AS RESSACAS OCEÂNICAS TEM MAIORES IMPACTOS NOS MUNICÍPIOS ONDE O NEGACIONISMO CLIMÁTICO PREVALECE
| Foto - Jairo |
A
última grande ressaca provocada por um ciclone extratropical no sul do Brasil
trouxe destruição na infraestrutura da orla entre Florianópolis e cidades
gaúchas. É claro que os impactos foram e são maiores naquelas onde as barreiras
naturais, dunas frontais, por exemplo, foram suprimidas para dar lugar a
residências e projetos turísticos. As mudanças climáticas em curso, tem o sul
do Brasil como região com mais episódios extremos, a exemplo das enxurradas que
se abateram sobre o Rio Grande do Sul em 2024.
Ondas
de calor extremo estão se tornado frequentes todos os verões, tanto nos países
do hemisfério norte, bem como na extremidade sul da américa do sul. Enxurradas
avassaladoras, estiagens prolongadas têm sido registradas com mais frequência
nesses três estados do sul. No entanto, todo esse desarranjo climático tem gerado
mais ciclones extratropicais, com ventos sempre mais velozes e causadores de
destruição.
As
ressacas, portanto, são resultados do deslocamento dessas massas de ar extrema
pelo oceano atlântico. Imagens e vídeos, mostrando a força das ondas do oceano
sobre as ruas, as calçadas, as residências de cidades catarinenses e gaúchas,
dominaram os noticiários televisivos e as redes sociais do Brasil inteiro
durante a passagem do ciclone, no final de julho último.
| https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2016/10/balneario-rincao-sc-decreta-emergencia-apos-ressaca-do-mar.html |
Se as
legislações ambientais fossem realmente cumpridas à risca, todo e qualquer
ciclone que incidisse sobre a costa brasileira, não seria motivo de tanto
alarde, pois os estragos provocados pelas ressacas seriam mínimos, pelo fato da
existência de barreiras protetivas e de não estarem habitadas. Muitos
municípios costeiros, principalmente dos dois estados do sul, Santa Catarina e
Rio Grande do Sul, construíram seus planos diretores, acredita-se, seguindo diretrizes
elencadas nos seus projetos orlas.
As
faixas costeiras, por serem áreas da união e seguirem regras federais, o
governo federal decidiu que a gestão desses espaços fosse compartilhada entre a
união e os municípios. O projeto orla, portanto, a exemplo de Araranguá, teve
por objetivo, reunir os diversos segmentos sociais, que de forma conjunta, traçaram
as zonas ou áreas com valor paisagístico, ambiental ou turístico. No documento construído pelos delegados que
representaram toda a sociedade araranguaense, estão redigidas mais de 200
demandas ou PGI, Plano de Gestão Integrada.
| https://ararangua.sc.gov.br/noticia-296568-3/ |
O que
vem ocorrendo nos dez anos de vigência do projeto orla é a sua quase absoluta
negação pelas administrações que vem se sucedendo. A supressão da APA e a
redução da área de abrangência do MONA-UC são alguns exemplos do quanto o
município de Araranguá ainda está desalinhado aos programas de adaptação climática
como medida obrigatória ao enfrentamento das adversidades climáticas em curso. Suprimir
uma APA é excluir a população do debate, de dar opinião de como esses espaços
podem ser ocupados, com o mínimo de impacto aos ecossistemas ali inseridos.
Se a
APA fosse mantida e cumprida todos os dispositivos contidos no decreto assinado
em 2026, como a criação do grupo gestor, não teríamos dúvidas de que erros hoje
cometidos em alguns projetos executados não teriam ocorridos. A abertura da
estrada entre o balneário e o Paiquerê é um exemplo claro de irresponsabilidade
de gestão. Sua abertura desconsiderou decisões descritas no PGI que obrigava o
gestor público a promover estudos em três traçados para avaliar o que se
mostrava menos impactante. A decisão pela abertura do atual traçado vem se
mostrando um grande equívoco, razão pela qual, o MPF decidiu pelo embargo da
obra por considerar inapropriada para o local.
