ÁGUA
QUE VOCÊ BEBE PODE ESTAR CONTAMINADA POR AGROTÓXICOS
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No
dia 15 de abril último o site da revista Carta Capital postou artigo
preocupante acerca da água consumida pelos brasileiros. No levantamento
realizado entre 2014 a 2017, um em cada quatro municípios brasileiros foi
detectado a presença na água de até 27 agrotóxicos. Desse total, 16 marcas são
consideradas extremamente tóxicas, e 11 associados a diversas doenças
degenerativas e neurológicas. O que torna a situação mais alarmante é saber que
nos anos subseqüentes a 2014, os percentuais de pesticidas presentes na água
aumentaram exponencialmente, 84% em 2015 e 92% em 2017.[1]
Com
a concretização das políticas de liberação sem limites de novos agrotóxicos a
partir de 2018 e que teve continuidade em 2019 com o governo Bolsonaro, tudo
indica que o percentual de contaminação da água deve ter atingindo 100% de
todas as amostras testadas. O artigo traz também o mapa do Brasil contendo os
5.570 municípios destacados em cinco cores distintas. Os municípios com
coloração mais escura são aqueles que apresentaram nos testes laboratoriais
vinte sete agrotóxicos detectados na água.
Dentre os estados que lideram o ranque com mais municípios cujos testes
apresentaram 27 agrotóxicos, estão: São Paulo, com 500 municípios; Paraná com
326; Santa Catarina com 228; Tocantins com 121 e outros sete na sequência.
No
instante que o mapa do Brasil é visualizado se nota que há uma vastidão de
municípios destacados com a cor cinza. Na legenda abaixo está descrito que
ambos, totalizando 2.931, testes laboratoriais não foram realizados. Observando
as regiões brasileiras que tiveram baixo percentual de municípios com água
examinada, como a região centro oeste norte e nordeste, é quase certeza que
poucas serão as localidades isentas de terem na água os 27 agrotóxicos. No sul
do Brasil, os estados de Santa Catarina e Paraná a coloração mais escura
predomina em quase toda a extensão territorial de ambos, demonstrando risco
eminente de intoxicação da população por ingestão de água contaminada por
resíduos químicos.
Quando
clicamos sobre os municípios com tonalidade escura, aparece a lista com os 27
agrotóxicos analisados e o número de detecções de partículas por testes
realizados. Todos os agrotóxicos listados abaixo foram identificados sua
presença em testes na água que abastece
Araranguá. Isso significa que as populações desse município e de outras
centenas de milhar espalhado pelo território brasileiro estão consumindo água
contendo os seguintes agrotóxicos: ALACLOR; ATRAZINA, CARBENDAZIN, CLORDANO,
DDF+DDD+DDE, DIVRAN, GLIFOSATO, LINDANO, MANCOZEBE, PERMETRINA, TRIFLURALINA.
Esses onze agrotóxicos citados são classificados como responsáveis por doenças
crônicas como vários tipos de câncer; defeitos congênitos e distúrbios endócrinos.
Dos 11 produtos acima listados, oito estão autorizados para uso no Brasil.
Entretanto, na União Européia as regras são diferentes, dos onze princípios
ativos acima destacados, oito são vetados para uso comercial.
Os
demais dezesseis agrotóxicos que completam o pacote de 27 detectados nos
municípios são eles: 2,4D+2,4,5T, ALDICARBE, ALDRIN, CARBOFURANO, CLORPIRIFÓS, ENDOSSULFAN,
ENDRIN, METAMIDOFÓS, METALOCLORO, MOLINATO,
PARATINA METÍLICA, PENDIMENTALINA, PROFENOFÓS, SIMAZINA, TEBUCONAZOL e TERBUFÓS.[2] Dessa
lista de dezesseis agrotóxicos, sete estão proibidos de comercialização no
Brasil por apresentarem substâncias altamente nocivas à saúde.
Por
que então foi identificada a presença dessas partículas nas amostras de água? A
resposta é muito simples. Mesmo vetados pelas agências reguladoras, esses
produtos entram de forma clandestina no Brasil ou são livremente
comercializados nas lojas do seguimento agrícola sem qualquer fiscalização. Sendo
as regras protocolares para liberação de agrotóxicos mais rígidos na União
Européia, dos dezesseis princípios ativos encontrados nas amostras de água em
municípios brasileiros, apenas quatro desse total são autorizados para serem
comercializados na Europa.
Se
analisarmos atentamente os informativos que constam nos rótulos de cada um
desses 27 agrotóxicos, podemos ter respostas ao crescimento de moléstias, como tipos
distintos de câncer, mal de ALZHEIMER, PARKISON, que estão associados a esses
pesticidas. Por ser a região do sul de Santa Catarina uma das maiores
produtoras de arroz no estado, pesquisadores e entidades ambientais já vinham
alertando as autoridades acerca da contaminação dos recursos hídricos e outros
ecossistemas por resíduos químicos aplicados nas lavouras.
