quarta-feira, 1 de abril de 2026

 

MOMENTOS TURBULENTOS  NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX QUE RESULTARAM NA EMANCIPAÇÃO POLÍTICO-ADMINSTRATIVA DE ARARANGUÁ

Esse ano, 2026, Araranguá comemorará 146 anos de emancipação político-administrativa, fato esse ocorrido em 03 de abril de 1880, se desvinculando administrativamente do município de Laguna. Embora eu tenha escrito o livro Tramas, Intrigas e tensas disputas eleitorais: História política de Araranguá (1880-2000), no qual discorre a nossa história política durante 120 anos, cabe aqui ressaltar que para compreender melhor o trâmite emancipatório e toda a trajetória do século XX, foi necessário recuar algumas décadas do século XIX, anterior a emancipação.

Até 2024 o que tínhamos de fontes historiográficas disponíveis sobre nossa região que congregava o Grande Araranguá, eram os livros/pesquisas, de Paulo Hobold/Alexandre Rocha, Leonir Dal Alba, Antônio Cesar Sprícigo, Micheline Rocha, Nelson Adans, Lucio Vânio Moares, Wanderlei S. Gomes, entre outros. Por que destaco o ano de 2024? A resposta se deve por ter sido o ano em que o professor historiador Wanderlei Gomes lançara suas duas magnificas obras, das quais foram essenciais para cobrir um vácuo importante da nossa historiografia local.

Não vou aqui discorrer sobre as duas obras, porque já o fiz em outra ocasião, estando o texto disponível nesse blog. O que eu quero ressaltar é o capítulo XVIII. RETRATO DA PÓLIS – Formação histórica, do segundo livro, História do Vale do Araranguá – II.  O rio, a terra, o povo (1842-1883), que traz à luz nuances de como foram os trâmites políticos que deram corpo a nossa emancipação.[1] No imaginário de expressiva parcela da população do sul do estado catarinense, o que se sabe é que Araranguá se emancipou de Laguna. A resposta, portanto, não está erra, porém, esse vínculo com o município de Laguna se deu três meses antes de a Assembleia Legislativa de Santa Catarina votar e o governo sancionar a lei de criação do novo município.

Tá, então o distrito/freguesia de Araranguá estava vinculado a qual município até três meses antes da sua emancipação? Quem respondeu Tubarão, acertou. Tanto Araranguá quanto Tubarão, ambos se tornaram distritos de Laguna, condição na qual lhes proporcionavam uma aparente autonomia em termos religiosos e civis. De fato, Araranguá, devido a sua posição geográfica, distante cerca de 120 km da sede administrativa, a elite e a população local apresentavam certas limitações em vários serviços oferecidos pelo município.  Era óbvio também que tais limitações eram sentidas pelo distrito tubaronense.

Diante dessa realidade, em 1861 políticos de Tubarão tentaram articular movimento para emancipá-lo de Laguna. O pedido foi encaminhado à Assembleia Legislativa do estado, ao conselheiro Silva Mafra, que acatou o pedido. O presidente do legislativo estadual ou Conselho, Araújo Brusque, recebeu informações da Câmara de Laguna, de que Tubarão não teria o mínimo de condições para manter o município funcionando, devido a escassez de pessoal capacitado para exercer as funções administrativas. Diante do exposto, o presidente, achou melhor arquivar o pedido.

Entretanto, dez anos mais tarde, em 1871, um novo movimento pela emancipação foi articulado, tendo agora o apoio de políticos do distrito de Araranguá. Porém, o aceite dado por políticos do distrito do extremo sul não se deu de forma unânime, pois um segmento oposicionista acreditava que a situação do distrito ficaria pior quando estava integrado à Laguna. Passado um ano da emancipação de Tubarão, começaram as críticas vindas de Araranguá, afirmando que Tubarão não estava garantindo os serviços obrigatórios básicos a freguesia. Denunciavam também que parte das verbas recebidas pelo novo município, a freguesia não tinha acesso a parcelas do recurso.