| https://www.researchgate.net/figure/Figura-4-Mapa-del-Mosaico-de-Unidades-de-Conservacion-Costeras-disenado-en-los_fig2_336767546 |
Em
duas ressacas ocorridas, a estrada, já compactada para receber o asfalto, suas
laterais sofreram severas erosões. A
tubulação instalada para escorrer a água de um córrego no traçado, na primeira
ressaca teve que ser substituído por bitolas maiores, para poder dar maior
vazão de água em períodos de enxurradas. O que se viu na última ressaca, foi a
total obstrução dessa tubulação pela areia vinda do mar. Conversando cum alguns
moradores do local, todos foram unânimes em afirmar que a abertura daquela estrada
foi um equívoco administrativo, por ser o local extremamente volúvel as
oscilações do oceano.
Frente
a tais fragilidades geomorfológicas, o MPF impetrou ação contra o município
para que cessasse a continuidade da obra da estrada, cuja etapa seguinte seria
o asfaltamento. Até o momento não se tem informações do posicionamento do
município acerca da ação do órgão federal. É possível que o MPF com base nas
imagens obtidas da última ressaca sobre a respectiva rua no balneário, poderá
manter por tempo indeterminado a decisão pelo embargo da rua.
| Foto - Jairo |
Os
estragos provenientes da ressaca não se limitaram somente a estrada entre o
Paiquerê e o Balneário Morro dos Conventos, as passarelas edificadas sobre as
dunas também foram bem avariadas pela força das ondas do mar. Porém a
edificação mais avariada foi a que está edificada junto ao guarda vida central
do balneário, cuja passarela estava conectada a um deck de contemplação. O
respectivo Deck como a estrada, acima citada, foram objetos de confrontamento
envolvendo ambientalistas e o prefeito municipal em encontro ocorrido no
Balneário Morro dos Conventos em 2021.
| https://sulnoticias.com.br/fama-argumenta-que-deck-ja-traz-beneficios-ambientais/ |
| Foto - Jairo |
Na
época foi detectado que o projeto do deck apresentava inconformidades com
resoluções ambientais, fato que forçou o MPF a determinar que o município
paralisasse a obra e desmanchasse parte já edificada. A falha foi querer
edificar o deck sobre dunas frontais, consideradas APP. Novo projeto foi
apresentado, agora deslocando a estrutura sobre a calçada, deixando a duna
livre. O que causou estranheza foi perceber que no projeto novo duas passarelas
seriam inseridas do deck e que se estendiam até a orla, passando por cima da
duna frontal. Por que o estranhamento? É porque sob a respectiva duna existe
uma barreira construída de granito durante a década de 1950, que tinha como finalidade
amortecer os impactos das ressacas, cujas águas avançavam até o edifício
Erechim, uma das primeiras edificações no ainda jovem balneário.
| Foto - Jairo |
Se
existiam aquelas barreiras onde se estava construindo o deck é claro que se
presumia que qualquer edificação que ultrapassasse a linha do muro de pedra,
estaria sujeita a danos advindos das ressacas. A impressão é que os engenheiros
da atual administração, acreditavam que o muro/barreira ali existente não tinha
essa função protetiva, além do mais servia de alerta para que não ousassem
edificar fora da linha porque seria com certeza destruída pela força das ondas
do mar.
Se a
administração e seus técnicos ouvissem mais a população local, as mais antigas,
por exemplo, falhas grotescas de projetos poderiam ser evitadas, evitando
gastos desnecessários de dinheiro público. Eu mesmo discorri em alguns textos
publicados no meu blog que na primeira, média ou grande ressaca, que se
abatesse sobre a orla do balneário, essa passarela seria totalmente arrancada.
A previsão se concretizou nesse final de mês de julho, ficando a amostra
somente a barreira de pedra, com as duas passarelas arrancadas e jogadas longe
do local onde foram construídas.
É
provável, diante da postura um tanto autoritária do atual gestor público, que
decida reconstruí-las no mesmo local e serem novamente destruídas pelas
ressacas. Repito, teimosias e comportamentos autoritários só trazem prejuízos
aos cidadãos. O melhor caminho é descer do pedestal e ouvir as pessoas mais
experientes, considerar suas opiniões, pois assim cometeremos menos erros,
assegurando um município melhor para se viver.
Prof.
Jairo Cesa
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