No
documento que constam as analises de contaminação da água, elaboradas entre
2014 a 2017, dos quinze municípios da região da AMESC avaliados, 11
apresentaram os vinte sete tipos de agrotóxicos na água examinada; um com 26 e outros
dois municípios não foram avaliados. A polêmica levantada pelas empresas
produtoras de agrotóxicos, acerca do relatório apresentado, é que os valores
apresentados nas analises da toxidade da água estão abaixo dos padrões
recomendados pelos protocolos em vigor no Brasil.
Conforme
legislação brasileira que trata sobre os percentuais de agrotóxicos
recomendados na água, apenas 0,3% das análises feitas ultrapassam os limites
considerados seguros. Os protocolos de análise da potabilidade da água no
Brasil são muito diferentes do modelo aplicado na União Européia. Enquanto lá
se busca restringir ao máximo a mistura de todos os agrotóxicos a 0,5
microgramas litro/água, no Brasil, a quantidade de micrograma tolerável ou
aceitável por cada litro/água é de 1.353. Esse valor é 2.706 vezes superior a
União Européia.
É
preciso urgentemente reformular as legislações brasileiras que tratam sobre os
limites aceitáveis de metais pesados na água. O que é fato no Brasil é a
contaminação lenta e progressiva da população por agrotóxicos. Muitas das
doenças geradas pelos pesticidas poderão ser detectadas somente mais tarde
devido ao acúmulo lento e progressivo no organismo. Outro agravante é que no
instante que se prepara o coquetel de pesticidas para a aplicação nas lavouras,
a combinação dessas diferentes substâncias se torna desconhecida sua reação aos
vários organismos vivos.
Imaginemos
quatro cinco ou mais aplicações de agrotóxicos numa mesma lavoura durante o seu
ciclo de crescimento, quais novos subprodutos químicos resultam, qual sua
toxidade e permanência residual no solo? Esse tipo de avaliação não é realizado
no Brasil. O que é feito são análises taxológicas isoladas em cada pesticida. Não são todos os
agrotóxicos liberados, testados sua presença na água e alimentos pelas agências
reguladoras. Dos 300 ingredientes permitidos, apenas 27 são avaliados. Alguns
agrotóxicos têm o seu período de permanência residual no solo por meses ou até
mesmo anos.
O
que acontece, portanto, é o processo acumulativo e contínuo de pesticidas, podendo
ser detectado o mesmo princípio ativo na água ou no solo por quatro ou mais
anos consecutivos. O estado de São Paulo é o campeão em número de municípios
onde o mesmo agrotóxico foi detectado na água, 66, vindo em seguida Santa
Catarina com 57 municípios. Dentre os agrotóxicos identificados durante esse
período estava o DIURON, um herbicida altamente tóxico utilizado na cultura da
cana de açúcar e outras culturas.
As
legislações em vigor no Brasil recomendam que seja de responsabilidade da
vigilância sanitária dos municípios alertarem as entidades responsáveis pelo
controle da qualidade da água servida à população. As ações de controle da
toxidade da água deveriam ocorrer de forma integrada, ou seja, articulada com
os órgãos ambientais, entidades prestadoras de serviços de água e sindicatos de
produtores e trabalhadores rurais. Diferente da União Européia, no Brasil as
indústrias de agrotóxicos são isentas de responsabilidade quanto ao
monitoramento das águas para a detecção de agentes químicos tóxicos.
Todos
os custos de análise e descontaminação são arcados pelos cofres públicos.
Acredita-se que mais de cinqüenta por cento das internações em unidades
públicas de saúde no Brasil são decorrentes direto ou indireto por ingestão de
água e alimentos contaminados por alguns dos agrotóxicos produzidos pelas
poderosas corporações multinacionais. No estado de Santa Catarina, o ministério
público estadual vem tomando algumas medidas que servem de exemplos para o restante
do país. O órgão estadual chamou a responsabilidade do problema da água às
prefeituras, secretarias estaduais, concessionárias de água, agências
reguladoras e sindicatos de produtores e trabalhadores rurais.
O
que deve ser considerado no Brasil e tomado como medida emergencial é a
proibição imediata da comercialização de agrotóxicos proibidos na união
européia e outras partes do mundo. Por que lá não pode e aqui é permitido?
Outra medida a ser discutida é a redefinição dos limites máximos de resíduos
permitidos na água no Brasil. Fazer valar no Brasil o mesmo padrão de avaliação
utilizado na Europa. Os principais agrotóxicos comercializados no Brasil há uma
diferença gigantesca em termos de limite máximo permitido de resíduos na água
em comparação a União Européia. Enquanto
lá os pesticidas 2,4D e o clorpiritós, o potencial químico permitido por litro
d’água é de 0,1ug/l, no Brasil os valores são 300 vezes superior, ou seja, 30
ug/l.
