sexta-feira, 8 de maio de 2026

 

A ARQUEOLOGIA DO LIXO NA FAIXA COSTEIRA DE ARARANGUÁ

Foto - Jairo


A arqueologia é uma ciência que procura reconstruir cenários por meio de fragmentos, objetos, de culturas antigas desaparecidas há milênios. Um exemplo concreto são as culturas sambaquianas que ocuparam a faixa costeira do estado de Santa Catarina há quatro, cinco mil anos. Por que então relaciono o temo lixo à arqueologia? A resposta vem da inúmeras caminhadas que faço semanalmente até a atual barra aberta mais ao sul do posto de salva vidas central no Morro dos Conventos.

Durante a incidência de ventos fortes e ressacas parte da areia das dunas frontais são removidas revelando no seu interior um cenário assustador. Garrafas pets, long neck, sacolas plásticas, copos e mais uma infinidade de objetos estão ali cobertos e de repente vem a luz gerando estarrecimento. Claro que se continuar escavando é possível identificar mais lixo, de épocas mais antigas, pois fragmentos como vidros, plásticos tem o seu ciclo de vida extremante longo.

O lixo enterrado não é exclusividade apenas no nosso município, é um fenômeno que domina todo o litoral catarinense e brasileiro, no qual revela o nível de cultura que ainda hoje impera por aqui. No caso de Araranguá, além do lixo trazido pelo rio, principalmente durante as enxurradas, o acúmulo dele na praia e nas dunas tem a contribuição direta de sujeitos que integram a espécie humana, desprovidos de qualquer reflexão, sensibilização acerca dos seus impactos aos ecossistemas.

Foto - Jairo


 Já que estamos sob a iminência de um novo El Nino e com previsões de ser muito forte, a tendência é o acúmulo de novas camadas lixo em nossa faixa costeira. O que intriga é saber que muitos governos sempre procuram dispor recursos para mitigar os efeitos climáticos extremos, porém, nenhum centavo a mais para a execução de programas de recolhimento e reciclagem de plásticos, entre outros resíduos, que tomam nossas praias, nossos oceanos, no grau absurdo de formarem extensas ilhas de lixo, das quais influenciam na dinâmica da biótica marinha global.

A pergunta que todos gostariam de resposta é o que fazer para que nossas praias, nossos oceanos não sejam mais impactados, colocando em nível de extinção centenas de espécies marinhas? A resposta, portanto, é política, ou seja, enquanto tivermos governos que negam a ciência, que não priorizam a educação, que concebem rios, córregos, mares, como depositários de tudo que é descartado, permaneceremos reféns as intempéries climáticas. É claro que mudar o cenário dramático do lixo que domina nossas praias depende direta e indiretamente do que consumimos, do que pensamos, como nos comportamos no ambiente que compartilhamos com outros indivíduos e demais seres.

Se cada individuo quando consumisse um produto, um refrigerante, um cigarro, colocasse os resíduos em um local indicado para depois ser recolhido e depositado em local apropriado, as cidades sofreriam menos os impactos climáticos extremos. Portanto, temos clareza que o acúmulo de lixo em nossas vias públicas e praias, tem relação direta com o nosso modelo produtivo que sobrevive dos excessos, da exploração, do descarte. Reciclar, reutilizar, não condiz com o atual sistema produtivo, mas de outro modelo que presa o coletivo, a reciprocidade, o respeito, a solidariedade. Temos que pensar que não existe outro planeta de reserva com as mesmas características que a terra, que estamos nele há pouco tempo, que os estragos já provocados dão a certeza que estamos sucumbindo o mais rápido que imaginávamos.

Prof. Jairo Cesa          

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