende direta e indiretamente do
que consumimos, do que pensamos, como nos comportamos no ambiente que
compartilhamos com outros indivíduos e demais seres.
Se
cada individuo quando consumisse um produto, um refrigerante, um cigarro,
colocasse os resíduos em um local indicado para depois ser recolhido e
depositado em local apropriado, as cidades sofreriam menos os impactos
climáticos extremos. Portanto, temos clareza que o acúmulo de lixo em nossas
vias públicas e praias, tem relação direta com o nosso modelo produtivo que
sobrevive dos excessos, da exploração, do descarte. Reciclar, reutilizar, não
condiz com o atual sistema produtivo, mas de outro modelo que presa o coletivo,
a reciprocidade, o respeito, a solidariedade. Temos que pensar que não existe
outro planeta de reserva com as mesmas características que a terra, que estamos
nele há pouco tempo, que os estragos já provocados dão a certeza que estamos
sucumbindo o mais rápido que imaginávamos.
Prof.
Jairo Cesa
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