O
DURAN, outro exemplo, chega ser de 900 vezes, ou seja, de 0,1 na UE a 90 ug/l,
no BR. O MANCOZEBE e o TEBUCONAZOL, ambos na União Européia o índice máximo
autorizado é também 0,1 ug/l, já no Brasil os protocolos estabelecem 180 ug/l,
que é 1800 vezes superior ao estabelecido lá fora. Por último temos um dos
agrotóxicos mais consumidos no Brasil e no mundo, o glifosato. O que é
estarrecedor acerca desse pesticida é que enquanto na União Européia o limite
permitido por litro de água é de 0,1 ug/l, no Brasil os valores alcançam 5000
mil vezes acima do europeu.
Ultimamente
o glifosato tem se transformando num dos assuntos mais polêmicos no mundo,
sendo até pauta principal nos tribunais, no julgamento de ações protocoladas
por cidadãos vítimas de doenças degenerativas devido ao contato permanente com
o respectivo agrotóxico. Há poucos meses, a suprema corte nos Estados Unidos
sentenciou parecer favorável a um cidadão com câncer terminal, vítima do
glifosato. A justiça sentenciou a empresa Monsanto o pagamento de uma
indenização milionária a família da vítima. Esse fato gerou um revés na
empresa, pois abriu precedentes para novas ações espalhadas pelo mundo que
poderão ser desengavetadas e julgadas. A tendência é que a empresa sofra novas
derrotas e pagamentos milionários.
Enquanto
que em vários países o glifosato a todo instante, novos protocolos são
elaborados tornando mais criteriosos o seu uso, no Brasil, no começo de 2019, o
Ministério da Agricultura liberou novos registros. A justificativa dos órgãos
reguladores brasileiros é que a toxidade desse pesticida detectada nos
alimentos e na água é inferior os níveis permitidos por lei. Na União Européia
a quantidade de glifosato permitido na água é de 0,1 microgramas por litro. No
Brasil, caso seja detectado 500 micrograma de glifosato por litro de água, os
níveis serão aceitáveis, pois estão em conformidade com a legislação em vigor.
Cada
dia vem se tornando mais evidente que doenças como depressão, câncer,
Parkinson, infertilidade, danos genéticos, estão diretamente associadas a
ingestão de aditivos químicos presentes nos alimentos e na água disponibilizada
à população. As anomalias acima citadas são resultantes dos três principais
agrotóxicos campeões de vendas no Brasil, são eles: PARAQUATE, ARTRAZINA e ACEFATO.
Se
há presença de aditivos químicos tóxicos na água consumida pela população
urbana, isso se deve a difusão prolongada de tais substâncias no campo, onde
muitos dos mananciais, rios, lagos estão próximas as áreas de cultivo. Existe
hoje no Brasil um rígido protocolo sobre os cuidados no manuseio dos
agrotóxicos, o tempo necessário de tolerância de uma aplicação a outra até a
colheita. O fato é que tais recomendações geralmente não são seguidas pelos
produtores. O que é mais preocupante ainda é que o protocolo impede a aplicação
de pesticidas em áreas urbanas, porém, tal determinação não é considerada por
muitos municípios brasileiros.
Se
caminharmos um pouquinho pelos bairros de Araranguá notaremos a presença de
extensas áreas e residências com a presença de vegetação seca devido a
aplicação de herbicidas. Há poucos meses imagens postadas nas redes sociais
denunciavam o pode público do município por aplicação de herbicidas as margens
do principal manancial de abastecimento público, o açude Belinzoni, considerado
crime ambiental gravíssimo. Diante das postagens, não houve qualquer
manifestação de repúdio a tais práticas dos órgãos responsáveis, muito menos da
sociedade, num todo.
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Açude belinzoni (foto Jairo) |
As
ações paliativas ou definitivas para melhorar a qualidade da água consumida
pela população teriam que partir primeiro dos governos que agem na contramão do
processo, ou seja, em vez de dificultar, facilitam ainda mais o acesso a novos
produtos, muitos dos quais banidos há anos em outros países devido a sua
periculosidade. É preciso também mobilizar toda a sociedade, por meio de campanhas
de sensibilização, nas escolas, nos bairros, igrejas, unidades de saúde, etc,
sobre as reais condições da água servida à população, o que deve ser feito para
reverter essa perigosa armadilha invisível a olho nu, que põe em risco as
futuras gerações.
Prof.
Jairo Cezar
[1]
https://cartacapital.com.br/sociedade/agrotoxicos-sao-detectados-na-agua-de-25-das-cidades-do-brasil/
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