Na primeira eleição municipal do novo município, tiveram denúncias de que o pleito ocorrido em Araranguá estaria viciado, ou seja, teria havido fraudes, fato que levou o diretório eleitoral estadual a anular o pleito no distrito/freguesia. Nesse mesmo ano, 1871, a Assembleia Legislativa de SC recebeu duas petições de duas comissões de moradores de Araranguá, uma solicitando a desanexação de Tubarão e, por sua vez, a reanexação a Laguna; a outra comissão, solicitava que que a freguesia fosse dividida em dois distritos, o 2° distrito da Cangica e o 3° distrito de Campinas/Araranguá.

Durante esse período, o império brasileiro estava sob o comando do Partido Conservador, mesmo partido em que a elite agrária de Campinas do Sul/Araranguá compartilhava. Essa posição política não era comungada pela elite da Cangica, que defendia a reanexação com Laguna, majoritariamente liberal.  Para amenizar os ânimos exaltados em Araranguá, a Assembleia Legislativa Provincial, em 1872, dividiu a freguesia do extremo sul do estado em dois distritos, a do Norte, Cangica, 2° distrito; e a do Sul, Campinas do Sul, 3° distrito.

Diante dessa decisão, momentos depois da criação dos dois distritos, lideranças do 3° distrito, Campinas do Sul, com forte penetração nas hastes do executivo provincial, também do partido conservador, propugnavam uma emancipação do lado sul, deixando de fora o lado norte, as Cangicas. É importante deixar claro que a elite econômica do lado norte, margem esquerda do rio Araranguá, integrava o Partido Liberal, no qual defendia a reanexação com Laguna. Aqui deve ser destacado que o Partido Conservador em âmbito do legislativo estadual estava um tanto dividido, situação que pouco favorecia aos interesses do grupo do 3° distrito, Campinas do Sul/Araranguá.  Os impasses entre os dois distritos eram tão fortes que em 1872, foi instalado cabo telegráfico entre Laguna e Torres, com um posto de comunicação nas Cangicas, porém, sem qualquer contato com o 3° distrito, margem direita do rio Araranguá.

Em 1878 eleições legislativas no império fez com que o poder retornasse às mãos do Partido Liberal. Três meses antes da Assembleia Legislativa Provincial votar o projeto de emancipação político-administrativa em 1880, Araranguá foi reanexada à Laguna. Foi, portanto, em 03 de abril de 1880, por meio da Lei Provincial n. 901 criado o município de Araranguá. Na primeira eleição para a escolha dos conselheiros municipais, vereadores, o Partido Liberal obteve 464 votos, e o Partido Conservador 381 votos. Mesmo com a derrota, o Partido Conservador continuava tendo um importante força representativa em Araranguá.  É bem provável que o processo de reanexação e posterior emancipação de Araranguá, jamais teria ocorrido sem o aval do Partido Conservador. Claro que acordos entre ambos, liberais e conservadores, teriam ocorrido, lhes assegurando espaços dentro da estrutura de poder do novo município.

A pergunta que muita gente fez e faz atualmente é por que somente em 1883, três anos depois da emancipação, foi instalada o conselho municipal/câmara de vereadores em Araranguá? O que se sabe é que na primeira eleição para o conselho municipal/câmara de vereadores de Araranguá, foram eleitos seis conselheiros, sendo o presidente, que tinha a função de prefeito, o cidadão Porphírio Lopes de Aguiar, que havia sido reeleito na eleição seguinte, em 1886.  A resposta, portanto, do atraso na posse dos conselheiros, pode estar relacionada ao imbróglio político envolvendo o antigo município de Tubarão e o distrito de Araranguá, talvez Tubarão tentando na justiça algum meio que anulasse o processo emancipatório e, por sua vez, nulidade ao pleito eleitoral que escolheu os primeiros conselheiros do novo município do extremo sul de Santa Catarina.

Prof. Jairo Cesa              



[1] Gomes Jr. Wanderlei de Souza (2024) História do Vale do Araranguá: II. o rio, a terra, o povo (1842-1883) - 1ª edição. Araranguá, SC: Editora Via Lateral, 2024.